Um livro que o vento vai levar

Nunca li “…E O Vento Levou”, de Margaret Mitchell, embora tenha visto o filme algumas vezes. Tampouco li as seqüências — ou melhor, seqüelas: “Scarlett”, segundo todos os relatos uma espécie de posfácio da Guerra Civil escrito por Barbara Cartland, e agora Rhett Butler’s People, de um sujeito chamado Donald McCraig.

A resenha da obra pelo New York Times começa com uma pequena comparação entre versões do mesmo fato dadas nos dois livros. No original, ficamos sabendo que Rhett Butler foi preso por matar um negro que havia insultado uma mulher branca. “O que mais poderia um cavalheiro sulista fazer?”, ele pergunta depois a Scarlett O’Hara. Mas em Rhett Butler’s People nos deparamos com uma versão sutilmente diferente: ele mata o negro a pedido do próprio sujeito, que implora que Rhett atire nele antes que a turba invada a prisão e o linche. O que era originalmente um ato de vingança e opressão de classe e de raça passa a ser um gesto de misericórdia.

Só por isso o novo livro é lixo e merece ser evitado por qualquer pessoa com juízo.

“Um típico cavalheiro sulista” é a melhor definição para Rhett Butler, segundo todos que leram o livro. Como eu só vi o filme, só posso usar uma de suas últimas frases, em que ele anuncia que vai abandonar Scarlett em busca de um mundo mais parecido com aquele que os canhões de Sherman tinham destruído: “I want peace. I want to see if somewhere there isn’t something left in life of charm and grace“.

Tirando a poesia fácil da frase (fácil, mas brilhante em se tratando de cinema), na prática isso quer dizer um sujeito com possíveis ligações com a Ku Klux Klan; que “densonrou” uma moça em Charleston; que talvez tenha um filho ilegítimo em New Orleans; e que supostamente roubou o lendário tesouro Confederado.

O filme de David O. Selznick já tinha suavizado Butler em relação ao livro de Mitchell; cinema é entretenimento de massa e deve respeitar suscetibilidades maiores, ainda mais em 1939. Mas ainda assim respeitava seu contexto histórico; omitia, apenas. “Rhett Butler’s People“, no entanto, se esforça em passar creolina, ácido muriático e esmeril na reputação de Butler. Adoça o cavalheiro sulista para que ele fique mais palatável ao mundo atual.

Fazer isso com um personagem é destruir tudo o que ele tem: a sua verossimilhança. O Rhett Butler de McCraig não tem nada a ver com o cavalheiro do século XIX. O que fazia de Butler um personagem literário interessante — e certamente um dos melhores da história do cinema — era justamente o seu anti-heroísmo, o fato de ser completo em suas qualidades e defeitos. Rhett Butler era de verdade.

Matar um negro que havia insultado uma moça branca era uma prova de cavalheirismo no contexto do livro e do filme, porque é algo real, que aconteceu centenas de vezes no tempo e no espaço retratados por Margaret Mitchell; tentar alterar esse passado em função de sensibilidades modernas, de novos padrões éticos, é um crime. Não é porque hoje algo é intolerável que se tem o direito de negar a sua existência. É mais ou menos como fazer um western em que brancos não matam índios, porque hoje isso é feio.

De qualquer forma, nada disso é importante. O livro de McCraig parece ser apenas mais um livro que tenta explorar os últimos veios de um filão esgotado. Está pronto a ser ignorado por quem quer que, como eu, veja em “…E o Vento Levou” uma das dez maiores obras primas cinematográficas, o exemplo perfeito das possibilidades dramáticas do cinema e do modo hollywoodiano de produção. Destruir esse personagem é como fazer de Scarlett O’Hara uma pobre moça desamparada, é derrotar mais uma vez o exército de Jackson. E por isso, se “Rhett Butler’s People” vai ter sucesso ou não, se vai virar filme ou minissérie ou não, frankly, my dear, I don’t give a damn.

4 thoughts on “Um livro que o vento vai levar

  1. Certas coisas nem mesmo o cinema pode resolver. (Não sei não, mas ouvi isso numa música “baforete” dos anos 80).

    O cinema será tanto melhor quando a ficção busca a aproximação com a realidade, embora com outro estatuto, com seus próprios signos. Semelhantemente o cinema documental deve se aproximar da ficção, mas não buscando organizar as atuações de seus atores, de modo a se extrair significações da realidade.

  2. Não sou partidária de continuações de grandes clássicos. Ainda mais de “E o vento levou”…(li o livro, é ótimo tbém).

    Aliás, tu sabe que a continução do “Curtindo a vida adoidado” (não é um cláááássico, mas é um classiquinho pra gente com 30 e poucos)…chega no brasil ano que vem.
    Já detesto desde já…quem quer ver Ferris mais velho?
    De velha basta eu, pô.
    Inté.

  3. Não concordei com a crítica. Primeiro, que se vc ver o filme ” E o vento levou” com atenção, e ler os livros, verá que o Rhett Butler não era um cavalheiro, e se orgulhava de ser assim. ” O que mais um cavalheiro sulista poderia fazer?” é ironia do Rhett, que era sarcastico durante o livro inteiro. Ele não era do ku klux klan, mesmo no livro. Aliás, até personagens como a “sinházinha” Scarlett respeitavam os negros. Então não sei se o fato de ele ter matado um negro por misericórdia seria uma afronta ao grande assim ao original.

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