Eu não vim ao mundo para explicar nada

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Olá Rafael,
Li sua resenha sobre o livro “A morte e a morte de Quincas Berro d’água” e fiquei um pouco confuso. De acordo com outros artigos, o livro trata da morte repentina de um boêmio que abandonou a família e tem o corpo sacado do velório pelos amigos, que o levam para passar uma última noite nas ruas de Salvador. Ao final, ele é levado pelo mar. Escrevi só para tirar a dúvida, porque ainda não li o livro, mas pesquisei na internet, depois de ler uma matéria na Veja. (isso foi publicado há anos). E “País do Carnaval” é o primeiro livro de Jorge Amado, que ele escreveu aos 19 anos. Esse eu li, e nem é muito bom.

A resenha em questão é esta aqui. Vou enviar e-mail ao rapaz afirmando que sim, que tenho certeza da pertinência de minha resenha, escrita após a leitura da edição crítica lançada pela Gallimard, cotejada com o texto consolidado da segunda edição revista lançada pela José Olympio. Vou também lhe passar detalhes da minha conversa com o crítico literário inglês Terry Gillian, em 2001, na qual baseei muitas das opiniões contidas ali.

E hoje eu vou dormir feliz, com a consciência limpa e uma convicção inabalável de que fiz algo realmente bom.

11 thoughts on “Eu não vim ao mundo para explicar nada

  1. É admirável vê-lo praticando bondade.
    Mas eu continuo cético.
    E como disse aquele crítico e comediante marxista Harold Lloyd Bloom, no ensaio The Story of Mankind:
    ‘Eu não torço para clubes que te aceitam como sócio.’

  2. Seu ato bom do dia é aquele no qual você demonstra toda a sua sapiência, todo o seu maior e melhor conhecimento e ensina algo pruma pessoa que duvidou ou questionou algo que você fez? Vixi, cabra, nem quero saber o que você considera um ato vil… =)

  3. Você é REALMENTE uma pessoa ruim!!!!!
    Passo a ter seu blog APENAS como referência para ler bobagens de bom gosto. Você escreve bem, é verdade.
    Sua resenha teve um efeito avassalador. Hoje tive dúvida sobre um determinado assunto, que me recuso dizer qual foi, e não usei seu blog como fonte, apesar de conter o assunto em questão. Sei que você vai dizer “E quem disse que escrevo para servir de fonte?”
    Não sou mais sua fã. Passei a ser uma pobre leitora descrente.
    Laura Lorena – filha de Dom Rodolfo Rodrigo

  4. Acho que ficou melhor que o original.
    Aposto que nessa conversa com o Terry Gilliam ele respondia a tudo dizendo “NNNiiiiiii”…rsrs

  5. Na realidade, a “aula de metafísica” que Terry Gillian aponta em “O Cânon Ocidental” refere-se ao caráter do sagrado na obra amadiana de matéria geral, não especificamente a “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”. Aliás, há um desvio interpretativo muito sério devido ao forte catolicismo de Gillian, que debruça-se nas obras dos autores latino-americanos para reforçar sua proposta filosófica. Porposta esta que fica bem clara em sua outra obra, The Meaning of Life (Flying Circus Publishing, 1983, primeira edição), que inicia dizendo “Há judeus no mundo, há budistas, há Hindus, e mormons, e então há aqueles que seguem Mohammed, mas eu nunca fui um deles” . Mais adiante, ele insiste: “deixe os pagãos derramarem os deles nas montanhas, serras e planos deus deve derrubá-los ao chão por cada esperma que é derramado em vão” (trata-se do ensaio Every Sperm Is Sacred in The Meaning of Life, op. cit.). Mas é preciso atentar para o caráter ecumênico com que Amado aborda o tema do sagrado, antes, é claro, de renegar esta fase de seu processo criativo (“registro de uma fase de sua vida que ele preferia esquecer”). Desta forma, fica aqui registrado o perigo de se utilizar a crítica gilliana como figura de autoridade para justificar a sua resenha.

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