A Love Supreme

O Tiagón deve estar dando pulos de felicidade.

A Barracuda lançou “A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane”, livro do Ashley Kahn (autor de “Kind of Blue”) que conta a gênese do disco homônimo de John Coltrane.

A Love Supreme é um daqueles discos que se tornaram referenciais absolutos do jazz, obras-primas necessárias para a compreensão do que a música popular teve de superior no século XX — a era em que a música erudita, com umas exceções aqui e ali, virou basicamente trilha sonora de filme. Para muita gente, este blogueiro não incluído, é o melhor disco de toda a história do jazz. O livro de Kahn lhe faz justiça ao explicar a evolução musical de Coltrane de maneira simples e abrangente, detalhar as gravações e explorar a importância histórica do disco. Não possui o impacto do outro livro de Kahn publicado pela Barracuda, “Kind of Blue”, provavelmente por seguir a mesma fórmula estrutural, mas é uma daquelas obras importantes para aqueles que querem entender um pouco mais de jazz.

A minha edição tem um defeito: as indicações das entrevistas que serviram de base para o livro (aqueles numerozinhos ao longo do livro) estão faltando, por um erro de editoração. Isso, no entanto, serve para reforçar uma tese que defendo há muito tempo: a não ser que você esteja precise de uma bibliografia que justifique o que você está escrevendo, 99% das notas de rodapé apresentadas em um livro são completamente dispensáveis. A ausência dos indicadores, embora eles façam falta aqui e ali, acaba tornando a leitura mais fluida, embora continue sendo um defeito.

O maior mérito do livro, no entanto, talvez esteja no fato de finalmente elucidar a razão pela qual tanta gente tem A Love Supreme em tão alta conta.

Ao longo dos anos, criou-se uma espécie de competição informal e inofensiva sobre qual disco era melhor, Kind of Blue ou A Love Supreme. Não é uma discussão importante, porque se trata de dois álbuns fabulosos. Mas é uma bobagenzinha que diz muito sobre a maneira como determinados fatores externos influenciam na percepção da música.

Pessoas como eu, provavelmente mais formalistas, vêm o Kind of Blue como um disco melhor — a grande obra prima do gênero — porque representa uma síntese brilhante de 50 anos de jazz, a começar pelo blues de So What. Em Kind of Blue, Miles Davis conseguiu sintetizar a história evolutiva do jazz ao mesmo tempo em que apontava novos caminhos, com uma elegância que jamais seria alcançada novamente.

Outros, no entanto, preferem A Love Supreme e sua busca espiritual, exemplificada já nos títulos das canções: Acknowledgement, Resolution, Pursuance/Psalm.

Não é nem de longe uma escolha insensata. É um disco fantástico, sob qualquer ângulo. Mas se o disco ganha em inventividade, em ousadia, por outro lado não tem o rigor e a perfeição estética de Kind of Blue; e uma pergunta que muita gente se faz (agora, sim: este blogueiro incluído) é por que tanta gente tem o disco em tão alta conta.

É provavelmente aí que está a maior qualidade do livro: ele permite vislumbrar que o álbum de Coltrane ascendeu à importância que tem — principalmente na esfera do rock e do pop — por questões extra-musicais.

A Love Supreme só poderia ter alcançado o status que alcançou em sua época, os anos 60. Foi a ideologia expressa por Coltrane em seu disco, a sua espiritualidade, que combinou perfeitamente com aqueles tempos. Os títulos, então, são fundamentais para que se aprecie a música, e para que se dê a ela a dimensão que alcançou. Direcionam a compreensão a partir de elementos que não deveriam ser fundamentais. Porque música é mais que isso. Apenas como contraponto, não interessam os títulos de Kind of Blue. Saber quem foi Freddie Freeloader não faz diferença. Interessa pura e simplesmente a música.

Isso não quer dizer, claro, que o disco valha apenas por essa razão. Nem de longe. A Love Supreme é um clássico absoluto, uma experiência fantástica para quem gosta de jazz. Com esse disco, Coltrane conseguiu dar um passo à frente em relação ao que se fazia então do jazz — e sem as porteiras escancaradas, por exemplo, de Ornette Coleman ou Herbie Hancock. O livro de Ashley Kahn é uma biópsia honesta do disco, e uma boa homenagem.

 

4 thoughts on “A Love Supreme

  1. ainda não estou pulando por causa dos 45 pilas. mas a data limite é o aniversário – se a mãe insistir no pijama, eu me dou e me abraço.

    excelente tua proposta de análise “formalista” sobre os dois álbuns. eu poderia dizer que prefiro A Love Supreme a Kind of Blue porque sou levado mais facilmente pelo primeiro. (embora sem espiritualismo algum.) Miles parece mais exigente com seu ouvinte, e Coltrane, mais generoso. (sem crítica ou descrédito a qualquer um deles; não é isso que faz diferença. e acho que faz sentido até mesmo na intenção; Miles queria mudar o jazz, e Coltrane, fazer uma ode espiritual que, sem dúvida, não ganharia tanto eco se não no final dos 60.) Talvez A Love Supreme me vença exatamente pela sua unidade.

    é mesmo uma bobagenzinha – mas das divertidas, e que temperam cada re-escutada 😀 abração!

  2. O Tiagón deve ser a única pessoa no planeta que pula de felicidade com lançamentos do Coltrane e do Dimmu Borgir… =)

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