Grandeza e decadência de um forrozeiro

O Forró Caju é hoje um dos maiores festejos juninos do país, se já não for o maior. São 16 noites com público médio de 100 mil pessoas. Só hoje, véspera de São João, a lista de atrações inclui Dominguinhos, Alceu Valença, Zé Ramalho e Calcinha Preta, com shows completos. Espera-se um pico de bem mais de 150 mil pessoas na praça, nesta madrugada.

Hoje também o Forró Caju vai me lembrar mais uma vez, com a falta de piedade dos velhos deuses pagãos que inspiraram o São João, que houve um tempo em que eu era um grande dançarino de forró, e que hoje sou apenas uma ruína decadente, sombra pálida do homem que fui.

Não é que “eu me virasse” dançando forró. Não é que eu “quebrasse o galho”. Eu era bom. Excessivamente bom. Não apenas a ponto de poder ser esnobe, mas bom a ponto de transcender até o esnobismo, e diante de um elogio já ouvido tantas vezes dar um sorriso de canto de boca e balançar a cabeça condescendentemente, sem precisar falar nada por redundante que seria.

Eu era bom porque precisava. Adolescente, sem dinheiro e sem carro, não me restavam muitas alternativas. Entre ficar trancado em casa vendo mulheres pela televisão e ir atrás delas na rua — nem que isso significasse quilômetros a pé ou de ônibus, com o dinheiro contado para uma coca-cola e para a volta, nem que isso significasse quase uma hora esperando o corujão de madrugada –, eu ficava com a segunda opção. Se ia para a rua, tinha que saber alguma coisa, porque eu sempre fui pragmático, nunca me acostumei a viagens perdidas. E então dançar bem, saber levar uma dama ao longo de uma música e outra e mais outra era fundamental.

Forró era chamar a moça na chincha e deixá-la com o corpo bem colado ao seu. Era encaixar a sua coxa entre as coxas dela, e com um pouco de prática já se podia adivinhar ali a sua consistência e sua rijeza, e com os seios apertados contra o seu peito se podia também sentir o seu real volume e firmeza, porque não há sutiã com bojo, armação ou enchimento que consiga cumprir a sua função de logro enquanto se dança forró.

Era dançando que se descobria tantas coisas de importância fundamental. Era no requebrar e no menear de seus quadris que você sabia o que poderia esperar da moça à sua frente. E então, se ela valesse a pena, você tirava a mão esquerda que guia a dança e colocava em sua cintura, e a apertava um pouco mais, e se ela recostasse a cabeça em seu peito você saberia que ela poderia muito bem estar dizendo em silêncio, como a boa Karolina com K, “é hoje!”, e hoje seria.

Era por saber que era bom que eu me horrorizava quando via cearenses dançando forró. Porque eles dançavam de maneira tão diferente. Afastados, fazendo figuras como um baile qualquer do século XIX, voltas e reviravoltas como se estivessem se apresentando para uma platéia. Aquilo não era dançar forró. Aquilo era teatro, diria Luiz Gonzaga. Exibicionismo bobo, mais adequado a uma gafieira do que a uma sala de reboco sob a luz de um candeeiro.

Forró era outra coisa, era coisa para se dançar a dois, só dois, esquecendo que pudesse existir outra coisa no mundo. Forró era ciência, arte e negociação, um jogo a ser jogado com um sorriso, suor e a determinação firme de fazer daquilo o prólogo de algo melhor. Aquele forró que os cearenses dançavam podia muito bem ser dançado com sua irmã, e ainda não inventaram nada mais sem graça do que dançar com irmã. Eles dançam para os outros; nós, forrozeiros da velha guarda, dançávamos para que a mulher apertada ali continuasse em seus braços depois que o sanfoneiro calasse o seu acordeon.

Aqui, percebo hoje com a sabedoria presenteada a mim pela velhice, está a semente de minha ruína. Para muita gente, dançar é algo que se basta em si mesmo. Pessoas gostam de dançar, como gostam de comer. E eu nunca gostei. A dança não existia por si só, mas apenas como um meio de chegar a algum lugar. Para mim, dançar forró não era “a frustração vertical de um desejo horizontal”, como diz uma boa frase. Era um instrumento, uma ferramenta como um garfo ou uma passagem de avião. Por isso nunca dancei sozinho.

Talvez tenha sido isso, esse desprezo pela dança como um valor intrínseco, como bastante em si própria, que causou minha decadência e minha desgraça. O talento desperdiçado é devida e inexoravelmente castigado pelas Parcas, disso eu sempre soube. E neste Forró Caju vi que não sabia mais dançar como antigamente.

A dor nas coxas sedentárias que, por tantos quilos a mais, já não agüentam muitas músicas seguidas é o de menos, porque isso se resolve em uns poucos dias de volta à prática. Tampouco é problema o fôlego mais curto pelos dois maços diários, isso também é mazela a se resolver em poucos dias. O que dói é a hesitação ante o início, é a falta de certeza e de confiança em levar a moça à sua frente para onde você quiser levá-la.

Não serve de consolo saber que mesmo velho e alquebrado, mesmo desgraçado pelas Musas eu ainda sou um bom dançarino de bolero, porque bolero é diferente, não permite aquele bater de coxas e apertos na cintura, mal permite a mistura de suores. É triste saber que desonrei a herança da família, do meu avô melhor dançarino de tango do Rio de Janeiro, de mim mesmo consciente da felicidade que dava a uma mulher numa pista de dança. É triste saber que se está velho, velho e decadente.

***

A doida estava na praça, ontem, dançando sozinha. Tinha tirado as sandálias e colocado o guarda-chuva do lado, e esquecida de tudo rodopiava contente.

Quer dizer, diziam que ela era doida. Eu não sei. O que eu via era uma mulher feliz e abandonada ao prazer de dançar, despreocupada do que os outros poderiam pensar. Alguém que gostava de dançar por dançar. Disseram que anteontem ela também estava lá, dançando sozinha, fazendo suas piruetas. Mas anteontem não choveu, e todo mundo pode dançar quando chove; ontem, debaixo do temporal, só ela estava ali, dançando sozinha sem precisar do seu guarda-chuvas.

Hoje, tendo que relembrar o passado em busca de momentos de uma glória esvanecida, posso compreender melhor a doida que se entregava à chuva apenas pelo prazer de dançar.

A Mônica apontou a moça e fez o desafio: “Cem reais para você dançar com aquela doida ali embaixo”. A Mônica, mesmo depois de quase um ano, não me conhece. Não sabe que poderia ter me oferecido muito menos, não sabe que só o desafio talvez fosse motivo suficiente para eu me abalar lá embaixo e dançar com a mulher que ela chamava de doida. A Mônica descobriu apenas agora que sou barato, sempre fui barato, e por cem reais eu dançaria até com o diabo, e esqueceria a minha decadência e a minha tristeza.

Lá fui eu. Enfrentei a chuva também, não me importei em me molhar como a moça que dançava. E assim dançamos, ela e eu, ela feliz por estar dançando com alguém, eu feliz por estar ganhando cem reais.

A Mônica fez questão de pedir para  o Sílvio Rocha tirar fotos. Não sei exatamente quais os seus motivos, prefiro não perguntar. Porque independente do que será feito delas, essas fotos servem como um troféu, uma mostra de que no dia 22 de junho um homem que não sabia mais dançar desceu e novamente fez uma mulher feliz, ainda que de maneira insípida, lembrança distante de outros tempos em que, entre as coxas delas, estaria venturosa a sua.

Eu não sou mais um grande dançarino de forró como fui um dia, e esse destino é triste para mim. Mas talvez por um gesto de piedade temporária das Musas, o forró ainda pode me render cem reais, e isso faz de mim um homem um pouco menos triste na véspera de São João.

15 thoughts on “Grandeza e decadência de um forrozeiro

  1. Eu nao sei, nem nunca soube, dançar forró.

    MAs toco músicas romanticas no violão como poucos husahsuahsuahsuasua…

    cada um com sua arte (e seus meios).

  2. emagreça. pare de fumar. não sei se isso existe em aracaju, mas frequente os “forrós do interior”. ao menos as salas de reboco. mas vá à luta, homem, e não se lamente.

    (e isso porque me orgulho de não saber dançar forró)

    mas gosto do ritmo. gosto do triângulo-zabumba-sanfona de raiz, com um ou outro elemento regionalesco como uma rabeca ou um pífano. eu sempre digo e retorno a dizer que aquilo que os cearenses criaram não é forró e que, se desse expediente no escritório principal do palácio do campo das princesas, já teria processado o governo do ceará por ter desrespeitado regras. não dá nem pra argumentar que é como uma distribuição de linux, roupagem diferente para um mesmo núcleo…

  3. Eu gosto de dançar e muitas vezes eu faço umas loucuras dessas de dançar no metrô ou mesmo na chuva. Nunca tive o prazer de ter um “doido” que me acompanhasse. Mas sempre me senti viva e livre por fazê-lo.

    Talvez você não tenha mais tanta desenvoltura para dançar forró do jeito que gostaria, mas quem sabe não arruma um novo jeito de dançar…

    Se não houver problema, gostaria de colocar o link do seu Blog no meu.

    Beijos e boas rodopiadas…

    PS: Se eu fosse a Mônica te desafiaria mais vezes… quem sabe você não se descobre em novas danças!

  4. Ah Rafa, dançar é dançar.
    Não importa o que, nem onde, nem como e nem com quem…o importante é dançar.

    Como sempre ótimos textos, sá tô ficando de saco cheio de dizer isso…risos

  5. Quanto a dançar, eu não sei… Agora, quanto a escrever…..
    Vc sabe e muito! :o)
    Primeira vez que visito o seu blog e já me apaixonei.
    Parabéns!

  6. Muito bom!

    “não há sutiã com bojo, armação ou enchimento que consiga cumprir a sua função de logro enquanto se dança forró”

  7. Essa é a foto mais encantadora de todos os tempos, Rafael. A vi de relance e só depois da imagem resolvi ler o texto. E saber que se tratava de uma estranha a deixa ainda mais bonita.
    Um beijo.

  8. Muito bom!
    Melhor que dançar sozinho…
    A lembrança daquelas eróticas “encoxadas” proporcionadas pelo forró, dão-me arrepios de prazer, mesmo que passados os anos…
    Porém, acredite! Com tesão, não há quilos a mais que impeçam o perfeito encaixe dos nossos corpos na gostosa dança que “lustra a fivela”…
    Continue…

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