Um post sobre Jerry Lewis que provavelmente não será escrito

O pior de tudo é que o tempo vai passar e Jerry Lewis vai morrer e eu não vou ter escrito um post adequado ao seu gênio.

Jerry Lewis foi o maior comediante americano da segunda metade do século XX. Eu não tenho dúvidas. Acho que tinha mesmo todos os defeitos que apontam nele — e eu tenho dificuldade em achar que fez grandes filmes por serem episódicos demais, caminhando numa linha tênue entre a narrativa e o encadeamento puro e simples de gags — mas ao mesmo tempo tinha também todas as qualidades possíveis, uma inventidade absurda e um faro excelente para a grande gag

Jerry passou por um processo semelhante ao de Hitchcock. Foi preciso que os franceses da Cahiers du Cinéma dissessem que ele era um grande comediante para que as pessoas, com aquela cara de bunda que é peculiar a quem não consegue ver adiante do nariz, dissessem “é mesmo”. Os críticos então admitiram o que milhões de pessoas já sabiam: que Jerry Lewis cumpria como ninguém o seu ofício de fazer rir.

Infelizmente, disseram isso quado Jerry já era um comediante decadente. A obra de Jerry foi perdendo qualidade ao longo da segunda metade dos anos 60. Seus filmes foram ficando repetitivos, as piadas foram ficando sem graça, seu tipo físico foi se tornando inadequado ao personagem que continuava interpretando. Jerry protagonizou grandes fiascos nessa época. Mas a sua obra nos anos 50 é indelével — sua parceria com Dean Martin foi antológica, tão grande quanto outras duplas, como Laurel & Hardy e os Três Patetas — assim como a do começo dos 60. Jerry construiu um personagem anárquico, inadequado ao sistema, que encontrava respaldo e ematia em praticamente todo mundo. Há um tanto de subversão quase ingênua em Jerry Lewis; talvez o melhor exemplo seja a cena do grupo de ginástica em “O Meninão” (refilmagem de “The Major and the Minor, de Billy Wilder). A sua incapacidade de seguir o conjunto desarruma tudo, leva à bagunça total, à desordem — e foi isso que os franceses viram nele e mostraram para o resto do mundo, essa selvageria e anarquia ingênuas, mas não tanto.

Ele deve estar fazendo 81 ou 82 anos agora, e essa idade o aproxima da morte. Escreveu um livro há pouco tempo falando de sua parceria com Dean Martin, e ao contrário do que poderiam esperar, foi um livro carinhoso. Lembro do dia em que Dean Martin morreu, e foi uma das duas ou três vezes, em toda a minha vida, em que fiquei triste porque alguém que eu não conhecia tinha morrido.

Mas acima de tudo, Jerry Lewis é um companheiro de infância e um dos meus últimos heróis. Eu e todo mundo que cresceu nos anos 70 assistíamos aos filmes de Jerry Lewis na Sessão Tarde — era um tempo em que a Sessão da Tarde exibia bons filmes, com Errol Flynn e Charlie Chaplin e Johnny Weissmuler e John Wayne mais uns tantos por aí. O primeiro a que assisti foi “O Rei do Laço”, um dos últimos de sua parceria com Dean Martin. Em seguida vi praticamente todos os filmes que importavam. “Errado Pra Cachorro”, “O Bagunceiro Arrumadinho”,”O Otário”, The Caddy, Artists and Models, Hollywood or Bust, Rock-a-Bye Baby — a lista é grande demais para caber aqui. Jerry Lewis tem uma filmografia que não é apenas extensa — tem momentos absolutamente geniais, como a gag final de “O Otário” e tantas outras. Eu tive a honra de ver um de seus últimos filmes no cinema — Hardly Working; era um filme ruim, mas eu vou poder dizer um dia que pude assistir a um filme de Jerry Lewis no cinema.

No fim das contas, acho que poderia escrever um post longo e bom sobre um dos meus heróis, mas não tenho tempo. Depois eu escrevo sobre ele. Um dia. Só espero que esse dia chegue.

22 thoughts on “Um post sobre Jerry Lewis que provavelmente não será escrito

  1. Boa lembrança, Rafael. Jerry Lewis faz parte de uma longa trupe de comediantes judeus que fazem graça com o desconforto que a entrada dos judeus no mundo puritano mainstream americano causava de fato: novos ricos cafonas, penetras incorrigíveis, desajeitados com a etiqueta de lugares que não costumam frequentar, CDFs tímidos, feiosos, mal vestidos, morenos de pele e cabelo [para nós eles são brancos, para os americanos, não]. Com Jerry Lewis estão os irmãos Marx, os três patetas e muitos outros menos conhecidos do público brasileiro. Até mesmo o Woddy Allen, principalmente no começo da carreira, mas mesmo depois em seus momentos cômicos mais felizes, bebeu muito nessa fonte que ainda tem Chaplin e um monte de comediantes menos conhecidos fora dos Estados Unidos.

  2. Sou do tempo das “matinès”. Lewis era presença obrigatória nas manhãs de domingo. O cara é fantástico!

  3. Adorei, Rafael.
    Lembro que muitas vezes, qdo tinha filme dele na sessão da tarde, eu até deixava de sair para assistir.
    Bjos

  4. Galvão:

    Eu também aprendi a adimirar esse gênio da comédia vendo seção da tarde. Nesta época havia o Festival Jerry Lewis e o festival Elvis Presley, em que passava uma semana inteira de filmes; uma senana de cada um. Nesta época foi que, também, aprendi admirar o Elvis; isso apesar dos filmes do Elvis serem ruins; mas o Elvis era um monstro de carisma e o grande Jerry Lewis, com o que você já disse no post, dispensa meus comentários.

  5. Sim.
    Jerry Lewis (que eu quanto pequeno, ou melhor, criança :-P, sempre dizia “mas esse rato não tem o mesmo nome daquele … ) foi o gênio que tu diz, bem como estará em nossas mentes para todo o sempre.
    Abrassss.

  6. Sou da geracao anos oitenta, mas ainda acompanhei o Jerry Lewis na sessao da tarde. Nao conheco detalhes de sua carreira e vi poucos filmes, mas os poucos que vi, me fizeram gostar de tal forma, que estao guardados na lembranca…

    Adorei o post, me deixou saudosa… mas, uma saudade boa, gostosa…

    Abraco…

  7. Para mim, a maior prova de que Jerry Lewis é (ou melhor, foi) um gênio chama-se “What’s the way to the front”. Cresci vendo esse filme e acho uma das melhores paródias de guerra que já houve.

  8. Cresci assistindo o Jerry, na década de 60 e início dos 70, nos cinemas de Santos.
    Não perdi um filme do sacana. Ria pacas.
    Aí passei pro Peter Sellers e depois Woody Allen.
    São todos ótimos.
    Em Santos passavam os filmes ao mesmo tempo que São Paulo e ficávamos sempre atualizados.
    Assisti as duas partes do 900 no mesmo dia. Mais de 7 horas de cinema.

  9. Olha, sempre considerei – e provavelmente será assim até o fim da minha pobre existência – o Monty Python o máximo em máteria de humor. Mas, realmente, quando passavam aqueles filmes na Sessão da Tarde – sou da geração que cresceu assistindo TV nos anos 80 – era uma grande emoção. Como tu captou muito bem, um companheiro de nossa infância. Pena que eles estão desaparecendo, e rápido.
    São essas referências que levamos para toda a vida. Às vezes penso, o que essa geração internet terá como referência no futuro? Casseta e Planeta?
    Muitos falam sobre Chaplin ser o maior de todos os tempos. Não concordo. No quesito linguagem corporal, ninguém superou Jerry Lewis.
    Esses dias mesmo pesquisei na wikipédia, pois queria escrever um artigo sobre a dupla. Mas fiquei tão triste ao relembrar a morte do Dean Martin que desisti.
    Sincronicidade.

  10. Oi, Rafael…Sabe de alguma novidade sobre ele? Sou super fã, e a ultima vez que o vi atuando foi num programa da Universal, SVU…acho…estava fazendo um papel dramatico, triste, gordo…quase esquecido, só o reconheci qdo ele foi preso e tirou a barba, pq ele aparecia como suspeito de um crime e mendigo…O q as pessoas fazem com seus idolos…ele é fantastico.

  11. Com certeza Jerry é tudo isso a mais um pouco…. Tenho fítas de ….pasmem…vídeo!!! gravadas da sessão da tarde que com freqüência assisto e dou boas gargalhadas. Quem dera a Academia reconhecesse esse talento e “em vida” Jerry recebesse um Oscar…Seria fantástico!!!!!!

  12. Sou apaixonada por Jerry Lewis, apesar de ser muito nova na época em que a sessão da tarde passava seu filmes, mas acabei conhecendo seu trabalho através de minhas irmãs mais velhas.
    Também acho q deveriam premiá-lo com um Oscar enquanto ele ainda é vivo.
    Tenho muita dificuldade em comprar filmes dele, vc poderia me indicar onde posso comprar, pois só encontro os mesmos para vender.

  13. Gostaria de saber onde posso encontrar os filmes abaixo dublados ou legendados.

    . O bagunceiro Arrumadinho
    . Errado para Cachorro
    . De caniço e Samburá

  14. Falar em jerry Lewis, é fazer um passeio à minha infancia e adolescencia, mas a alguns anos atras ele fez um filme, drama, que gostei muito chamado: “Luta pela Vida”. Será que sabe onde posso encontra-lo?
    Aguardo resposta.
    Obrigada
    Wanda

  15. Amigos ,

    o que eu posso dizer sobre Jerry e que ele foi o único humorista que fez fazer xixi nas calças e ficar com dor de barriga de tanto rir , para mim ele é um gênio , se tem defeitos , todos temos , quando ele morrer eu torço para que seus filmes fiquem para o futuro onde todos os que vierem ao mundo possam assistir , quem não seja esquecido pois ele nos fez e faz muito bem .

  16. Marcus :Amigos ,
    o que eu posso dizer sobre Jerry e que ele foi o único humorista que fez fazer xixi nas calças e ficar com dor de barriga de tanto rir , para mim ele é um gênio , se tem defeitos , todos temos , quando ele morrer eu torço para que seus filmes fiquem para o futuro onde todos os que vierem ao mundo possam assistir , quem não seja esquecido pois ele nos fez e faz muito bem .

    @Wanda Réquia Guimarães

  17. Gostaria de saber por que hoje em dia, em nehum canal aberto em especial a Globo passam Filmes de Jerry Lewi, Já passei emails para essas emissora mais a reposta é a mesma “ESTAMOS PASSANDO PARA O SETOR RESPONSAVEL”.
    Se alguem de vcs poderem me dar alguma resposta, como tambem Fimes de Faroeste.
    Agradece: Cássio Rogério
    EMAIL: cassi.rogerio@zipmail.com.br

  18. Muito bom encontrar relatos de pessoas como os que encontrei aqui, considero que é preciso ter sensibilidade acima de tudo para sentir ou perceber o talento deste incrivel comediante. Tão incrivel que é capaz de fazer com que eu ria (mesmo depois de centenas de vezes ter assistido ao seus filmes) de suas interpretações e dos seus incansáveis filmes quer eram exibidos quase sempre na década de 80. Aprendi com ele que o humor quase ingênuo nos faz alem de rir sonhar, e recordo de uma cena incrivel no filme O REI DO CIRCO, onde o mesmo intepretando um palalhaço se depara com uma criança com algum problemas físico nas pernas. Todos em volta riam do palhaço mas a criança permanecia sem sorrir, LEWIS se apoxima dela e senta-se a seu lado e chora, liberando da criança uma alegria retida pelo sofrimento físico que passa. Pode ser apenas um relato de um fã como eu que o admira muito, mas acredito que tal cena foi inacreditável entre tantas que marcaram minha vida ao assistir filmes deste inigualável ator. Hoje mesmo passado tantos anos, lembro-me de quando tive a oportunidade de ver a cena descrita em uma daquelas maravilhosas oportunidades em que podiamos assistir aos filmes desse inesquecível palhaço. Hoje ao relembrar sem mesmo nunca ter esquecido a cena me emocionou com a sutileza e sensibilidade que JERRY empregava em suas cenas. Algo capaz de fazer com que nós sorrissemos ou chorassemos algo que somente alguem como ele poderia produzir em todos nós.

    E-mail: antoniosouzacarlos@hotmail.com

  19. lembro de quanto ficava na espectativa para assistir os filmes de Jerry lewes, que passavam sempre nas tardes de semana ( seção da tarde) sou seu fã, espero que outros profissionais na area de homoristas sigão esse grande profissional Jerry Lewes

  20. Nunca perdi um filme do Jerry, meu irmão (já falecido), era mais novo do que eu e o imitava direitinho, além de parecer fisicamente com ele…Nós dois sentávamos na sala comendo pipoca e ríamos até….pois é o tempo passou e todos nós envelhecemos, achei que Jerry nunca ia envelhecer, mas faço muito esforço para ve-lo sempre como em O Professor Aloprado que vi uma dez vezes….
    Grande Jerry !!!!!!!Sempre no meu coração.

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