A revista das boas notícias

No início do governo Fernando Henrique Cardoso, quando a CUT e o Sindicato dos Petroleiros embarcaram na greve mais equivocada de sua história e pela qual ainda pagam um preço amargo, sindicalistas sergipanos trocaram suas assinaturas da revista Veja — que julgavam estar fazendo, acima de tudo, mau e tendencioso jornalismo — pela revista Exame, da mesma editora Abril.

Seu raciocínio era complexo, na melhor das hipóteses. Por que sindicalistas socialistas assinaram uma revista cuja razão de ser é o capitalismo, e que sempre condenou as propostas defendidas por eles, é algo difícil de compreender. Mas fazia algum sentido:como a Exame é uma revista com linha editorial tão clara, eles talvez esperassem que fosse mais honesta. O que irrita em um órgão de imprensa e o descredencia não são suas posições políticas assumidas: são aquelas enrustidas, normalmente mais pérfidas.

O caso dos sindicalistas que assinaram a Exame aconteceu há quase 15 anos. De lá para cá o conceito de honestidade deve ter mudado um pouco.

A edição da Exame que circulou pouco antes do primeiro turno destas eleições publicou uma matéria longa elogiando o que chama de “choque de gestão” dado pela Prefeitura de Porto Alegre. A revista é só elogios para o prefeito José Fogaça, que define, em outras palavras, como um administrador competente, moderno e ético.

Então tá.

Oficialmente, ninguém pode acusar a revista de nada. É uma matéria jornalística como outra qualquer. A direção da revista achou que a administração Fogaça é realmente digna de elogios, e elogios não têm tempo para serem merecidos. Esse é um direito claro de qualquer revista. Não é comum ver em uma revista liberal como a Exame elogios tão profusos ao Estado, mas há mais coisas entre o céu e a terra do que supunha Shakespeare. O que importa é que, objetivamente, não há nada na matéria que macule a reputação da revista.

Infelizmente, a experiência ensina que esse tipo de matéria, mais especificamente em momentos críticos como vésperas de eleições, não costuma atender a critérios simplesmente jornalísticos.

Uma pessoa menos crédula que eu poderia fazer uma série de ilações sobre a oportunidade e o teor da matéria. Poderia classificá-la como parte do esforço de campanha de um candidato que se via em uma disputa acirrada, seguido por duas candidatas de esquerda que, como se veria depois, levariam a disputa ao segundo turno.

Por sua vez, uma pessoa francamente maldosa poderia dispensar todas essas palavras acima e dizer simplesmente que aquilo é descaradamente uma matéria paga. Há pessoas assim neste mundo.

Coincidentemente, logo depois da matéria sobre a excelência do governo porto-alegrense vem a matéria de José Roberto Guzzo, uma peroração sobre as mazelas do Estado.

Guzzo foi o jornalista sutilmente acusado por Mario Sergio Conti no livro “Notícias do Planalto” de receber propina — e que propina: 250 mil dólares — para veicular uma matéria favorável ao então ministro Iris Rezende. Um assessor de Rezende tentava emplacar uma matéria chamando Rezende de “o ministro das boas notícias”. Segundo o livro, a oferta foi feita primeiro a Augusto Nunes, então no Estado de S. Paulo, que a recusou. Conti insinua que foram mais bem recebidos por Guzzo, e a expressão associada ao político apareceu em duas edições diferentes da revista.

Mas isso foi nos tempos em Guzzo era diretor da Veja, uma revista que já naquela época dava mostras de ter problemas éticos, embora ainda não fosse o pasquim desacreditado de grande circulação que é hoje. Supunha-se que por se destinar a um público diferente, a Exame operasse dentro de outras esferas, longe da politicagem pura e simples. Não que seja infensa a negociações que misturem dinheiro e redação; mas seu mercado parecia ser outro.

Talvez os tempos tenham mudado, no entanto. E assim como outras revistas da Abril, a Exame, sem nada que oficialmente a desabone, parece mostrar que não está a salvo dos padrões de comportamento que estão se tornando típicos de suas co-irmãs, e é também uma revista especializada em boas notícias.

7 thoughts on “A revista das boas notícias

  1. meu pai, administrador da empresas, assinou a exame em dois momentos distintos: um no início do governo fhc, e outra mais recentemente. a mudança de linha editorial é clara: antes, era só uma revista liberal pró-iniciativa privada; hoje, está hidrofóbica como a veja, embora o choque seja um tanto menor que o provocado por esta última.

  2. Quanta mágoa, Sr. Rafael Galvão.
    Não sou um lullista como o senhor e, nem por isso, deixo de frequentar seu blog. Mas no dia que ler algo mais patético(o que não é difícil na categoria “Putas, políticos e palhaços”), deixarei de frequentá-lo. Faça o mesmo em relação às revistas e tudo mais que desagrade sua vida. É apenas um conselho – caso o senhor não goste, saiba que não costumo distribuir conselhos de graça. Esse foi apenas um “free tip”.

    Abraço

  3. Sr Vinícius,

    Se o senhor não sabe a diferença entre um órgão de imprensa que se diz isento independente e se presta a veicular matérias pagas — seja de que partido for — e suas relações com a legislação eleitoral, não sou eu que vou explicar.

    Quanto ao seu conselho, não se preocupe e não se valorize demais. Ele custou exatamente o que vale.

  4. Li e reli o excelente post. Vi mágoa exalada apenas no comentário 3. Quanto a réplica do “Sr. Galvão” (uia!), o terceiro parágrafo dispensa os dois anteriores.

    ~*~

    Nesses últimos tempos, fico aqui questionando se é unicamente pela carolice que o Olavão não foi pro semanário ainda. Só falta ele. 😉

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