O Homem-Aranha, ressuscitado

Eu estou rindo muito.

Não. Na verdade eu estou gargalhando.

Ontem, na banca de revistas, eu vi uma “Homem-Aranha” na prateleira e as chamadas de capa me chamaram a atenção: “Nova fase!” “Novos vilões!” “Novas aventuras!” Parecia uma chamada dos meus tempos de pré-adolescente.

“Mais uma ‘nova fase'”, eu pensei. Essas reviravoltas são tão constantes nos quadrinhos que já se tornaram a norma. É por isso que se tornaram tão chatas, tão previsíveis, tão cansativas.

Pior: eu já não agüentava mais. Há muito tempo tinha deixado de comprar essas revistas porque, afinal, elas eram confusas, cheias de falsas novidades; acima de tudo, tinham perdido o que o Homem-Aranha tinha de melhor: uma simplicidade e um frescor que o faziam agradável ao público adolescente. A última revista do Aranha que comprei, sabe Deus por quê, foi uma em que ele morre e depois renasce com mais poderes, essas coisas. Era uma série de quatro histórias; não fiz questão de comprar a última. O Homem Aranha estava morto.

Na verdade, eu já tinha dito isso antes algumas vezes aqui no blog: aqui e aqui, por exemplo.

Mas ontem, talvez por força do hábito, passei os olhos na revista e comecei a rir. Porque finalmente eles ligaram o botão do foda-se e fizeram o que deviam ter feito há muito tempo: jogaram para o alto a tonelada de besteiras que vinham fazendo nos últimos anos e resolveram recomeçar do nada. Pelo visto houve uma série de histórias em que se resolveu isso, chamada “Um Dia a Mais”. Eu não li, não sei como foi, e não me importo em saber se foi boa ou não. O que importa é que tiveram a coragem de fazer o que deveriam ter feito há muito tempo, e isso é fantástico.

Melhor ainda, eles foram além. Em vez de simplesmente tentar consertar as coisas (como eu, em seu lugar, faria), jogaram a toalha e voltaram à estaca zero. Agora Peter Parker nunca foi casado. May Parker nunca soube que ele era o Homem-Aranha. Harry Osborn nunca morreu. Está tudo como d’antes no quartel de Abrantes. Jogaram fora pouco mais de 20 anos de histórias, quase metade do tempo de vida do personagem — e fizeram certo, porque tudo aquilo foi um grande equívoco. Agora, sim, o Homem-Aranha tem a chance de voltar a se conectar com o seu público, e de avançar.

Basicamente, eu sempre achei que os dois grandes erros dos roteiristas do Homem-Aranha foram casar o sujeito e permitir que as suas histórias adquirissem aquela atmosfera apocalíptica das histórias dos X-Men (que na minha opinião são chatíssimos, com aquela coisa de destruir o mundo a cada três dias). Aquilo não era o veklho e bom cabeça de teia. Ao perpetrarem seu casamento, uma das maiores imbecilidades já feitas a um super-herói, fizeram com ele envelhecesse automaticamente — os problemas de um homem casado não são os mesmos de um jovem urbano solteiro e sem dinheiro. Tornaram-no mais chato, apenas mais um super-herói como tantos outros. Pior que isso, limitaram as possibilidades de desenvolvimento de novas histórias, ao mesmo tempo em que paradoxalmente se obrigavam a encontrar situações cada vez mais mirabolantes para garantir um mínimo de interesse em um personagem cada vez mais limitado. Deram uma de Cortez e incendiaram seus navios, mas não souberam dar cabo de Montezuma.

Estava tudo errado. Se alguém quer saber o que fez do Aranha o super-herói mais popular da história, precisa apenas dar uma lida nas revistas Amazing Spider Man dos anos 60, até a morte de Gwen Stacy em 1973. O Homem-Aranha era, principalmente, as desventuras de Peter Parker, adolescente, azarado, sempre levando na cabeça. Suas histórias tinham um tom leve e agradável. Tinham uma empatia natural com o seu público.

Agora eles têm a chance de reconquistar isso, fazer a coisa certa. É uma boa notícia, e eu provavelmente vou comprar a revista do mês que vem.

Mas não é por isso, exatamente, que rio. Rio porque eu (e mais um bocado de gente no mundo, é verdade) cantava a pedra há muito tempo. Aquele ritmo de coisas era insustentável. E essa decisão desesperada da Marvel, para mim, apenas prova que sou mais inteligente que aquele bando de roteiristas da Marvel, que durante anos tentaram fugir das conseqüências das idéias imbecis que tiveram e apenas encalacravam ainda mais o pobre Amigão da Vizinhança.

14 thoughts on “O Homem-Aranha, ressuscitado

  1. Para estas questões, recorra ao oráculo:

    Calvin: I’ve noticed that comic book superheroes usually fight evil maniacs with grandiose plans to destroy the world. Why don’t superheroes go after more subtle, realistic bad guys?

    Hobbes: Yeah, the superhero could attend council meetings and write letters to the editor, and stuff.

    Calvin: Hmmm… I think I see the problem.

    Hobbes: “Quick! To the Bat-Fax!”

  2. Eu pensei nisso mesmo… “apertaram o botão do foda-se”. Havia toda uma aposta em um divórcio, e como isso seria traumático para o personagem e tal…

    Desse jeito ficou melhor. Já aconteceu tanta coisa absurda antes, por que não colocar mais uma que seja para o bem, e não para o mal do personagem?

  3. Concordo com a Carol, você está velho.

    Mas como colecionadora (do Homem-Aranha, entre outros títulos) e jornalista que escreve sobre quadrinhos tenho que dizer que essa foi a melhor (dentro do possível) idéia do Jon Quexada, ops, Quesada.

    Foi louca (mas quais idéias de roteiristas de quadrinhos não sáo? Estão aí Frank Miller e Grant Morrisson que não me deixam mentir…ok, eu omiti os que fazem bosta, mas..deixa pra lá)ousada e necessária. Torci o nariz no começo, afinal ia mudar “tudo de novo” como você bem disse.

    Mas os roteiros mudam porque o MUNDO muda, Rafa. Não dá pra tentar vender um gibi com um herói “leve e agradável” para a geração Y, dos anos 00, que trafica drogas pelo Orkut, chacina os colegas na sala de aula e namora sério (digo, tem relações sexuais) aos 12 anos de idade, porra!

    Num ato heróico para salvar tia May, o cabeça-de-teia fez um trato com Mephisto que em troca pediu seu amor por Mary Jane, ou seja, no dia seguinte ao trato, o universo de Peter teria mudado, contando com os episódios que você mencionou acima.

    Eu achei ótimo. Casamento não funciona para Peter Parker, só para o Quarteto Fantástico…se bem que tem sempre um Namor pra “apimentar” a coisa…

    Eu queria mesmo era que os roteiristas da DC tivessem culhões e tomassem a mesma decisão com o Super-Homem, só que ao contrário: o fizessem casar…com um homem.

    Ia alavancar as vendas pra caralho…er..com o perdão do trocadilho.

    Beijos.

    Gabs

  4. Gabi, Gabi…

    Não dá pra tentar vender um gibi com um herói “leve e agradável” para a geração Y, dos anos 00, que trafica drogas pelo Orkut, chacina os colegas na sala de aula e namora sério (digo, tem relações sexuais) aos 12 anos de idade, porra!

    Então vem cá: por que é que mudaram, afinal? A idéia de que não dá pra vender esse tal herói não bate com a decisão que tomaram. Se mudaram é porque precisavam vender mais.

    E calma com essa idéia de que o mundo de hoje é assim tão pior do que o de antigamente. O mundo de Peter Parker nos anos 60 enfrentava a revolução sexual e a Guerra do Vietnã — muito mais importantes, do ponto de vista do impacto no cotidiano, do que os elementos que você elencou aí. As pessoas traficam drogas no Orkut? Nos anos 60 as pessoas começavam a traficar, ponto. Chacinam colegas em sala de aula? Quando você acha que essas chacinas começaram? (Uma dica: Universidade do Texas, 1966.) As pessoas têm relações sexuais aos 12 anos? Você não diria que isso começou quando a pílula se tornou popular e possibilitou uma revolução sexual e de costumes, em que adolescentes de 15, 16 anos passaram a fazer sexo com mais liberdade?

    John Kennedy, Bob Kennedy, Martin Luther King, revoltas nas universidades, Black Panthers, Hashbury, maio de 1968. Você ainda tem certeza de que o mundo hoje é mais complicado que aquele em que um super-herói leve e agradável fez tanto sucesso?

    Eu posso até estar velho, mas minha memória não me deixa cair na falsa impressão que as coisas mudaram tanto assim. 🙂

  5. Rafael:

    O Homem Aranha da década de 70, lutava com um arqui-vilão e a cada golpe, ou esquiva, fazia uma piada (coisa que o do filme esqueceu)e isso era muito legal porque dava leveza a ação, como quem diz: “enfrento esse super vilão sem grande esforço”. Mais cool impossivel.

    Tomara que essa nova retomada do Homem Aranha seja para devolver, entre outras, essa característica.

  6. Eu sei de tudo isso, Rafa e não acho que o mundo de hj é pior do que era antigamente. Só digo que se eu fosse adolescente hj, um herói “leve e agradável” não chamaria minha atenção.

    Eles mudaram a história do Peter (alou, eu concordei com a mudança!!!) por conta do que você explanou: um herói casado, com problemas de um homem casado não é muito o perfil dos jovens de hoje, tá certo.

    O mundo pode não ter mudado, mas o acesso à informação mudou sim.

    Hj adolescentes sabem de coisas que adolescentes de antes não tinham como saber. E com isso perdem a inocência mais rápido.

    O jovem de antes era mais engajado do que o de hoje. O de hoje é muito mais agressivo, em todos os termos. E mais fútil. E mais burro.

    Não quer enrolação. Se ele sentir que está sendo enrolado, simplesmente vai no Google e descobre tudo sobre um certo assunto.

    John Kennedy, Bob Kennedy, Martin Luther King, revoltas nas universidades, Black Panthers, Hashbury, maio de 1968, tudo isso foi muito importante e traçou a história até o ponto em que estamos vivendo agora.

    Eu não consigo definir a era em que estamos vivendo agora, tenho uma filha pré-adolescente e só sei que ela é muito mais precoce, agressiva, esperta e articulada do que EU (e olha que eu tenho 33 anos!) era quando tinha sua idade…imagina em relação aos jovens dos anos 60!

    A internet mudou essa geração, Rafa. Assim como os anos 60 mudou a sua.

    Beijo!

  7. Ainda acho que o tom sombrio e todo o furdunço cronológico no qual meteram o personagem nos últimos 20, 30 anos contribuiu mais para ele se desconectar dos leitores do que o casamento em si.

    Claro, o casamento teve sua cota, mas não seria a evolução natural do personagem e do público que o acompanhava: qual nerd teria a chance de casar com uma Mary Jane Watson da vida? Peter Parker teve essa sorte, depois de ficar só no fogo de palha com a Betty e a Gwen ir pro andar de cima.

    Numa comparação nérdica, seria como querer que o Bruce Wayne ainda mantivesse o Batman pelo que aconteceu aos seus pais. Já se foram mais de 60 anos e deu tempo dele criar gosto em espancar bandidos. No caso do Aranha, se foram o colegial, a faculdade e a adolescência.

    Fazê-lo casar foi a melhor alternativa? Talvez não, mas não foi necessariamente errado. O que faltou foi capacidade criativa aos roteiristas que passaram pelo personagem nesse tempo para atualizá-lo.

    A última coisa bacana que li do Aranha foi o arco de estréia do JMS (o criador de Babylon 5), quando ele introduz o conceito da aranha tomêmica (argh!) e a Tia May descobre que o Peter era o Aranha. Depois disso…

  8. Eu não sabia Gabi.

    Faz 20 anos que não leio Homem Aranha. Tenho um em casa que releio sempre, mas é da dácada de 70.

  9. Olha, sinceramente, eu não reclamaria da mudança não fosse um detalhe: eu acompanhei as tiras do Stan Lee e do Larry Lieber depois do casamento.
    E ali mostra que dava claramente para funcionar um Homem Aranha casado. Acho que o pior foi a Mary Jane virar supermodelo mesmo. Na tira, ela nunca conseguiu emplacar a carreira e virou uma gerente de uma loja de eletrodomésticos – praticamente outro núcleo além do clarim. Ou seja, dois duros, onde ao menos ela tem um emprego fixo e ele não – e é totalmente o espírito do material da época dele com o Romita. A soap opera que os escritores tanto reclamavam da ausência espirrou para outros personagens cuja vida acabava se metendo na do casal – e funcionava, sem perda. Um dos meus arcos favoritos das tiras é quando o Parker decide desistir de ser o Aranha pela enésima vez, mas por um motivo concreto: poder arrumar um trabalho de tempo integral. E descobre que para todos os efeitos, Peter Parker… não existe. Não tem registros de verdade exceto os pagamentos do Clarim, e ganhava abaixo da média até para pagar impostos. Tudo totalmente Homem Aranha, com personagem casado e tudo mais. Até porque agora ele teria uma dona encrenca que não pode ignorar…
    Acho que o casamento só prejudicou o personagem pela incompetência dos roteiristas. O caminho das pedras estava lá, nas tiras, o tempo todo.

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