Post para uma amiga que não me entende

Oi, magrela.

No meio da campanha você leu este post e reclamou comigo que não ficava bem para o dotô redatô aqui escrever sobre putas quando tanta coisa estava em jogo. Aí esse conselho ficou passeando pelos becos da minha cabeça, até que agora consegui pensar numa resposta, que dou agora.

O post era inveja pura, não sei se você notou. Eu queria ser empresário do Paulinho, se ele aceitasse os conselhos que dei, porque fico maravilhado ao ver tanta gente ganhando dinheiro com música ruim. Sabe, tem umas coisas para as quais não tenho talento, mas tenho vocação; empresário de cantor brega era uma delas. Eu não sei cantar como o Paulinho, não sei compor nem fazer verso, toco uma guitarra ruim e um baixo pior ainda. Mas mesmo assim acho que ficaria bem no papel de empresário. E cantor brega sem isso, minha filha, está condenado ao oblívio. Ou, em palavras que seriam mais facilmente associadas a mim, está fodido.

Do jeito como eu vejo as coisas, o principal papel de empresário de cantor brega é arranjar umas putas bem voluptuosas, apetitosas, um monte de osas, com aqueles bundões enormes e cheios de celulite, para fazer no palco coreografia ruim de menina de 13 anos em festinha americana, e balançar a bunda para a platéia. Precisa de mais que isso, não. E tem que ser puta, mesmo. Moça séria que se respeita vai é terminar o segundo grau para ser comerciária. Moça direita não faz a platéia gritar em êxtase diante de uma rebolada mais bem dada ou uma baixaria mais bem feita.

E o único lugar que tenho para falar dessas minhas vocações desprovidas de talento é aqui neste bloguinho.

Me desculpe, mas sou sério o suficiente o tempo todo. Na verdade até que tenho feito um bom trabalho nesse troço de seriedade. Em nome dela, até escrevo direitinho quando a pressão é grande. Sabe, eu não tenho lá muitas ambições literárias. Eu gosto mesmo é de ver que o que escrevi funcionou e convenceu gente. É por isso que adoro os meus clichês: “Mas Fulano fez mais: construiu sei lá o quê, implantou aquilo e garantiu mais etcetera e tal.” Sabe Deus quantas vezes já escrevi isso na vida, e espero escrever muitas mais ainda. Porque se uma coisa é clichê é porque funciona, e o resto é bobagem.

Mas mesmo assim, mesmo ligando pouco para as musas feinhas, a cabeça da gente funciona de maneiras esquisitas, e de vez em quando sinto vontade de escrever umas coisas que não se encaixariam bem em uma locução em off. É por isso que tenho um blog, que se chama tão pura e simplesmente “Rafael Galvão”, e não “Rafael Galvão, Redator Publicitário À Disposição”: para escrever os merdas, bocetas e putaqueparius que eu quiser.

Não fosse por isso, por que caralhos eu manteria este blog depois de tantos anos? É difícil achar um tema sobre o qual eu não tenha escrito uma besteira qualquer. Acho que já escrevi mais sobre pinto pequeno que a Marta Suplicy — com uma leve diferença de enfoque, é claro. Não acho que tenha mais nada de relevante para dizer sobre qualquer coisa. E ainda que tivesse, foi escrevendo coisas relevantes que eu sempre ganhei a vida, ou achei que ganhava enquanto ela ria e se referia a mim à Providência como “aquele otário”. Eu já escrevo demais. Repetir tudo isso num blog deve ser um saco. Ter um blog, portanto, só serve se a gente puder falar as bobagens que quiser.

(A propósito, caralho é uma palavra que eu tento evitar, sempre. Acho que fica feio para mim, um rapaz de tão boa família, cuja ascendência mistura nobres franceses e escravos africanos, ser visto assim, cheio de caralhos na boca. Por isso que quando dou uma topada, ou esbarro nas coisas como vivo esbarrando, ou derrubo copos em mesa de bar, eu tento gritar: “Boceta!”. Sabe como é. Acho mais masculino.)

Por tudo isso é fundamental que aqui eu possa escrever puta, e esse é um direito do qual não posso abrir mão. Puta puta puta puta puta. Puta é um nome de que eu gosto, assim, de graça. Acho sonoro, rico, o U amacia a boca enquanto sai correndo mundo afora a 340 metros por segundo. É por isso que quando falo “puta que pariu” me demoro tanto no U: puuuuuuuta que pariu. Às vezes até dispenso o “que pariu”, e deixo que as pessoas presumam o que vem depois. O que importa é a puta, sempre.

(É diferente do porra, entende? No porra o que fica são os RR: “Porrrrrr (e então vem uma pausa imperceptível em que o R se revolve sobre si mesmo, e rasca a garganta como se estivesse se preparando para o apocalipse, mais ou menos como buquê de vinho na taça) — ra”. Mas deixe para lá, esquece isso. São as filigranas da boca suja, não é nada muito interessante.)

Obviamente, sei que talvez parecesse mais respeitável se eu escrevesse “prostituta”. Mas, com toda a sinceridade que posso encontrar neste pobre corpo combalido e preguiçoso, acho prostituta um nome horroroso, pernóstico se falado ou se escrito — a não ser quando alguém pronuncia “protistuta“, aí eu acho engraçado; fora isso prostituta é nome feio, uma combinação infeliz de sons. Fale alto agora, “prostituta”, e veja como soa feio. É antipático. E eu posso ser arrogante, metido e meio descompensado, mas antipático, nunca.

Mas puta, não. Puta é simples, leve, bonito. É também mais abrangente, porque prostituta é só aquela que dá por dinheiro, enquanto puta pode ser qualquer uma — “aquela puta”, por exemplo, pode muito bem ser a vagabunda que não deu para mim, ou a piranha que me deu um tranco no supermercado e não pediu desculpas. Puta, basicamente, é qualquer mulher de quem eu não goste. Devia estar no Houaiss: Puta (s.f): Qualquer mulher com cujos cornos Rafael não vá.” Puta é puro Bauhaus, é minimalista, e acima de tudo é um grande deus ex-machina — quando não resta mais nada a dizer, quando não há solução, é só soltar um “puta que pariu” incisivo que pelo menos uma parte da tensão se vai, você fica com a impressão de ter feito o que podia fazer.

É por isso que cortar a minha boca suja é uma injustiça comigo, porque é só aqui que eu deixo a coisa correr solta. Eu normalmente sou tão sério que não envergonho ninguém, só a mim mesmo, porque não falo o que penso e me conformo com um pensamento singelo: “Vou falar o que penso sobre isso no meu blog”, uma espécie de esprit d’escalier ainda mais vagabundo.

Então, se eu não posso escrever puta neste bloguinho de que eu gosto tanto e que minha mãe lê todo dia, o que vou fazer da vida? Me deixe cá com minhas putas e meus caralhos, é um precinho pequeno que minha credibilidade e respeitabilidade de homem sério têm que pagar para que eu possa dormir um pouquinho melhor à noite. A felicidade me custa tão pouco.

13 thoughts on “Post para uma amiga que não me entende

  1. Tem certeza que é um homem sério?
    Então,tá.
    Isso é coisa de mãe, né?
    Eu sei como é. Afinal, ela é sua leitora.
    Minha mãe vive falando que sou a cara de Angelina Jolie.
    Olha a situação: tenho 1,56, peso 85 e o meu cabelo é louro.
    Só mãe mesmo.

  2. tem gente que não tem mais o que fazer mesmo. pô, encarnar com o cara porque fez uma referência a “puta” em época de eleição? benzodeus, rafael, impressionante como tem gente que gosta de fazer patrulhamento politicamente correto pelos motivos errados…

    daqui a pouco vão fundar uma associação dos portadores de nanopauzismo e te processar.

  3. Rafael, meu velho, desculpe-me, mas em relação à buceta, discordo de você.

    Os porquês eu explico nestes rabiscos aqui, ó. Maestro, nossos comerciais, por favor.

    ingresia.opensadorselvagem.org/cada-um-escreve-sobre-e-do-modo-que-gosta

  4. po .. eu ia comentar, mas aí a lorena falou q a mãe dela a diz parecida com a Jolie
    ora, acredito piamente em mães, afinal a minha afiança minha beleza a anos ….
    assim, lorena, vai la no meu blog, me dá um alo, deixa o telefone ou msn … vamos nos conhecer
    rafael, te mando os convites daqui uns tempos tá
    beijão pra todos

  5. “(A propósito, caralho é uma palavra que eu tento evitar, sempre. Acho que fica feio para mim…” “… eu tento gritar: “Boceta!”. Sabe como é. Acho mais masculino.)”

    Bem, acho que na real, quando alguém bate com o dedo mínimo do pé beeeeeeeeeeeeeem no cantinho da mesa, GERALMENTE o ódio faz com que se pronuncie aquilo que o traz maior repugnância, como que o comparasse ao desgraçado léxico que pronunciara.

    Por isso, se vc grita “bOceta” (… vide post acima do acima…), deve realmente está acontecendo algo de estranho no reino da Dinamarca… Sugiro consulta ao analista para explicar a teoria que te dei, porque acho que isso rende um post dos melhores!

  6. Concordo plenamente!
    “Prostituta” é a mesma puta, só que com um certo ar blasé…

  7. Alexandre,
    Vou visitar seu blog, pode apostar.
    Quanto ao tel e msn…
    Bemmmmm… eu acho que o Brad não ia gostar.
    Beijinhos

  8. “Puta, basicamente, é qualquer mulher de quem eu não goste.”
    Tem certeza? Reflita…

  9. Galvão, eu ainda não li o post que gerou este, mas posso dizer, sem medo, que o tempo passa e vc continua ótimo. Que bom! 🙂

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