Novamente o cinema brasileiro

A lista de 10 melhores filmes de Moniz Vianna publicada pelo André Setaro, crítico baiano de cinema, me fez perceber uma coisa: Moniz Vianna, assim como eu e o Bia, também não via lá grandes coisas em “Limite”, de Mário Peixoto Humberto Mauro.

Aproveitei para passar os olhos nos comentários ao post dos 25 melhores filmes por mim e pelo Bia, e uma coisa me impressionou, acima de todas as outras: a seriedade e a bile com que um bocado de gente comentou sobre o cinema brasileiro. Para muitos, o fato de eu ou o Bia não gostarmos de um ou outro filme é considerado uma ofensa grave que merece uma resposta malcriada à altura. Se eu tivesse xingado suas genitoras, aquelas senhoras de libada reputação, provavelmente não teria recebido respostas tão irritadas.

Mas vamos ser francos: o cinema brasileiro é inferior a outras cinematografias, como a americana. Sempre foi. 90% dos filmes incluídos nas listas de filmes brasileiros jamais conseguiriam entrar numa lista universal, que abrangesse cinematografias mais maduras como a americana, a italiana e a francesa. A gente já olha para os filmes brasileiros com um pedido de desculpas e uma mãozinha condescendente na cabeça.

No início do século, quando o cinema iraniano entrou na moda, eu ficava impressionado como as pessoas tomavam o “choque” causado pelo contato com uma cultura diferente por sinônimo de qualidade cinematográfica. O cinema iraniano então adquiriu um status maior que o merecido. Não que fosse ruim; mas os critérios que baseavam esse entusiasmo eram basicamente sociológicos, não cinematográficos.

De certa forma, acontece o mesmo com o cinema brasileiro. O critério que normalmente se usa para julgá-lo é subjetivo e condescendente. Um olhar que se esforce para ser objetivo vai ver um bocado de falhas em absolutamente todos os filmes brasileiros. “O Cangaceiro”, por exemplo, tem diálogos que parecem tirados de um poeta barroco ruim. “Cidade de Deus” tem uma narração em off que beira o amadorismo. A lista pode seguir ad infinitum.

Eu sempre achei que país pobre tem a tendência a estabelecer uma espécie de estética da pobreza. É praticamente uma questão de sobrevivência, e absolutamente louvável. Mas assim que o país sai do barraco e se muda para um dois quartos na Barata Ribeiro esquece isso; basta ver a evolução estética de um Visconti, por exemplo. Isso, no entanto, aconteceu conosco em aparentemente muito menor medida. E continuamos a sobrevalorizar em excesso aspectos que são importantes, mas que não são únicos e que, do ponto de vista da produção em si, não são sequer essenciais.

Sob esse aspecto, a ideologia cinemanovista de “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão” — que não define o Cinema Novo, claro, mas que acabou se tornando a égide sob a qual o movimento se desenvolveu — foi uma das coisas mais deletérias que poderiam ter acontecido ao cinema brasileiro. A idéia de que cinema tecnicamente bem feito era uma coisa burguesa e dispensável era, desde o início, perniciosa. “Terra em Transe” é o melhor filme brasileiro, como acham alguns? Pode até ser. Mas que ninguém venha me dizer que o filme não se beneficiaria de uma produção mais esmerada. Locações. Cenários. Figurinos. Sonoplastia. Nada disso é supérfluo. Uma coisa é fazer Dogville em um cenário inexistente para defender um conceito; outra é enfiar um país inteiro, ainda que metaforicamente, em uma casa porque não se tem dinheiro para recriá-lo.

Também seria importante lembrar a decadência técnica do cinema brasileiro a partir dos anos 60. O Cinema Novo foi conseqüência e, de certa forma e em menor grau, causa dessa decadência. Mas cinema não é literatura e não é teatro. Precisa, sim, de certas condições de produção. O Cinema Novo e outros subverteram esse preceito por necessidade, porque ignorá-lo era a única maneira de se fazer cinema nas condições impostas. Mas ao teorizar sobre isso, numa tentativa talvez necessária de legitimação, criou uma certa escola de pensamento que é, definitivamente, um passo atrás. O cinema tradicional americano sempre deu o valor devido a esses critérios de produção (e em temos de indigência criativa tenta transformá-lo no único valor válido, uma espécie de inversão dos valores do Cinema Novo e igualmente nociva), e a indústria que criou, apesar dos bichos-grilos que ficam procurando um filme obscuro da Chechênia para aclamar como a nova obra-prima da sétima arte, continua fazendo na média o melhor cinema do planeta.

***

E tem os comentários sobre a lista propriamente ditos.

Acima de tudo, eu e o Bia tentamos ficar o mais longe possível daquelas “listas cabeça” que sempre foram o mainstream do cinema brasileiro. A razão é simples: essa mentalidade, conjugada à ação da Embrafilme, arruinou o nosso cinema. Tornaram-no coisa de certa elite cultural dirigida a si mesma, utilizando seus próprios códigos e conceitos, e cinema não pode existir dessa forma; acima de tudo, precisa ser popular. Porque é indústria e precisa de dinheiro para ser feito, e esse dinheiro só aparece se houver público. Os fãs do Cinema Novo que me perdoem, mas “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” fizeram mais pela indústria cinematográfica brasileira do que dois Glaubers, sete Sganzerlas e quatro Reichenbachs juntos.

Muita gente lembrou de bons filmes que não entraram na lista, por uma ou outra razão. “Eles Não Usam Black-Tie”, “O Homem da Capa Preta”, os filmes do Person, etc. Tem o Andrea Tonacci de quem tanta gente lembra e sobre quem confesso a minha total ignorância. Uma lista não pode contemplar todos os filmes, claro, e tenta buscar uma média aceitável. Elas são feitas para isso mesmo, para excluir.

Mas entre os bons filmes brasileiros não estão incluídos, por exemplo, “Carlota Joaquina”. Me desculpem, mas “Carlota Joaquina” é um filme horrível, muito inferior ao seu roteiro — que já não é exatamente genial. Seu valor é meramente histórico; e ainda assim pode-se argumentar que vale menos que o chatíssimo “O Quatrilho”, que ao concorrer ao Oscar representou para o cinema brasileiro o que a Copa de 1938 foi para o nosso futebol.

“Auto da Compadecida” não é um grande filme. É acima de tudo uma grande peça de teatro, que deu origem a uma grande minissérie de TV. O filme é pouco mais que uma versão resumida, sem toda a força do que foi ao ar na TV. Já “Olga” é apenas TV filmada, nada mais que isso — o que vale para praticamente todos os filmes feitos por diretores egressos da TV. Cinema e televisão têm linguagens diferentes, e aquela não era uma lista de ficção para TV — se fosse, eu incluiria “Hoje é Dia de Maria”, mais inventiva que esses dois exemplos aí.

E tem também o pessoal que sentiu falta da pornochanchada.

Pessoalmente, tenho um grande apego à pornochanchada. É um apego quase tão grande quanto o do Ina. A pornochanchada é, para mim, o melhor retrato dos anos 70. Eu consigo me enxergar nesses filmes — é o único momento em que consigo ver imagens em movimento de uma época que, afinal de contas, eu vivi. Em “Essa Gostosa Brincadeira a Dois”, por exemplo, eu não apenas revejo uma Bahia e um tempo que não existem mais; eu sei também a quem pertencia um dos carros usados ali.

Além disso, a pornochanchada atingia o que deveria ser o objetivo básico de qualquer filme: ser visto. A dicotomia que se criou na época entre “cinema de qualidade” e “cinema comercial” foi ruim e desnecessária. Mas acima de tudo acho que a pornochanchada é a melhor herdeira do espírito das chanchadas, que foram tão esculhambadas em seu tempo e posteriormente adquiriram status de quase arte — o enfoque em um aspecto fundamental da alma brasileira, a brejeirice, a cordialidade mal-entendida de Sérgio Buarque de Holanda. Sob esse ponto de vista, é um cinema mais brasileiro do que muita coisa que se fez por aí — “O Quatrilho”, por exemplo, poderia ser ambientado em absolutamente qualquer lugar do mundo sem nenhum prejuízo de sua estrutura narrativa.

Mas infelizmente não há uma única pornochanchada que possa ser considerada bom cinema, se formos avaliar todos os critérios necessários. Talvez alguns deles, se refilmados hoje, dessem filmes razoáveis. Mas dificilmente resultariam em obras primas.

O Jurandir lembrou de “Oh! Rebuceteio”. É uma grande lembrança. Eu já tinha escrito sobre o filme, mas acima de tudo, não o considero um filme pornô. No máximo, é uma “meta-pornochanchada”, se esse termo existe. Eu gosto. Mas eu, como o Bia, gosto de umas coisinhas bem esquisitas. E nem por isso tento convencer as pessoas de que elas são grande sobras de arte.

12 thoughts on “Novamente o cinema brasileiro

  1. Perfeito o post, Rafael. Conheço o cinema brasileiro menos do que gostaria, mas vou conhecendo-o pouco a pouco. Entretanto, suas colocações sobre o esmero técnico, a necessidade de um maior capricho em certas coisas consideradas secundárias por aqui, são perfeitas, e apropriadas. A questão da necessidade de filmes populares também.

    Às vezes, quando me pego pensando em como seria se eu fosse cineasta, penso em abrir mão de arroubos pessoais e estéticos para fazer filmes de qualidade, mas populares, que todos gostassem de assistir sem deixar de ser bom cinema… O problema é que acabamos entrando num ciclo vicioso, mesmo: como não há estúdios nem investimento, os filmes brasileiros acabam sendo empreitadas pessoais dos corajosos que se dispõem a fazê-los. E, como esses filmes não têm respaldo das salas de exibição, nem da mídia, nem do público, não fazem sucesso, e a indústria continua minguada…

    Felizmente, com a O2, os irmãos Gullane e a maior visibilidade do cinema nacional nos últimos tempos, assim como o sucesso que as produções do nosso único “grande estúdio” (a Globo Filmes) vem fazendo, a indústria do cinema nacional tende a crescer, e possibilitar assim um crescimento não só econômico e de público, mas também técnico, estético e artístico.

  2. Nao perca seu tempo Rafa, a internet é uma antro de má educação misturada num caldeirão de pouca reflexão e impulsividade desnecessária.

    Infelizmente este meio tão democratico tem numa das suas falhas dar voz a qualquer um falar o pensa… quando deveria guardar seus pensamentos para o proprio e aprender a calar-se até refletir bastante sobre o que pensa ou deixa de pensar.

  3. Ótimo texto, cara.

    E o Walter Hugo Khouri? Fiquei o tempo todo esperando você falar dele e no final não apareceu nada.

  4. @Fred

    Esqueci do Khoury. O problema é que eu conheço pouco ou nada dos filmes dele nos anos 60, quando ele fez oque consideram seus filmes mais importantes.

    De modo geral, eu penso nele como penso na pornochanchada. Eu gosto, mas tenho reservas quanto à sua qualidade real. De qualquer forma, é de um filme seu o meu lema de adolescência: “Io se non chiavo non mi diverto”, dito por Marcelo, protagosnista de “Eu”.

    Bons tempos, aqueles.

  5. O LImite explora o limite da paciência do espectador. Dava um curta bancana, de uns quatro minutos. E olha que gosto de Antonioni.

    Rafael, estás sendo muito severo. Dia desses vi na TV “Bonga, O vagabundo”, do renato Aragão. Não sei por que não o colocou na lista.

    Agora, sem sacanagem, e Casa de Areia? É um filme original, interessantíssimo. Mesmo com todos os .erros de filmagem:

  6. Rafael:

    Tudo o que você falou é a mais pura verdade e faço apenas uma ressalva.

    Apesar da locução em off ser um baita defeito, para um filme tão bom, (o único que presta nos últimos 40 anos) Cidade de Deus, nunca foi nem nunca será, julgado com condescendência. Esse filme é sempre julgado pelos mais altos padrões do cinema internacional e, na maior parte das vezes, é apontado como um dos melhores do mundo, mesmo por críticos bem ranzinzas que acham bonito não gostar de nada.

    Cidade de Deus é a redenção do nosso cinema. Ele veio nos salvar desta pobreza, incompetência, malversação de recursos e prepotência de cineastas brasileiros.

    O resto, como você ja disse tão bem, ou é lixo, ou é médio.

  7. justo!
    :^)
    mas engraçada meeeesmo estava a caixa de comentários do pedro dória, gente IN-CON-FOR-MA-DA de ele ter achado a lista boa!
    ;^)
    aquela caixa sim, merecia um post-conjunto resposta!
    :^*

  8. ” A gente já olha para os filmes brasileiros com um pedido de desculpas e uma mãozinha condescendente na cabeça.”
    Adoro suas críticas de cinema, por pensamentos como esse.
    Cidade de Deus é um dos poucos nacionais que não precisa de mão na cabeça.
    beijos

  9. Eu acho esse negócio de os melhores filmes, os melhores livros, as melhores peças de teatro, etc. uma coisa meio esquisita. Penso que cada um tem os seus melhores, assim como cada um tem a sua inflação pessoal, os seus gostos e preferencias pessoais. Se alguém escolheu como melhor filme para ele os filmes do Renato Aragão ou do Mazzaropi, acho que é isso aí, que fique assim. Afinal, acho que é como aquela piada sobre o papa: per che mi piacce! (sic?)

  10. Muito se fala da influência da publicidade e da estética publicitária no cinema atual. O que vc, como publicitário, acha desse conceito/estética? Até que ponto a comparação é válida. Até que ponto ela é benéfica/nociva ao cinema?
    Abs.

  11. O post é antigo e provavelmente ninguém vai ler meu comentário, mas eu tinha que registrar minha opinião: genial esse texto. Expressa exatamente tudo que eu sempre pensei sobre o cinema nacional e nunca consegui falar com palavras sufucientemente competentes.

    Do caralho.

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