Quando o Vaticano corrige as excomunhões alheias

Talvez a Igreja Católica tenha salvação ainda.

O Vaticano condenou a atitude do arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho ao anunciar a excomunhão dos médicos que fizeram um aborto em uma criança de 9 anos estuprada pelo padrasto.

Deve ter sido um golpe e tanto para os tantos prosélitos descerebrados que apoiaram, de uma maneira ou outra, a posição do arcebispo. A própria CNBB já tinha tirado o corpo fora, dizendo que não tinha havido excomunhão. Os anencéfalos provavelmente diriam que isso era coisa daqueles “comunistas” da CNBB, como se a CNBB fosse uma sombra do que já foi nos tempos da ditadura.

Mas agora é o Vaticano quem diz, em outras palavras, que não concorda com a gigantesca cagada de Dom José Cardoso Sobrinho.

A atitude do Vaticano, que não tem se notabilizado nas últimas muitas décadas por posições exatamente progressistas, é mais digna do que a de muitos prosélitos da Igreja católica. É humana, pelo menos; é decente e, se mesmo decência for pedir demais, é ao menos sensata.

O que o Vaticano fez foi exatamente aquilo de que os tantos fiéis que apoiaram a decisão canalha do arcebispo se eximiram de fazer: pensar um pouco e ver a desumanidade e a impropriedade política daquela decisão.

Eu gostaria de ver o que aqueles que defenderam tanto o padre tacanho de Recife, pensando — ou não pensando, o que é pior — que defendiam a instituição católica, vão dizer agora. Deve ser duro ser mais realista que o rei e, de repente, ver que nem mesmo o rei acredita nas bobagens que eles falam.

Mais que qualquer outra coisa, a posição do Vaticano deveria servir de deixa para que aquele bando de gente, que por causa de sua fé e de sua burrice compactuou com uma das decisões mais infelizes da história recente da Igreja Católica no Brasil, repense seus conceitos de vida e suas atitudes.

Seria também útil que isso os fizesse retomar seus estudos de teologia. Em todos os lugares, e até mesmo aqui neste blog, os descerebrados e desalmados fizeram questão de lembrar que o arcebispo não tinha exocmungado ninguém, apenas anunciado o fato, uma espécie de milagre divino às avessas. Agora o Vaticano diz que não houve excomunhão. Se não houve, então a danda não é automática. Afinal de contas, o que aconteceu?

Mas algo me diz que os descerebrados vão continuar sem cérebro, e os desalmados, sem alma. Que caia o pano da decência sobre os conflitos internos da Igreja Católica. Mas, antes que ele cubra completamente a imoralidade da excomunhão anunciada por Dom José Cardoso Sobrinho, que fique aqui um leve comentário sobre esses conflitos.

A foto ao lado foi tirada em novembro de 2005, numa igreja no Saara, Rio de Janeiro — acho que a Nossa Senhora do terço, não sei. O aviso pregado ali — “Cuidado com as bolsas” — mostra bem as lutas intestinas da Igreja. De um lado, os honestos; do outro, o resto. Como vítima da sanha cleptomaníaca da Igreja — João Paulo II me roubou 30 mil liras no Vaticano, alguns anos atrás –, eu sei o risco que correm as pobres almas e suas bolsas nas auto-proclamadas “casas de Deus”. Mas essa pequena placa, assim como o anúncio do Vaticano colocando Dom José Cardoso Sobrinho em seu devido lugar — o reconhecimento público de que a ele está reservado o primeiro nível do nono círculo do inferno –, alivia um pouco os nossos corações ao vermos que na venerável Igreja Católica há gente honesta; e, portanto, há ainda esperança para os discípulos de São Paulo.

13 thoughts on “Quando o Vaticano corrige as excomunhões alheias

  1. pois é rafa
    tinha acabado de ler a noticia quando abri seu post… fiquei tambem feliz de ver que sobram alguns cerebros com alma no vaticano. porque pior do que qualquer coisa , era negar a essa criança não só o direito a vida, pelo risco da gestação, como negar a ela o direito de esquecer a violencia toda q sofreu na sua curtíssima existencia. SE o bom e piedoso deus do padreco recifense desse a ela uma gestaçao saudavel e sem riscos, e ainda assim ela parisse, seria a lembrança pro resto da vida DELA ; nada, nem terapia, nem remedios ou drogas, ou eletrochoque talvez apagaria a lembrnça da violencia, com a qual ela teria que conviver diariamente, entre a cruz de amar os filhos e a espada da memória do que originou esses filhos… em primeiro lugar a vida dela sim! com direito a esquecer e ter uma VIDA dela, segura, com educação, sáude, segurança, e quem sabe, alguma felicidade.

  2. Veio apenas após considerável pressão, Rafa. Penso que isto demonstra que a igreja católica também age politicamente, adotando a sinuosidade típica desta.

    Eu conheço gente honesta que trabalha em instituições religiosas, assim como conheço políticos honestos. E a igreja é isto, é uma instituição maior e mais estranha que o PMDB. A teologia está lá longe, a igreja está aqui, com a GM e a Coca, no time dos contadores, dos lucros e perdas.

    Uma boa missa dominical, Rafa. Esteja com Deus.

  3. Milton e Victor,
    O importante é que a retratação da Igreja veio. A atitude do arcebispo foi um instrumento de pressão política. mas, acima de tudo, foi uma demonstração do que eu considero falência moral. Há um limite para tudo. Vir a público anunciar uma excomunhão (aliás, até agora eu não entendi como é que fica esse negócio) nessa situação apenas para reforçar uma posição política da Igreja é mais que uma imbecilidade, é uma monstruosidade.

    Milton, eu também conheço políticos honestos. Muitos. Mas nem por isso eu vou dizer que o Congresso em si é intrinsecamente honesto. Analogamente, acontece o mesmo com a Igreja.

    É claro que a Igreja tirou o seu da reta, Victor, como a CNBB já tinha tirado. Mas foi importante esse recuo.

    Monique,
    A questão é que cabe aos católicos pensar antes de tentar justificar todo e qualquer ato, ou minimizá-lo, quando as decisões da Igreja vão de encontro à piedade humana. Só isso. Neste blog, com exceção do Olímpio Evangelista (que ainda não voltou para comentar o anúncio do Vaticano), as reações foram bem comedidas.

  4. A priori penso como o Milton Ribeiro, a igreja agiu tarde, e sob pressão agiu politicamente.
    Porém discordo que agir politicamente, e sob pressão, não seja uma atitude elogiosa.
    Afinal, a igreja atendeu à uma demanda, e do ponto de vista político é muito importante que uma instituição que preserva dogmas, responda positivamente a pressões da sociedade.

  5. A Igreja não pode defender leis da Idade Média e o arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho se comportou como um fantoche – ele não pensa, nunca pensou. Lembra na época do carnaval, o caso das pílulas do dia seguinte? Aquelas asneiras todas também foram ditas por ele.
    Indo mais além neste caso da menina estuprada, ao explicar a não inclusão do estuprador na excomunhão, seu pensamento se nivelou a criminosos estupradores:

    Estupra mas não mata.

  6. clap clap clap…eu me pergunto o que eu diria para o bispo se fosse um dos medicos, mas no pensamento surgiram tantos palavroes que achei melhor ficar quietinha, senao nao vou pro ceu e nos dois combinamos de ir pro ceu disvirtuar aquele monte de anjinho…entao preciso cuidar da minha alma aqui. Assim, nao que eu mereça o ceu, tenho alguns pequenos pecados, coisas bobas — mas incofessaveis — mas eu vou tentar ser boazinha daqui pra frente…pelo menos vou tentar, ja eh um começo.
    Beijos Rafa

  7. Só acho um pouco exagerada a reação contra a excomunhão.

    Alguém aí se importa com isso hoje em dia?

    Imagino se o médico excomungado chegou a ficar triste com a notícia. Será que ele ia à missa? Depois de excomungado não poderá ir mais?

    Excomunhão hoje é quase uma medalha de honra ao mérito. O tal bispo fez foi um elogio ao trabalho dos médicos.

    Tiro que sai pela culatra.

  8. O interessante é que a gente as vezez cai no mesmo erro de condenar… Parece uma coisa justificando a outra. O fato de medir as palavras para se dirigir a alguém já é respeito a vida Rafa.

  9. Infelizmente cheguei até aqui atrasada, com a notícia velha…rs
    No entanto não posso deixar de me por em concordância com o post. Mas será mesmo que ainda há esperança para a Igreja Católica? Eu, por exemplo, tomo a igreja católica como exemplo de vida: se eles condenam algo, certamente discordarei (daí nem preciso mais me dar ao trabalho de pensar, já que as maiores asneiras tem sido proferidas la no Vaticano). Gracejos a parte, toda regra tem sua exceção, e este caso foi uma delas

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