Palavras como medo, vergonha e orgulho

E daí que eu estava escrevendo um texto hoje e me faltou uma palavra.

Isso acontece de vez em quando. A palavra mais simples, mais comum me falta, dela fica apenas uma sombra pálida. Durante alguns segundos eu fico angustiado porque esqueci palavra tão boba; ficaria alguns minutos assim se não fosse a minha preguiça, aquela que me faz procurar logo um sinônimo. Não precisa ser um sinônimo perfeito. Le mot juste que se foda, que Flaubert era um vagabundo que não tinha o que fazer e podia passar dias rolando no chão e espumando pela boca atrás de uma palavra. O que vier para mim está bom.

Então por alguns segundos ela ficou ali, flutuando em algum lugar do éter, mas quando eu olhava para ela a desgraçada desaparecia; parecia um tipo particularmente irritante de mulher, aquelas que jogam charme apenas para depois sair graciosamente de seu alcance. Era uma palavra simples, e sabia que começava com “con”. Con-alguma coisa-ar.

Belial apareceu nessa hora e soprou uma palavra no meu ouvido. O diabo da palavra que me apareceu foi “conjuminar”.

Eu teria vergonha de, algum dia, escrever conjuminar. Não sei nem onde aprendi uma palavra dessas — deve ter sido junto com outras palavras de baixíssimo calão que me ensinaram na rua e que reservo para momentos especiais na vida, como xingar a mãe de alguém de quem eu realmente não goste. Meu repertório de palavrões é particularmente invejável; mas “conjuminar” deve ter sido esquecido porque há limites que eu não ouso ultrapassar.

Não faço idéia do que se passa na cabeça de uma criatura que se sujeita a escrever, em sã consciência e em quaisquer situações, a palavra conjuminar. Preferia inclusive continuar sem saber, porque os grotões da mente humana são escuros e assustadores, são como pequenas caixinhas de Pandora que uma vez abertas espalham a dor, o medo e a vergonha entre os viventes.

Talvez por isso eu sempre tenha tido orgulho de nunca ter escrito essa palavra. Talvez porque eu não tenha lá muitos motivos de orgulho da vida. É olhar para trás e ver um bocado de bobagens, um bocado de coisas erradas que fiz e das quais, se eu tivesse um pouco de vergonha na cara, deveria me arrepender.

Mas até agora eu tinha orgulho de jamais ter escrito ou mesmo conjugado mentalmente a palavra conjuminar. Alguém pode dizer que grandes merdas ter esse orgulho, milhões de brasileiros tampouco escreveram conjuminar alguma vez em suas vidas, e nem por isso vêm se vangloriar disso; que conjuminar é palavra bestial utilizada apenas por advogados e escritores de academias de letras, que orgulho deve ter é quem jamais mandou alguém se foder, porque resistir a essa tentação é tão mais difícil quanto mais os anos passam. Mas cada um tem os orgulhos que pode ter, bobos ou não, e eu tinha orgulho de nunca ter escrito conjuminar.

Mais que orgulho, mais que vergonha, eu tinha medo. Porque lá no fundo sempre tive a certeza irracional de que, se escrevesse essa palavra maldita, se sequer pensasse nessa palavra hedionda e tenebrosa, a minha decadência se aceleraria e um dia, diante de uma neguinha organizadinha que passasse balançando as ancas por mim, eu arranjaria minha melhor cara de pau, meu melhor sorriso e diria a ela “Bora ali, fia, conjuminar nossos corpos”, e então não haveria mais volta possível.

Esse orgulho que me sustentou durante tanto tempo começa a morrer hoje, porque eu pensei nessa palavra, ousei pensar em vocábulo tão chulo que envergonharia até o marinheiro mais baixo, e agora o inferno está aberto para mim.

20 thoughts on “Palavras como medo, vergonha e orgulho

  1. Graças à conjuminância de parcas e débeis sinapses neuronais logrei assimilar o sentido de tão espúrio e nebuloso termo, o qual temerariamente catalogo com a mesma tenebrosidade de defenestração.
    Oh, lácio e inesgotável manancial, quem dera dominá-lo!

  2. conjuminar era coisa que eu usava na adolescência. Parecia uma contravenção linguística, isso de “conjuminar”. Mas eu fui adolescente no século passado, então pode ser que hoje conjuminar seja alguma outra coisa, mais chic e/ou escatológica. A história se repete como farsa, dizem. Minha adolescência não. Nem como farsa. Pena.

  3. Rafa,

    Devo cojuminar com esse teu sentimento. Morando em um país com uma língua de raíz latina, com muitos termos e expressões parecidos, acabo perdendo o meu já escasso vocabulário português. Portanto, conjumino ainda mais e cheguei ao inferno antes. Pode vir, é quentinho.

  4. hahahaha
    Muito bom!
    O significado da palavra é bem interessante(conjuminar: reunir-se num só conjunto; unir-se; ligar-se; ou ainda combinar-se; misturar-se, etc). Mas concordo que ela não tenha uma boa sonoridade…haha

  5. Você ia bem até falar em advogados.
    Isso, com certeza, não conjuminou.
    Mas cá pra nóis, eu falava muito isso quando tinha fumaça demais na mente, ou seja, é coisa de doido, e não de estróinas,
    Abrasssss

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