Sítio do Picapau Amarelo

Uns anos atrás surgiu uma dessas polêmicas que adquirem mais importância graças à caixa de ressonância das redes sociais. Um professor tentou proibir a reedição de “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, por causa do conteúdo racista que ele colocava na boca da Emília; mais tarde, o Conselho Nacional de Educação desaconselhou o seu uso nas escolas, a não ser que fosse “acompanhado de explicações sobre o seu conteúdo” — o que, cá para nós, equivale a uma proibição de fato: é esperar muito da maioria dos professores deste país que eles discutam algo um pouco mais profundamente.

Na quiproquó que se seguiu, o mais chato foram os argumentos ad hominem. Cartas pessoais de Lobato, em que ele defendia a eugenia, apareceram na mídia. É um fenômeno antigo, mas que tem se agravado em tempos de redes sociais e de matérias como “Caetano estaciona no Leblon”: toda obra literária é necessariamente o retrato cuspido e escarrado do homem. Lobato era racista, o que ninguém jamais pensaria em negar; logo, sua obra deveria ser proibida. Infeliz ou felizmente, seus livros eram muito maiores que o racismo, e é justamente isso que faz dele um grande escritor. Da mesma forma, o conservadoríssimo Honoré de Balzac conseguiu gravar um retrato absoluto da França na primeira metade do século XIX, bom a ponto de um tal de Karl Marx (ou Engels? Eu não lembro) dizer que aprendeu mais sobre a França da primeira metade do século XIX que nos livros de história. Por isso, o mesmo sujeito que colocava nos lábios de Dona Benta afirmações justas sobre o respeito às pessoas e ao conhecimento passou a ser julgado unicamente pelas referências irritadas e canalhas da Emília aos “beiços da tia Nastácia”.

Não escrevi sobre isso na época; deveria ter escrito. Porque eu fui criado com Monteiro Lobato. Primeiro com o seriado da Globo e da TV Cultura, depois com os livros do Sítio do Picapau Amarelo, aquelas edições ainda com as ilustrações de André Le Blanc.

É possível que eu não tenha escrito sobre isso, numa época em que este blog ainda podia ser considerado ativo, porque não queria me ocupar com as discussões que se seguiriam, ou mesmo eventuais acusações de racismo que iriam aparecer. Então eu teria que responder que dificilmente sou racista — ultimamente é difícil dizer cabalmente que não se é racista a não ser que você se mostre disposto a se enquadrar num discurso específico, com termos ainda mais específicos, então eu acharia mais prudente deixar espaço para a dúvida e tascaria o “dificilmente” redentor, e se necessário faria um daqueles mea culpas hipócritas que nos dias de hoje fazem as vezes da autocrítica soviética da época do grande camarada.

Mas em minha defesa, caso se chegasse ao veredito de que eu sou racista-mas-racista-mesmo, eu poderia dizer que não foi o Sítio que me fez assim, não foi o Sítio que nunca me tratou com amor (eu e a Kátia Cega queríamos ser como uma criança, cheias de esperança e felizes). Ao contrário, com ele aprendi a respeitar os talentos da Tia Nastácia, e a sabedoria popular do tio Barnabé. Com Dona Benta, por sua vez, aprendi a importância da racionalidade e do bom senso. Com a própria Emília, mais do que os comentários disparatados de sempre, alguns dos quais nitidamente racistas, aprendi que era bom manter a minha curiosidade acerca do mundo que me rodeava, e que era bom questionar o estabelecido. Eu só não aprendi porra nenhuma com o Quindim. Mas acho que ninguém aprendeu.

O que me fez racista foi o rebolar da neguinha de carne dura andando por uma quebrada da Federação, ah, danada, ela deslizava pela rua, ereta, os seios apontando para a torre da TV Aratu, e ela caminhava orgulhosa, sem dar nem tchuns aos bestas que tentavam controlar a saliva que lhes escorria pela boca, pelo queixo, que molhava o seu olhar assombrado; foi aquele rebolar que me fez usar esses termos racistas-mas-racistas-mesmo. Peço perdão por isso.

Para mim, diante de uma escolha entre o valor cultural e didático dos livros do Sítio e as posturas racistas da Emília, que eu posso identificar (ao contrário dos pobres alunos que não parecem ter a quem recorrer), não há escolha possível. Sem falar, claro, na estupidez que é proibir qualquer livro — seja “Caçadas de Pedrinho”, Mein Kampf ou a Bíblia.

O problema é que acho muito improvável que um livro pudesse transformar uma pessoa em racista. Ainda menos os livros de Lobato, escritos nos anos 30. O conteúdo que hoje salta aos olhos como racista era moeda corrente em sua época; estava dentro da normalidade de seu tempo, e por essa razão tudo isso que hoje incomoda mesmo a quem, como eu, normalmente estranha os termos utilizados, simplesmente passava batido, assim como “preto de alma branca” parecia elogio 40 anos atrás.

Acima de tudo, a estupidez de sequer pensar em deixar de oferecer a crianças e adolescentes o universo de Monteiro Lobato porque simplesmente não se quer discutir em sala de aula a questão do racismo, ir além de um “racismo ruim, tolerância bom” orwelliano, nem colocar as declarações da Emília em perspectiva histórica — o que em si representa uma chance rara de mostrar a maneira muitas vezes imperceptível como o preconceito pode ser normal em um tempo e inaceitável em outro —, é mais uma prova não apenas do desprezo como se vê a capacidade de percepção e compreensão das crianças, mas principalmente da falência do sistema educacional brasileiro. (A outra sou eu, mas isso é assunto para outra hora.)

Muito mais que isso, mais do que essa discussão que apenas reflete um tempo em que o obscurantismo parece estar se tornando um valor universal, me dói saber que catorze contos ou novelas do Sítio só foram publicados na Argentina e permanecem inéditos no Brasil, dos quais um é um tal “Ciência do Visconde” — de três outros ninguém sabe sequer o nome. Em vez de polêmicas vazias, a academia bem que podia tentar encontrar essas histórias nas bibliotecas hermanas. Faria mais bem à cultura nacional do que com essas discussões estéreis. E os senhores acadêmicos dariam mais sentido ao tempo que gastam na universidade e aos salários que recebem.

Mas eu sou um otimista, e a cada dia tenho mais certeza dessa característica antes insuspeita em mim. Não gosto dos exageros dos tempos atuais, mas acredito que do choque de concepções que dão as tônicas destes tempos, que dou a sorte de presenciar, vai surgir uma síntese que expurgue esses exageros e absorva os novos valores sem precisar obliterar absolutamente o passado, nem abdicar completamente da inteligência.

Pensando melhor, não; “acreditar” é demais. Então me deixe substituir esse verbo por “esperar”. Confiar e esperar, pedia o Conde de Monte Cristo quando eu era pequeno.

***

Mas no fundo o problema talvez seja outro. Deixa eu admitir: o problema todo é que o Sítio é um assunto pessoal para mim.

A partir de 1977, e principalmente em 1978, o Sítio do Picapau Amarelo foi parte do cotidiano de todos nós — do meu, ao menos. Os fins de tarde, depois que tínhamos amealhado os cortes, hematomas e arranhões do dia, tinham que ser passados diante da TV, assistindo às aventuras do Pedrinho, Narizinho e Emília.

Há uns poucos anos encontrei no YouTube o primeiro capítulo do Sítio. Fiquei impressionado com a sua qualidade didática, com a modernidade (para sua época) de um produto que conseguia juntar muito bem educação e entretenimento. Mas para ser objetivo, seu maior mérito foi dirimir uma antiga dúvida minha: durante quase 40 anos achei que não tinha visto o primeiro capítulo. Na verdade, vi; mas em vez de assistir a ele no dia da estreia, à tarde, quando provavelmente estava na escola, vi a reprise na manhã seguinte. É graças a isso que sei exatamente onde eu estava na manhã do dia 8 de março de 1977: em casa, assistindo ao Sítio do Picapau Amarelo.

Estranhei, em 1978, a mudança da Emília; Dirce Migliaccio saiu e foi substituída por Reny de Oliveira. Eu não gostava de mudanças assim. Hoje, olhando para trás, Reny era “a” Emília, ela só não tinha entrado ainda no Sítio. E foi justamente naquele ano que o Sítio deu um salto enorme de qualidade. Imagino que a experiência acumulada no ano anterior tenha possibilitado um avanço enorme. O resultado foram grandes episódios, como “O Minotauro”, hoje disponível no YouTube, e “Os Piratas do Capitão Gancho”.

Dando uma olhada na lista de episódios do Sítio do Picapau Amarelo, percebo que para mim ele vinha perdendo a graça já a partir de 1979. “Davi e Golias” foi uma das coisas mais chatas a que eu assisti, com Jonas Bloch fazendo um pobre Davi sofredor. Provavelmente não eram roteiros ruins; talvez fosse eu que estava crescendo.

Para mim o Sítio acabou quando Júlio César, que fazia o papel de Pedrinho, e Rosana Garcia, a Narizinho, foram substituídos porque haviam crescido demais, estavam velhos demais, no final de 1980. Acabava ali um pedaço importante da minha infância; outros iriam acabar nos poucos anos seguintes.

(É engraçado assistir aos episódios hoje. Rosana Garcia era uma atriz medíocre, mas Júlio César é impressionante em sua naturalidade. Era um ator nato que infelizmente desistiu da carreira.)

(N. do A.: Parei agora para tentar entender as minhas paixões. Eu era apaixonado simultaneamente pela Rosana Garcia, pela Lynda Carter [que fazia a Mulher Maravilha], pela Paula Saldanha e por uma menina que fazia um comercial dos biscoitos Tupy com uma versão de “Ciranda, Cirandinha”. Eu tinha 6, 8 anos. Rapaz, eu tinha problemas.)

5 thoughts on “Sítio do Picapau Amarelo

  1. Quantos da nossa geração não fomos apaixonados pela Paula Saldanha? Ela esteve na minha cidade (Petrópolis-RJ) autografando um livro em 1980. Eu olhava pra ela embasbacado, com olhar de peixe morto, segundo a minha irmã, que gostava de implicar. Ah, sim, essa Emília, a Reny de Oliveira, posou pra Playboy. Bem gostosa! Recebeu altas homenagens da minha mão direita…

  2. Julio Cesar não abandonou a profissão, foi abandonado por ela. Apesar de também o considerá-lo melhor, Rosana teve uma carreira mais longa e continua na Globo.

  3. Rafael, seu post está perfeito e só vou acrescentar uma observação para ressaltar a questão da perspectiva histórica que você cita.

    É claro que o Sítio do Pica Pau Amarelo era racista, assim com o era Os Trapalhões, o Mussum que o diga. A questão é que se deve observar o contexto do período em que isso acontece e como esse racismo era percebido na época. O Brasil sempre foi sempre muito racista, a questão é que em vez de usar a violência neste racismo, como acontece nos EUA, aqui se usa o escarnio e a humilhação, que, sem dúvida, também é bastante nocivo para quem é o alvo. O que se deveria analisar é que tanto na época do Sítio, quanto dos Trapalhões, havia uma forma de aceitação de colocações racistas em obras artísticas e que criavam uma certa normalidade neste racismo, coisa que seria até constrangedora se fosse utilizada nos dias de hoje. E olhe que esse escarnio e humilhação não se limitava, nos Trapalhões por exemplo, aos pretos, mas também aos nordestinos (Didi); aos bonitinhos de opção sexual duvidosa (Dede); aos carecas efeminados e infantilizados (Zacarias); e por aí vai.
    Coisas de uma época de percepções diferentes das de hoje e se isso ajudou a criar novos racistas eu digo que é possível, ainda mais se a pessoa já vivia em um ambiente em que se propiciava essa visão do mundo, entretanto, se a pessoa vivia, como eu, em escolas publicas, rodas de capoeira, grupos de música, pelada na rua, etc., é mais provável que não tenha sido afetada no que tange a racismo pelo bucólico O Sítio do Pica Pau Amarelo. As obras criadas em um determinado período não deveriam ser, na atualidade, julgadas e rechaçadas sem uma visão mais ampla dos fatos .
    Pena que os “tolerantes” se recusam a raciocinar.
    Não há nada pior que a ditadura e intolerância dos “tolerantes”.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *