Tokusatsus

E daí que eu passei a tarde assistindo a tokusatsus. Escrevo tokusatsu com gosto, porque tokusatsu é palavra que aprendi hoje: tokusatsu, tokusatsu, e me esforço em pronunciar a palavra estranha com aquele jeito gutural que não diferencia paroxítona de oxítona, um jeito agressivo de japonês rico que se quer descendente de samurai: tokusatsu. Vou repetir tokusatsu até cansar.

Tokusatsu.

Tokusatsus são aqueles filmes com monstros e efeitos especiais do tempo da TV a lenha — o meu tempo. Parecem toscos hoje. Mas esses meninos de hoje estão mal-acostumados com essas coisas de CGI barata que em todo canto se acha, que nem bolacha, mulher e patrão. Para quem foi menino quando eu fui, eles eram fascinantes.

Quase 40 anos atrás eu assistia a esses trecos todo o tempo. Obviamente não sabia que os tokusatsus tinham sido uma febre no Japão, como descobri hoje. Começaram com o Nacional Kid da Panasonic, que não fez muito sucesso naquele tempo e lugar. E então, de uma hora para outra, na metade dos anos 60 eles começaram a pipocar: Ultraman, Ultraseven, Robô Gigante, Vingadores do Espaço e o mais elusivo de todos, Ésper (criado pela concorrente da Panasonic, a Toshiba). Nos anos 70 eles eram parte da programação da TV Tupi — que, para crianças, era muito melhor que a Globo.

Mas só hoje, assistindo a episódios de Vingadores do Espaço, Ultraman, Ultraseven e Ésper, eu entendi por que esses filmes apareceram.

Pode-se datar a origem do tokusatsu no dia em que o almirante Matthew Perry usou seus canhões para obrigar o Japão a abrir seus portos aos Estados Unidos, pondo fim a séculos de isolacionismo e dando início a uma cadeia de acontecimentos e sangue ruim que desembocou no ataque japonês a Pearl Harbor, quase 90 anos depois. Mas eles só existem mesmo por causa da ocupação americana capitaneada pelo general MacArthur.

Na metade dos anos 60, fazia menos de 15 anos que os Estados Unidos Aliados tinham assinado o tratado de São Francisco, dando início ao fim da ocupação do Japão, um país naturalmente isolacionista, orgulhoso, e extremamente consciente de valores como honra — onde mais o seppuku poderia nascer? A humilhação de se ver, pela primeira vez em sua história milenar, um país ocupado ainda estava muito viva no subconsciente dos japoneses. Esse era o seu grande medo.

Os tokusatsus são a resposta perfeita ao orgulho japonês. Suas sinopses são sempre as mesmas: alienígenas malvados, como antes os americanos, tentam invadir o Japão; mas não vão conseguir, porque os japoneses são carne de pescoço. É sempre essa a briga: a defesa da Terra, e a Terra não pode ser mais que a terra japonesa. É verdade que esse tipo de resistência patriótica é um valor universal; mas para que ele se consolide na psique de um povo e encontre o seu caminho para o mainstream televisivo é preciso um trauma específico, e nesse caso foram os samangos americanos estuprando milhares de japonesas e fazendo o possível para destruir sua cultura e sua memória.

Se Mishima fosse um pouco mais novo teria assistido fascinado a esses filmes.

Mas entender a gênese dos tokusatsus é apenas parte da diversão, e uma parte pequena. Rever esses filmes depois de décadas é uma sensação muito boa, porque me ajuda a entender a criança que fui e, talvez, com boa vontade, talvez sentir de novo aquilo que senti quando assisti, pela primeira vez, ao Ultraman dando uns golpes safados de caratê num monstro que, com sorte, pareceria o Godzilla.

Enquanto somos crianças qualquer coisa serve, qualquer coisa fascina e nos coloca diante do novo. É essa a graça de ser criança. Mas aí você cresce e vira isso que é hoje. Agora é impressionante ver a mediocridade da produção dos Vingadores do Espaço, por exemplo. É muito ruim. Ultraman, por sua vez, impressiona pela qualidade, se nos lembrarmos que eram filmes feitos para a TV, em prazo apertado, e em 1966.

Em todos eles, no entanto, há roteiros com aquela qualidade básica de oferecer às crianças os arquétipos com que elas se identificam. Não são ruins. Além de colocar crianças como agentes heróicos do futuro, condição sine qua non para meninos se sentem no chão diante da TV em preto e branco com olhos atentos, equacionam tragédias e valores razoáveis. Simplórios, e mal escritos quase sempre; mas suficientes.

É engraçado descobrir agora que nunca vimos as versões japonesas. Não acho que houvesse muitos tradutores de japonês na TV Tupi. Em vez disso, nossas traduções eram feitas sempre a partir das versões americanas, e por isso “Vingadores do Espaço” não se chama “Embaixador Magma”, e Goa no Brasil virou Rodak, como na gringolândia.

Ésper, por sua vez, é uma das razões pelas quais sou grato à internet. Durante anos, não encontrei ninguém que tivesse visto o seriado, ninguém que sequer lembrasse que ele havia existido. Só com a internet pude ter a certeza de que não estava louco, inventando coisas. Que eu realmente tinha assistido a um seriado com um menino que trazia um jetpack nas costas e tinha um passarinho mecânico que às vezes aparecia em seu ombro — Oscar Wilde tem um conto que fala de um rouxinol mecânico, conto que li quando criança. Esse rouxinol, para mim, sempre igualzinho a Shikar, o tal passarinho.

Talvez seja por causa desse passarinho que, em vez de assistir a “Era Uma Vez em Tóquio” pela enésima vez nesta tarde de domingo, fiquei assistindo a Ultraman. Não me arrependo nem um pouco.

4 thoughts on “Tokusatsus

  1. Rafael:

    Eu assisti a tudo isso. Você tem razão. A magia de ser criança é que não somos críticos da parte técnica, nem da parte dramática, nem nada disso do filme. A gente assiste , se diverte e pronto. Ver Ultra-Man, Ultra-Seven (que você não citou) e mais todos os outros supracitados, que eram eram meio toscos, ou muito toscos, mas maravilhosamente mágicos para crianças da nossa geração, nos fez viajar na fantasia da TV em um tempo de bolinhas de gude e pega-pega. Obrigado pela lembrança desta época feliz.

    • Esquecer Ultra-Seven foi um crime. Lembro que quando ele começou a ser exibido eu estranhei; eu sentia falta do Ultraman. Mas não demorou muito para achá-lo melhor que o original. 😉

      (Adendo: na verdade eu citei, só vi agora.)

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