NCC-1701

Quem diz que cachorro velho não aprende truque novo não sabe o que está falando. Eu aprendi, por exemplo.

Parece estranho, mas depois de velho virei trekkie — quer dizer, mais ou menos, porque os últimos adjetivos que aceitei de bom grado foram beatlemaníaco e comunista. Mais impressionante ainda é virar trekkie depois de uma vida em que o Capitão Kirk e uma pedra perdida no Raso da Catarina tinham exatamente o mesmo significado para mim.

O fato é que nunca liguei para “Jornada nas Estrelas”, mesmo levando em conta o fato de que o seriado tem estado presente na minha vida desde os anos 70. Lembro de vê-lo passando na TV nessa época, e aquilo não me dizia nada. Mais tarde, a Bandeirantes o exibiu no início dos anos 80, e como ele já era legendário parei para ver um ou outro episódio, mas foi só. As coisas me pareciam velhas, toscas, os efeitos especiais pareciam rivalizar com os tokusatsus (tokusatsu não é uma palavra linda, linda?) que eu via quando criança; e àquela altura eu estava mais interessado nos filmes do Faixa Preta ou da Sessão Western. Para não dizer que Star Trek passou completamente em branco, nós aprendemos a fazer a saudação de Spock, “live long and prosper” — mas gostávamos mesmo era de imitar o vulcano e apertar o trapézio de quem fosse pego desprevenido até ele gritar de dor, porque machucar os amigos era das coisas mais agradáveis que podíamos fazer.

Não é tão fácil explicar por que, entre tantos seriados, eu me importava particularmente pouco com as aventuras da Federação Interestelar. Talvez o meu desprezo profundo por Star Wars e seu universo infantilóide se juntasse à estranheza que sempre senti diante daquele pessoal que se veste de Darth Vader e de Spock e sai por aí achando que é bonito — mais que isso, achando que é normal —, e ao fato de sempre ter preferido westerns a ficção científica; mas acho que a principal razão para essa antipatia, mesmo, era o fato que o programa era mais adulto que a média, ao menos para mim. Ir aonde ninguém fora levantava questões mais complexas do que as que os membros biônicos de Steve Austin resolviam. Eu não sabia na época, claro. Entendo agora.

Mas uns meses atrás, ao ver que a Netflix exibe o seriado, parei para assistir pelo menos a um episódio. E então veio a surpresa: eu, que ando entediado dessas coisas todas, dessas séries que se repetem indistintas, me apaixonei tardiamente por Star Trek, mais ou menos como David Copperfield, depois de muitos anos, finalmente enxergando em Agnes a mulher de sua vida.

Ao contrário dos roteiros rarefeitos e esquemáticos de Star Wars, em que ritmo e efeitos tentam ocupar sem sucesso o vazio de ideias, foi quase uma revelação descobrir o que milhares de pessoas sempre souberam: que “Jornada das Estrelas” vale não pelos efeitos toscos, mas pelas ideias que traz. Que o mais importante no seriado é a história que ele conta, as reflexões que ele suscita sobre a humanidade, e principalmente os ideais sobre os quais ele está baseado.

O humanismo universal inerente a Star Trek, a ideia de um futuro de igualdade e respeito (dizem que foi o primeiro seriado a dar um papel de frente a uma mulher negra, antes de Julia, e além disso tinha um personagem soviético no comando da nave em plena Guerra Fria, apenas alguns anos depois da crise dos mísseis em Cuba) eram atuais em seu tempo, e continuam válidos hoje. Mais que isso: meio século depois, são ainda mais necessários.

A mensagem de “Jornada nas Estrelas” era boa; aqueles eram anos em que, apesar de tudo, a humanidade ainda tinha fé no seu futuro. Mas de lá para cá muita água passou sob a ponte de comando da Enterprise. Essa meta démodé de igualdade, compreensão e multiculturalismo parece estar sendo hoje suplantada pelo discurso identitário, cada vez mais sectário e hermético. A crescente afirmação de conceitos delirantes como apropriação cultural e quetais dá a impressão de que o ideal do mundo hoje é uma espécie de “separados, mas iguais” redivivo. Os tempos estão difíceis. Talvez por isso tenha sido em plenos anos 2010, mais de 50 anos depois de sua estreia, que o seriado passou a me interessar.

Mas não tanto assim. Trekkie ma non troppo, a verdade é que se estou fascinado agora com um seriado que sempre esteve por aí, meu nível de conversão não é tão grande assim, e não tenho nenhum interesse nos zilhões de spinoffs que ele gerou. Uma única exceção à regra: talvez por ser algo atual, assisti aos episódios disponíveis de Star Trek: Discovery.

Fico imaginando o que a série original faria com as novas técnicas de filmagem e efeitos especiais. Mas fico imaginando também o que a nova versão faria com os argumentos originais. Porque ela é tão inferior, tadinha. Toda a profundidade do seriado parece ter sumido no ralo: do congraçamento universal que parecia ser o seu Graal, agora devemos acompanhar a saga individual dos tripulantes perfeitamente adequados aos padrões narrativos de Hollywood hoje em dia. Mais que isso, parece responder bem a tempos cada vez mais individualistas.

Junte a isso um fato meio engraçado — ou revelador: eu assisto a Star Trek dublado. É engraçado porque, embora seja fã absoluto da ideia da dublagem, filmes e seriados dublados me afligem. É quase intolerável. O que vejo, especialmente no YouTube, são basicamente viagens nostálgicas, para reencontrar vozes familiares como a de Carlos Vaccari, sons de uma infância que se foi há tempo demais. Mas “Jornada nas Estrelas” para mim só faz sentido dublada.

Essa é a segunda dublagem, a da VTI feita no início dos anos 90. Eu a considero melhor que original, da AIC, embora prefira, de longe, a abertura da AIC com a locução empostada de Antonio Celso à vozinha safada e canastrona do Capitão Kirk. Para começar, a voz de Spock é do Márcio Seixas.

***

A despeito de tudo isso, dessa conversão tardia, minha desconfiança em relação aos outros trekkies, à sua incapacidade de entender o mundo e a inconciliável diferença entre os seus valores e os meus, não estava de todo errada.

Ontem assisti ao 11º episódio da segunda temporada de Star Trek, Friday’s Child. A sinopse você encontra por aí, o que eu quero falar é de uma cena específica.

McCoy está tentando ajudar uma moça, de outra espécie, a parir. (A propósito, a moça é interpretada pela Julie Newmar.) Pelos costumes do seu povo, ela resiste a ser tocada por um homem. Depois que McCoy conquista o seu respeito lhe descendo uma chapuletada na cara — lembre-se, a série é dos anos 60 e tinha elevados ideais, mas a roteirista que escreveu esse episódio nasceu no finalzinho dos anos 30 —, a moça vê o doutor com outros olhos. Encanta-se com sua mão macia em um homem viril.

E então chegamos à tal cena, esta de que quero falar. A moça está sentada numa pedra, entrando em trabalho de parto. Ajoelhado ao seu lado, McCoy apalpa sua barriga, em busca do bebê. A câmera se aproxima e tira a mão de McCoy de foco. McCoy pergunta onde dói. Depois de dirigir um olhar de soslaio que só uma Mulher-Gato pode dar, a moça responde: “Dói… Aqui.” E a cena se encerra com McCoy arregalando os olhos. No áudio original ela ainda dá uma risadinha, o que sumiu na dublagem.

O detalhe assustador é que procurei por aí comentários sobre essa cena, mas sem nenhum sucesso. Nenhum dos fãs, que dissecam cada detalhe de cada episódio do seriado, que buscam o significado de cada frase boba dita, ninguém parece ter comentado isso — e eu sou de um tempo em que a internet parecia ser dominada por nerds que conheciam cada palavra do seriado. A cena é tão insignificante que sequer existe na internet, e por isso me vi obrigado a publicá-la no YouTube.

Milhões e milhões de palavras foram escritas sobre “Jornada nas Estrelas”. Há milhares de pessoas espalhadas pelo mundo que se dedicaram a comentar cada episódio, elucubrar teorias sobre quase qualquer insignificância, desde que seja algo óbvio, desenhado. É coisa que os nerds entendem. Mas as sutilezas da sacanagem não parecem ser seu forte, e sem ninguém para explicá-la, aparentemente foram incapazes de perceber o conteúdo sexual dessa cena. Em um seriado que dá aos fãs horas e horas de comentários sobre os affairs do Capitão Kirk, isso é no mínimo digno de nota. No fim das contas, acho que eu tinha razão.

9 thoughts on “NCC-1701

  1. Acho que um dos segredos da franquia e que explica a fidelidade de muita gente que entrou em contato com ela na juventude é que ela permite deixar seus problemas na porta porque fornece um escapismo mais perfeito do que outras séries (a sociedade idealizada da Federação e aventuras afastadas dos problemas do cotidiano – diferente de séries policiais, séries concentradas em relacionamentos ou no local de trabalho, etc.) e, ao mesmo tempo, não exige que os adultos deixem a capacidade crítica do lado de fora.

    Os temas dos episódios, as decisões dos personagens podem ser – e frequentemente são – discutidos pelos fãs em termos adultos. Será que o capitão Kirk estava certo em armar uma tribo contra outra, mantendo ambas em um equilíbrio sangrento (uma parábola sobre o Vietnã)? Kant certamente discordaria da decisão do capitão Sisko de enganar um poder rival para forçá-lo a vir em resgate da Federação em guerra, o que vai custar muito sangue inocente. Será que a filosofia de não-intervenção da Federação não é só uma desculpa para lavar as mãos (epidemias que poderiam ser curadas prosseguem apenas porque a Federação não quer interferir no desenvolvimento natural de povos primitivos)?

    O universo de Star Trek cresce, por assim dizer, com os fãs, que vão descobrindo novas nuances e relacionando o que veem com seus princípios e suas experiências. Essa realmente nunca foi a alma de Star Wars, uma franquia que soa rasa mesmo quando tenta tratar de temas sérios, como a ascensão da tirania e a natureza da corrupção, como nas sequências dos anos 90.

  2. Rafael:

    Em Star Trek vemos o único universo em que o comunismo deu certo: as pessoas são tratadas com igualdade e respeito, independente de raça, sexo, ou posição social (apesar que os caras de camisa vermelha sempre morrem);não se trabalha por dinheiro mas, simplesmente, pelo trabalho e paz reina no planeta terra que se libertou das ambições individuas em prol do coletivismo.

    A contra cultura inspirou esse universo paralelo em forma de ficção cientifica e, sem querer, nos mostrou como seria a verdadeira face do comunismo se os homens não fossem…homens.

    • Serge, engraçado que eu nunca vi a série como comunista. Ao contrário, para mim sempre foi uma em que os valores da democracia americana se consolidaram.

      E nunca tinha percebido que só os de vermelho morrem. Mas na hierarquia da nave (vermelho para soldados e técnicos, azul para cientistas e dourado para o comando e navegação), faz algum sentido.

  3. “Teoria maravilhosa, espécie errada” – biólogo E. O. Wilson sobre o marxismo.

    • Se a gente fosse ouvir os biólogos, ainda estaríamos arrastando mulheres pelo cabelo como o Piteco e sendo elogiados por isso. 😉

      • Por outro lado, se tivesse ouvido os biólogos, Stalin não teria atrasado a pesquisa soviética em genética e agricultura não sei quantas décadas. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra 🙂

  4. Assim como você, só gosto da série original. Tenho o box da série em DVDs bilíngues, mas só assisto dublado. Star Trek, Flintstones, Agente 86 e Manda Chuva (por Lima Duarte!) pra mim têm que ser dublados! Até mesmo o Jerry Lewis eu gosto de assistir dublado, que me remete à infância (excelente trabalho de Nelson Batista).

  5. “… nunca tinha percebido que só os de vermelho morrem.”

    Até porque, como disse, é a cor dos soldados, do serviço de segurança. Red Shirt, camisa vermelha, virou sinônimo de personagem sacrificável.
    Na verdade, eles morrem proporcionalmente menos nas missões do que os outros grupos, mas morrem mais em números absolutos porque são convocados mais frequentemente para as missões, então não serve de consolo para quem sabe que tem quase sete vezes mais chances de ser chamado para ser devorado por um monstro de lama ou por esmagado por uma montanha ambulante.

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