Propaganda de cigarros

Uns anos atrás, em São Paulo, fui comprar um maço de Free e me entregaram uma caixinha azul, de Kent. “Moça, eu pedi Free. Isso é Kent, eu nem sabia que ele tinha sido relançado.” A moça me disse que aquele era o cigarro que tinha ficado no lugar do Free.

Foi estranho, mas tudo bem. Ao longo da minha vida, vi marcas e marcas de cigarros surgirem e desaparecerem. Continental, Minister, Belmont, Arizona.

Até a marca Carlton tinha desparecido. Algum tempo antes pegaram uma das marcas mais tradicionais do mercado, o cigarro que fumo há décadas, e trocaram seu nome para Dunhill, uma marca popular lá nos estrangeiros mas absolutamente desconhecida aqui. Mantiveram a identidade visual antiga, ao contrário do que fizeram com o Free; mas o Carlton, mesmo, aquele raro prazer, acabou.

O que eu nunca tinha visto era uma marca ser diretamente substituída por outra, assim, na cara dura. E o problema é que eu não entendo essas mudanças.

Entenderia em outros tempos. Como subsidiária da British American Tobacco, faria sentido à Souza Cruz unificar suas marcas globalmente. Uma grande campanha aclimataria o consumidor à nova marca, agora encontrável em virtualmente todo o mundo civilizado, e no longo prazo ela economizaria em posicionamento de marketing, provavelmente também em propaganda.

Mas desde o século passado a publicidade de cigarros é proibida nestas plagas. A única explicação que consigo encontrar é que eles decidiram que este é um mundo globalizado e que vai ficar mais fácil para um brasileiro em Berlim comprar a mesma marca de cigarros que compra em Chorrochó. Dunhill aqui, em Roma, em Londres.

O único problema dessa explicação é que a conta não bate. O custo da mudança da marca, mesmo que os cigarros permaneçam os mesmos, não faz sentido para mim. O volume de fumantes brasileiros que viajam regularmente é muito pequeno para fazer valer a pena o investimento industrial feito nessa mudança. E o número de viajantes que não levam alguns pacotes do seu cigarro nas malas é próximo a zero. Ao mesmo tempo, quero crer que homens de marketing regiamente pagos não fariam uma coisa aparentemente sem sentido como essa sem pelo menos uma justificativa, por equivocada que venha a se mostrar depois.

Mas para mim é difícil entender essa mudança. Ainda hoje, muitas pessoas vão atrás do Free, como eu ainda peço Carlton. Me lembra aquelas mercearias parisienses que, quase vinte anos depois do fim de sua moeda nacional, ainda exibem placas com os preços de suas mercadorias em francos. Kent, para elas, é a penas o Free disfarçado. Não justifica a mudança.

***

Isso me lembra que houve um tempo em que a propaganda de cigarros podia ser brilhante.

Tenho a impressão de que a maior parte das pessoas com menos de 40 anos repete a expressão “Lei de Gérson” sem fazer a mínima ideia de que ela nasceu de um comercial de cigarros Vila Rica, em que Gérson dizia “O negócio é levar vantagem, certo?” Ou, se ainda lembram do “fino que satisfaz”, não lembram que era assim que Pedrinho Aguinaga, “o homem mais bonito do Brasil”, descrevia o Chanceller.

A campanha de lançamento do Plaza ainda é um exemplo de excelente propaganda conceitual, de uma sutileza que não se usa mais. Carlton, por sua vez, era sinônimo de elegância, de requinte e sofisticação, e sua propaganda, feita pelo Zaragoza, estava à altura. Um raro prazer.

Mas em termos de sucesso popular acho que nada se compara aos comerciais de Hollywood. Músicas de sucesso embalando imagens de jovens praticando esportes diferentes e caros, como se ainda tivessem pulmão para isso depois de fumar dois maços do bom e velho “Ao Sucesso”. Ainda hoje se encontra, no YouTube, coletâneas desses comerciais, cobrindo décadas.

E tem a campanha do próprio Free. Eu lembro do seu lançamento. Na época, estava na moda uma tal de “propaganda comportamental”, lançada nestas plagas em comerciais antológicos da Calvin Klein pela então Fischer,Justus. “Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum” era um conceito absolutamente brilhante para um produto que buscava um público mais jovem, nos bons anos 80.

Mas isso faz parte de um passado quase tão distante quanto o cartaz do Rhum Creosotado que recebia o sujeito que acabava de pagar a passagem do bonde:

Não dá para questionar a proibição da propaganda de cigarros. O único argumento possível é o de que, se algo pode ser legalmente consumido, deveria poder ser anunciado, e as pessoas deveriam ter o direito de poder escolher. O argumento não se sustenta muito bem diante dos dados e necessidades da saúde pública, mas é válido. Velhos como eu só veem um problema nisso: para quem gosta de propaganda, o fim dos comerciais de cigarros tornou os intervalos na TV um pouco mais pobres.

8 thoughts on “Propaganda de cigarros

  1. O blog ficou fora do ar por alguns dias. Que bom que não encerrou. Ninguém no Brasil escreve melhor sobre Beatles e sobre filmes antigos (particularmente westerns) que você.

    • Poxa, eu achava que escrevia sobre outras coisas também… 🙂

      Na verdade, fui renovar a hospedagem e o preço do dólar tornou inviável continuar num servidor americano. Troquei de provedor, e como não entendo dessa bagaça, o resultado foi esse. 🙂

  2. Quando as propagandas de cigarros na TV começaram a ser proibidas, e só eram permitidas ser veiculadas após a meia noite, eu cheguei a ficar acordado esperando passar da meia noite só pra ver os anúncios do Marlboro, que para mim pareciam pequenos filmes e eu adorava, e adoro até hoje, ao ponto de reve-los no You Tube de vez em quando.

      • E, no Brasil, essa frase era dita com a voz do Cid Moreira, que era ainda mais grave que a do locutor da versão americana.
        Que época essa!

  3. Eu lembro de uma propaganda do Charm, uma página de revista. O cara super elegante faz uma barbeiragem na sinuca, rasga o tecido da mesa com sua tacada. O slogan: “tem horas que é preciso ter Charm” 😀

    Os meios de comunicação tiveram sorte, porque, na mesma época em que proibiram a propaganda de cigarros, privatizaram as teles, que ocuparam a lacuna deixada. Ocuparam às vezes literalmente: o Free Jazz Festival virou Tim Festival.

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