Nos Tempos da Brilhantina

Eu sempre detestei o filme “Grease – Nos Tempos da Brilhantina”.

Quem estava vivo em 1978 ainda lembra do sucesso que o filme fez. Eu não tinha idade para assisti-lo no cinema, mas lembro das pessoas comentando. Mais tarde, em 80 ou 81, um especial de Olivia Newton-John na Globo mostrou a cena em que cantam Summer Nights, e eu fiquei fascinado.

Passa o tempo.

Em 83 ou 84, minha mãe apareceu lá em casa com alguns livros. E um deles era justamente a transposição do filme por Ron de Christoforo.

Li o livro e fiquei apaixonado. A história leve de uma turma de adolescentes e seus problemas também adolescentes, o rock and roll que permeava toda história, a rebeldia contra professores, tudo isso fazia com que o livro fosse perfeito para um pré-adolescente. E a morte de Buddy Holly era uma cena muito boa do livro, mas ainda hoje lembro de várias outras. E em algum momento percebi que a história, com todos os seus sobrenomes italianos, se passava no Brooklyn ou no Bronx.

Em 85 o filme voltou aos cinemas. Era comum que filmes prestes a irem para a TV fizessem uma última rodada pelo circuito de cinemas, na esperança de descolar uns últimos trocados, jogadinha esperta que foi finalmente destruída pelo videocassete nessa mesma época.

E o que eu vi me deixou chocado.

O filme não era nada do que eu esperava. Tinha tão pouco em comum com o livro. Comédia boba, com cara de televisão. A história era a mesma, sim, e dava para perceber que algumas músicas correspondiam a trechos do livro, mas uma infinidade de cenas importantes simplesmente havia desaparecido. E o mais importante, dois personagens importantíssimos faltavam ali: Sonny, o narrador do livro, tinha virado um idiota, e Marsha, sua namorada, sequer deu as caras. Todo o prelúdio da história, com Danny Zuko e Sonny LaTierri indo para o que imagino ser Atlantic City e conhecendo Sandy e Marsha, desparecera.

Saí revoltado do cinema. Mas não demorou muito para formular minha teoria sobre o que tinha acontecido. Primeiro cheguei à conclusão de que Christoforo tinha escrito a partir da peça. Depois, entendi que ele tinha partido do filme para escrever o seu próprio livro, muito mais pessoal, acrescentando suas próprias ideias.

Lembrei de tudo isso há pouco porque mais cedo apareceu no Amazon Prime um tal de Grease Live, e fui assistir. É uma adaptação feita para a TV em 2016, e traz como qualidades uma atualização do texto, a correção de duas ou três mudanças feitas no filme em relação à peça original e, principalmente, a energia e vitalidade que só o teatro pode passar. Mas não é uma adaptação do musical, e sim do filme — ao qual é bem superior. Entre os aspectos negativos está a decisão de tornar a atriz que faz o papel de Sandy quase um clone de Olivia Newton-John, e a adaptaçãodo elenco para estes tempos politicamente corretos, ainda que a fórceps. O que era uma turma ítalo-americana agora é racialmente diversa. Nada contra, não fosse o fato de a história continuar se passando em 1959; imaginar aquela turma, em um tempo anterior ao movimento pelos direitos civis, vivendo num mundo tão integrado transforma as boas intenções em mero  desrespeito à história.

Mas o melhor é que isso me fez finalmente procurar o script da peça, para finalmente entender o que tinha acontecido. Não sei por que não fiz isso antes. Ele está disponível, bem como como um bom resumo do seu argumento original aqui.

Agora dá para ter uma ideia clara do que aconteceu.

Mesmo sendo uma comédia musical, a peça conseguia ser mais densa e séria que o filme. A adaptação adoçou a peça, retirou grande parte da sua ironia e quase todo o seu sarcasmo, reforçou a comédia ao ponto de idiotizá-la. Criou algumas cenas para dar mais amplitude ao enredo, algumas das quais realmente boas, mas também retirou várias outras, mais significativas. A peça tem em Rizzo talvez seu melhor personagem, o mais denso. Talvez ela não faça mais sentido hoje — a menina mal falada, a vagabunda da vizinhança: mas ao questionar o julgamento do comportamento de Rizzo (sintetizado na canção There Are Worse Things I Could Do, uma das melhores do musical), fala muito sobre costumes e sua evolução a partir da revolução sexual dos anos 60. O filme também tirou muito do antagonismo entre ela e Sandy.

O livro de Christoforo conseguiu dar, à peça e ao filme, uma qualidade que eles não tinham: verdade e alguma complexidade. Transformou um personagem quase terciário no narrador da história, e inventou uma namorada para ele, acrescentando um contraponto a Danny/Sandy e Kenickie/Rizzo. Várias das cenas que o autor inseriu têm todo o jeito de que são inspiradas em fatos reais, retirados de suas próprias lembranças. Aliás, ele começa de modo bem parecido com “O Apanhador no Campo de Centeio”. Cópia inferior, claro. Seu livro não é grande literatura, por mais que eu goste dele. E ainda assim, o resultado é melhor que o material com o qual trabalhou.

Mas o melhor, mesmo, é que uma dúvida que me acompanhou durante décadas foi finalmente resolvida. Posso continuar a detestar o filme e a gostar do livro. Estou em paz.

7 thoughts on “Nos Tempos da Brilhantina

  1. Rafael:
    Quando foi lançado no Brasil, eu assisti Grease no cinema 8 vezes, ou mais. Sim, pagando ingresso.
    Mas eu nunca me iludi procurando alguma profundidade filosófica nele. Pra mim Grease sempre foi um filme de Elvis, com o John Travolta, ou seja, uma diluição de algo que já era raso. Das músicas eu sempre gostei, principalmente da musica tema, Grease is the Word, cantada pelo Frankie Valli com sua voz de Gás Hélio.

    • Pois é. O meu problema é ter lido o livro antes, deixei de apreciar o filme pelo que ele é, embora do ponto de vista cinematográfico ele tenha vários problemas de direção; um deles é o uso de vinhetas sonoras típicas de sitcoms.

      E a minha música preferida é Summer Nights. Engraçado que no Live você pode ter uma ideia de como ela foi apresentada no teatro — duas cenas diferentes dividindo o mesmo palco.

  2. Por causa desse seu post fui dar uma olhada no Grease Live no Prime. Logo de cara percebi que os atores principais são piores atores e piores cantores que os do filme de 1978. Comparar essa Sandy de 2016 com a da Olivia Newton John cantando, principalmente Summer Nigths, é até uma covardia.

    • A questão dos atores é problemática. Em primeiro lugar, Travolta e Olivia Newton-John se tornaram icônicos, e a tendência natural é desgostar antecidamente de qualquer outro que tente calçar seus sapatos. Não dá para comparar, realmente, o ator que faz Danny com Travolta. Mas acho mais grave a moça, que tenta cantar igual a Olivia Newton-John. Veja a coitada cantando “Hopelessly Devoted to You”, que foi composta especificamente para o filme e para Olivia. Eu preferia alguém que tentasse ser diferente.

      • Pois é, justo a Olivia Newton John que até o Elvis fazia cover quando cantava uma musica dela (If You Love Me Let me Now) nos seus shows.

  3. É interessante isso de um livro adaptar um filme.

    Lembro um pouco de uma adaptação que li de “ET o Extraterrestre” (infelizmente não gravei o autor).

    Tem uma cena mais “adulta” no livro, logo no início, quando os meninos escondem da mãe que estão vendo alguma revistinha pornográfica.

    Não lembro se o livro era bom, mas tentava situar melhor os personagens em seu ambiente, sem se prender apenas à história fantasiosa do extraterrestre.

    • O Bia fez algo semelhante com Elvis e Madona, e o resultado foi um livro muito melhor que o filme.

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