A vida dura de quem lê portais de notícias

Argumentos identitários me cansam profundamente há muito tempo, pela miopia, pela estreiteza, pela degeneração no que Mark Lilla chama de “pseudopolítica de autoestima e de autodefinição” e pelo que Antônio Risério chama de colonialismo cultural. Ainda mais porque são eles que dão cada vez mais o tom do que passa por debate político nos portais de notícias, tornando a discussão rasa e sempre em busca de notoriedade rápida.

Mas uma dessas tais polêmicas me chamou a atenção dia desses. Leandro Narloch, citando um artigo do Risério, convocava o movimento negro a se inspirar nas sinhás negras que existiram ao longo da história, deixar de se ver como vítimas e acreditar no seu potencial, confiar no capitalismo e na sandice de que cor de pele não faz diferença neste país, o que importa é o mérito. Só és pobre porque queres, como diria qualquer coach ou pastor enquanto embolsa o dinheiro da sempre renovada legião de otários.

Um texto do Narloch não traz, nunca, nada de novo, e muito pouco que se aproveite. Ele basicamente retira de textos mais consequentes algum elemento que possa causar polêmica e indignação e o torce o bastante para que se adeque à sua visão de mundo. Não passa de opinião de terceira, tendenciosa, e só reflete a pobreza do debate público. Basicamente, é isca para atrair a atenção de gente que pensa diferente dele e justificar o seu salário.

Mas ele alcança alguma notoriedade por uma razão simples: porque em vários aspectos seus contestadores não são muito melhores que ele, e para eles compensa engolir essa isca.

O moralismo puritano que parece definir boa parte desse identitarismo exige que o debate histórico seja definido, antes de mais nada, pelos valores éticos que se defende. Por isso, para alguns desses debatedores, é mais fácil fazer polêmica com o Narloch porque, no fundo, ele existe para isso. É raso como cacimba em quinto ano de seca, de uma mediocridade profunda porque sempre reduz um elemento complexo a uma ou duas palavras de ordem. Para esses debatedores de portal e de posts de Facebook e até de blogs mixurucas como este, é um inimigo adequado e fácil, embora raramente o resultado da contra-argumentação seja ao menos razoável, porque costumeiramente apela para a defesa dos seus valores e um senso de indignação moral que deveria ter pouco lugar nesse tipo de conversa.

O artigo do Narloch comenta um livro do Antônio Risério que fala das “sinhás pretas”, mulheres negras que enriqueceram no período da escravidão e, em maior ou menor medida, dentro das brechas e oportunidades que o sistema oferecia, se adequaram a ele em posição privilegiada.

Até aí nada demais, porque isso é história e serve como contribuição à compreensão do nosso processo evolutivo e da complexidade na formação das relações de classe e etnias no país; não é problema dele se os movimentos identitários enxergam essas evidências como heresia agressiva ao seu discurso totalizante. Seu problema é outro: Narloch usa esse exemplo para dizer que o movimento negro deve mudar seus pontos de vista, temeridade que o conceito deturpado de lugar de fala não permitiria nem a gente mais bem-intencionada. Ele pinça os dados que lhe interessam para promover um negacionismo militante, que repercute facilmente entre a militância e desperta ódios imediatos.

Mas há um ponto curioso, que merece um parêntese:

Como observou certa vez o historiador Manolo Florentino (que assina a apresentação do livro de Risério), é muito mais estimulante, para negros de hoje, imaginar que seus antepassados foram em alguma medida protagonistas de seu destino. Protagonizaram ações — ações dentro dos costumes da época, como a de comprar e alugar escravos.

Desconte a última frase, que é apenas a canalhice intelectual do Narloch e o arremesso da isca. Isso me lembrou a confusão em torno daquele tal musical da Beyoncé que a Lilia Schwarcz elogiou com ressalvas, e que lhe custou uma série de ataques hidrófobos de militantes e um pedido de desculpas indevido e humilhante. A obra da Beyoncé, pelo que posso julgar a partir unicamente das descrições que li, era uma fantasia hollywoodiana, tão falsa quanto uma nota de 2,5 kwanzas, que parecia pregar justamente algo parecido. Poderia ser considerado nocivo, não fosse a autoria. Entretanto, tudo é relativo nesse mundo novo.

Mas não é disso que este post trata. O artigo do Narloch foi contestado por Itamar Vieira Junior, que o acusa de “relativizar o horror da escravidão”.

É muito ruim quando um dado histórico é apontado como uma tentativa de minimizar a tragédia da escravidão. Porque reflete uma tentativa de construir uma narrativa falsa que atende apenas a determinados interesses, coisa de um Narloch invertido. O pior é que a argumentação do Vieira Junior é ruim demais, e deliberadamente falsa, repleta de inverdades.

“Havia escravidão na África antes da chegada dos colonizadores, como houve em Roma e na Grécia Antiga”, diz Vieira Junior. Isso é só meia verdade. O que havia na África não tinha paralelo em Roma ou na Grécia. Independente da escala a que se chegou, a formação de um mercado secular, consolidado e em grande escala de escravos era um segmento importante na África. Tentando explicar  de maneira tosca e quase desrespeitosa, é como se o mundo greco-romano se servisse da escravidão para uso doméstico. O mercado africano era de exportação.

Pode ser impressão minha ou mesmo má vontade, mas esse tipo de argumento parece uma tentativa de dar status melhor e mais “humano” à escravidão intra-africana. Ele quase está dizendo “ah, mas não era só eu”. Não que para o escravo fizesse diferença entre ser escravizado por perder uma guerra ou por ser o elo fraco em um sistema comercial sofisticado, mas negar a dimensão do havia na África é negar a história.

Mas não é isso o mais grave.

Mais adiante ele afirma que o tráfico só foi possível graças ao “Estado capitalista colonial”. Isso é mentira. E não apenas porque no século XV, quando o tráfico ultramarino deu seus primeiros passos, não existia “Estado capitalista colonial”. Na verdade o desenvolvimento colonial do Brasil, baseado na agricultura extensiva e uso intensivo de mão de obra barata, só foi possível porque havia, antes, a oferta regular e abundante de escravos africanos. Certo, o Estado colonial europeu foi fundamental para consolidar ainda mais esse mercado, possibilitando uma demanda sem precedentes que destruiu estruturais sociais, dizimou a população masculina da África e da qual o continente jamais se recuperaria. Mas não foi ele quem criou esse mercado.

Escravidão é negócio, sempre foi negócio, e por mais aterrorizante que seja ver seres humanos descritos como “peças”, era algo que se sobrepunha a valores morais mesmo na época. Para os colonizadores portugueses no Brasil seria mais barato e desejável escravizar índios, como foi tentado com sucesso insuficiente. Trazer escravos da África requeria alto investimento inicial, tinha alta taxa de depreciação, perdas de material que poderiam pôr a perder todo o dinheiro gasto. Mas entre os índios brasileiros não havia estrutura de compra e venda de pessoas semelhante ao que existia na África, além de uma série de desvantagens óbvias. Assim, escravos africanos no Brasil eram mais viáveis, sujeitos a menos perdas e fugas. O investimento era mais alto, mas a relação custo/benefício era tão infinitamente melhor que a escravidão no Brasil se espalhou como metástase por todas as camadas da sociedade, dando lugar a uma rede tão complexa que, embora obviamente incapaz de minimizar o horror da escravidão, inviabiliza as visões moralistas e simplistas dos identitários de hoje.

O mais curioso é que o Vieira Junior usa essas distorções para embasar um argumento realmente válido:

A consciência histórica sobre os processos que nos trouxeram até aqui não é apenas uma retórica vitimista dos “escravizados, humilhados, exterminados”. É um passo para superação das estruturas que nos foram legadas por esse passado aviltante. Esse caminho só será possível promovendo uma discussão honesta e comprometida com os valores que elegemos como fundamentais para superar a chaga da escravidão e do racismo.

Eu gostaria de assinar embaixo. Mas também gostaria de lembrar que a chave aqui, que não foi usada, é a expressão “discussão honesta”. Não teremos uma discussão honesta se acusarmos informações que iluminam falhas em nossa argumentação de “ultraje, quiçá um crime”.

O mais grave, no entanto, é que a partir daí o texto do Vieira Junior degringola para o que há de pior nessas discussões. Ele não quer mais ver opiniões ofensivas como a do Narloch e pede que o conselho editorial da Folha de S. Paulo seja “uma ‘grade de proteção’ a favor dos valores humanos fundamentais” — ou seja, que calem o Narloch, porque liberdade de expressão só deve existir para nós. “Como disse Thiago Amparo ‘a corda do pluralismo esticou a tal ponto que’, se não fizermos nada, ela ‘nos enforcará’”, ele continua, antes de terminar com uma pergunta tão ou mais canalha que as iscas do Narloch: “Será que ele sugeriu que nos reconciliemos com a escravidão?”, o que ele sabe que não é verdade.

Eu vou parar de ler esses portais, juro que vou. Alguém tem um portal de fofocas de TV para me indicar?

And, in the end

Eu preciso confessar que os lançamentos recentes da empresa que se chama Beatles me enchem de tédio. Longe da empolgação inicial trazida pelo Live at the BBC e os discos do Anthology, o que se vê nos últimos 20 anos é indigno do legado da banda. Do engodo que foi o Let it Be… Naked, passando pelos cafés requentados da remasterização de 2009, o segundo Live at the BBC e o razoável Hollywood Bowl à raspagem de tacho que são as edições comemorativas, cada lançamento merece basicamente um bocejo e um tsc, tsc.

Quando o Álbum Branco foi remixado, em 2018, fiz um comentário aqui. Mas a verdade é que esses discos me interessam muito pouco. A essa altura da vida, a perspectiva de ouvir versões sempre inferiores de canções que já conheço de cor há décadas — isso quando não conheço as próprias versões, circulando há décadas no mercado pirata — não abre meu apetite.

Por isso, ouvi os discos de maneira muito superficial — confesso inclusive que na época não cheguei a ouvir muitas das faixas inteiras. Para que eu iria ouvir de novo as demos de Esher? Nessa brincadeira, acabei deixando passar alguns detalhes importantes.

Duas das faixas são realmente boas. Los Paranoias, que já tinha sido incluída em parte no Anthology III, aqui está em sua forma completa. É uma bela jam, talvez o mais próximo que McCartney chegou do jazz enquanto era um beatle. Mas é importante não tanto pelo seu valor intrínseco, mas porque acaba mostrando que talvez George Martin não fosse a pessoa indicada para fazer a curadoria do projeto Anthology, nos anos 90. Martin raciocinava como “o produtor dos Beatles”. Estava mais que disposto a jogar fora o que não se encaixava em um padrão de qualidade bastante alto e muito claro para ele. E nesse tipo de caça-níquel, às vezes o que se ouvir é justamente o contrário.

A outra é a faixa que abre o quarto disco, o take 18 de Revolution 1. É uma gravação maravilhosa. Ela consegue encapsular tudo o que Lennon queria dizer em Revolution e em Revolution #9, com a genialidade, coragem, experimentação, capacidade de síntese de uma época e senso comercial que tornaram os Beatles a maior banda da história. Se em vez de incluir essas duas faixas no disco ele tivesse finalizado e colocado só esse take 18, tinha passado o recado e feito um álbum muito melhor. Revolution #9 é uma maluquice de Yoko Ono contrabandeada num disco dos Beatles. Essa nova versão é Beatles puro, ao menos em um determinado contexto histórico.

Mas o principal aspecto que deixei passar é que Giles Martin, ao remixar o álbum, cometeu um crime de lesa-majestade.

A produção do Álbum Branco foi caótica. Geoff Emerick cansou e deu no pé, e isso alterou significativamente o padrão de gravação das músicas. Depois George Martin, de saco cheio, tirou férias e parte do disco foi efetivamente produzida por Chris Thomas.

O resultado é que o Álbum Branco sempre soou diferente. Mais agudo, mais metálico, mais agressivo. É uma prova da diferença que faz um engenheiro de som.

Giles Martin, no entanto, suavizou esse som. Tornou-o mais grave, mais de acordo com o padrão George Martin que voltaríamos a ver, em toda a sua glória, no Abbey Road. O resultado é uma fraude histórica. É desonesto.

Mas independente desses detalhes, minha opinião sobre esses lançamentos continua a mesma. São redundantes. Não comprei nenhum, nem pretendo comprar. Eles já são ricos demais para se importar se apenas baixo os discos.

Isso muda com a nova edição do Let it Be. Essa eu quero.

A caixa que anunciam agora é, em parte, o que se esperava, para o bem e para o mal. Traz o disco original remixado (o que deve ser algo bom, porque ele sempre soou mal, abafado, embora eu não saiba se é possível melhorar muito); um EP redundante; o Get Back com a capa original; e uns disquinhos com jams, outtakes e ensaios.

Os discos de adicionais são o mais decepcionante, porque o material disponível é tão absurdamente grande e variado que qualquer um poderia fazer algo melhor do que a sequência medíocre de outtakes que decidiram incluir. Com uma capa ainda mais apalermada que a do Let it Be original, traz uma seleção inexplicável em sua falta de imaginação ou mesmo alegria.

Pelo que vejo, o melhor da caixa é o Get Back. Não pelo disco em si, que não era melhor que o Let it Be final. Mas por finalmente trazer à luz o LP que chegou a ser distribuído para algumas rádios, com a capa em que eles recriavam o Please Please Me sete anos depois. Eu sempre achei que essa deveria ter sido a capa do Let it Be. Pelo significado, pela sensação de que ali se encerrava aquela história, e porque é uma ideia fantástica, mais típica dos anos 60 que minissaia e LSD.

É ele, só ele, a razão eu querer esse lançamento, depois de anos pouco me lixando. Eu faria diferente, claro. Minha caixa traria o Let it Be com a capa dupla da edição americana original e o livro que acompanhava a primeira tiragem, retirado logo em seguida porque aumentava muito o preço. Traria dois Get Back, com os dois mixes de Johns e as capas diferentes, para evitar a confusão que fizeram. E um álbum triplo com o que houvesse de melhor nos outtakes e jams da gravação do filme.

E é aqui que está a grande diferença. O álbum que está chegando às lojas traz basicamente outtakes do que já conhecemos. Sem ouvi-las não dá para saber quais são, mas aparentemente traz, de realmente interessante, apenas um ensaio de Gimme Some Truth, provavelmente uma das versões do dia 3 de janeiro, que mostra McCartney ajudando Lennon a compor a letra da canção. (E espero que a versão de Oh! Darling, que estaria mais à vontade no Abbey Road, seja uma do dia 31, que eu chamo de “bossa nova”).

E no entanto, os 30 dias de sessões têm tantas pequenas maravilhas que é quase impossível entender por que são ignoradas. Eu já falei aqui quais incluiria. Mas há muito mais que isso. Quem quiser conhecer, e tiver paciência, é só procurar nas redes P2P da vida por uma série de discos chamada A/B Road.

Ela só não tem o Get Back com aquela capa.

Mas há um outro motivo para eu achar que essa caixa tem algo diferente dos outros lançamentos.

Ringo Starr e Paul McCartney têm, respectivamente, 81 e 79 anos. Não seria agourar dizer que têm muito mais tempo para trás do que para a frente. A aventura dos Beatles representou um pedaço pequeno de suas vidas, mas foi decididamente o mais importante e o que deixou, durante 25 anos, uma série de problemas com que tiveram que lidar. Ao longo das últimas décadas, eles conseguiram resolver tudo isso: supervisionaram a transição para o digital, fizeram dinheiro como nunca tinham feito antes, e se empenharam em contar a sua versão da história. Faltava apenas o fechamento.

O Let it Be, junto com o filme Get Back, é o ponto final de todo esse esforço. É o último capítulo, a resolução afinal do seu momento mais conturbado, o mais contencioso, e certamente o mais doloroso. É como se Paul e Ringo pudessem dizer, finalmente, que o ciclo se fechou. A partir de agora, tudo o que a Apple Corps soltar é apenas para ganhar dinheiro, como foram as remasterizações dos últimos anos; decisões empresariais, basicamente, que não têm ligação orgânica ou emocional com a maior banda da história. O Let it Be/Get Back é certamente o último trabalho real dos Beatles. Agora eles podem descansar em paz.

Chico ou Caetano

Dia desses o Hermenauta me fez a pergunta que separa os homens dos meninos, os bons dos maus, os “raiz” dos nutella.

Chico ou Caetano?

No melhor estilo Caetano, respondi “Chico, ou não”. Porque essa é uma pergunta que pode ser respondida, sim, mas também precisa ser explicada; ela só aparenta ser fácil, e coisa séria assim não pode ser abordada de maneira leviana, um mero sim ou não.

Se em vez de perguntar quem eu prefiro você me perguntar qual é o mais importante, eu vou responder que Caetano é o músico vivo mais importante deste país; mais que isso, o músico mais importante do último meio século, o mais importante a surgir depois de João Gilberto.

Não ligo para as lives que ele andou perpetrando nesta pandemia, açoitado pela mulher-dragão, porque ele não tem mais nada de novo a me dizer; nestes tempos loucos tudo, ou quase tudo, pode ser perdoado. Mas eu sou baiano. Todo baiano nasce fã de Caetano, tem nele o porta-voz de pelo menos uma parte de si, e essa declaração deve estar em alguma parte da minha certidão de nascimento. Caetano é um dos artífices do que resolveram chamar de baianidade, assim como Jorge Amado ou Dorival Caymmi ou Ary Barroso. Deve ser por causa de Caetano que dizem que baiano não nasce, estreia.

Sendo um pouco mais racional, o fato é que desconheço músico, neste último meio século, que tenha tido tamanha importância na evolução da música brasileira, que tenha dado uma contribuição tão grande. Todo mundo que faz música no Brasil deve algo a ele.

Eu admiro Caetano pela sua capacidade de invenção e reinvenção, o seu esforço em levar a música brasileira sempre um passo adiante. Pela sua inquietação permanente, pela busca de novos horizontes, sempre. Pelo seu lirismo, também, principalmente nos aspectos formais, mas principalmente por ele ter sido, individualmente, um dos principais motores da música brasileira nos últimos 60 anos. Caetano é mais que um dos tantos gigantes que pisaram a Terra: é um deus, e é um privilégio ter vivido no mesmo tempo que ele.

Mas paixão, mesmo, eu tenho é pelo velho Chico.

Uns anos atrás ouvi cada um de seus álbuns com uma atenção que já não é mais comum em mim, cansado de um fin de siècle que parece nunca terminar. Na verdade, Chico Buarque foi um entre vários músicos que reavaliei. Na época, fiz uma revisão geral do conheço da música brasileira, e não é muito pouco. A partir daí refinei alguns conceitos, mudei outros, reforcei uns tantos. Entendi que o samba-canção é um dos momentos mais altos da música brasileira, lírica e musicalmente, insuperado ainda hoje, e foi injustamente relegado a um segundo plano pelo quase antagonismo da bossa nova. Descobri Carmen Miranda, uma das grandes sambistas da história e uma das melhores cantoras brasileiras de todos os tempos. Compreendi Gilberto Gil, cujo talento absurdo passei a finalmente reconhecer e admirar. Reencontrei o “Cinema Transcendental”, disco daqueles que tocavam direto no rádio em uma parte da minha infância, e entendi que ele sempre tinha sido o meu disco preferido de Caetano, eu é que não percebia e fingia preferir “Transa”.

Mas não há nada como ouvir Chico Buarque novamente, ou pela primeira vez.

Já escrevi aqui sobre a minha devoção por “João e Maria”. Mas não escrevi sobre o êxtase ao ouvir “joga bosta” — bosta! — “na Geni” quando era criança e entender que as coisas e as palavras podiam e deviam ser dessacralizadas — joga bosta em tudo, joga, joga bosta, joga bosta! Ou ver as manifestações pelas Diretas Já ao som de “Pelas Tabelas”.

Não escrevi sobre o arrepio que sinto cada vez que ouço “Cálice”. Em primeiro lugar pela familiaridade absoluta e, ao longo das últimas décadas, quase esquecida. Umas vidas atrás, quando ela finalmente foi liberada pela Censura, as rádios de Salvador pareciam não tocar outra coisa, e “Cálice” era a música que estava no ar, quase como orvalho ou o cheiro do óleo diesel nas avenidas ou do dendê na Praça da Sé esperando o ônibus ou o cheiro de mofo e de mijo que emanava dos casarões e dos becos do Pelourinho. E por isso ouvir aquele arranjo, depois de décadas sem a escutar ou ao menos ouvir com atenção, adquire uma importância que pouca coisa hoje é capaz de ter, à medida que as músicas se repetem e repetem e repetem sob um disfarce cada vez mais esgarçado de novidade.

Porque uma coisa não se esgarça, nunca: o lirismo de Chico Buarque traz sempre uma verdade absoluta e simples de que poucos letristas brasileiros conseguiram se aproximar. É o sujeito que revelou que saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu, mas se essa é talvez uma das imagens mais pungentes da música brasileira — enquanto tu pisavas nos astros distraída, hein, minha filha? — não é suficiente para explicá-lo, porque boa parte da sua graça está nas frases simples, na descrição de sentimentos menores, a poesia gigantesca que se tira do comum que é dito. Chico conseguiu isso como nenhum outro letrista jamais fez, e é isso que me liga a ele de maneira que eu sequer percebia.

Eu sempre soube que, se fosse músico e poeta e tivesse um talento pantagruélico assim, eu não seria Caetano. Minha admiração por Caetano é, antes de tudo, racional, é quase uma constatação. Penso em Caetano com a mão nos quartos diante do microfone e balanço a cabeça, é verdade, mas a verdadeira razão é outra: não consigo me imaginar escrevendo as letras que ele escreveu, não me vejo dominando aquele idioma, eu não consigo me ver sempre nessa busca por algo novo. E mais que isso, essa ligação emocional, que pode ter nascido da mãe que viu Chico surgir em shows no Rio, ou das músicas, ou do entendimento de que alguns dos versos mais belos da música brasileira dispensam de maneira tão natural quaisquer níveis de engenharia (como, se na desordem do armário embutido meu paletó enlaça o teu vestido, e o meu sapato inda pisa no teu?), eu não tenho com Caetano.

Chico, não. Sempre olhei para ele e achei que num boteco a gente ia se dar bem. Desconfio, por exemplo, que no fundo Chico Buarque é um conservador. Praticamente toda a música brasileira deve algo à bossa nova; ele não, é como se a música que ele sempre fez, aquilo que ele queria dizer só pudesse ser dito num idioma inventado pelas baianas expatriadas no Rio no início do século passado, e se sabe tão verdadeiro que não precisa de artifícios nem grandes invenções. E é por isso que eu sei que, fosse eu um gênio, seria um gênio assim.

Caetano pode ser a Ana Hickman, a mulher mais bela, perfeita quase. Mas a minha mulher é mais bonita que a Ana Hickman, sempre foi. É mais bonita porque é dela que eu gosto. E eu gosto é de Chico Buarque.

Zumbi dos Palmares

Sempre achei essa história de “pobre do país que precisa de heróis” uma estupidez. Um país sem heróis é um país sem referência e sem identidade, porque são eles que encarnam, de maneira simples e intuitiva, os melhores valores de uma sociedade. A França tem Carlos Martel, Carlos Magno e Joana d’Arc, os ingleses inventaram o rei Arthur e Robin Hood, Portugal tem seu dom Sebastião já há muito atrasado em sua volta.

O Brasil tem uma característica curiosa — não exclusiva, mas bem forte nestas plagas: temos o dom da iconoclastia absoluta, a necessidade atávica de destruir heróis e ídolos, de apontar seus defeitos antes de qualquer coisa, de desmerecer o que fizeram e dizer que olha, as coisas não são bem assim. Mas os tempos de redes sociais e neo-colonialismo cultural criaram também outro fenômeno, a defesa histérica e algumas vezes totalitária dos valores de grupos inconciliáveis, a seleção de umas lendas em detrimento absoluto de outras.

Quem reclama que o 7 de Setembro ou Tiradentes são figuras de importância histórica criada a posteriori pode dizer o mesmo de Zumbi dos Palmares, fenômeno burilado a partir dos anos 70 para atender à necessidade, então nascente, de um herói negro.

Por isso, o que se sabe de Palmares é muito pouco. Era uma confederação de quilombos espalhados por uma área bem razoável em Alagoas, liderada por Zumbi e destruída por Domingos Jorge Velho depois de anos de confrontos — e isso é quase tudo o que se pode dizer com absoluta certeza.

Aparentemente, seu primeiro grande líder foi Ganga Zumba que, já velho, entendeu o óbvio — eles não poderiam ganhar aquela guerra — e tomou uma decisão que acabaria se revelando fatal: negociou um acordo com Portugal, em que devolvia os escravos fugidos mas garantia a liberdade daqueles nascidos no quilombo, que viveriam em terra própria.

O que ele não entendeu é que o sistema econômico da colônia, baseado na monocultura da cana e na mão de obra escrava, jamais poderia tolerar voluntariamente a existência de um quilombo tão grande (embora fosse obrigada a conviver com quilombos em vários níveis diferentes quando não havia jeito): os senhores de engenho sabiam que Palmares se tornaria uma Xangri-lá, um foco de resistência negra e uma ameaça constante e cada vez mais forte à estabilidade da economia colonial. Além disso, é possível imaginar a resistência a um acordo desses dentro do próprio quilombo; os que seriam devolvidos não estavam muito felizes — e por isso há uma versão de que Ganga Zumba foi envenenado pelo próprio quilombo.

O trato foi feito para ser descumprido, e o quilombola pagou a sua ingenuidade com a vida ao ser atraiçoado pelos portugueses. Zumbi teria se oposto ao acordo e, legitimado pela morte de Ganga Zumba, passou a liderar a resistência.

Mas Ganga Zumba tinha razão: era impossível manter Palmares. O quilombo tinha se tornado grande demais para continuar existindo. O acordo de Ganga Zumba não era desprovido de sentido, mas lutar contra a história é sempre tarefa inglória e com fim trágico para o lado mais fraco.

Depois da destruição de Palmares, Zumbi conseguiu se esconder por dois anos, até que foi finalmente capturado. Sua cabeça foi cortada, salgada e exposta em Recife, para tranquilizar a população e servir como recado aos escravos que caíssem na besteira de sonhar com a liberdade.

***

Eu tinha 11 anos quando ouvi falar de Zumbi dos Palmares pela primeira vez. Uma prima, Celina, me emprestou um livro de história — dele só lembro que era volumoso, em A4, e que o texto vinha em duas colunas. Ele trazia a história do líder quilombola que, depois de resistir por anos às incursões dos portugueses, se jogou de um precipício para não ser capturado com vida, fazendo da Serra da Barriga uma espécie de Masada do novo mundo. Um herói maior que a vida, que demoraria três séculos para ser resgatado do oblívio.

O que eu ainda não sabia é que naquele mesmo ano um jornalista chamado Décio Freitas publicava um livro com a história inédita de Zumbi. Ele dizia ter tido acesso a cartas de um tal padre Antonio Melo, que traziam detalhes que ninguém conhecia até então: sobrinho de Ganga Zumba, Zumbi fora capturado aos 7 anos e criado como Francisco pelo padre Mello, que o ensinou a ler e escrever. Aos 15, fugiu e voltou para Palmares, onde se tornou seu último líder.

É uma história bela e romanesca, diriam alguns. Nesse caso, romanesco deve ter virado sinônimo de mentira, porque essa história era só isso: mentira cabeluda e desavergonhada, daquelas criadas com má fé e canalhice em nome de um ideal nobre.

Ninguém jamais viu essa carta. Ela é, até prova em contrário (e prova simples, um simples mostrar de um documento), uma invenção de Freitas. O fato é que os únicos registros contemporâneos sobre Palmares foram escritos por aqueles que o combateram, e isso quer dizer que mesmo os mais fiéis aos fatos refletem necessariamente a visão, os preconceitos e os interesses daqueles que tentavam destruir o quilombo.

Curiosamente, o próprio Décio, pouco antes de morrer, dizia que Zumbi era radical demais e que a solução de Ganga Zumba era a mais indicada.

Tudo isso, essas idas e vindas, essas versões e contra-versões, reflete muito mais que a rarefação de fontes históricas. Diz respeito à necessidade de fazer de Palmares e de Zumbi um símbolo perfeito para a luta negra, e é essa perfeição almejada o seu grande problema.

Historiadores e militantes de todo tipo tentam fazer de Palmares a concretização de seus sonhos. “Marxistas” se tornam socráticos e fingem desconhecer qualquer ideia de dialética, atropelando quaisquer indícios históricos e senso comum para apontar Palmares como um regime proto-socialista, como se os quilombolas fossem criar ali, do nada, um sistema social que não o que conheciam, na África ou no Brasil. Adeptos das religiões de matriz africana o pintam como um bastião da liberdade religiosa, o que é possivelmente verdade: havia igrejas no quilombo, e é lógico imaginar que não era muito diferente das senzalas; difícil é saber se e como um eventual conflito entre macumbeiros e cristãos se dava. Até o indefectível Luiz Mott resolveu levar Zumbi para “a irmandade”, dizendo ser óbvio que ele era gay, boy magia do tal padre Antônio Melo.

Eu sempre respeitei o Mott, mesmo no tempo em que ele batia boca com o Berbert de Castro nas páginas d’A Tarde. Seu “Sergipe Colonial e Imperial” é um bom livro, dentro do seu escopo; seu trabalho de pesquisa sobre família e sexualidade é elogiado; e sua militância pela causa gay é admirável. Mas o “Zumbicha” é apenas um delírio tropical, como uma fantasia de Clóvis Bornay. Não apenas porque é baseado na fábula de Décio Freitas, mas porque é essencialmente uma grande torção de fatos para que se adeque à agenda do Mott. Ladino, Mott percebe a necessidade de heróis ou, ao menos, de anti-heróis, e Zumbi é dos mais adequados ao atual zeitgeist. Ele o usa para chamar atenção à sua causa, e paradoxalmente acaba catalisando o preconceito de outras minorias, talvez um dos grandes problemas dessas militâncias identitárias.

A questão que incomoda é: o pouco que se sabe de Zumbi já é mais que suficiente para garantir o seu papel na história. Não precisa de invenções nem de falseamentos. Zumbi é um herói, um dos grandes deste país. Mas isso não parece suficiente para aqueles que tentam recriá-lo dentro dos parâmetros éticos e morais de hoje, e então ele precisa se tornar um super-herói moderno, um socialista que abominava a escravidão, livre de preconceitos e muito à frente do seu tempo. Do jeito que andam as coisas, não vai demorar para que se descubra que ele tinha um “pet” que alimentava com ração vegana super-premium.

A anormalidade social da escravidão é um fenômeno histórico recente na história humana, não tem quatrocentos anos. Ela não apenas fez parte de virtualmente todas as sociedades antigas, mas continuava legal em partes do mundo até este milênio. A escravidão no Brasil só foi possível porque primeiro os portugueses, depois os brasileiros encontraram na África um mercado secular de escravos que jamais houve em terras tupiniquins — mercado que negacionistas usam para desculpar a escravidão no Brasil, mais ou menos como um sujeito se desculparia por estuprar uma mulher alegando que ela já tinha sido estuprada antes.

Além disso, a escravidão no país seguiu caminhos que hoje parecem tortuosos, mas que na época eram perfeitamente normais. Quem se espanta por negros forros terem escravos, até mesmo escravos terem escravos, simplesmente não entende o mecanismo econômico que possibilita a escravidão nem as sutilezas sociais deste país e deste povo (embora isso tampouco fosse exclusividade nossa). Nós somos estranhos, e damos um boi para não entrar numa briga e uma boiada para ver como é que a gente ajeita as coisas depois.

Apesar do que os teóricos liberais apregoam, a escravidão não é incompatível com o capitalismo, nem com nenhum outro sistema econômico, e chega a ser quase uma exigência econômica nos setores primário e secundário da economia: lavouras extensivas como a cana ainda exigem mão de obra farta e muito barata para compensar o volume de produção necessário e o baixo preço das commodities — e basta pensar um pouquinho nos robôs que ocuparam as fábricas de automóveis para entender que a escravidão só foi superada porque a tecnologia permitiu a substituição desse tipo de trabalho por outro mais barato e mais eficiente. Os luditas perceberam isso imediatamente. Robôs são os novos escravos, e quando chegar a Inteligência Artificial Geral, se prepare que o pau vai comer.

Tudo isso é para dizer que talvez o maior crime que se comete contra a história deste e de qualquer país é tentar julgar o passado exclusivamente com os olhos do presente. É aplicar um determinado padrão moral ou ético anacrônico a situações que não podiam obedecer a ele. Para piorar, o crescente puritanismo que orienta a discussão social torna cada vez mais difícil falar da escravidão sem afetar, antes, um horror que se quer genuíno, um reboco emocional que é dispensável e até prejudicial. É o que faz gente “estudada” dizer que africanos foram escravizados porque eram negros, implicando um racismo que na verdade é consequência da escravidão.

Quando matilhas de militantes identitários atacam qualquer um que fale disso, elevando, por exemplo, gente como o jornalista Leandro Narloch a um patamar que eles não merecem, fazem um desserviço à história de Zumbi. Seria injusto exigir de um homem do século XVII a compreensão de mundo própria do século XXI. Fazer isso é tirar dele seu valor, é desconsiderar o seu papel histórico e sua grandeza em seu tempo, é quase como achar que, sendo o que foi, ele não podia ser um herói.

Mas o debate sobre racismo, cada vez mais tisnado por nuances identitárias nascidas num regime acadêmico cada vez mais insular e estrito, que distorcem (ou, se preferirem a nova queridinha linguística, “ressignificam”) os objetivos finais da luta negra, e por uma progressiva infantilização potencializada pelas redes sociais, tem feito com que isso se torne cada vez mais um debate obscurantista para surdos.

Às vezes desconfio que isso acontece também porque, de outra forma, ficaria difícil acomodar tantas vozes. Todo mundo tem que ser ouvido, a opinião de todos — inclusive a deste velho blogueiro comunista que só entende mesmo de balançar na rede — vale alguma coisa. Ficou feio dizer que alguém não sabe o que está falando, ou que está falando besteira. E mais importante do que debater passou a ser a conquista da aceitação do maior número de pessoas possível dentro de sua bolha. Porque embora digam que a grande obra do Diabo foi fazer as pessoas acreditarem que ele não existe, a verdade é que seu pulo do gato foi fazer as pessoas acharem que sua opinião, qualquer que seja, importa.

O capitalismo brasileiro

Meninos, eu juro que vi.

Ontem, quarta-feira, 14 de julho, dia da grande revolução burguesa francesa, a revolução que os liberais elogiam mas que Napoleão botou em seu lugar em uns poucos anos, a revolução cujo aniversário de 200 anos marca, para mim, o ressurgimento do liberalismo — nesta quarta eu vi um episódio de um documentário na TV Cultura, salvo engano chamado de “Os Empreendedores”.

Nele, Fernando Henrique Cardoso faz um auto-de-fé liberal. A partir da história de quatro empreendedores brasileiros, Barão de Mauá, Conde Francisco Matarazzo, Hermann Hering e Antônio Ermírio de Moraes, ele enceta uma diatribe contra a presença do Estado na economia. Segundo FH, nenhum desses empreendedores, todos eles bilionários, jamais utilizou o Estado para enriquecer.

Eu confesso que sempre que olho para a cara mole de Fernando Henrique lembro de João Ubaldo Ribeiro. João Ubaldo, grande baiano, foi o homem que escreveu do então presidente:

Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico.

Todo — absolutamente todo — o texto do programa é de uma canalhice, de uma parcialidade e seletividade impressionantes. Fernando Henrique não diz, por exemplo, que teve a iniciativa e a honra de colocar a Hering em maus lençóis ao proceder à destruição da indústria têxtil brasileira, importando malhas chinesas a preços inalcançáveis. Não fala que exemplos como o de Mauá são a exceção, que em virtualmente todos os setores a iniciativa estatal foi imposta pelo absoluto desinteresse do tal empreendedorismo privado. E quando menciona a indústria naval brasileira, diz algo como “o primeiro programa de incentivo à indústria naval foi de Juscelino Kubitschek. O segundo foi de Geisel. O terceiro agoniza.”

Adivinhe quem bancou o programa que salvou a indústria naval brasileira nos anos 2000 e cujo nome não pode ser mencionado.

É estranho ver um sociólogo que já foi respeitado se deixando rebaixar a um papel desses. Eu, que brinco diuturnamente com a possibilidade de me filiar ao PCO porque a um cavalheiro só interessam as causas impossíveis (©Jorge Luís Borges), fico triste ao ver isso. Eu lembro de FH na campanha das Diretas, idolatrado pelos peitos tão fartos da Christiane Torloni. Só por isso ele merecia um fim mais digno.

Mas ele não degenerou totalmente, e faz um único elogio à Embrapa. Claro, não menciona as dezenas de Ematers, Epagris que se dedicam a ajudar pequenos agricultores Brasil afora. Não faz isso porque o FH do século XXI é daqueles que jogaram às favas os escrúpulos de consciência e fecharam os olhos ao embarcar numa nave estranha.

Tudo bem, direito dele. Pelo menos é o que você pensa até ver que esse documentário foi financiado pela Lei de Incentivo Cultural e pela Ancine. Dinheiro de impostos.

Pois é.

Você provavelmente tem raiva do Bolsonaro, aquele verme com retenção anal. Eu tenho raiva do Fernando Henrique. Agora você sabe por quê.

***

O programa é sucedido por um que pergunta se velhice é doença.

Idiotas.

Todo mundo sabe que velhice é doença terminal. O problema é que a alternativa é muito pior.

Paul McCartney: discografia

Uns tantos anos atrás, escrevi aqui uma pequena introdução à discografia de Paul McCartney, dando minha opinião sobre cada um dos discos lançados até então. (Vi agora que faz mais de dez anos. O tempo passa, e daqui da janela eu dou uma de Carolina.)

Não é uma boa lista. Não é apenas exageradamente superficial, que isso não era problema: é que toda ela foi feita de memória. Não ouvi os discos novamente para confirmar a opinião que tinha formado às vezes há um quarto de século. E havia alguns que eu não escutava havia, literalmente, décadas.

Há algum tempo, no entanto, andei ouvindo esses discos de novo com uma atenção que já não dispensava havia muito tempo, em ordem cronológica, inclusive os de que eu não gostava. E percebi que estava errado em relação a vários deles. Nada como o tempo para lhe fazer criar juízo e perceber sua estupidez; e assim lá vamos nós de novo, dessa vez com um pouquinho mais de seriedade.

A lista original se restringia aos LPs originais. Nos anos 90, ao relançá-los em CD, McCartney adicionou a eles os compactos lançados na mesma época. Na época, ignorei essas novas versões porque elas acabavam deturpando os discos originais, tornando-os invariavelmente mais fortes.

Mas nos anos 2010 McCartney descobriu uma mina de ouro: valorizar novos relançamentos com o acréscimo de um bocado de material inédito.

A Archive Collection traz uma variedade de versões do mesmo álbum para todos os bolsos, com faixas inéditas, sobras de estúdio e demos, em edições de luxo com fotos, textos, qualquer coisa que possa agregar valor e fazer os fãs comprarem novamente o que já têm, e que chegam a custar centenas de dólares. Isso muda as coisas porque a quantidade de material musical incluído costuma ser impossível de ignorar — ao mesmo tempo que é preciso evitar que isso tire a perspectiva do disco original. Assim, embora eu continue essencialmente comentando os álbuns originais, porque me recuso a tirá-los do seu contexto, é preciso fazer uma menção em separado a esse novo material, quando existente.

Por outro lado, a lista continua ignorando os álbuns ao vivo, que ultimamente se multiplicaram também em vídeo, já que a debâcle da indústria fonográfica forçou artistas como McCartney a botarem o pé na estrada com mais frequência para garantir o caviar das crianças.

Ignora também as obras eruditas. Não porque são boas ou ruins, mas porque não tenho capacidade de julgá-las adequadamente; sempre desejei que o Milton Ribeiro fizesse um favor às gentes resenhando os danados. Os três discos de The Fireman tampouco foram incluídos, mais ou menos pelas mesmas razões. O primeiro é bem razoável, o segundo é meio chato, o terceiro tem alguns pontos altos; mas não é uma linguagem que eu entenda. Twin Freaks eu mal ouvi. E o Liverpool Sound Collage é apenas Revolution 9 refeito trinta anos depois.

McCartney
O primeiro disco de Paul McCartney é antes de tudo uma reação à música dos Beatles e uma afirmação pessoal diante dos ex-parceiros. Com Paul tocando e produzindo tudo, o álbum vira as costas aos valores de excelência na produção típicos dos Beatles e investe em uma abordagem artesanal, caseira, refletindo em parte a mesma filosofia do projeto Get Back/Let it Be, mas também o cansaço de McCartney com o mundo que o cercava e uma busca por conforto e alegria no seu ofício. Conscientemente, ele tenta se afastar do som da banda, se livrar da influência e participação dos outros no que sentia ser a sua obra, ao mesmo tempo em que tenta resgatar uma simplicidade e uma individualidade que temia perdidas.

O resultado é irregular. De certa forma, sintetiza tudo o que se poderia esperar da carreira de McCartney a partir dali. Um compositor capaz de encher meio álbum com composições de categoria absoluta (Maybe I’m Amazed, Every Night e Junk são dignas de qualquer álbum dos Beatles, e That Would Be Something parece saída do “Álbum Branco”) mas que muitas vezes apostaria em uma visão bem particular que falha em alçar voo, como em Teddy Boy; um músico autossuficiente que muitas vezes deixa claro que se beneficiaria muitíssimo da colaboração de seus colegas de banda (nas mãos dos Beatles That Would Be Something ou Oo You poderiam ser algo muito melhor); e finalmente, um artista que, ao longo de toda a sua carreira, cederia repetidamente à tentação de lançar material mal acabado, canções que com um pouco mais de esforço e critério poderiam resultar em clássicos.

Também joga luz sobre uma atitude generalizada da crítica em relação a McCartney. Uma canção que chama a atenção é Man, We Was Lonely. É praticamente uma antecipação do que Lennon faria no fim daquele ano com Isolation. Ambas falam das pressões, da orfandade sentida a partir do fim da banda, do consolo e segurança encontrados em suas parceiras. E no entanto, no disco de Lennon isso era uma prova do seu talento confessional; no de McCartney, até pelo tom otimista, é considerado apenas uma bobagem. Era um presságio: a crítica seria injusta com Paul McCartney durante muito tempo.

O passar do tempo e a chegada da internet elevaram a reputação deste disco, mas McCartney continua sendo o que era em seu lançamento: um disco irregular, mas principalmente contraditório. Por um lado preguiçoso, relaxado, autoindulgente, o trabalho de um autor consagrado que pode se dar ao luxo de emplacar a sua visão artística, mesmo quando turva. Por outro, além de trazer algumas grandes canções — o objetivo de qualquer álbum —, mostra que McCartney ainda era o artista com lampejos de genialidade musical que encantou o mundo.

A versão da Archive Collection é das que menos traz material inédito, e provavelmente as mais fracas. De interessante, um outtake razoável de Maybe I’m Amazed e a legendária Suicide, composta para Frank Sinatra.

Ram
Desprezado em seu lançamento e depois alçado à reputação de um dos melhores discos de um ex-beatle, Ram é um grande avanço em relação ao seu predecessor. Agora McCartney se queria levar a sério e foi atrás de outros músicos, como Denny Seiwell e Dave Spinoza. De uma riqueza musical que surpreende até quem já conhecia a capacidade de McCartney de criar grandes melodias, Ram finalmente mostra o seu talento real e virtualmente todos os seus pontos fortes.

Não é nos rocks que o disco se destaca — embora excelentes, há sempre algo de leve demais em Eat at Home ou Smile Away. É na sensibilidade entrevista nos números mais lentos, na extrema inventividade que às vezes mal pode ser contida em uma só canção, que Ram se revela um clássico.

Os Lennon acharam que o disco era todo uma estocada neles. Segundo McCartney era só a primeira faixa, Too Many People Too many people preaching practices / Don’t let them tell you what you wanna be. Mas é impossível ouvir 3 Legs (My dog he got three legs / but he can’t run) e não pensar nos seus ex-amigos. Em resposta, John e Yoko escreveram How Do You Sleep?, um ataque fortíssimo abaixo da linha da cintura (The only thing you’ve done was “Yesterday” / But since you’ve gone you’re just “Another Day”); e Lennon chegou a considerar aparecer na capa do álbum Imagine segurando um porco, como resposta à capa deste disco.

Ram é creditado a Paul e Linda McCartney. Na época, a renda dos discos solo ia para um fundo comum e era dividido igualmente entre os quatro. Embora naquele momento, por incrível que pareça, McCartney não fosse o campeão de vendas do grupo (mérito que, por causa do All Things Must Pass, pertencia a George Harrison), ele achou esse arranjo injusto e deu crédito à mulher para ficar, desde o início, com 50% da renda. Os outros beatles não gostaram de mais essa sacanagem.

A versão da Archive Collection traz três discos adicionais. Um é a versão mono do álbum, redundante. São os outros dois que trazem algo realmente interessante. Thrillington, a versão orquestral e apócrifa do álbum que McCartney lançou alguns anos depois e que agora inclui aqui, é surpreendente. Alguns arranjos são excelentes, eventualmente lançando uma nova luz sobre algumas das faixas do LP original, e me arrependo de não ter querido ouvi-lo antes. O outro traz os compactos, outtakes, gravações caseiras e canções inéditas de sempre. Algumas são excelentes, como A Love For You, canção que inexplicavelmente permaneceu inédita durante tempo demais: eu consigo ouvi-la fazendo sucesso nas rádios no fim dos anos 70.

Wild Life
A falta que McCartney sentia dos Beatles era tanta que ele não resistiu e formou um novo grupo. Mas agora nas suas condições: ele era o dono da bola e isso estava claro desde o início. Os resultados não demoraram a surgir, obviamente, e o primeiro álbum do Wings, lançado pouco mais de seis meses depois de Ram, é uma unanimidade: o elogio mais comum que se faz a ele é “medíocre”

Isso é injusto. Pelo menos metade dele é bem boa, das respostas a Lennon — delicada em Some People Never Know, angustiada em Dear Friend — à belíssima balada Tomorrow, passando por um cover brilhante de Love is Strange, que não lembra em quase nada a versão original de Mickey & Sylvia, e o blues que dá título ao álbum, no mínimo curioso. Mesmo o resto deixa antever coisas melhores. I Am You Singer, por exemplo, cresceria muito com um arranjo mais consistente, e Mumbo, com sua letra que não é letra e que acaba lembrando Charlie Chaplin em “Tempos Modernos”, é um rock que ilustra bem a capacidade de McCartney de não se levar a sério demais. Wild Life merece ser mais bem avaliado. Infelizmente foi lançado pouco depois do Imagine de Lennon, uma obra-prima, o que piorou ainda mais a sua imagem. De modo geral, é um álbum que se fosse mais bem produzido, com mais cuidado, poderia ser muito melhor. No fim das contas, é um disco digno ainda que um pouco estranho.

A versão da Archive Collection traz pouca coisa interessante. O melhor é African Yeah Yeah, algo que parece ser uma jam, “incluída por brincadeira. Paul pede desculpas”. No entanto, é curiosa pelo seu frescor e descompromisso, e por mostrar a influência de Linda — fã absoluta de reggae — na banda.

Red Rose Speedway
Este álbum é a razão para eu reescrever esta discografia. Quando o ouvi pela primeira vez, detestei. Meloso, piegas, chato e depressivo: eu o vi como um lamento dirigido a Lennon — basta prestar atenção à letra de Little Lamb Dragonfly para ter essa impressão. Umas poucas audições posteriores não mudaram essa avaliação, e nos últimos trinta anos não me dei sequer ao desfrute de ouvi-lo inteiro.

Eu estava enganado. Red Rose Speedway é um bom disco. Não é brilhante, mas não é ruim — ou pelo menos não tão ruim quanto acreditei por décadas.

Red Rose Speedway, ao menos, traz um um número suficiente de boas canções. Apesar da crítica torcer o nariz, My Love é, sim, uma das grandes canções de amor da história, com uma melodia lindíssima, uma letra que passa o seu recado com perfeição e um solo de guitarra irrepreensível. E canções como One More Kiss e o medley final são puro McCartney. É um disco que pertence ao seu tempo e que traz muito claro o DNA de seu autor, o que possibilitou que envelhecesse com alguma graça. Longe da perfeição, está mais longe ainda de ser a tragédia que sempre julguei ser.

A versão da Archive Collection traz algumas excelentes canções inéditas, como Tragedy, que enriquecem muito o álbum.

Band on the Run
Um disco exuberante, vigoroso, cheio de alegria musical — Band on the Run é o melhor de McCartney até aquele momento, a obra que lhe devolveu o respeito da crítica, e para muita gente o melhor álbum de toda a sua carreira solo, que já ultrapassa meio século. Das notas iniciais da canção-título à sua retomada no final do disco, o que temos é uma obra completa, coesa, bem pensada e executada com brilhantismo. Band on the Run é um dos grandes discos de rock dos anos 70.

A última versão lançada, da Archive Collection, traz acréscimos medíocres. Mais interessante, pero no mucho, é a comemorativa do aniversário de 25 anos. A verdade, no entanto, é que o disco original continua sendo suficiente.

Venus and Mars
Embora não esteja no mesmo nível do Band on the Run, Venus and Mars é um sucessor digno. É possível defini-lo como um álbum que exemplifica com quase perfeição o mainstream do rock na metade dos anos 70 — e não à toa, junto com o Led Zeppelin os Wings foram a banda de maior sucesso comercial daquela década.

Venus and Mars é um disco coeso, suficientemente denso, com um grande apelo pop sem que isso signifique a perda de qualidade roqueira.

No entanto, tem um aspecto curioso: ao contrário de discos inferiores, elevados por dois ou três clássicos em cada, Venus and Mars é um álbum em que o que mais impressiona é o conjunto, a abundância de boas canções e a qualidade média. Talvez seja o melhor “álbum dos Wings”, ou seja, um disco com participação mais efetiva da banda, que tinha encontrado finalmente sua melhor formação. Não houve muitos discos melhores que esse em 1975.

A Archive Collection não acrescenta muito ao que já tínhamos, além dos compactos contemporâneos. Apenas Soily, um belo rock.

Wings at the Speed of Sound
O papel histórico do Speed of Sound é, essencialmente, interromper a fieira de bons discos dos Wings. Só isso.

Depois de uma sequência brilhante, McCartney resolveu aprofundar a fórmula consagrada em Venus and Mars, mas agora sendo mais democrático e cedendo mais espaço para seus companheiros de banda. O resultado é de uma mediocridade espantosa, apesar de duas ou três grandes canções. A maior parte delas é pobre, e a elas falta aquela qualidade inexplicável que torna as grandes canções de McCartney obras atemporais. Pior: em um ano em que a cena musical inglesa via o surgimento de bandas como o Sex Pistols e o Clash, McCartney se sai com esse disco. Não tinha como dar certo.

A Archive Collection, entre outras bobaginhas como Bonzo Bonham na bateria de Beware My Love, traz Must Do Something cantada por Paul, provavelmente porque não havia nada de melhor para desenterrar. A versão original, com Joe English nos vocais, é melhor.

London Town
Que belo disco, esse London Town. Parcialmente gravado em um barco, o Wanderlust, viu o fim da melhor formação dos Wings, com a saída de Joe English e Jimmy McCullough. Mas aqui não fizeram muita falta. London Town reflete a atmosfera relaxada das circunstâncias de sua gravação, bem como o fato de que a banda tinha se solidificado como uma das mais bem sucedidas dos seu tempo. E tudo isso enquanto o punk comia solto lá fora. Assim como no álbum anterior, McCartney ignora o que se faz de novo. Mas ao contrário daquele, é capaz de expor sua visão da música de maneira sólida, coerente e elegante.

Este álbum traz canções magníficas, pop de primeira qualidade. É um um disco que orgulha o seu autor.

Back to the Egg
Este é, sem nenhuma dúvida, o álbum mais subestimado de McCartney. Lançado em 1979, nos estertores do movimento punk na Inglaterra, é vigoroso e variado, suas guitarras sujas dando um ar moderno e roqueiro a uma abundância de boas melodias. Back to the Egg estreava uma nova formação dos Wings, que infelizmente não sobreviveria à prisão de McCartney no Japão alguns meses depois. A média de qualidade das canções individuais é relativamente baixa, embora três ou quatro  sobressaiam, como Getting Closer, Arrow Through Me ou Baby’s Request: a graça do disco está nos arranjos, essencialmente, e na unidade que ele consegue ter. Back to the Egg é álbum para ouvir inteiro, a cada vez.

McCartney II
O Wings estava para acabar e McCartney se trancou em casa com sintetizadores e sequenciadores. O resultado foi o que é, ao menos oficialmente, seu segundo disco solo, nomeado adequadamente.

Nos últimos anos, McCartney II tem sido reavaliado e alçado à condição de grande disco experimental, ousado, etc. Deve ser o resultado da música ruim que se ouve hoje: as pessoas perderam o critério.

Há duas maneiras de abordar esse disco. Uma é colocando-o na tradição do seu primeiro álbum solo: o artista divertindo-se sozinho, fazendo o que lhe dá na telha simplesmente porque conquistou o direito de fazer isso. O outro é fazer de McCartney II um álbum conscientemente experimental, uma obra avant garde.

Infelizmente, este álbum ficou no meio do caminho e não é nem uma coisa, nem outra. É um disco estranho, irregular e insuficiente sob qualquer ângulo que se olhe. Ele inteiro soa amador, mal produzido; sempre de olho na viabilidade comercial do álbum, McCartney tentou compensou a experimentação em faixas como Frozen Jap ou Temporary Secretary com canções claramente destinadas a tocar no rádio, como Waterfalls. E canções como One of These Days mostram que essa experimentação era muito mais intuitiva, quase aleatória, do que proposital. McCartney II era o que tinha para hoje.

Além disso, a maior parte das canções era ruim, ou ao menos displicente. Pouco antes de morrer B. B. King regravou On the Way (para mim, um quase plágio de uma antiga canção de Elvis) e mostrou aonde se poderia ir com parte do material original. Mas a quantidade de músicas ruins — apesar de Coming Up, Waterfalls e One of These Days — não é apenas considerável: são canções muito, muito ruins. Bogey Music , por exemplo, é assustadora.

A versão da Archive Collection ressalta os problemas do álbum original. Embora enriqueça muito o disco, evidencia que boa parte do material deixado de fora poderia ter ajudado a compor um disco instigante, dentro desse propósito experimental. Com um pouco mais de esforço, foco e coragem, McCartney poderia ter feito um disco ao mesmo tempo à frente do seu tempo e contemporâneo. Mas essa, pelo visto, nunca foi a ideia. O resultado é que McCartney II parece o meme do John Travolta confuso.

Tug of War
Depois de um ano em que, pela primeira vez desde 1961, não lançou nada novo, McCartney aparece com um disco em que parecia reagir a um mundo sem John Lennon.

Tug of War é um álbum variado, rico, um dos excelentes de McCartney. Traz uma de suas mais belas canções, Wanderlust (só McCartney para transformar uma canção que se podia chamar de “Baculejo em Alto-Mar” nessa pequena obra-prima), mas todo o disco é de qualidade superior, com força e qualidade. Liricamente, McCartney parece ter tentado ousar um pouco mais, olhar o mundo ao redor, com comentários sociais como Tug of War e mesmo The Pound is Sinking, além da sensibilidade entrevista em Somebody Who Cares, em que ele retoma um velho tema caro ao seu coração, a solidão. E Ebony and Ivory, um dos dois duetos com Stevie Wonder, é uma bela canção, mas tocou tanto que quem estava vivo naquela época tem arrepios aos primeiros acordes.

A versão da Archive Collection é medíocre, trazendo basicamente as demos das canções.

Pipes of Peace
Eu não tenho condições de julgar adequadamente este disco por uma razão muito simples: foi o primeiro que comprei na vida. Ouvi Pipes of Peace até quase furar; conheço cada canção de uma maneira como jamais conhecerei as mais recentes de McCartney. Junte a isso o detalhe de ter passado décadas sem ouvi-lo; reencontrá-lo, portanto, traz lembranças que vão muito além do seu valor estritamente musical e turvam qualquer capacidade de julgamento.

Isto posto, Pipes of Peace é  feito quase exclusivamente com sobras do Tug of War, e algumas faixas denotam o esforço de dar às duas obras alguma unidade conceitual. Algumas boas melodias, algumas boas baladas, mas não passa disso: um disco de sobras. A produção de George Martin é elegante, com algumas boas ideias aqui e acolá, e ajuda a deixá-lo um pouco menos datado do que poderia ser; mas nem mesmo ele consegue fazer com que esse disco supere totalmente as limitações estéticas do ano em que foi lançado, nem o fato de que foi feito a partir de material que, naquele momento ao menos, não tinha conseguido emplacar no Tug of War e, portanto, era de segunda categoria.

Mas ele não é tão ruim quanto dizem por aí. Colocado em perspectiva, é um álbum que em boa parte das faixas traz a força melódica de um compositor que, mesmo em seus piores momentos, é um gênio. Pipes of Peace, no fim das contas, sofre pela presença de duas ou três faixas realmente muito ruins, o que acaba obscurecendo algumas grandes canções, como a faixa-título, Say, Say, Say ou So Bad.

A edição do Archive Collection não pode fazer muito por este álbum, porque onde achar sobras de um disco de sobras?

Give My Regards to Broad Street
Este disco é um equívoco, e isso é o melhor que se pode dizer dele. Trilha sonora do filme patético que McCartney escreveu e estrelou, podia no máximo almejar a ser uma espécie de Yellow Submarine de McCartney — ao menos nos seus sonhos mais delirantes. Give My Regards é um disco malfadado. Algumas canções inéditas, várias regravações, inclusive de alguns de seus maiores clássicos com os Beatles. Infelizmente, nenhuma das regravações é boa: as de Yesterday, Here, There and Everywhere e For No One são pedestres e mancham a história de McCartney, e as versões de canções dos Wings e do próprio Paul são dispensáveis.

Mas nada chama tanto a atenção quanto The Long and Winding Road. McCartney tinha passado quase 15 anos resmungando que Phil Spector destruíra a simplicidade de sua canção. E aí, quando a regrava, é num arranjo ainda mais pesado, com direito aos saxofones horripilantes dos anos 80 e o escambau, uma versão vergonhosa que só a diminui. Ringo Starr, que participa do álbum e do filme, se recusou a tocar novamente nas canções dos Beatles, mostrando um juízo que faltou a McCartney.

Mas o disco não é uma tragédia absoluta. As três canções novas são excelentes. No Values e Not Such a Bad Boy são rocks dignos desse nome, com letras irônicas que não fazem feio; e No More Lonely Nights, o último mega-hit da carreira de McCartney, é uma belíssima balada, enriquecida ainda pela guitarra de David Gilmour.

Para piorar a situação histórica deste disco, ele inaugurou uma prática que McCartney levaria à perfeição canalha nos anos seguintes. Cada mídia trazia uma versão diferente: LP, cassete (que incluía uma gravação de So Bad) e CD (com duas músicas a mais e versões levemente diferentes de outras). Além da sacanagem óbvia com o fã, nenhuma versão faz do disco algo melhor.

Press to Play
Talvez este seja um disco injustiçado. Talvez não.

Ao ser lançado, Press to Play foi recebido com palmas pela maioria da crítica — a brasileira foi, na época, praticamente unânime em elogios. Elogiavam a nova parceria com Eric Stewart, o esforço claro em modernizar o som do velho e bom Macca com o uso abundante de eletrônica.

Mas o tempo passou, e fazendo valer a máxima de que os discos de Paul McCartney são biodegradáveis para a crítica, Press to Play passou a ser considerado um dos piores da sua carreira.

Nem tanto ao céu, nem tanto à Terra. No esforço consciente e evidente de atualização do som de McCartney, Press to Play, abusando de sintetizadores e outras eletrônicas várias, passa do ponto para tentar alcançar esse objetivo. Aqui se vê muitas influências de artistas contemporâneos, e embora tenha algumas boas canções, como However Absurd, Stranglehold e Only Love Remains (e ninguém mais poderia compor Press, por exemplo, uma canção menor que ainda hoje é uma delícia de ouvir), se ressente da falta de unidade e de força criativa, de modo geral. Há muitas canções ruins, fracas. Mas Press to Play talvez pudesse ganhar uma nota maior do que lhe é concedida atualmente.

Snova V CCCP
Em meados dos anos 80, provavelmente sentindo falta da segurança e conforto que só uma banda de rock pode dar, McCartney realizou algumas jam sessions com artistas convidados, sem um propósito inicial muito claro. Entre eles estava Johnny Marr, dos Smiths. O repertório era a música que todos eles tinham em comum: clássicos do rock ‘n’ roll. A partir dessas jams McCartney resolveu compilar um disco que seria lançado apenas na União Soviética em 1988, como uma espécie de “pirata especial”, e finalmente no resto do mundo em 1991. O resultado é irregular. Algumas das versões são muito boas, como Crackin’ Up; outras, como Kansas City, são inferiores ao que ele mesmo já tinha gravado. O disco é um esforço digno, mas a produção simplória tira muito da força que ele poderia ter. É um rock educado, limpo.

O disco ainda não tem uma versão da Archive Collection, o que é uma pena, porque dessas sessões sobraram uma meia dúzia de covers que prometem muito.

Flowers in the Dirt
Em 1989, este disco foi saudado como o retorno de McCartney à boa forma. E com razão. Flowers in the Dirt traz uma exuberância e uma força que faltavam em seus últimos lançamentos. Ao formar uma nova parceria com Elvis Costello, McCartney recobrou uma dimensão lírica que tinha perdido, mas também uma abordagem musical mais instigante.

Este álbum marca o começo de uma nova era para McCartney, 20 anos depois de John Lennon abandonar os Beatles. Ele tiraria o mofo do seu baixo Hofner e se consolidaria como algo mais que um simples músico, mais até que um gênio. McCartney aceitava que, já há alguns anos sem um número 1 nas paradas, seu período à frente de uma revolução havia passado. A música tinha seguido em frente e não precisava mais dele. A partir dali, McCartney se consolidou como algo mais que um ser humano: uma lenda viva, correndo o mundo em turnês infindáveis diante de plateias de adoradores absolutos— entre os quais me incluí, extático, algumas vezes —, em que ele finalmente fazia as pazes com seu passado e passava a viver dele, sem abdicar, no entanto, de uma busca criativa eterna e indefinível que o faz lançar bons discos aos 78 anos.

A versão da Archive Collection traz, basicamente, as demos da parceria entre McCartney e Costello. É muito pouco.

Off the Ground
Depois de um disco muito elogiado, uma turnê que entrou para o Guinness e enquanto se preparava para uma nova excursão, McCartney entrou no estúdio novamente com sua banda.

Podia ter passado sem essa parada. Off the Ground, na falta de adjetivo mais adequado, é um disco frouxo.

Alguns versos de algumas canções são constrangedores; quando McCartney fala na “way we treat our fellow creatures”, um calafrio sobe pela espinha. Algumas canções estão abaixo do medíocre, como Biker Like an Icon.

Mas este álbum não é uma tragédia total. Traz algumas boas canções, como Hope of Deliverance e as duas canções restantes da parceria com Elvis Costello. Mistress and Maid é uma obra-prima, delicada e angustiada ao mesmo tempo.

O problema é que o disco inteiro parece incompleto, mal cozido. Embora não seja ruim, uma canção como Peace in the Neighbourhood nos faz pensar na tragédia que assola os roqueiros felizes. C’Mon People é grandiloquente e chata demais. E é impossível ouvir Cosmically Conscious sem pensar que McCartney teve 25 anos para transformar essa canção em algo decente, e não fez isso.

Na Alemanha e na Holanda, no entanto, McCartney lançou um disco diferente: Off the Ground: The Complete Works, com um CD a mais que incluía faixas inéditas e gravações do MTV Unplugged.

Algumas dessas faixas fazem pensar que, se McCartney fizesse uma escolha mais criteriosa para o seu álbum original, acrescentando canções como Long Leather Coat e retirando desgraças como Get Out of My Way, teria nas mãos um disco muito melhor. Mas vá entender como funciona a cabeça do sujeito.

Flaming Pie
Uma confissão: ao ouvir este disco pela primeira vez, depois de oito anos sem um bom disco de McCartney e quatro sem nenhum, eu fiquei emocionado.

O disco foi gravado depois que McCartney imergiu nas gravações dos Beatles para o projeto Anthology, e em meio a um período difícil na vida de McCartney: a morte de Maureen Starkey e a luta de Linda McCartney e George Harrison contra o câncer. Talvez esse turbilhão emocional e essa reconexão com o passado tenham ajudado a fazer de Flaming Pie o que ele é: uma obra prima, digna do maior gênio da música popular do século XX. Das lembranças das noites com Lennon em The Song We Were Singing ao consolo aos filhos de Ringo em Little Willow, do recado ao filho problemático em Young Boy à beleza delicada de Calico Skies, este disco traz McCartney em grande forma, como não se via há havia muito tempo.

A edição da Archive Collection é uma das melhores da série. Traz uma infinidade de demos, programas de rádio e canções inéditas que o tornam quase um Anthology.

Run Devil Run
Com a morte de Linda, McCartney parece ter ido buscar consolo no que sempre norteou sua vida: a música que ouvia quando adolescente.

Ele já tinha gravado um disco de covers, com resultados medíocres. Mas desta vez o resultado compensou, com sobra. Como era o costume dos Beatles, em vez de clássicos regravados milhões de vezes McCartney deu preferência a canções menos conhecidas. Juntou uma banda de respeito, com David Gilmour na guitarra e Ian Paice na bateria. O resultado é o melhor disco de covers de rock and roll gravado por um ex-beatle, com o peso e a urgência que faltaram a Snova V CCCP e a seriedade que Lennon não quis em Rock and Roll, acrescido de três canções inéditas — que não estão certamente entre seus grandes clássicos, mas não fazem feio num álbum de rock. Run Devil Run é um dos bons discos de Paul McCartney, e nos lembra que, quando quer, ele é um grande artista de covers.

Driving Rain
Esse é outro disco muito subestimado. Muita gente o acha inferior a Flaming Pie. Não é. Talvez essa impressão derive da faixa-título, que abre o disco e que não é o momento mais inspirado da carreira de McCartney.

O fato é que Driving Rain é um excelente disco, forte, coeso com algumas grandes canções e uma abordagem geral sólida e competente.

De certa forma, é um disco que marca um processo de evolução lírica de MCCartney, cuja carreira solo sempre mostrou um esforço deliberado para fugir do autobiográfico. Agora, de repente, algumas canções são um claramente pessoais, como From a Lover to a Friend, um recado à finada Linda, e Lonely Road, uma das melhores interpretações de sua carreira. E Rinse the Raindrops nos faz lembrar que McCartney ainda é um dos melhores baixistas da história.

Driving Rain marca também, de maneira um pouco mais clara, o processo de deterioração da voz de McCartney. É um processo que vinha de décadas — McCartney já reclamava disso em 1969. Mas pouco antes da gravação deste disco, numa discussão com Heather Mills, Paul perdeu a voz por alguns dias. Quando voltou, já não era a mesma. A rotina posterior de shows acelerou ainda mais o desgaste.

Chaos and Creation in the Backyard
Escrevi sobre este disco aqui. Quinze anos depois, não tenho nada a acrescentar ou a retirar.

 

 

 

 


Memory Almost Full
Também escrevi aqui. Nada a acrescentar, também. A não ser o fato de que essa continua sendo a pior capa de um disco de McCartney em seus mais de 50 anos de carreira.

 

 

 

Kisses on the Bottom
Quando este disco foi lançado eu não tinha muitas coisas boas para dizer sobre ele. Acho que nunca falei tão mal de um disco de McCartney. Nove anos depois, minha opinião é um pouco mais complexa — mas só um pouco. Como imaginei, é o tipo de disco que, depois de vencido o estranhamento, e a partir do momento em que você aceita as limitações da voz destroçada de McCartney e o mais-do-mesmo elegante dos arranjos, o que fica é, como já dava para antever, um disco agradável, quase digno, feito para tocar em BG. O tempo lhe fez bem, ao contrário do acontece com a maioria dos discos de McCartney.

New
Demorou cinco anos para que eu conseguisse ter uma opinião sobre esse disco. Minha primeira impressão foi: é uma droga. Só há pouco tempo fui entender o que aquilo significava. O problema de New está na produção. O esforço de McCartney em estabelecer um diálogo com as novas gerações resultou em uma grande bagunça. Produtores demais, eletrônica demais, tudo isso em detrimento da canção. Ao contrário de Nigel Godrich, que enriqueceu a música de McCartney em Chaos and Creation, aqui os produtores transformaram as canções em coadjuvantes. Para piorar, boa parte delas não tem a qualidade necessária para lhes  erguer acima da produção. Aquela característica de McCartney que fazia suas canções parecerem fáceis, lógicas, quase “como não pensei nisso antes?” deu lugar a algo parece um esforço de artesanato evidente, mas não muito convicto de si próprio. Ainda é muito superior à média atual, nesse aspecto; mas já não é o mesmo McCartney de antigamente.

Egypt Station
Comentário aqui.

 

 

 

 

 


McCartney III
Comentário aqui.

Adeus, graxeiras

De repente me dei conta que não há mais hibiscos nas ruas da cidade.

Eram elas as flores mais populares, aquelas que encontrávamos em qualquer lugar, em qualquer muro ou grade, qualquer parque. Ninguém, no entanto, as chamava por esse nome, e eu mesmo tive que procurar nas internets da vida para saber qual o seu nome oficial. Em vez disso, o nome nas bocas das pessoas era o popular: graxeira. Eram chamadas assim, dizem, porque nos tempos dos já mortos os estudantes pobres davam brilho a seus sapatos — ainda se usava sapatos nas escolas, quem diria — esfregando suas pétalas neles. Mas disso eu só soube depois. O que eu sabia, ainda criança, é que bastava puxar o tubo estaminal da flor para poder sugar,junto ao ovário, o seu néctar.

Mas graxeira também era como uns tantos cá em meu rincão chamavam as empregadas domésticas, então tão abundantes quanto os hibiscos, e naqueles tempos incorretos não era incomum garotos gritando para empregadas que passavam: “Qual é a flor que não cheira?”, e não esperavam para responder eles mesmos, “Graxeira!”, para revolta e respostas impublicáveis das moças.

Insultos desse tipo não sobreviveram aos tempos, sorte nossa. As graxeiras também não. Morreram junto com os sapatos Vulcabrás escolares e com as graxeiras pagas a 300 reais por mês e um dia de folga na semana.

Como se não fosse morte bastante, cumpre notar que junto com os hibiscos somem também os pardais. Não fui o único a notar que eles estão desaparecendo, tem gente na internet comentando isso. Dizem que é o resultado da verticalização das cidades, do fim dos quintais e dos restos de comida abundantes. Talvez seja. A mim fazem pouca falta, e é com certo espanto que vejo as pessoas lamentando o desaparecimento dos pardais, como em meu tempo lamentávamos a expulsão dos tico-ticos por eles.

O que não vi comentarem é que em Aracaju os carcarás se aglomeram cada vez mais, se tornam cada vez mais comuns — e eu acho que verticalização coisa nenhuma, os pardais estão sumindo porque os carcarás descobriram que aqui há comida de sobra, comida que anda desparecendo do sertão, e estão comendo os coitados. Com um pouco de sorte os carcarás vão descobrir que aqui também há pombos, e pombos são iguaria fina desde os tempos de Roma.

Mas carcarás não comem hibiscos, seria injusto imputar a eles a culpa pela morte das graxeiras. Não é difícil chegar à conclusão a que chego: fomos nós que as matamos, e agora, em vez dos hibiscos, as ruas são tomadas por uma flor a que chamam buquê de noiva.

Todo mundo já passou por isso. A gente passa todo dia pela mesma rua, se torna cego para a beleza ou feiúra em volta, e um dia surge na paisagem uma área vazia, uma casa demolida; e então não conseguimos lembrar do que existia lá antes. Aconteceu algo assim com os hibiscos. Uma hora você olhava e via hibiscos; virou o rosto, olhou de novo, e lá estão aquelas flores brancas, onipresentes. É pior que isso, na verdade. Bastou notar o primeiro pé de buquê de noiva para perceber que elas estavam em todo lugar, e que já não se podia encontrar um velho hibisco vermelho, quanto mais rosa, roxo ou amarelo.

O nome científico dessa intrujona, fico sabendo, é plumeria pudica. Que equívoco, isso. Uma flor não pode ser pudica, longe disso. Flor que se dê ao respeito tem que se dar ao desfrute. Tem que ser amostrada, sibite, vaidosa. Precisa cheirar também, cheirar muito, cheirar tanto quanto penteadeira de puta. A graxeira não cheirava e o resultado é essa pequena tragédia, foi substituída por uma flor que se quer pudica e branca impoluta; e quem pode dizer, de tal horror, que é flor para botar no cabelo e para botar no xibiu, como diziam Jorge Amado e Dorival Caymmi? Não dá. Não um buquê de noiva, uma plumeria pudica.

Mas não adianta, ninguém liga mais. O mundo anda mais chato, de qualquer forma. A pudicícia dessa flor está agora em todo lugar — hoje percebi que está no cemitério diante do qual sempre passo. É um lugar adequado a ela. Por isso dizer adeus a flor boba como a graxeira é tão melancólico. Hibiscos não eram nada. Quando passam fazer falta, é porque as coisas mudaram, e para pior. Nada pode dar certo desse jeito.

Marighella

Fernando Meirelles me chamou de ladrão.

Não foi nada pessoal, até porque ele nem sabe que existo. Foi uma ofensa genérica: ele anda meio chateado porque o filme “Marighella”, dirigido por Wagner Moura, estrelado por seu Jorge e do qual ele é produtor associado vazou nas redes. “Por alguma razão as pessoas acham que roubar fruta na árvore ou assistir filme pirata não é roubo. A mente humana é pródiga em autoengano”, ele disse à Folha de S. Paulo ontem, sentado nos muitos dinheiros arrecadados através de leis de renúncia fiscal e financiamento direto das tetas da viúva. O discurso é assustadoramente próximo dos bolsonaros da vida, que também chamam o financiamento público de filmes de roubo, mas adoram se apropriar dos fundos públicos em rachadinhas e quetais. Muda só o ponto de vista.

A novela de “Marighella” acabou se tornando razoavelmente longa. Primeiro por causa do boicote anunciado pelos bolsominions, assustados com qualquer coisa que não seja fake news; depois por causa da pandemia. Lá fora o filme estreou em 2019, fazendo o circuito dos festivais que é a praxe em filmes fora do esquema hollywoodiano. No Brasil, estrearia em novembro daquele ano, mas o governo Bolsonaro fez o que pôde para evitar sua exibição. Eles têm muito medo de filmes, de comunistas mortos e de vacinas. Recentemente, “Marighella” estreou comercialmente nos EUA, de onde vazaram as cópias legendadas que circulam agora por aqui. Vai estrear no Brasil em novembro deste ano.

O povo brasileiro ajudou a financiar um filme que, durante dois anos, não pôde ver, enquanto seus produtores o rodavam mundo afora para viabilizar seu lucro ou sei-lá-o-quê. Quando finalmente tem a chance de assistir a ele, graças à desonestidade inata dos americanos, é chamado de ladrão.

Assim, enquanto murmurava “não esculacha, chefia!” e colocava as mãos atrás da cabeça, sabendo-me pego, lembrei do Cacá Diegues chiando quando cobraram a ele algo que, se não me engano, chamaram de “contrapartidas sociais”, uns 20 anos atrás — e que, acho, consistia em levar ao povo o filme feito com seu dinheiro. Diegues é o mesmo sujeito que criou a expressão “patrulha ideológica”, em meio à ditadura militar. Como Meirelles, é gente que gosta muito de dinheiro público, mas não tanto de devolvê-lo.

Para piorar ainda mais as coisas, essa postura hipócrita do Meirelles talvez não fosse tão irônica se o filme não contasse de um comunista que dedicou sua vida, quem diria, à abolição da propriedade privada. Se ladrão há nessa história, esse ladrão é o Marighella, e nesse caso tenho muito orgulho de ser chamado assim, ainda que por tabela.

Só então eu, ladrão contumaz e irrecuperável, percebi que nunca tinha roubado um filme do Fernando Meirelles, muito menos esse “Marighella” (que, não custa lembrar, não é dele).

Eu não lembrava do filme, nem mesmo da polêmica causada pela escolha de Seu Jorge para o papel do protagonista, o primeiro caso de “blackwashing” de que tenho notícia. Na época achei interessante, porque não apenas é mais válido que embranquecer um personagem, mas também porque levou a uma reavaliação iconográfica de Marighella que corrigiu um grande erro histórico e jogou nas fuças das pessoas a glória da sua mulatice. Só depois percebi que há um problema inerente a essa decisão. A escolha de Seu Jorge parece mais que aceitável diante do histórico de racismo e obliteração da imagem do negro nas artes, mas no fundo acaba sendo mais um evento de negação da miscigenação brasileira, a entronização de um binarismo racial americano que representa um retrocesso e que, infelizmente, é cada vez mais aceito. Um cabo de guerra em que o mulato, moreno, pardo, chamem do que quiserem, é negado em função de um discurso insuficiente.

Mas quem disse que o crime não compensa não viu ainda este filme. “Marighella” é excelente, uma grande obra. É ainda melhor no atual contexto político do país, em que qualquer pessoa que não seja totalmente imbecil ou canalha é chamada de comunista. Wagner Moura estreia como um diretor seguro, que tem perfeita noção da história que está contando. Para inseri-la melhor no contexto atual, reforça inclusive a questão racial, que não era exatamente prioridade naqueles tempos. Moura mostra-se também um excelente diretor de atores, como se pode ver nas atuações excelentes de Bruno Gagliasso, Adriana Esteves e Luiz Carlos Vasconcelos. Nenhum desses, entretanto, iguala o desempenho excepcional de Seu Jorge. Seu Jorge consegue passar, simultaneamente e com brilhantismo, a dureza e a humanidade de Marighella.

A direção de arte também é excelente, em que pesem anacronismos como a presença conspícua de pistolas PT 92 muitos anos antes de serem criadas, antes mesmo até das Beretta 92 que as originaram, ou a luz avermelhada das lâmpadas de vapor de sódio nas ruas.

Terminado o filme, satisfeito com meu butim, desliguei a televisão esquecido de Fernando Meirelles, até que fui ao IMDb e vi que a nota dada a “Marighella” é 3,2.

Cheguei à conclusão de que só gente como Meirelles avaliou este filme, pelo visto. E visualizei imediatamente aquela legião de toscos tangidos pelo Carluxo apertando freneticamente a menor estrelinha, ignorando quaisquer qualidades cinematográficas do filme — o que, aliás, ele tem em demasia. Por isso ele deve ser roubado e compartilhado por quem puder. Todos os brasileiros deveriam ver este filme; velhos comunistas como Marighella e o Comandante Toledo (e João Amazonas, e Elza Monnerat, ou os tantos outros que não conheci) podem estar fora de moda, mas é preciso que voltem a mostrar a um povo cada vez mais afundado numa lama antes inimaginável que um outro mundo é possível, e que para isso ele nem precisa existir de verdade.

“Marighella” deve ser roubado e roubado e roubado de novo porque ele quase nos devolve o orgulho de sermos brasileiros. Ainda que seja de uma forma perfeitamente exemplificada na cena final, que deveria ter sido incluída no meio do filme: angustiada, desesperançada, mas ainda assim com orgulho e, acima de tudo, fé.

Oscars 2021

The Sound of Metal parece um daqueles filmes para a TV que passavam na Sessão da Tarde antigamente, como “A Família Que Ninguém Queria”, ou “Meu Filho, Meu Mundo”, o tipo de filme que busca sensibilizar o expectador através da identificação com o drama pessoal do protagonista — aqui, a surdez de um baterista de música estranha. Direção, edição, roteiro, tudo aqui está completamente dentro dos padrões conhecidos do cinema dito independente, mas ouça bem: ele não tem nada de especialmente notável ou brilhante além da interpretação de Riz Ahmed, e se está na lista do Oscar deve ter sido por lobby da APADA. Muito melhor é assistir a Plemya, de 2014.

Minari não leva a lugar nenhum. Alguém deve ter dito ao diretor que o mais importante é o que se deixa de dizer, e ele levou isso ao pé da letra. Superficial, é apenas mais um filme de memórias de um menino criado no campo (durante os anos Reagan — não que isso faça alguma diferença neste filme), e inferior a obras que abordaram o tema com mais vigor, como “Um Lugar no Coração” ou “O Rio do Desespero” ou “Amor à Terra”, para não falar de “Vinhas da Ira”. É quase como se o diretor soubesse que histórias semelhantes já foram contadas tantas vezes que basta dar pinceladas bem leves sobre o assunto que o espectador vai entender. É simpático e suave, o que alivia um pouco sua barra; mas o fato é que a única coisa digna de nota no filme, mesmo, são as excelentes atuações de Will Paxton e Youn Yuh-jung. A impressão que fica é que depois de Parasite ano passado, coreano passou a ser obrigatório no Oscar. Não tem problema, isso acaba ano que vem.

Promising Young Woman poderia ser mais do que é. Baseado em uma visão infantil e esquisita do que andam chamando sororidade (a vingança da protagonista pelo estupro, humilhação pública e posterior suicídio de sua melhor amiga, e que redefine a sua vida, é abrir mão de sua vida e todo final de semana se fingir de bêbada em bares, atrair predadores sexuais e, na hora H, fazê-los colocar a mão na consciência. Surreal). O filme tem um ponto de vista a defender, e isso até o valoriza um pouco, mas não o suficiente. Além disso, seria melhor sem o twist final, que diminui o impacto da tese que defende ao fazer o bem vencer o mal e, no fim das contas, apenas reforça a sensação que permeia todo o filme: o machismo mata, mas tem umas psicopatas autodestrutivas, como a personagem de Carey Mulligan, que complicam tudo.

The Trial of the Chicago 7 é um excelente filme de tribunal, gênero que já deu boas obras ao mundo, e um dos dois concorrentes deste ano que tratam de um mesmo momento da história política americana, embora com um viés menos identitário e muito mais frouxo. Tem contra si o fato de que, embora seja correto, ter tantos clichês quanto uma tipografia antiga. Bom filme, mas não mais que isso. Ele também parece ter uma pinimba contra Tom Hayden enquanto celebra Abbie Hoffman e Jerry Rubin. E a bem da verdade histórica, não custa lembrar que, alguns anos depois do julgamento, Jerry Rubin era o sujeito cuja namorada deu para John Lennon debaixo do seu nariz, e Tom Hayden era o sujeito que comia a Jane Fonda, quando Jane Fonda era Jane Fonda.

Mank é um belo filme, mas é bom mesmo para cinéfilos, que conhecem a história de Mankiewicz (e do seu irmão mais talentoso, Joseph). David Finch fez um filme tradicional, com recursos fáceis a velhos gimmicks (como as marcas artificiais que tentam reproduzir o desgaste de celuloide antigo, algo que deveria ser objeto de um novo Código Hays e banido do cinema) para glamourizar a velha e boa Hollywood. Nesse aspecto, é um filme que poderia ser feito nos anos 50, inclusive em suas falsificações da verdade. É cinema de primeira qualidade, mas é praticamente a antítese de “Cidadão Kane”: dialoga com o velho enquanto “Kane” trazia o novo.

(Nota: se seguir os passos do Golden Globe, o Oscar de melhor ator vai para Chadwick Boseman, o que na minha opinião só não é injusto porque o cabra está morto e de defunto a gente não fala mal; mas é bom registrar que seu desempenho em Ma Rainey’s Black Bottom [que traz Viola Davis — talvez a mais importante atriz americana da atualidade — num papel que mostra que ela chegou à maturidade e conquistou o direito de representar Viola Davis] não foi o suficiente para me fazer esquecer a atuação estelar de Gary Oldman aqui.)

Por pouco Judas and the Black Messiah não é o melhor filme do ano. Bem feito, com uma trilha sonora brilhante e algumas atuações impressionantes, é uma história contada com competência e foco pelo diretor Shaka King. Já vi gente falando deste filme como uma biografia de Fred Harman, o que significa que elas não viram o filme: é uma crônica da ascensão e queda dos Panteras Negras em Chicago, de um modo de fazer política e de como se destrói um movimento social. Como bônus, o filme é também uma aula de política, e deveria ser visto por toda essa renca de chatxs identitárixs de Facebook.

The Father é surpreendente. Em outras mãos o filme desapareceria sob a interpretação estupenda, incomparável, absolutamente fantástica de Anthony Hopkins, e seria a típica fita pequena que antigamente fazia a festa de quem apostava em zebras diante de superproduções. Mas o filme que Florian Zeller entrega é surpreendente, ao dar uma dimensão reveladora, instigante e cheia de suspense do que é a demência, ele consegue mostrar o que ela é ao mesmo tempo em que faz cinema com C maiúsculo.

Nomadland consegue extrair poesia de onde menos se espera. Chloé Zhao, com um olhar curiosamente distante mas não frio, mostra a vida de uma legião de deserdados do sonho americano com empatia, mas sem compaixão ou pieguice. É esse paradoxo que faz a beleza do filme. Estrelado por Frances McDormand (cada vez mais parecida com Steve McQueen) em uma atuação irrepreensível, o filme é, de longe, o melhor dentre os concorrentes deste ano, e o favorito desde que ganhou o PGA, talvez porque é o único que consegue apresentar uma visão bem própria do mundo que nos cerca hoje.

O último reclame

Veja, ilustre passageiro,
O belo anúncio faceiro
Que o senhor tem aqui ao lado.
No entanto, acredite:
É dos últimos de uma elite,
Em breve morto e enterrado.

Dia desses parei para pensar em algo que já devia ter percebido há muito tempo: os anúncios impressos estão morrendo.

É uma morte doída. Este blog começou porque eu queria um lugar para escrever de maneira diferente do texto publicitário.

Aquele texto em que todo ponto era ponto-parágrafo.

Que evitava vírgulas como o diabo teme a cruz.

E que teve alguns cultores geniais no Brasil.

Como Neil Ferreira.

(Que chegou a comentar neste blog, para orgulho eterno deste ex-redator.)

Mas agora o seu destino está decidido. Os anúncios estão morrendo. Novidade nenhuma nisso, sequer é notícia nova; um bocado de gente já deve ter escrito milhões de palavras sobre esse fenecer, explicando que anúncios perecem porque jornais e revistas estão morrendo, e não se pode fazer muito por eles além de carpir o seu quinhão devido.

Bem verdade que não é como a morte de um sujeito na flor da idade. É quase um velhinho que agora morre aos poucos, sentado na varanda de casa, olhando a vida passar na rua numa tarde de mormaço. O fato triste e óbvio é que já faz muito tempo que anúncios não são importantes, não realmente. Houve um tempo em que revistas como a Veja alardeavam um milhão de exemplares impressos a cada semana; hoje ela não chega a 20% disso. Ultimamente os números são tão escandalosos, sempre muito mais baixos que o anterior, que não dá para deixar de ver os moribundos em seus últimos suspiros; mas durante algum tempo, para quem sempre viveu próximo deles era difícil entender isso, porque antes de serem finalmente canibalizados pela internet, eles foram ameaçados por cada novo meio que surgia.

O rádio foi o primeiro, embora tenham convivido bem ao longo de décadas. Então veio a TV, e ela estava para o rádio como a mulher vulgar está para a moça pudica e recatada, oferecendo a publicitários mimos e possibilidades que a mídia impressa jamais poderia oferecer, e com uma intensidade e alcance a que os anúncios jamais poderiam sequer aspirar a ter. Os anúncios reagiram a essas novidades tornando-se mais criativos, se soltando, adaptando sua linguagem aos novos tempos, aprimorando sua lábia e comprando roupas novas. Para sobreviverem, mataram a linguagem de anúncios como o do Rhum Creosotado parodiado acima.

Mas a verdade é que nada disso mudava os fatos que se escondiam atrás de cada um deles. Saudosistas como eu podem até lamentar o fim de anúncios como os daquela campanha antológica da Avis criado pela Doyle, Dane, Bernbach. Mas uma coisa que a gente não pode nunca esquecer é que, mesmo com uma campanha tão lindinha do papai, a Avis continuou sendo apenas a número dois (e o Lee Clow fez um anúncio antológico lembrando isso). A televisão tinha tomado o seu lugar, e não havia jeito de retomá-lo. Anúncios, afinal, não eram uma Brastemp.

Ao longo de todo esse tempo, eles tiveram também que lutar contra a consolidação das técnicas de marketing e de pesquisa. Foi um Belzebu bêbado e surtado quem criou essas coisas, que desde sempre tiveram quase como função secundária colocar limites na criatividade descontrolada. Digam o que quiserem os especialistas: a verdade é que aquele tipo de alegria, de flair que fez a glória dos grandes anúncios tantas décadas atrás só era possível num mundo em que não se podia medir corretamente seus resultados, em que se podia ousar e errar porque não se tinha certeza do que era um erro. Nas últimas décadas do século passado essa técnicas se tornaram cada vez mais ubíquas e oniscientes. Mesmo assim, o anúncio continuou firme, com eventuais lampejos de criatividade e brilhantismo.

Nem mesmo o marketing conseguiria destruir os anúncios; em vez disso, destruíram jornais e revistas, como os soviéticos queimaram os campos da Rússia para não deixar que os soldados alemães tivessem paz ou comida. Os anúncios não conseguiriam resistir às métricas e ao big data da internet, e não poderia haver ironia maior do que chorar essa morte aqui, num blog já velho.

Mas esta eulogia não estaria completa se eu não lembrasse, en passant, que para mim a decadência dos anúncios começou muito antes de a internet anunciar o seu fim definitivo. Começou quando aqueles textos que me faziam derramar litros de baba de inveja deram lugar, mandatória e definitivamente, a uma fórmula quase ditatorial: uma grande ideia visual, um título inteligente e objetivo, duas ou três linhas de texto. Anúncios concebidos assim porque já naqueles anos 90 se dizia que ninguém mais lia anúncios.

Isso não é uma crítica a esse tipo de anúncio. Eles tantas vezes eram bons, brilhantes até, e no mínimo garantiram um primeiro emprego a muitos estudantes talentosos. O importante é que aparentemente funcionavam, e bem; eram criativos, e muito; e bem ou mal, eram uma resposta ao que se considerava os novos tempos. Olha por exemplo a campanha da vodca Absolut, há tantas décadas no ar.

Mas com esse novo modelo, que eu cismei de chamar injustamente de modelo Almap, a modernidade nos tirava algo: a conversa mole, a sedução não pela Ferrari que o anúncio dirigia, mas pelo papo que jogava no leitor. Circular por anúncios antigos, especialmente das décadas de 50, 60, 70, é quase sempre a descoberta de um belo texto, de uma bela argumentação, de uma tentativa sólida de convencimento.

Hoje até mesmo esses anúncios de festival de propaganda estão condenados ao desaparecimento e ao esquecimento. Em seu lugar teremos apenas temos esses seus filhos bastardos, webcards no Facebook com títulos telegráficos e textos que não buscam mais seduzir — ao contrário, quando bons tentam apenas adular, são paqueradores na quermesse usando fórmulas prontas, e eu nunca conheci mulher que valesse a pena caindo numa dessas.