Archive for the ‘Olhando para o lado’ Category
Mulher Frankenstein Para Onanistas Fetichentos
Quem inventou o negócio foi o Bia, uns 3 anos atrás.
A idéia é fazer uma mulher ideal a partir das melhores partes de mulheres diferentes.
Como diz a Tata, homem tem alma de açougueiro, e sempre vê uma parte boa numa mulher feia. Não custa imaginar uma mulher inteira feita de partes boas.
Então fica assim a brincadeira: eu digo uma parte do corpo que gostaria de ver na Mulher Frankenstein para Onanistas Fetichentos e passo a bola para outra pessoa. Só uma. Essa pessoa fica obrigada, então, a acrescentar mais um elemento na dita senhora e indicar uma pessoa para continuar a brincadeira.
Vamos ver onde vai parar.
Eu começo:
A voz da Peta Wilson, a Nikita do seriado de TV.
E embora por uma questão de justiça devesse passar para o Bia, e tenha imaginado que com o Alex eu poderia começar a mulher de baixo para cima, eu passo a batata para o Idelber.
O inimigo do meu inimigo
A idéia foi do Idelber. E é um meme curioso, que deu vontade de escrever. Então lá vamos nós.
1 - Proselitismo ateu me incomoda, porque me parece uma contradição em termos. Talvez porque no meu meio específico seja mais fácil ser ateu do que crente. E embora eu não seja ateu, para mim seria mais fácil explicar o mundo como a conseqüência de necessidade atômica de estabilidade do que como a obra consciente de um velho de barbas brancas ou uma tal “força cósmica superior”.
Mas quando vejo religiosos repetindo como verdade e novidade as mesmas bobagens que falam há milênios, quando me pedem para crer no Santo Cabaço de Maria, falseando a história e pregando a ignorância e o obscurantismo, uns pervertidos fanáticos movidos pela força interior que apenas a desistência de pensar pode dar, tenho vontade de colocar no meu carro um adesivo bem grande: “Deus inventou o Universo. Mas quem inventou Deus?”.
2 - Tenho todas as críticas do mundo a Windows. O bichinho tem problemas estruturais. Tem um sistema de ativação que enche o saco de qualquer pessoa. É chamariz para virii e dá paus indesejáveis com certa regularidade. E é caro.
Mas quando vejo os fanáticos do Mac e do Linux pregando contra a Microsoft, o Grande Satã, eu me incomodo. Porque se em vez de empreender uma jihad anti-Microsoft o pessoal do Linux se empenhasse em construir um sistema operacional realmente útil e amigável, teríamos uma boa alternativa para o usuário comum às janelas de tio Bill, em vez de um sistema operacional que aparentemente só presta para servidores. E porque, no caso da Apple, um bando de bocós se apaixona por seus computadores (que só são realmente melhores que um PC para editar imagens e vídeo) como se fossem mulheres, e defendem um sistema caro e elitista só porque os computadores são incomparavelmente lindos (mesmo quando não passam muito de calculadoras avantajadas, como o MacBook Air). Nessas horas eu tenho vontade de perguntar por que, afinal, tanto o Linux como a Apple ocupam fatias insignificantes no mercado de computadores domésticos, e de entoar canções de amor ao Office e seus arquivos .docx.
3 - Tenho várias críticas ao kinemanacional. Não concordo com as louvações excessivas que fazem, por exemplo, a filmes como “Cidade de Deus”, que tem defeitos sérios como a locução em off, absolutamente amadora, e algumas situações e soluções fáceis de roteiro. Não entendo quando falam da denúncia da criminalidade quando essa quase sempre foi a base do cinema carioca e com filmes excelentes como “Mineirinho Vivo ou Morto” e “Assalto ao Trem Pagador”. Também acho que há uma certa leniência e oportunismo em produtores de cinema, uma grande tendência a mamar nos peitos flácidos da puta velha chamada República. Gente que, como o Cacá Diegues, gosta do dinheiro do povo mas não gosta da idéia de devolver, como no caso daquelas contrapartidas sociais.
Mas quando vejo as críticas feitas ao financiamento público do cinema, geralmente profissões de fé no Libérrimo Mercado — profissões de má fé, talvez seja melhor dizer — eu fico com vontade de assistir a “O Magnata”, o filme do Chorão.
Pequena contribuição dos quatis à raça humana
Em agosto, o Hermenauta fez um post sobre os 30 anos das sondas Voyager. O Hermê tem dessas coisas científicas. Acompanha esses trecos como acompanha as asneiras faladas pelo Reinaldo Azevedo, o chihuahua da direita brasileira.
O que me chamou a atenção no episódio foi lembrar dos discos cheios de inscrições incluídos nos artefatos. Trazem uma série de informações destinadas a fazer com que os ETs que pegarem o disco saibam de onde vem a sonda, onde fica a Terra e que somos minimamente inteligentes.
Não entendo de ciência, como não entendo muito sobre quase nada. Talvez por isso as inscrições sejam, para mim, ininteligíveis. Se alguém me desse o disco, eu não conseguiria decifrar absolutamente nada.
É justamente essa a questão que os discos das Voyagers sempre levantou para mim: assim como criamos um disco com rabiscos que, ao comum dos mortais, nos parecem absurdos, quando estudamos inscrições antigas e concluímos que ela é um retrato do cotidiano de civilizações que sequer chegamos a conhecer, não estaríamos partindo de um princípio errado, que aquilo não tem nada a ver com aquela civilização, que foi uma concessão feita por elas para que outras civilizações as compreendessem? Que tudo o que julgamos saber sobre civilizações perdidas não corresponde em nada à realidade?
Eu gosto de imaginar um maia, carregando um coelho (que assim como a hóstia significa a carne do homem) para o sacrifício no alto de um templo emTikal, parando e olhando aquelas inscrições ininteligíveis e perguntando ao escriba que as fez: “Por que você escreve essas coisas que ninguém entende?” E o escriba, olhando o sujeito do alto de sua sapiência, com aquele desprezo que só aqueles que enxergam mais longe podem afetar, responde: “Porque assim vai ser mais fácil para outras civilizações saberem quem fomos nós.”
Mas o mais engraçado nessa linha de pensamentos bobos sobre ciência avançada é que esses presentinhos que a NASA anda mandando para o espaço poderiam ser uma declaração de guerra.
Não sei se muita gente sabe — quem não souber pode conferir no zoológico mais próximo –, mas quatis não toleram o barulho de um molho de chaves. Pode experimentar. Balance suas chaves e eles se tornam extremamente agressivos, começam a brigar uns com os outros, atacam o que virem pela frente. Para pessoas boas como eu, é uma diversão interessante em idas ao zoológico, uma pequena maldade que posso fazer às claras sem que ninguém perceba; e ainda vou encontrar outra pessoa boa que queira apostar comigo qual quati morre antes, enquanto balançamos discretamente nossas chaves. Mas divago, e deixe-me enxugar a baba que escorre da minha boca. Agora imagine uma raça que não tolera o espectro de sons contidos no segundo “Concerto de Brandemburgo”, de Bach, que foi para o espaço nas Voyagers, recebendo o disquinho. Uma raça extremamente evoluída de cabeças chatas: “Aqueles terráqueos fios duma égua estão tentando nos matar, e ainda deram a localização do cafofo deles porque acham que nós somos uma ruma de frouxos”. E viriam para cá dispostos a acabar com a nossa raça estupidamente pretensiosa como num livro de H. G. Wells.
Pode até ser masoquismo, mas eu gostaria muito de ver uma cena dessas.
As alegrias que o MSN me dá - Mônica
Rafael diz:
Arroz?
Mônica diz:
Integral, pra nós ficar legal.
Rafael diz:
Eu comi muito uma época.
Rafael diz:
Hoje não aguento mais.
Mônica diz:
(essa foi podre)
Mônica diz:
Eu como raramente. Mas acho bom.
Rafael diz:
Foi legal.
Rafael diz:
Mas não fenomenal.
Mônica diz:
Ah, Rafael… vá tomar no meio do seu orifício anal…
Rafael diz:
Uma rima apenas circunstancial.
Mônica diz:
E isso lá faz mal?
Rafael diz:
Não, mas tampouco um bem total.
Mônica diz:
Pô. Tô sem idéia pra continuar nas rimas. Tô me sentindo pouco genial.
Rafael diz:
E você acha isso normal?
Mônica diz:
Ah, sim. É um caso banal.
Rafael diz:
Que poderia ter sido sensacional.
Mônica diz:
Não cobre tanto desta menina que não é a tal…
Rafael diz:
Pois bem, então esse é o final?
Mônica diz:
Talvez. O fim das coisas, infelizmente, nunca é algo excepcional…
Originalmente publicado em 10 de novembro de 2005
Últimas notícias do .cu
Depois de ser gentilmente convocado a se retirar de Cuba, Alex viu que estava com problemas sérios. Seu .cu, tão útil até então, não servia para mais nada. Ele não tinha dinheiro para ir embora, não podia pegar um avião, sequer carona em um cruzeiro.
Em compensação, assim que a notícia de que ele tinha sido mandado embora do país começou a circular, dissidentes cubanos viram no Alex sua chance de fugir para Miami. Choveram convites para que o Alex os acompanhasse em suas embarcações improvisadas. Miami, para quem não sabe, é o grande sonho dos cubanos. Maior até que para os muambeiros brasileiros de classe média. Com a garantia de que ninguém tentaria segurar o Alex, a sua companhia passou a ser extremamente desejada. Ele era um salvo-conduto para todos.
O Alex demorou para se decidir, mas as crises de abstinência dos mata-ratos de 8 centavos o pressionaram. Finalmente aceitou a oferta do santero que o havia traído: o macumbeiro tinha caído em desgraça ante o regime por não conseguir encontrar um chupador de pés para salvar Fidel Castro que, coitado, agonizava enquanto babava o seu charuto.
Ao chegar à praia, Alex ficou impressionado com o barco improvisado pelo santero. Era um velho Studebaker 1956 sobre câmaras de ar de pneus de caminhão, que garantiriam sua flutuação. Como vela, uma colcha vermelha bordada com a cara do Che. E um pequeno motor, que antigamente movia uma máquina de caldo de cana.
Além deles, outras 14 pessoas seguiriam naquele barco rumo ao sonho americano e ao sub-emprego cucaracho.
Milhares de cubanos, que já conheciam a fama de Alejandro Cruz y Almeida, El Boquita de Oro, se amontoavam na praia. Queriam se despedir da lenda boqueteira. Brandiam bandeirinhas vermelhas com o rosto de Che. Até mesmo o negão que protagonizou com o Alex o mal-entendido do primeiro e-mail apareceu: “¡Alex, deja tu .cu conmigo!”; mas o .cu do Alex já tinha sido confiscado pelas autoridades, estava gasto, não prestava para mais nada.
Os exilados já se afastavam da praia quando Raúl Castro apareceu correndo, botando os bofes para fora. “¡Joder! Que me esperen por favor! ¡Dejen que yo me vaya con ustedes!”
Os fugitivos ficaram com medo e pararam.
“Acaso no sabeis que há pasado. Fidel está muy mejor, así, de golpe. Allaran a una jinetera, una amiga del Alex, que le chupo los pies con mucho gusto. Así que cuando se puso mejor, lo primer que hizo ha sido mandar a matar la desdichada de mi mujer. Pobrecita, Vilma. Pero no pasa nada, ella estaba toda estropeada. Entonces que Fidel me ha dicho: ‘¿Sabes porque te vas a ser siempre el segundo, come mierda? Porque no tienes cojonnes para hacer lo que debe ser hecho. No tienes cojones, puto cabrón. Yo si, te teria matado, acaso estuvieras tal como yo, en la cama. Pero no mataste, ahora te toca a ti irte de Cuba como en 24 horas, o entonces te mandaré al paredón.’ ¡Por favor, ayudenme!”
Havia algo de generoso, de altruísta naquele grupo de dissidentes maltrapilhos. Aquele era o homem que os havia perseguido; mas deram a mão a ele.
“Tienes um charuto?”, perguntou o Raúl.
Ao ouvir essas palavras o Alex surtou. Fazia dois dias que não fumava os estoura-peitos de 8 centavos. Avançou para quebrar a cara do Raúl.
“¡Hijo, no hagas eso!”
“Tu hijo um carajo, viadón! Segundón! Segundón!”
O barco, obra-prima da engenharia americana combinada à criatividade cubana, zarpou. A previsão do tempo para aqueles dias anunciava tempo bom, quase uma calmaria cabraliana. Mas no fim da tarde daquele primeiro dia, um furacão se abateu sobre eles como um soneto de Vinícius: de repente, não mais que de repente. Era o Katrina, com saudades do Alex. A colcha bordada com a cara do Che saiu voando em direção a Cuba. Os passageiros se seguraram como puderam. E tão rápido quanto chegou, Katrina se afastou, moça volúvel e intensa.
O barco estava à deriva.
Dois, três dias se passaram. O fantasma de Cabrera Infante começou a aparecer para o Alex. O último taco foi dividido por 17 pessoas. A morte lenta se aproximava.
Talvez nem tão lenta assim. No horizonte apareceu um barco da Marinha cubana. Os exilados se apavoraram. “Vamos morrer!”, gritaram — como se o prognóstico anterior fosse melhor. O barco se aproximou e, em um megafone, um policial costeiro avisou:
“Hemos venido coger a Raúl Castro. Fidel le ha perdonado.”
“¿Que va a pasar a los demás? ¿Nos llevarán hasta Miami? Volver a Cuba todavia nos parece mejor que volvernos comida de tiburones.”
“Ustedes a la mierda.”
E foram embora. O Alex, desesperado, tentou uma última cartada: “Papá! Papá Raúl! No mi esquieça! Yo soy tu hijo, lembra? Yo te amo, papazito Raúl!” Do barco, coberto por um cobertor vermelho bordado com a cara do Che e fumando um Romeo y Julieta, Raúl não falou nada. Mas deu uma banana para o Alex.
A calmaria se prolongou por dias. Sem saber onde estavam, os exilados começaram a delirar. Dois se mataram a mordidas, um achando que o outro era um frango assado. Outro se jogou no mar para pegar um peixe e foi comido pelos tubarões. O Alex já não via o fantasma do Cabrera Infante; agora era o Pedro Juan Gutierrez, que lhe aparecia à noite e dizia palavrões ao seu ouvido.
Na sétima noite, esgotados, todos dormiram. Menos o santero. Ele resolveu pedir as boas graças dos orixás e começou a fazer um despacho no barco. Mas não tinha bode, não tinha galinha, não tinha sequer mugunzá para oferecer a Oxalá; então acendeu um uma vela.
O Alex não sabe direito, mas parece que a vela caiu e furou uma das bóias de câmara de ar de caminhão. Com o peso excessivo, outra estourou, iniciando uma reação em cadeia; e o velho Studebaker 1956 começou a afundar.
De início o Alex se segurou em um exemplar de “O Estado e a Revolução”, de Lênin; o Ladrão Boliviano usou “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Engels, enquanto o santero boiava e rezava para Iemanjá. As correntes foram afastando uns dos outros, e quando o Alex se deu conta, perto dele só estava o Ladrão Boliviano.
O Alex não se entregaria. E começou a nadar em direção ao oeste, seguido pelo seu amigo de Guantánamo.
Foi quando um tubarão arrancou as pernas do Ladrão Boliviano. Mesmo assim ele continuou nadando em direção à liberdade. Veio outro tubarão e arrancou os braços do coitado, que a partir daquele momento jamais voltaria a bater carteiras. Levaria o braço à testa, se braço ainda houvesse, e disse:
” Vete Alex, salvate! ¡Me muero! No mires hacia trás. ¡Pero vertas una lagrimita por mi cuando mirar a un niño golfo robando a una viejita!” E começou a afundar.
Mas o Alex não deixaria o Ladrão Boliviano. Outro deixaria, tentaria se salvar. Mas não o Alex. Nunca. Tantas lembranças das noites passadas em Guantánamo. E por isso, mesmo sabendo que ainda havia milhas a vencer, que a jornada seria árdua e quase impossível, ele foi forte: “Se segura em mí, amigo, y yo te levaré à libertad!”.
O Alex nadou. Nadou além de suas últimas forças com os tubarões atrás, atiçados pelo sangue na água. Estava prestes a desistir, já tinha abandonado as esperanças de voltar a ver o Oliver, quando viu a costa. E de algum lugar, talvez das lembranças dos pés chupados ao longo de 30 anos, conseguiu forças para salvar a si e ao Ladrão Boliviano.
Chegaram à praia.
O Alex, extenuado, disse: “Guapo, estoy fodido”. O Ladrão Boliviano começou a chorar. “Desculpame, Alex, pero no habia outra manera de cogerte.”
O Alex não ligou. Olhou em volta para ver onde estavam: umas cabanas de pescadores, apenas. “Nossa, Miami é uma bosta”, pensou. Já se preparava para desmaiar de cansaço quando viu policiais mexicanos se aproximando. Eles estavam no México. Seriam salvos. Mas sabia que desde que o Fox virou presidente os mexicanos olham enviesado para os cubanos. Então fez um apelo: “Yo soy brasileño!”, para garantir que não seria mandado de volta para Havana.
Os policiais mexicanos começaram a chutar a cara do Alex. “Brasileño de mierda, no les queremos aqui! ¡Desgraciados! Ustedes vienen y quitan todos los trabajos de nuestros inmigrantes ilegales. Por su culpa, miles de mexicanos no pueden ser busboys en EUA y llevan una vida de miséria aqui. Brasileños jodidos. No saben nada de lo que tenemos que pasar por su culpa. ¡Necesitamos el dinero norte americano, hijos de puta!”
Foi quando um deles reconheceu: “¡Callate! Que estás hablando con el Boquita de Oro!” A fama do Alex já tinha atravessado o golfo e chegado à terra da tortilla. E então os policiais fizeram fila e deram os pés para o Alex lamber.
Com os beiços inchados e ensangüentados, o Alex caiu de boca nos pés calejados dos policiais ali mesmo, na praia, sob o murmurejar suave das ondas.
Sangue, areia e chulé. O Alex nunca tinha feito algo parecido, e aquelas sensações novas invadiram o seu corpo. Ele se sentia Tyrone Power cortejando Rita Hayworth, ou vice-versa, e ficou excitado. Os mexicanos notaram o aumento do volume nas calças do Alex e, incomodados, deram-lhe um chute no saco e uma coronhada na cabeça. Mas o Alex estava enlouquecido; e chupava seus pés com a fúria e o abandono dos amantes que sabem que aquela é a última vez. Ele sabia que ia morrer, e agradecia aos deuses dos pés pela morte linda que lhe fora concedida.
Mas chegou a hora de colocar nesta história um deus ex-machina, que deveria ter aparecido no e-mail anterior mas faltou porque tinha dançado salsa até amanhecer. Agentes da polícia secreta cubana (os originais, aqueles com uma vasta pentelheira) chegaram e mataram os policiais mexicanos. Alex Castro não podia morrer ao fugir de Cuba. Seria má propaganda para o regime. Os sujeitos pegaram o Alex e o Ladrão Boliviano, levaram-nos para um hotel vagabundo em Monterrey e desapareceram, que um deus ex-machina não pode ficar no mesmo lugar por muito tempo.
Bem, é isso. O e-mail do Alex termina aí. Ele está no México, e está bem. Volta para o Brasil em poucos dias. Disse que o Ladrão Boliviano está se recuperando, e pretende ficar em Mérida: já recebeu uma proposta de emprego em um campeonato anual de arremesso de anões — foi criada uma categoria especial para ele, a categoria “cotocos”. Mas chora sempre que lembra que breve chegará o dia em que terá que se separar do seu amigo brasileiro. O Alex também ouviu falar da jinetera. Depois de lamber o pé monstruoso e salvar a vida de Fidel, ela agora está por cima da carne seca. Não bate mais calçada, e sua grande diversão é sair à noite pelas ruas de Cuba em seu novo Packard 1948 e cuspir na cabeça das outras jineteras. Quanto ao santero que o dedurou, conseguiu se salvar apesar de Iemanjá tê-lo mandado à merda; hoje é pastor da Universal, e segundo as más línguas do Malecón - que ainda é conhecido por Maricón, graças ao Alex — é servido todas as noites por aquele grupo de presos que tentou currar o nosso herói. É um homem feliz. E o Raúl, o pai putativo do Alex, continua presente às solenidades oficiais, sempre dois passos atrás de Fidel, cuja morte espera com um misto de ansiedade e tristeza.
As pessoas em Cuba, nas noites quentes de verão, sentam na amurada diante da praia de Varadero e lembram os bons tempos de Alejandro Cruz y Almeida, El Boquita de Oro. Contam histórias que presenciaram e histórias de que apenas ouviram falar. A lenda cresce a cada dia, fica mais rica, peripatética, e detalhes são criados a cada nova noite em que, com seus charutos de um peso, os cubanos se reúnem para rememorar a espantosa saga de Alex. Todos hoje conhecem as histórias do grande Alejandro, como conhecem o navegar intrépido do Granma; o seu duelo com Fidel, a forma como nadou até Miami com cinco aleijados engatados em seu rabo, o dia em que chupou os pés de 5 mil pessoas em uma hora, a rebelião que comandou em Sierra Maestra, o modo como renegou seu pai Raúl Castro e adotou um novo nome para lutar pelo socialismo. Nos terreiros de santería derramam rum para Alejandro antes de Exu; e falam do seu .cu mágico. Uns dizem que ele desapareceu no ar, durante o legendário duelo com Fidel, mas que voltará à frente de um exército de chupadores de pé quando chegar a hora de levar Cuba de volta ao socialismo. Alejandro Cruz y Almeida é hoje um herói nacional, como o Che foi um dia. Cuba hoje está coberta de colchas vermelhas bordadas com a cara do Alex; ele trouxe de volta o espírito da revolução, quando bandeiras rubro-negras tremulavam em cada casa, comemorando a conquista da dignidade. Estão pensando até em mudar o nome da Biblioteca José Martí para Biblioteca Nacional Alequito Boca de Oro. Assim que Fidel morrer.
Mas para mim, que contei a sua história tal como me foi relatada por ele mesmo — sem aumentar ou diminuir, que licença poética é dispensada por tão bela e educativa história –, não sobrou nada. O filho da puta não trouxe mesmo a porra do meu Cohiba.
Quando a brincadeira fica séria demais
Pelo que tenho visto ultimamente, a blogoseira brasileira andou assustada com o plágio. Isso acontece.
É compreensível que as pessoas fiquem irritadas quando são plagiadas. Ninguém gosta de ser copiado. Algumas pessoas, como a normalmente doce Sandra, sentem como se tivessem sido roubados. É compreensível: as pessoas têm todo o direito de se chatear quando vêem um texto seu assinado por outra pessoa. Mas quando vi o Allan, um dos blogueiros mais zen que leio, ficar puto por causa de um plágio desses, fiquei com a impressão de que todo mundo está levando a sério demais a brincadeira.
Não sei o quanto este blog é plagiado, se é que é. Acho bem improvável. De qualquer forma, não procuro saber. Não me interessa. Preferiria que as pessoas simplesmente copiassem os textos que querem e dessem o crédito, claro. Mas se não dão, eu não vou perder o sono por isso.
É bem provável que alguém já tenha utilizado, ipsis literis, algum texto daqui em algum trabalho de colégio. Há alguns indícios, como gente procurando no Google frases inteiras que só existem aqui; normalmente são professores corrigindo os trabalhos dos alunos. Além disso, é impressionante o número de pessoas que deixam comentários em posts como este achando que eu, um vagabundo por natureza e um debochado por formação, entendo alguma coisa de contos de fadas. Pessoas vêm parar no blog atrás de resumos para “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”; espero, sinceramente, que copiem o resumo que coloquei aqui e o apresentem sem mudar uma vírgula ao professor; é o meu lado meio sádico. Mas se alguém encontrou aqui subsídios para um trabalho escolar, eu fiz um favor à humanidade. Não tenho feito muitos, e essa ajudinha vai ser o meu argumento na hora de discutir com o sacana do São Pedro. Talvez por isso goste de saber que o blog é citado em um ou dois verbetes da Wikipedia e em um trabalho sobre hipocrisia de um professor de filosofia. Eu me sinto quase chique.
Mas se me plagiarem, o que posso fazer? Processar? Eu não ligo tanto assim para esta bodega. Esses textos são publicados aqui por uma única razão: eu gosto que leiam. Ou seja, gosto de escrever e gosto dos comentários (quer dizer, dos elogios). Só isso. Eu não vou ficar policiando a internet atrás de um bobo que queria ter escrito algo que escrevi. Prefiro tomar como elogio. Alguém neste mundo acha que escrevo bem o suficiente para que ele aponha seu nome em vez do meu; isso me lisonjeia. É como eu querendo ser Christopher Reeve aos 8 anos de idade. O plágio me torna o Superman. De maneira torta e idiota, eu sei, mas é melhor que nada. Além disso, tentar coibir um eventual plágio daria trabalho. Eu não conseguiria registrar cada texto que posto aqui na Biblioteca Nacional, para ter uma justificativa jurídica. Até porque a grande maioria deles não vale nada. E ainda que valesse, ia perder a graça da brincadeira.
(Traduzindo: um ego do tamanho do meu é a receita para a paz mundial.)
Além disso, há uma consideração de ordem ética. Este blog tem alguns milhares de leitores por dia. Seria perda de tempo ficar preocupado porque um menino de 13 anos, que escreve um blog para os seus 10 colegas de escola, publicou um texto meu e disse que era seu. Até parece que ninguém, ainda aprendiz de cafajeste, recitou um poema obscuro de, sei lá, Vinícius de Moraes e omitiu a autoria só para tentar comer alguém. Ou seja: não sei em que isso vai mudar minha vida. Não sei, mesmo; então é melhor encarar tudo como uma justa retribuição. Se este blog, algum dia, contribuiu para que alguém comesse alguém, então essa ajudinha será o meu argumento na hora de discutir com o sacana do Belzebu.
A única coisa que me deixa realmente puto nas calças é o hotlinking, a prática de mostrar um arquivo no seu blog (geralmente uma foto) com ele hospedado em outro. Eu pago pelo tráfego neste blog. Dinheiro custa caro. O resto é resto. It’s only rock and roll, já dizia o pai do Lucas.
No fim das contas, ser plagiado é muito melhor que a triste sina destinada a Luís Fernando Veríssimo e Mário Quintana. Coitados: obrigados, à revelia, a assinar um bocado de lixo que circula pelos e-mails deste mundo.
Outras notícias do .cu
Graças a Deus, o Alex conseguiu mandar um novo e-mail. Desta vez subornou o guarda de maneira simples: ele dá o seu .cu para o guarda (que com o .cu do Alex pode acessar sites de putaria e agências de jineteras; como turista, o Alex tem um .cu privilegiado), e em troca ganha 15 minutos de acesso.
Ao contrário do que muita gente achou — e, confesso, eu também –, o Alex não foi currado pelo grupo de presos que o cercou. Imaginariam os mais incautos que um deus ex-machina o salvou: um raio, um terremoto, o fantasma de Bukharin; todos esses errariam, porque cometeriam um pecado que não se deve cometer: subestimar a capacidade de sobrevivência de Alex Castro.
Quando se viu cercado pelo grupo de cubanos sodomitas o Alex, macaco velho nessas coisas de putaria, resolveu tomar a iniciativa. Se jogou no chão e começou a chupar seus pés.
É preciso conhecer a tradição católica da ilha para entender a força psicológica da ação do Alex. Podofilia não atende aos critérios reprodutivos da Santa Madre. Mas tampouco se deve esquecer a tradição afro-cubana: há naquelas plagas um tal de Exu Chupa-Pé, mil vezes pior que o nosso Exu Tranca-Rua, que traz azar eterno a todos aqueles cujos pés lambe. Ao ver aquele insano babando seus pés de maneira furiosa (e competente, nunca é demais lembrar), os presos medraram. Saíram correndo e, ao que parece, entraram na Igreja Universal do Reino de Deus logo em seguida.
“Esses cubanos não sabem brincar”, pensou o Alex, enquanto limpava a boca.
Ele foi colocado numa cela com um Ladrão Boliviano. Ele não fala muito sobre o seu companheiro de infortúnio, mas diz que em poucos dias ele se tornou seu amigo íntimo. O Ladrão Boliviano tinha fugido de Santa Cruz de La Sierra depois de passar o “Boa Noite, Cinderela” no ministro dos hidrocarbonetos. Evo Morales não gostou e, depois de uma conversa com Fidel, mandou o Ladrão Boliviano para Guantánamo.
O primeiro contato dos dois, no entanto, não foi dos mais amistosos. O Ladrão Boliviano olhava fixamente o Alex, que se incomodou: “Estoy cagado? Estoy mijado? Por que me ojas así, viadón?” Mas o Ladrão Boliviano era boa gente. Uma espécie de Jean Genet do Cone Sul, e as afinidades logo surgiram entre os dois.
Mas a amizade com o bom Ladrão Boliviano não impediu que o Alex se sentisse desamparado, triste e assustado. Ele estava num país estranho, preso, sentindo a falta do Oliver. Daí para começar a ver coisas foi um pulo. O fantasma de Cabrera Infante, por exemplo, era uma aparição constante para o Alex, que insone ouvia o Ladrão Boliviano ressonar ao seu lado. O Cabrera vinha sempre da mesma forma: sentava no catre do Alex, olhava fixo para ele e repetia: “Tres tristes tigres tragaban trigo en un trigal. Tras tus tres tristes tigres que triste estás Trinidad. El amor es una locura que solo el cura lo cura, pero el cura que lo cura comete una gran locura.”. E nada mais era dito pelo triste Infante.
Prestes a enlouquecer, o Alex foi parar na enfermaria. Foi a única parte da prisão construída pela CIA, o que quer dizer que era tão mal feita que sequer tinha grades. E à noite, invariavelmente, os guardas e as enfermeiras participavam de orgias homéricas regadas a santería, com bodes sacrificados e tudo. Foi quando o Alex percebeu que poderia fugir dali. Mas não fugiria sozinho: seria incapaz de deixar o Ladrão Boliviano para trás. Na memória trazia ainda a maneira como tinha abandonado o Oliver em New Orleans; sua sorte é que o cachorro cor de nescau que ele diz ser champanhe apareceu boiando no Golfo do México, levado pelo Katrina.
O Alex criou um plano simples, mas eficiente. Primeiro, foi trabalhar na lavanderia, de onde desviava as cuecas usadas dos presos. Depois, na hora do banho de sol, ele e o Ladrão Boliviano fingiram uma briga e foram mandados para a enfermaria. À noite, quando a bacanal começou, eles simplesmente fizeram uma teresa com as cuecas malcheirosas e desceram pela janela. As cuecas sebosas e com cheiro esquisito ajudaram nessa tarefa: tão gordurosas e melecadas que eles simplesmente escorregavam por elas. Com o rosto encostado nas cuecas emporcalhadas, o Alex suspirou: “Ah, o doce perfume da liberdade”. Chegaram ao chão e saíram andando despreocupadamente.
Agora clandestinos, eles se esconderam em um daqueles prédios que, como ainda não foram tombados pelo Iphan deles, vão acabar tombando no chão qualquer dia desses. Para sustentá-los, o Ladrão Boliviano passou a tentar aplicar o “Boa Noite, Cinderela” nos cubanos de boa fé, mas aqueles coitados eram tão pobres que tinha dia em que o Ladrão Boliviano voltava para casa com meio pedaço de pão e um rolete de cana, para serem divididos entre os dois.
Então o Alex resolveu tomar uma atitude. Sua crise de abstinência dos mata-ratos de 8 centavos chegava ao limite. A fome trazia o fantasma de Cabrera Infante toda noite, e em seus pesadelos ele era atacado por revoadas de charutões de um peso.
E assim foi o Alex para o Malecón, bater calçada. Colocou uma roupa branca de traficante cubano — calça e paletó de linho branco, chapéu, camiseta preta e um medalhão que diz “I love my dog”. E, de peito aberto, caiu no mundo torpe da prostituição.
O que o Alex sentia, confessa, era uma mistura de medo e excitação. Ele nunca tinha feitos essas coisas por dinheiro; agora fazer a vida era uma necessidade. Uma de suas primeiras providências tinha sido abandonar o seu nome de batismo por um nome de guerra, que não ficaria bem ver o nome de um escritor achincalhado no cotidiano das falenas. Tentou lembrar do nome do personagem de Al Pacino em Scarface, mas não conseguiu. Então teve uma idéia: se chamaria, novamente, Alexandre Cruz Almeida. Mas precisava de um molho cubano: e assim o mundo viu o nascimento de Alejandro Cruz y Almeida.
Aquela era sua primeira noite como profissional do sexo. Longe iam os dias em que o Alex era um acadêmico sério, envolvido com pesquisas sobre romances do século XX. Agora ele estava na boca do lixo, com uma navalha no bolso para o caso de encontrar um caloteiro safado. Vendia o seu corpo para poder entrar na fila do charuto.
“Chupo-le los pies toditos.”
Ah, ninguém pode imaginar o sucesso que o Alex fez na velha Cuba. Em poucos dias, todo o demi-monde sabia quem era Alejandro, El Boquita de Oro. As putas olhavam para ele com inveja e despeito; as filas se formavam na esquina onde ele fazia ponto, e eram administradas pelo Ladrão Boliviano. Não era, entretanto, uma vida maravilhosa. De vez em quando, o Alex tinha que pagar propina para policiais corruptos: e a moeda de troca era o sexo, ou melhor, o boquete pedicular. Nesses momentos o Alex se sentia degradado, violado, acocorado em vielas escuras caindo de boca nos pés chatos de policiais que não sabiam apreciar, a contento, os seus talentos únicos.
Dos outros ele não conta muitos detalhes. Aqueles homens suados e fortes eram indistintos, um cliente sucedendo o outro. Contou apenas um caso, em que um sujeito o levou para um quarto de hotel caindo aos pedaços; na janela, fazendo as vezes de cortina, uma colcha bordada com a cara do Che. Mas em vez de pedir para que o Alejandro lhe lambesse os pés, pediu para que ele caísse de boca em um charuto enorme que ele lhe mostrou — um daqueles charutos de um peso pelos quais o Alex agora vendia seu corpo. E enquanto ele, bom profissional que é, mostrava seus dons no charuto, o cliente gritava, ofegante:
“Llámame de cerdo capitalista! Llámame Bill Clinton, dime que eres mi practicante, perro!”
No meio desse espetáculo lewinskiano, a porta do rendez-vous foi arrombada por dois homens sem barba. O Alex perdeu a paciência:
“Já sé, já sé, caray. Policia secreta de Fidel. Puerra, de nuevo? Muestra los pentellos.”
O sujeitos baixaram as calças. Glabros.
“Ahora muestra la bunda.”
Viraram de costas e se abaixaram. Imberbes.
“Puta de la madre que los pare, esto já me está enchendo el saco! Quien son ustedes?”
Os agentes tiraram os sapatos. Seus pés tinham peitos cabeludos e tufos enormes de pelo nas falanges.
“Nosotros somos de la nueva división Alex Castro de chupadores de pies. Estás invitado a irte del país. Te hemos recibido con todo lo de nuestra madre Cuba — y por encima usted has hecho lo que has hecho con nosotros, cerdo capitalista!”
“Pero esto o que, hijo de Dios? ”
“Ahora haces dumping con nuestras jineteras, coño. Eso es una competéncia desleal. Sabes que nuestras putas no chuparian los pies de sus clientes jamás. Ellas tienen una distinción profesional. Y tú qué? Lo haces para gañar un peso o fumar un tabaco de miseria. Quieres quitarles el pan y todo lo nuestro. Sabes como llaman al Malecón ahora? El Maricón. Por tu culpa, hijo de puta. Sabes que cuándo Bush se va a oler una línea de coca se ríe de nosostros? ‘No me toca invadir a Cuba porque iba a ser una humillación tomar a un país de mierda que por encima tiene un jinetero llupador de pies que se parece a un héroe nacional’, es lo que habla de nosostros. No hace falta que te quedes aqui, Alex Castro. Tienes como dos dias para irte. De otra manera vas a conocer nuestro paredón.”
Agora estou preocupado. O Alex não mandou mais respostas. Não sei se ele está morto ou vivo. E se o filho da puta estiver morto, aí é que ele não traz mesmo a porra do meu Cohiba.
Mais notícias do .cu
As coisas em Cuba continuam complicadas para o Alex. Não bastasse a censura que ele está sofrendo em seu blog — alguém já notou as fotos bucólicas que ele anda publicando? Até parece que Cuba é um país em que as pessoas não são fuziladas na rua o tempo todo; isso só pode ser a ação dos censores, esses desgraçados –, a vida na Castrolândia está cada vez mais difícil.
Pelo último e-mail que me mandou, parece que ele bem que tentou se comportar como cubano. Até deixou de usar aqueles sabonetes Phebo fedorentos em que é viciado. Nos últimos dias pela manhã ele se levantava e ia direto para a Biblioteca Nacional José Martí, onde está pesquisando sobre os tais romances abolicionistas.
O problema começou quando ele se deparou com referências à santería, e como bom católico carioca, não sabia do que se tratava. Agora ele se lamenta, e diz no e-mail: “Porra, se eu soubesse que era macumba não precisava ir atrás de ninguém”. O Alex, poucos sabem, é filho de Oxóssi. Mas Oxóssi não reconheceu a paternidade.
Aquela jinetera que tomou o Alex sob os braços indicou um bom brujo para ele. Um tal de Don Miguelito, que já tinha feito até especialização em vodu no Haiti. Sabe como são esses acadêmicos, um título no exterior sempre cai bem.
A casa do pai de santo fica num subúrbio de Havana. A jinetera disse que não o levava lá, mas deu o endereço. O Alex bateu na porta do macumbeiro no comecinho da manhã de ontem.
Quando viu o Alex, o santero tremeu. A energia do Alex era muito forte, foi o que ele disse. Pediu para ele sentar e jogou os búzios. Disse o de sempre: que ele ia voltar a ser rico e feliz, que o Oliver ia virar macho, que ele ia comer todas as cubanas que quisesse e que tinha um amigo no Brasil que estava sacaneando o seu blog (o que, desde já, eu repilo como mentira vil e soez).
O brujo pediu licença e sumiu casa adentro. Quando voltou, disse ao Alex: “Nuestro jefe está muy mal. Muy mal, el pobrecito. He hablado con los orishas y ellos han dicho que lo que hace falta para que Fidel se ponga bien és una mamadita en los pies. Pero nadie le quiere hacerlo porque si no se recupera, el infeliz que le haya chupado gañará el paredón. Tú has sido elegido para salvar nuestra madre Cuba!”
Antes que Alex pudesse responder, de trás das cortinas de contas que separavam a sala de atendimento de pai Miguelito da cozinha saíram dois homens barbudos. “¡Polícia secreta de Fidel!”, eles gritaram.
Mas o Alex já era gato escaldado. “Ustedes piensam que soy otário? Ustedes no son secretas. Ustedes tienes barba. Yo quiero ver los pentellos.”
Os agentes arriaram as calças. Eram imberbes. “Ahá! Ustedes no son policiais ni con un carajo!”, exclamou o Alex, triunfante. Os agentes viraram as costas e mostraram umas bundas extremamente cabeludas. “Nosotros somos de la división de actuación em la retaguarda.”
O Alex foi levado ao palácio presidencial. Os agentes o fizeram entrar em um quarto cheio de guardas. Uns quinze, mais menos. E lá no canto, em uma cama com dossel, Fidel Castro jazia quase inerte. Trazia uma sonda na barriga, a boca aberta que respirava com dificuldade babava, e fumava um charuto. O Alex esperava sentir o perfume do bom tabaco cubano, mas era uma catinga miserável de maconha. Um baseado deste tamanho. Envergonhado, o agente disse que era por indicação médica.
Nos estertores da morte, Fidel respirava com dificuldade. Com um esforço extremo, levantou um pouco a cabeça, olhou para o Alex e sorriu. Mais um esforço, agora ainda maior, e botou para fora do cobertor bordado com a cara de Che Guevara o seu pé.
Aquele era o pé da revolução, o pé do último grande herói do século XX. Aquele pé tinha desembarcado em Las Coloradas; tinha subido a Sierra Maestra e de lá comandado a redenção cubana. Aquele pé tinha transformado o bordel dos Estados Unidos em um país digno e importante. Aquele pé era horroroso.
“Chupame… Chupame… Chupa mi piezito, Alequito de mi corazón… Chupamelo”, disse o grande Fidel com voz entrecortada.
O Alex suava, horrorizado ante aquele pé imenso, disforme. Olhou para trás e os dois agentes de bunda de fora olhavam feio para ele. Um deles falou:
“Chupalo bien rico, bien sabroso, maricón. Chupa y serás un heroe de la revolución, con derecho a una fotita de Alberto Korda.”
Se fosse a Margareth Thatcher, o Alex encarava. A coroa até que dava um caldo. O Alex encarava até a Havanir, aquela do Enéas. O Alex não ligaria em pagar um boquete no pé de um velho de oitenta anos, ex-militante do Partido Integralista. Mas em um comunista, ah, não. Isso, nunca. O Alex tem princípios. Não sei direito quais, mas ele tem. Ele jamais chuparia o pé do Fidel. Não tanto pelo pé horrendo, mas pelas sérias divergências ideológicas.
“Fidel, mi compañero… Vaya a ralar el cu en la ostra, que mi boquita no fué achada en el lixón!”
Fidel gemeu. Os agentes armaram suas pistolas e apontaram para o Alex, que finalmente percebeu que a coisa não era brincadeira. Mas de repente as portas do quarto abriram com um estrondo. Seis homens entraram, empunhando Kalashnikovs 1976, e dizimaram os agentes de Fidel.
Com o terreno limpo, Raúl Castro entrou na sala.
“Él no va a chuparte los pies, Fidel.”
Raúl se sentou ao lado de Alex, que mais uma vez exalava aquele cheiro esquisito das calças. Alex esperava a morte, sem direito a pelotão de fuzilamento. Mas então Raúl começou a chorar.
“No puedo matar mi hermanito. Yo amo Fidel como no he amado a nadie más, nunca. Pero ahora me toca ser más. Yo voy a ser el presidente de Cuba, y juro por Dios que voy a hacer discursos más largos aún que los suyos.”
Olhou com carinho para o irmão que, como era de se esperar, continuava jazendo na cama, babando o baseado enorme. Enquanto fazia um carinho em sua cabeça, continuava:
“Desde muy niños, Fidel tenía todo y yo me quedaba con los restos. Nuestra mamacita — que Dios la tenga — le compraba ropas y yo vestia los trapos que no les servían más. Cuando joven él follaba las bailarinas de rumba y yo me quedaba con las camareras. Mientras yo hacia um discurso de 5 horas, él muy listo me sobrepasaba con uno de 7. Ahora és mi turno. Tócate a morrir, hermanito, y nosostros vamonos a construir el socialismo.”
Virou-se para o Alex.
“Ahora tú, brasileño de mierda. ¿Eres comunista?”
Naquela hora, o Alex, direitista safado porque o pai era rico, tinha se tornado comunista desde criancinha.
“Si, señor. Soy afilhado de Apolônio Carvalho e militei en PCB, en PCBR, en PSTU, en P-SOL, en PCO y en PQP.”
“Entonces te has ’se fodido’, como dices. Los rojos son peligrosos. Tienen unos mariconeos de revolución y yo no quiero eso ahora. Voy a sepultar todos los rojos com Fidel. Pero eres un brasileño de mierda y me atraparías en un problema diplomático con el compañero Lula, aunque yo no comprenda porque él se iba preocupar con un maricón como tú. Ahora mismo hablé con Bush y él me dijo que te va a recibir en Guantánamo. Fíjate, eres un preso político.”
Os agentes de Raúl pegaram o Alex e o colocaram de novo no carro. O Alex saiu gritando: “No hacias esto comigo! Yo soy tu hijo bastardo, papá Raulzito! Mira mi nombre! Castro! Castro!”, mas o Raúl já não ouvia, ajeitando o cobertor sobre o irmão com um olhar enternecido.
Os agentes enfiaram Alex em um macacão laranja, não sem antes limpar sua bunda, que estava em petição de miséria.
Quando o Alex entrou em Guantánamo, os presos se amontoavam em seu banho de sol diário. No canto do pátio, um comunista era torturado; enquanto isso, um muçulmano era enrabado perto da entrada do refeitório por três dançarinos de salsa de Miami liderados pelo Robby Rosa, especialmente empregados para esse mister macabro.
Os presos, alguns com o crescente no uniforme, outros com a foice e o martelo, se aproximaram. Queriam ver quem chegava. “Eres un comunista o terrorista, coño?”, perguntou o que parecia ser o líder.
O Alex se assustou. Percebeu que o destino dos comunistas era melhor que o dos muçulmanos. Era uma boa ser comunista. Mas esses muçulmanos são uma raça complicada, invocada, e também era bom não se indispor com eles. A merda era que o Alex não sabia a letra da Internacional (”De pé, ó vítimas da fome! De pé, famélicos da Terra”), nem uma daquelas palavras de ordem típicas. Algo no seu cérebro de menino rico mimado impedia que ele conseguisse pronunciar frases como “Reforma agrária já” ou “Abaixo o imperialismo”. Tampouco sabia algum verso do Alcorão. O jeito era improvisar.
“Por Alá, eu estou grávido de Luiz Carlos Prestes!”
Os presos começaram a rir. Só um pequeno grupo, de umas doze pessoas, continuou sério, medindo Alex de cima a baixo.
Os guardas vieram e o levaram. Com a cara de pau de quem pede fotos de pés, o Alex pediu um computador com acesso à Internet. Ele queria mandar um e-mail para a namorada, para os amigos e para a Xuxa. Claro que o guarda não ia liberar o acesso assim, mesmo sabendo que o Alex lhe daria o .cu. A negociação foi dura. Depois de quase duas horas, o Alex conseguiu corromper o guarda com um sabonete Phebo, um tubo de Crest e uma camisa da seleção brasileira de futebol.
Ele estava escrevendo esse e-mail que transcrevo aqui quando aquele bando de presos, o que não riu, entrou na sala. Andavam lentamente, com um gingado esquisito. Olhavam fixamente para ele e cantavam, com o mesmo olhar lúbrico que o Alex faz quando vê um pé: “Guantanamera, guajira guantanamera…”
Mais o Alex não diz. O e-mail foi enviado às pressas, sem nenhuma revisão; ele sequer assinou. Estou esperando o próximo. E o filho da puta ainda não mandou meu Cohiba.
Notícias do .cu
O Alex acabou de me mandar um e-mail direto de Havana.
Minha esperança era a de que ele voltasse de lá um pouco mais afinado com o mundo. Ou seja, um sujeito que deixasse de lado essa palhaçada de mercado livre e entendesse o papel do Estado na sociedade. Pensei que uma estadia em Cuba daria continuidade ao excelente trabalho que o Idelber está fazendo com ele. Isso era necessário. Embora eu tenha cá minhas reservas acerca do regime cubano, Fidel é definitivamente uma das grandes lideranças mundiais do século XX, e Cuba era, e ainda é, absolutamente importante para a América Latina.
Mas, até agora, não foi isso que aconteceu.
O Alex não fala, mas deve conhecer a trajetória do Reynaldo Arenas. Virou filme, até. “Antes que Anoiteça”, coisa assim. E pelo e-mail que me manda, vejo algumas semelhanças entre os dois. Ambos eram, digamos, heterodoxos em relação ao padrão sexual do regime. O Arenas era gay. O Alex chupa pé.
Deve ter sido por isso que a primeira noite do Alex em Cuba foi esquisita, pelo que ele diz. Já no aeroporto, os fiscais da alfândega olharam para o seu passaporte e abriram os olhos espantados. Um deles gritou para o outro: “Mira! Un hijo de puta de un exilado volve a Cuba!” Aí outro fiscal puxou o sujeito pelo braço e murmurou: “¿Estás loco? Eso es el hijo de Raúl Castro!” Um terceiro fiscal desdenhou: “Hijo de Raúl, um carajo! Eso es nombre de decorador de fiesta de subúrbio!” É, não é, o pau comeu no aeroporto.
Na confusão, o Alex saiu de fininho e pegou um táxi. Era um Chevy 1954, que já tinha servido de lancha para um grupo de dissidentes. O Alex pediu ao motorista que o levasse ao hotel Tomono, que fica em Varadero e tem esse nome em homenagem ao nissei que pilotava o Granma.
No lobby do hotel, uma mulher vestida como pobre americana se aproximou. Uma morena de fechar qualquer quarteirão, mesmo aqueles enormes de conjunto residencial que leva número no final, tipo Cabula VI ou Mangabeiras IV.
“Quieres divertirte, guapetón?”
Normalmente o Alex não cederia aos apelos de uma semi-profissional do sexo. O Alex é um homem sério, dentro de uma determinada noção de seriedade, e suas taras doentias são fruto do amor. O problema é que a moça tinha uns pés de deixar qualquer tarado podólatra maluco. Havia uma gosminha preta na sola, molhada, fedida, que falou aos mais baixos instintos do Alex.
A jinetera sentiu o babado e perguntou para ele: “¿Te gustan los pies?” O Alex não conseguiu responder. Babava. As pessoas não se lembram, mas ano passado a Carol postou um vídeo do Alex chupando os pés dela. O sujeito chupava cada dedinho com um prazer tão grande, e com tão notável talento, que até parecia um boquete. Daqueles muito bem pagos. Se o Alex fosse mulher eu namorava ele, no duro, mesmo que a cara não seja lá grandes coisas.
O Alex seguiu a jinetera até o apartamento dela, em um prédio acabado cheio de meninos catarrentos cantando salsa na escada. Ela começou a tirar a roupa mas o Alex, imperativo, a impediu, com aquele olhar sensual típico de um podólatra. “No es preciso, tesón.” Pediu que ela sentasse na cama coberta por uma colcha bordada com a cara do Che. E caiu de boca no pé dela.
Eu não quero imaginar a cena. Já vi isso ao vivo uma vez, e depois em vídeo. Ainda não me recuperei dos traumas, e por isso chuto cachorrinhos indefesos na rua, quando volto a pé para casa tarde da noite. Por quê, meu Deus, por quê?, é o que me pergunto. Nunca recebo resposta. É por isso que eu bebo.
Quando a boca do Alex já estava dormente, ele disse que ia ali na esquina comprar um cigarro. E não voltou. Saiu rindo, achando que tinha dado um calote na moça. O Alex saiu do Brasil, mas o Brasil não saiu do Alex.
Satisfeito, ele se encaminhava para o hotel Tomono quando foi parado por dois homens. Eles o mandaram entrar num velho Oldsmobile 1957. O Alex, acostumado a baculejos na Taquara, perguntou quem eles eram, que ele não ia entrar num carro assim, de qualquer jeito. Os sujeitos responderam que eram agentes policiais de Fidel. “Ué? E cadê la puerra de la barba?”, perguntou o Alex. Eles olharam para um lado, olharam para o outro e baixaram as calças. É, eles tinham barba. “Nosotros somos de la polícia secreta, división de los comedores de jineteras.” Deram um cacete nos cornos do Alex e o jogaram no carro.
Pela primeira vez em Cuba, o Alex sentiu medo. Os agentes seguiram para Sierra Maestra.
O Alex é um sujeito urbano, sofisticado (não é o cúmulo da sofisticação preferir pés a outras coisas mais óbvias em uma mulher? Eu, que sou só um paraíba e não sou capaz dessas sofisticações, olho admirado para o sujeito enquanto sonho em afundar minha cabeça em um belo par de peitões). Mato não é bem com ele. Ainda mais num breu miserável como o que fazia em Sierra Maestra naquela noite quente de maio.
Colocaram o Alex sob uma panela de luz, no meio de uma clareira. Um general barbudão se adiantou, deu um tapa no Alex e gritou:
“¿Acaso no sabes que tienes que comer nuestras putas, maricón? ¡Se les chupas o tan solo lambes a sus pies, tiras a la desgracia sus reputaciones, y nadie más va a querir comerlas, las desdichadas! ¿Quieres acabar com nuestra economia, hijo de puta?”
O Alex não falava nada. Um mau cheiro esquisito passou a exalar de suas calças.
“Por esta vez passa, chulezero de mierda. Pero volverás a la calle, pegarás la jinetera que no comeste e vaya a dar-le una surra de polla, que nuestra economia depende da atuación de nuestras putas. Y pague a la mujer, gilipollas sin verguenza!”
Vendaram novamente o Alex e o largaram em Varadero. Ele se arrastou até o hotel. Entrou e se dirigiu ao cybercafé. Ia entrando afobado quando foi parado por um negão. O sujeito já estava para lá de bagdá, tinha enchido a lata de rum, percebia-se pelo bafo.
“¿Que quieres, gordito?”
“Yo quiero usar la Internet.”
“Para usar la Internet tienes que dar el .cu.”
“Como es la conviersa?”
“El .cu, brasileño tonto.”
“Yo solo dou el cu por amor. Y yo no te amo, viadón!”
O negão partiu para a ignorância. Ia encher o Alex de porrada. Mas aí foi impedido pela jinetera que o Alex não tinha comido; ela vinha atrás dele para receber o dinheiro que o safado não tinha pago. (Lição a ser aprendida aqui: nunca confie em alguém que lambe pés.) A mulher era jogo duro. Deu um balão no negão e chutou seu saco. Ele se dobrou de dor e ela chutou sua cara. O negão desmaiou na hora. Quando se virou para o Alex, ele já estava com o dinheiro na mão.
Ela pegou os dólares e resolveu quebrar o galho do Alex, explicando que as coisas são um pouco diferentes por lá.
“Brasileño de mierda, en Cuba nosotros tenemos que tener un domínio .cu para usar la Internet. Exigência de Fidel. .Cu es para nosotros el mismo que el .br de ustedes, cabrón.”
E explicou o que ele tinha que fazer. Deveria ir até o Secretariado Especial de Assuntos de Internet, deixar nome e endereço, e pagar um bocado de dólares por um endereço provisório de e-mail. O do Alex ficou assim: alexcastro@tomono.cu.
O e-mail do Alex parou por aí. Estou aguardando o próximo. E o filho da puta ainda não mandou meu Cohiba.
Astrólogos de Maria
Há quase dois anos, um enfermeiro chamado Bruno veio parar neste blog e deixou um comentário longo defendendo uma tese: a de que preservativos não apenas são ineficazes no combate à Aids, como ainda por cima incentivam os jovens a praticar essa aberração medonha chamada “sexo fora do casamento”. O Bruno externava aquela crença supersticiosa de quem não conhece direito o assunto: se você tem uma camisinha no bolso, ela por si só vai fazer de você uma máquina de fazer sexo. Imagino esse tipo de católico olhando uma camisinha como a uma estátua do bezerro de ouro: com uma mistura de medo e de fascinação ante o hediondo.
Com a doçura que mamãe me deu, eu comentei o comentário do Bruno neste post. Não foi propriamente o proselitismo do sujeito que me incomodou: mas o fato de ele usar suas credenciais de agente de saúde para espalhar desinformação em proveito de sua crença.
É inadmissível que um enfermeiro, em última análise executor de políticas públicas de saúde, deliberadamente coloque pessoas em risco porque precisa de uma mentira para fortalecer os dogmas que defende. Gente assim é perigosa, como são todos os idiotas em alguma posição de poder.
Foi quando um sujeito chamado Pedro Sette Câmara leu a brincadeira e resolveu tomar a defesa do Bruno, em um post chamado “O Donzelão dos Argumentos” — em que o donzelão, claro, era o autor destas maltraçadas, o que aliás não é segredo para ninguém. O Pedro 7, em linguagem mais sofisticada, reforçava a tese do Bruno: a de que uma pessoa com uma camisinha no bolso se vê acometido de um repentino e incontrolável furor genital. Camisinhas, para eles, são como aqueles objetos encantados de filmes de terror. Transformam moças decentes em prostitutas, homens calmos em sátiros insaciáveis. Eles não falam com todas as palavras, mas parecem acreditar que uma fábrica de camisinhas é comandada pelo próprio Belzebu, um instrumento para levar a humanidade ao abismo negro do inferno.
É uma postura obscurantista, típica do que um segmento mais alucinado do cristianismo vem fazendo há milhares de anos. A diferença é que hoje a Igreja tem menos capacidade de coerção e já não consegue mandar feiticeiras para a fogueira. Mas a mentalidade obtusa continua a mesma.
Por causa desse post, o blog foi invadido por beatos e olavetes, povo que, sem brincadeira, me enche de medo; eles conseguem fazer com que eu, um humanista convicto, veja a minha fé nas gentes vacilar — coisa que nem as pesquisas no Google conseguem. Não havia discussão, mas os sujeitos mostraram um tom triunfalista dizendo que mais um ateu tinha sido esmagado pela clava de Deus, coisa assim. Fui promovido a ateu, porque os idiotas fundamentalistas não conseguem ver além de seus próprios antolhos. Isso só não me magoou mais do que ver o pessoal me chamando de — ai! — feio.
Foi quando descobri, graças ao Marcelo Camanho, que apesar da sua devoção católica, do respeito exacerbado ao velho sibarita Bento XVI e da defesa acalorada da castidade pré-nupcial, o Pedro 7 era astrólogo semi-profissional (ele fez questão de dizer também que tinha uma noiva; fiquei me perguntando o que ele era, se hipócrita ou o “donzelão” de que ele me chamava).
Mais: o Marcelo me indicou um post delicioso do sujeito. Foi um dos textos mais engraçados que li em toda a história da blogoseira. Era algo incrível: ali ele dizia como a astrologia podia revelar, antecipadamente, se você ia conseguir pegar ou não determinado filme numa locadora de vídeo. Isso mesmo.
Eu estava diante do fundador de uma seita que, acreditei, vai-se fazer ouvir falar pelos tempos que virão: os Astrólogos de Maria. Imagine a força desse pessoal, provavelmente formado na venerável Congregação Mariana de Astrólogos, no Mosteiro de Santa Cruz, em Segovia, Espanha (lar de outro bom católico, São Tomás de Torquemada): eles não somente têm Deus ao seu lado, como ainda sabem o que vai acontecer no futuro. Como num antigo gospel, têm o mundo inteiro em suas mãos. Não vai ter para mais ninguém.
Se astrologia é uma bobagem, esse tipo de aplicação da “ciência” é quase demente. Nenhum astrólogo que se pretenda sério é capaz disso — pelo contrário, prefere ficar em aspectos mais gerais, em traços de personalidade, coisa vaga assim. Dessa forma é mais fácil criar um sistema plausível. O Pedro 7, no entanto, encarou o desafio. A verdade é que, para que se consiga acreditar numa baboseira dessas — a astrologia como uma espécie de I Ching, ou cartomante de quinta — é preciso um tipo especial (especial como quando a gente fala de um menino com sérias deficiências mentais: “ele é especial”) de fé. É exatamente o mesmo tipo de fé que possibilita o tipo de catolicismo professado pelo Pedro 7.
A astrologia é condenada pela Igreja Católica — como, de resto, qualquer outro método de divinação, entre os quais um que me parece bastante simpático, a veneromancia. Para alguém que se pretende um fiel devoto e estudioso, era mais que uma simples contradição: era uma prova viva de hipocrisia e confusão teológica. Num caso muito grave, essa confusão pode dar em aberrações como o Olavo de Carvalho; em outros mais brandos, resulta no Pedro 7 e em tentativas de mascarar sua fé numa bobagem atrás de justificativas históricas sem pé nem cabeça. Esse tipo de católico, na verdade, tem problemas quando tenta conciliar história e religião. Geralmente, quem sai perdendo nesse conflito é a verdade; nesse caso, é o juízo.
Isso foi há muito tempo, mais de dois anos. Mas nesta Semana Santa resolvi mostrar o post a uma amiga, porque ela, que já passou por quase todas as religiões, não acreditou no que o Pedro 7 propunha. E cliquei no link.
Foi com uma certa surpresa que vi que o link havia mudado. Pode ter sido coincidência. Talvez. Mas foi justamente o post linkado — em que tínhamos a Grande Revelação de como a Astrologia pode lhe confirmar se você assistirá a “Marcelino, Pão e Vinho” — que foi substituído pela arenga em que o Pedro 7 explica por que deixou de ser astrólogo.
Se fosse só isso, era aceitável. As pessoas têm direito a mudar de opinião. Se o Pedro 7 tinha deixado de ser astrólogo porque tinha percebido o conflito teológico que aquilo representava e se viu obrigado a escolher, tudo bem. Provavelmente seria um sujeito mais infeliz, mas talvez a sensação de ser coerente compensasse. Há algo de belo na renúncia, no ascetismo.
O problema é que o texto da entrevista que o Pedro 7 faz consigo mesmo é de uma hipocrisia de matar de rir. Ele não deixa de acreditar em astrologia. Não deixa de estudar os livros que tem. Não os empresta, que mulher e livro a gente não empresta a ninguém; mas indica onde os interessados podem comprá-los. No fim das contas, ele só deixa de alardear que acredita, realmente, que nascer em determinado dia e em determinado lugar define a sua vida porque um diacho de planeta a milhões de quilômetros estava em tal posição naquele momento. Deixa também de tentar descolar um trocado com isso. O Pedro 7, ao mesmo tempo, consegue ser desonesto consigo, com seus leitores católicos e com seus leitores que acreditam em astrologia.
O texto é uma maravilha de subterfúgios, de tergiversações. Não interessa quantas condenações a astrologia receba da Igreja: ele vai procurar uma saída. E vai fingir que encontrou.
Eu fiquei chocado. Sinceramente acreditava que os Astrólogos de Maria, como cruzados medievais em cota de malha e espada em punho, iriam conquistar o mundo e levar este rebanho insensato de pecadores ignorantemente felizes ao caminho da Salvação. Infelizmente, o Pedro 7 desistiu.
Mas essa foi só a primeira impressão. Vendo o amontoado de tentativas confusas de justificar o injustificável, de repente passei a admirar o Pedro 7. É preciso coragem para insistir na baboseira, mesmo de maneira tão coleante, mesmo quando a realidade lhe é jogada na cara. Como dizia o Borges, somente as causas impossíveis interessam a um cavalheiro. O Pedro 7 é um sujeito antigo em suas crenças e em sua hipocrisia; um típico cavalheiro vitoriano. Ele avocou para si uma tarefa muito difícil: conciliar cristianismo e astrologia. Não vai conseguir. Mas isso faz dele um rapaz de coragem. Queiram ou não, Pedro 7, o Astrólogo de Maria, é quase um poema. É a versão beata de Galileu, resmungando entre dentes: “E ainda assim, o sol está na quarta casa de escorpião!”
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