De volta aos manuais Disney

Eu sabia que não ia resistir quando vi o anúncio do relançamento do Manual do Escoteiro Mirim pela Abril, no ano passado. Sabia que ia comprar, porque esse foi um daqueles livros inesquecíveis da infância.

Em primeiro lugar um choque: descobri que minha vida era uma fraude, sempre foi uma fraude, eu vivi os últimos 40 anos numa grande ilusão. O Manual do Escoteiro Mirim que tive era a terceira edição, disso eu sempre soube; o que não sabia é que, para a Abril, uma nova edição significa relançar coisa velha mas mutilada, com várias páginas a menos. O manual relançado agora, em capa dura e papel reciclado (o meu era uma brochura com capa em couchê casca de ovo), tinha mais matérias que o que li e reli até que suas páginas se desfizessem. Ainda pior que algumas das matérias omitidas dissessem respeito ao mar, à navegação e a piratas.

Aquela foi a primeira vez que a editora Abril, aquela que mais tarde ajudaria a destruir o jornalismo brasileiro com uma certa revista semanal de informação que ela alega ser a quarta maior do mundo, passou a perna em mim. Passaria mais vezes depois, mas eu sou mulher de malandro, não tenho vergonha na cara. E como toda mulher de malandro, esperando Madalena voltar do mar, nem espero ela chorar o meu perdão, vou esquentar seu prato e abro meus braços para ela.

Por isso eu rezo em segredo para que, quando relançarem o Manual do Zé Carioca, que seja a 2ª edição, editada em 1978 para aproveitar a Copa da Argentina. Foi essa a que tive. E, sinceramente, não preciso descobrir agora, depois de velho e com o fígado bambeando, que o manual original de 74 tinha mais matérias do que as que li.

Além disso, são fac-símiles ma non troppo. As lombadas, que eram abauladas, agora são retas, e o papel (com exceção do papel agora reciclado do Manual do Escoteiro Mirim, um desdobramento quase lógico) é de melhor qualidade. A capa do Magirama, antes texturizada e fosca, agora é lisa e brilhante. Atividades que foram descritas normalmente agora trazem notas de rodapé informando aos retardadinhos que eles precisam da supervisão de um adulto — é nisso que deu a evolução? Vocês se tornaram incapazes de fazer coisas que seus pais e avós faziam tranquilamente? —, e uma receita que levava álcool foi modificada. Os manuais precisaram ser adaptados a um mundo mais complexo.

À parte minha revolta com as práticas da editora, a verdade é que continuo achando que aqueles manuais eram pequenas enciclopédias fantásticas. Ainda lembro do impacto que o Manual do Escoteiro Mirim — mesmo com tantas páginas omitidas canalhamente pela editora — causou em mim, menino de cidade que, de repente, aprendia como andar no mato, identificar pegadas, escalar árvores e ler mapas.

Por isso eu sabia que ia comprar o danado do manual.

O que eu não sabia é que iria comprar cada um dos que seriam relançados em sua esteira; mas devia saber, porque meu respeito profundo a esses manuais está documentado neste post; e isso vale mesmo para aqueles que não me dizem nada porque não os tive, como o Manual do Tio Patinhas, do Professor Pardal ou do Mickey. Além desses, três manuais que tive e que foram importantes, o do Peninha sobre jornalismo, o Magirama sobre mágicas e truques de salão e o da Vovó Donalda sobre culinária (isso antes dessas coisas gourmet tão na moda, quando cozinhar era basicamente garantir comida decente na mesa, e não sobrevalorizar o medíocre como parece ser a norma hoje), mereciam um olhar saudoso. Agora, para mim, só falta relançarem três outros manuais: o do Zé Carioca sobre futebol, o dos Jogos Olímpicos sobre Olimpíadas com o Pateta, e o da Televisão, sobre, bem, televisão. O Autorama eu tenho, comprei num sebo uns 10 anos atrás para repor aquele que havia comprado em 1978 mas que me roubaram logo depois — fui passar férias em Aracaju e quando voltei o danado não estava lá. Vai ver é por isso que nunca liguei muito para carros: não deu tempo de reler o manual várias vezes.

De qualquer forma, até agora esse era um respeito, digamos, retrospectivo, quase um passar de mão condescendente na cabeça da criança que fui tantas décadas atrás. Porque o ponto de partida de qualquer julgamento que eu pudesse fazer era o quanto foram importantes para mim, e só por isso podia haver certa dúvida. Talvez eles não fossem tão bons assim, talvez fosse a minha memória cumprindo o seu papel de edulcorar o passado, o único papel decente que a memória pode ter.

Por isso, em primeiro lugar reler esses manuais é um reencontro com deslumbramentos antigos. O mais agradável não é tanto ler aquilo de que eu lembrava: a verdade é que nada supera a sensação de rever um texto ou uma ilustração de que eu já tinha esquecido, porque isso revive, ainda que por um átimo, o que senti naquele momento.

Mas é lendo os manuais que não tive, como o do Mickey e o do Pardal, que minha admiração por eles cresce. Os manuais mostravam de maneira simples, fácil, como era o mundo que me aguardava. Ofereciam um mundo diverso de informações, selecionadas com critério e uma seriedade que, vendo com a distância de mais de quatro décadas, me impressionam. Por exemplo, essa previsão no Manual do Pardal, de 1973:

Em futuro próximo, o aparelho de TV poderá estar ligado uma grande loja de cassetes. A pessoa então escolherá, entre milhares de títulos, simplesmente discando um determinado num teledial. A videofita escolhida aparecerá na tela, dentro de casa, e a conta virá no fim do mês, junto com a do gás ou da luz

35 anos antes, o Manual do Pardal descreveu a Netflix.

Claro, nada disso era exatamente algo do outro mundo. Não passava muito da simplificação de ideias até velhas entre estudiosos e futurólogos, nada que uma revista tipo a Popular Mechanics não previsse uns 20 anos antes. Mas só o fato de transmitir essa informação para crianças, de maneira perfeitamente compreensível, era algo fantástico. Milhares de bacuris brasileiros passaram a entender melhor o mundo em que viviam, as coisas que nos rodeavam, e acima de tudo as possibilidades que nos eram oferecidas.

Os manuais significam também uma consciência melancólica de que o seu tempo passou. Alguém poderia se perguntar por que, em vez de editar material novo para as crianças de hoje, a Abril prefere reimprimir material de quase meio século atrás, mirando no público de anciães como eu, que buscam um passado que já se foi há mais tempo do que gostariam de admitir. Deve haver uma razão para isso. E eu acho que ela é simples: porque as crianças deste século — que um dia achei que usariam roupas prateadas enquanto veraneavam em Marte — provavelmente não se interessariam por isso, porque não há mais necessidade desses “digests” da informação que encontram com abundância na internet.

Isso não é ruim. Mas tampouco é bom. Mais do que ninguém, eu sei que brigar com a evolução é perda de tempo. O que não me impede de sentir uma certa melancolia por isso.

Atavismo

Acabei de achar uma tese de doutorado que cita uma carta, de 1879, em que a Condessa de Barral conta os progressos do meu trisavô ao avô dele. “A carta é destinada a um amigo da Província de Sergipe, no norte do Brasil, e trata do ‘jovem V. Galvão’, que, sob os cuidados da escrevente, estuda em um internato francês”

Considerando que a Condessa de Barral era amante de D. Pedro II, e levando-se em consideração a proximidade dela com o jovem Valois Galvão, a conclusão é lógica e esperada, quase óbvia para quem conhece a história passada, e graças a Deus superada e esquecida, dessa família: esses Galvão sempre foram chegados numa quenga.

Cinderela 77

Imagino que um bocado de gente já tenha visto isso, o último capítulo de “Cinderela 77”, uma novela da Tupi exibida em — surpresa! — 1977. Mas não custa postar aqui.

(É a maravilha da internet, especificamente do YouTube. A maior parte das gentes louva o link com o futuro que essas coisas de internet propiciam; eu sou grato pela chance de acertar as contas com o passado. De repente, um mundo de informações que pareciam perdidas para sempre no último grotão de minha memória reaparece aqui. Ninguém jamais vai saber o quanto sou grato ao YouTube por essas coisas. Eu vi capítulos dessa novela nessa época. Odiava novelas e desprezava quaisquer coisas associadas a elas — mal-estar que o tempo e a velhice destruíram, substituindo-as por uma condescendência extemporânea; mas lembro do robô que falava “PT saudações” [as gerações mais novas imaginarão que ele se referia ao Partido dos Trabalhadores e não a telegramas, pobres gerações ignorantes de um passado inútil] e de Sandoval. Eu sempre gostei dos vilões.)

Olhando agora, em retrospecto, fico impressionado com o uso da metalinguagem nessa novela.

Nos anos 70, a Tupi era uma empresa que respondia pelos erros de julgamento (e familiares) de Assis Chateaubriand e estava condenada ao fim. Reclamem o quanto quiserem, apontem as teorias conspiracionistas que desejarem: a verdade é que Figueiredo só apressou o desenlace inevitável. Ela mal pagava seus funcionários, se pagava. As condições técnicas eram terríveis. A sensação de fim cada vez mais próximo era inevitável, apenas contrabalançada pela fé na força de sua história.

Em diversos lugres vejo pessoas lembrando dos bons tempos da Tupi, muito parecidas com as que lamentam o fim da PanAir. A verdade é que tudo aquilo era heróico, sim, mas também era trágico. Conheço bem o espírito de improviso que fez parte do universo da TV durante muito tempo, e acho que ele só é bonito em retrospecto. Imagino quantos comerciais não foram editados clandestinamente na TV Tupi, quando o jabá era praticamente institucionalizado. Imagino o clima de “cada um por si e Deus que se foda” que a situação decadente da TV propiciava.

Mas quando vejo a liberdade criativa que era possível na Tupi, tudo isso acaba parecendo valer a pena.

A Tupi já tinha inventado a telenovela moderna com “Beto Rockefeller”, quase 10 anos antes. Há alguns capítulos disponíveis no YouTube, tirados do site da Cinemateca Brasileira, e eles são fascinantes. A linguagem se assemelha, em vários momentos, à do Cinema Novo, e imagino que se deva à mesma falta de dinheiro e de tecnologia. Os atores trazem muitas vezes os vícios do teatro, as marcações rígidas, o apego excessivo aos rr ditos corrrrretamente. Mas conseguem passar a emoção necessária, ao contrário dos atores despreparados que se vê nas novelas de hoje em dia.

É por tudo isso que fico impressionado com a liberdade criativa de que uma novela como “Cinderela 77” pôde desfrutar. Uma novela feita para o público do início da noite com resultado é fascinante, e quem tem alguma familiaridade com as tragédias gregas vai encontrar um bocado de pontos de convergência. E depois, se não for pedir demais, compare com as novelas pasteurizadas e engessadas da Globo hoje.

Isso não quer dizer que eu ache que a Globo destruiu a criatividade na TV. Pelo contrário. Ao contrário de outros comunistas velhos de guerra, tenho uma admiração sem tamanho pela tal Vênus Platinada. Mas para mim, pessoalmente, rever essa novela significa rever padrões estéticos que definiram a base do meu modo de ver TV, e que já foram superados há mais tempo do que ouso contar. Mas representa acima de tudo um deslumbramento com o talento, a ousadia e o amor que você vê em cada frame. Não se faz mais TV aberta como antigamente.

(Este post é um oferecimento da Associação dos Leitores Revoltados com a Cagada na Cabeça de Rafael Naqueles que Falam que “Minha Infância Foi Melhor Que a Sua”.)

Cena noturna

Segunda-feira. Quase meia-noite. Estou saindo do restaurante onde fui encontrar minha amiga mais antiga e o seu namorado.

Ele nos vê parado na frente do restaurante e se aproxima.

Tem seus cinquenta e tantos anos, ele. Magro, moreno, cabelos bem grisalhos, um rosto comprido com aquele perfil eslavo, quase equino, mas com os traços de gerações de mestiçagem. Seu rosto não me é estranho e eu acho que já o vi em algum lugar.

Ele se apresenta. “Meu nome é Fulano, sou radialista… Oi, dona Beltrana! Eu não reconheci a senhora, faz tanto tempo… A senhora tá bem?”

Ele conta a sua história, explica com detalhes. Ele agora está em Tal Lugar, está com Sicrano que ganhou a prefeitura, graças a Deus, mas nessa coisa de troca de governos o pessoal não o pegou para levar de volta — pirraça, só pirraça, vocês sabem como é, e agora ele estava incomodando as pessoas para voltar pelo menos para a rodoviária, onde pegaria uma das ambulâncias que vêm para Aracaju.

A camisa gasta é Tommy Hilfiger, a calça é indeterminada, o sapato é barato. No pé esquerdo, no lugar onde o dedo mindinho grita desesperadamente para sair, há um rasgo. Ele é um homem que mesmo na miséria ainda gasta alguns minutos de sua manhã para se arrumar com o melhor que tem, para colocar a camisa por dentro da calça, a roupa limpa, a aparência de normalidade, aquele querer ser sempre melhor.

E porque ele gosta da minha amiga, eu dou dez reais a ele. Ele vai embora, feliz.

Me despeço e vou para um posto no meio do caminho, comprar uma última cerveja e um maço de cigarros, que a noite a gente sempre termina sozinho, a gente e nossos demônios. E quando paro o carro ali está ele, indo para a loja de conveniência. Ele me vê, me reconhece, me cumprimenta surpreso.

Eu saio do carro e vou comprar meus trecos. Passo por ele e recebo um cumprimento: “Oi, mestre! Me perdoe!” Eu não sei por que ele perde perdão, se pelo pedido há poucos instantes, se por eu tê-lo visto agora. Eu não tenho por que perdoá-lo.

Quando saio ali está ele, sentado empertigado, altivo, e é sempre bonito ver alguém sentrado com a coluna ereta. Ele que estava entrando na loja não entrou, agora apenas espera. Olha para o nada à sua frente com altivez e orgulho, quase esnobe. Talvez o dinheiro em seu bolso esteja queimando, pedindo para ser gasto, mas agora ele não pode. Ele vai esperar que eu vá embora para que a sua estória não seja desmontada, para que eu, o amigo da moça que ele cumprimentou com respeito, não perceba que tudo aquilo era mentira.

Ou talvez nem isso, talvez ele saiba que eu já sei, se me conhecesse saberia que eu sei.

Mas ele não me conhece. Se me conhecesse saberia que eu entenderia. E entraria para comprar sua cachaça, feliz, talvez até piscasse e sorrisse para mim, e durante algumas horas ele seria, ele também, um homem feliz, esquecido de tudo, esquecido da vida, esquecido da morte.

Uma pequena bibliografia dos Beatles – edição definitiva

Ao longo dos anos publiquei neste blog algumas versões de uma pequena lista de livros fundamentais para entender os Beatles. Com o lançamento de All Those Years: Tune In, a lista mudou mais uma vez. Esta deve ser a última.

All Those Years: Tune In
Mark Lewisohn
A mais aguardada na história das biografias dos Beatles é também a melhor e mais completa, talvez definitiva. Um trabalho hercúleo de pesquisa e de checagem de fatos, é infelizmente uma obra ainda em andamento: este é apenas o primeiro volume (com mais de 800 páginas, além de uma versão especial estendida, imensa, para colecionadores) de uma trilogia — os próximos volumes, imagino, se chamarão Turn On e Drop Out. Uma análise um pouco mais aprofundada do livro está aqui.

The Complete Beatles Recordings
Mark Lewisohn
Comissionado pela EMI como parte das comemorações pelo seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação — e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são. The Complete Beatles Recordings é um diário de todas as sessões da banda, o livro mais acurado que já se escreveu sobre elas. Imediatamente se tornou uma bíblia para os beatlemaníacos, o livro a que se recorria para dirimir dúvidas. Os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações que mostrou lacunas e erros no livro. Ainda assim ele continua sendo imprescindível para a compreensão rápida do dia-a-dia dos Beatles, e importante para que se entenda o processo que fez da banda a maior de todos os tempos.

The Complete Beatles Chronicle
Mark Lewinsohn
Lançado pouco depois do Complete Beatles Recordings, é basicamente um diário das atividades dos Beatles ao longo de sua existência. Inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida do que no livro anterior, e também um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, canções tocadas ao longo dos anos, etc. Traz também bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda, com excelente critério de julgamento.

The Beatles Anthology
The Beatles
Parte do projeto Anthology — que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil) —, é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, e certamente uma fonte inestimável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar e evitem tocar em temas polêmicos. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua própria história, a sua versão edulcorada e consolidada para a posteridade. Além disso é um livro fantástico como objeto, com um projeto gráfico de fazer cair o queixo. Alguém já disse que, antes que uma biografia, é uma celebração dos Beatles; e como perguntaria McCartney, o que há de errado nisso? Está disponível em português.

The Love You Make
Peter Brown
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em The Ballad of John and Yoko), e este é um relato de insider. Foi o primeiro livro a revelar, de forma confiável, o lado menos aceitável da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor: as chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade generalizada, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas e ciumeira internas e brigas por dinheiro que levaram ao fim. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ler um só, é um daqueles necessários para que se tenha uma visão mais completa, menos romantizada da história da banda.

The Lives of Lennon
Albert Goldman
O livro de Albert Goldman foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do “Notícias Populares”, e o paradoxo que o cerca é curioso. Parece ser universalmente desprezado, mas é utilizado como fonte por virtualmente todos os biógrafos posteriores dos Beatles. Goldman é malévolo, perverso, publica muitos erros factuais e de avaliação, muitas suposições absurdas que tenta passar como fatos, e dá ouvidos demais a fofocas e mentiras puras e simples; mas sua capacidade como pesquisador é reconhecida, e ele fez um livro importante para a compreensão do maior mito dos Beatles. O livro é achincalhado por todos, mas no que diz respeito à maior parte dos fatos nunca foi desmentido — Yoko Ono, por exemplo, nunca ousou processar o autor, e processos na época eram o café da manhã dos ex-beatles. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda e sobre Lennon e Yoko que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, por não se adequarem à imagem idealizada de Johnandyoko que eles tentaram passar, foram mais tarde comprovados, inclusive pela própria Yoko. É também um bom mergulho na personalidade complexa de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que o ídolo que ele tenta destruir aqui era uma mistura única e fascinante de carisma e talento gigantescos e uma personalidade singular e muitas vezes detestável. Se lido com atenção e cautela, é um livro importante. Um pouco mais sobre ele pode ser lido aqui.

Here, There and Everywhere
Geoff Emerick
Emerick foi o engenheiro de som da maioria das gravações dos Beatles a partir de Revolver, e peça importante na evolução sonora da banda. É o relato de um sujeito que não apenas os conheceu bem, mas trabalhou com eles onde realmente importava, o estúdio. É fundamental para entender a dinâmica e os processos das gravações, assim como a evolução da sua visão musical e, incidentalmente, de suas relações pessoais. Por outro lado, Emerick é ligado a McCartney até hoje, o que o leva a proteger em demasia a imagem do seu amigo. Isso faz com sua visão seja deturpada em vários aspectos, e o livro acaba se encaixando muito facilmente no esforço de revisionismo de McCartney. Emerick está nesta lista, e George Martin não, por uma razão: ele parece compreender melhor que Martin o seu papel real na história, embora aqui e ali dê a impressão de tentar diminuir desnecessária e injustamente o ex-patrão.

Beatles Gear
Andy Babiuk
Uma história dos instrumentos e equipamentos de som utilizados pela banda desde a sua formação — indo do Zenith de McCartney e o violão “garantido contra rachaduras” de Lennon ao Moog usado nas últimas sessões. É um acessório importante para quem tenta entender como se materializava a música dos Beatles, e principalmente a relação deles com seus instrumentos. Incidentalmente, é um dos livros que melhor explica, em termos cronológicos, o processo de desligamento de Stuart Sutcliffe da banda.

Many Years From Now
Paul McCartney
Oficialmente é um livro de Barry Miles, mas isso é apenas disfarce para uma autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o ghost writer apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca pudesse agregar credibilidade a algumas de suas opiniões, se sentir mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. Isso quer dizer que é um relato parcial em que omissões e distorções dos fatos formatam melhor a versão de McCartney. Mas é uma fonte primária, assim como o Anthology, de modo geral bem honesto, e apesar de tudo abrangente e bem detalhado, fundamental para a compreensão da história dos Fab Four.

You Never Give Me Your Money
Pete Doggett
Livro recente, dedicado às relações comerciais entre os Beatles a partir do começo do fim e os 25 anos de processos e contra-processos posteriores. Cobre uma grande lacuna existente nas outras obras a respeito da banda, que tratam do período de maneira normalmente mais superficial e se apoiam nos estereótipos do Allen Klein ladrão, do Brian Epstein incompetente mas devotado e dos meninos que só queriam fazer música. Apesar de alguns erros crassos, o livro compreende muito bem a evolução histórica dos Beatles, tem um excelente nível de imparcialidade e boa apreciação musical. Sua única grande falha em não voltar atrás e detalhar a maneira como os contratos de Brian Epstein foram firmados. É um livro importante para entender o processo de separação da banda. Foi lançado recentemente no Brasil.

Revolution In The Head
Ian McDonald
Deixei esse livro de lado nas versões anteriores desta lista porque, embora universalmente incensado, sempre me pareceu tendencioso e incompleto, com algumas teorias meio estranhas; o próprio McCartney esculhambou recentemente McDonald, basicamente dizendo que ele não sabia do que falava. Mudei de ideia porque percebi que essa era uma visão elitista: para a maior parte das pessoas, Revolution in the Head é fundamental para conhecer as canções, sua história e seus significados, além de quem toca o quê em cada canção.

***

Além dos livros acima, há uma série de livros importantes que não foram incluídos por interessarem mais a beatlemaníacos exagerados. Enquanto os volumes restantes do All These Years não chegam, Shout!, de Philip Norman, e The Beatles de Bob Spitz ainda são necessários (falei sobre eles nas versões anteriores desta lista). The Beatles, de Hunter Davies, foi a primeira biografia de verdade da banda, definiu a sua história oficial e foi a mais completa até o lançamento de Shout!. Mas não apenas é extremamente sanitizada como chega a insistir em mentiras deslavadas, como as verdadeiras razões pelas quais Lennon espancou Bob Wooler na festa de 21 anos de McCartney; seu valor é meramente histórico. Get Back: The Unauthorized Chronicle of the Beatles “Let It Be” Disaster, de Doug Sulpy, é bem interessante e vale a pena ser lido. A Cellarful of Noise, de Brian Epstein, é uma fonte primária, mas tão ou mais mentirosa quanto o livro de Davies; em termos de relatos em primeira pessoa, John, Paul, George, Ringo and Me: The Real Beatles Story, de Tony Barrow; With The Beatles, de Alistair Taylor; e até mesmo As Time Goes By, de Derek Taylor, são melhores. Lennon é objeto de uma série de biografias que dão um bom perfil do artista. John Lennon: The Life, também de Norman, é uma boa biografia, ainda que sem nada de realmente importante; The Last Days of John Lennon: A Personal Memoir, de Fred Seaman, baseado nos diários que o autor roubou de Lennon, é limitado no tempo, cobrindo apenas seu último ano e meio, mas muito bom e equilibrado; A Twist of Lennon e John, de Cynthia Lennon, são importantes, e John Lennon: In My Life, de Pete Shotton, é excelente. All You Need is Ears, de George Martin, merece ser lido, claro, mas é bem inferior ao que poderia ser. Há hoje em dia uma série de biografias de McCartney, como McCartney de Chris Salewickz, McCartney: A Life, de Peter Carlin Ames e Fab: An Intimate Life of Paul McCartney, de Howard Sounes mas todas soam incompletas; delas, a melhor é a de Sounes. Está prevista para este ano uma nova biografia escrita por Philip Norman; como ele detesta seu biografado talvez traga algo realmente novo, mas é difícil. O mais provável é que, até que McCartney morra, dificilmente veremos uma biografia de qualidade, profunda e equilibrada como a de Peter Guralnick sobre Elvis Presley. Além disso, faltam boas biografias sobre George Harrison e Ringo Starr — no caso de Harrison, não custa ler sua autobiografia, I Me Mine. Finalmente, Recording the Beatles: The Studio Equipment and Techniques Used to Create Their Classic Albums, de Kevin Ryan e Brian Kehew, é um livro fascinante que, infelizmente, ainda não li: custa 450 dólares. Mas parece ser inestimável, e mesmo sem ler eu teria colocado na lista acima se não fosse excessivamente técnico.

 

Cinema Paradiso

“Cinema Paradiso” é um dos excelentes filmes italianos do final dos anos 80. Não havia muitos no seu nível, naquele final de década. Delicado, forte, o filme parecia ser um epitáfio à era dos cinemas, crônica nostálgica de um tempo passado em que eles ainda estavam no centro da vida nas cidades. Era também um olhar melancólico sobre um presente em que nem mesmo filmes pornográficos conseguiam sustentar as velhas salas, destruídas pela lascívia doméstica dos videocassetes.

(O cinema em que assisti a “Cinema Paradiso” já estava em seus últimos anos. Hoje ele é uma loja de roupas populares, depois de anos como bingo. Seguiu um destino triste, talvez mais triste que o Paradiso, ao qual tiveram a decência de eutanizar.)

Sinopse rápida, para quem inexplicavelmente ainda não viu esse filme: começa com Totó, cineasta famoso, recebendo um telefonema de sua mãe avisando que Alfredo morreu. Vem um longo flashback: na Sicília paupérrima do pós-guerra, Totó é um menino apaixonado por cinema que acaba se aproximando de Alfredo, projecionista do cinema da cidade, o Paradiso, propriedade da Igreja cujo padre corta todas as cenas de beijo. Um bom tempo depois, ele mesmo se torna projecionista, e se apaixona por Elena. No entanto ela vai embora, e um Totó de coração partido deixa a cidade, para nunca mais voltar. Corta para os dias atuais. Pela primeira vez em 30 anos Totó está em sua terra natal, a tempo de ver o enterro de Alfredo e a implosão do Paradiso. Ele leva para casa a herança que Alfredo lhe deixou. A descoberta do conteúdo dessa herança é uma das mais belas cenas de encerramento de um filme na história, e uma das maiores declarações de amor que qualquer cineasta já fez ao cinema.

O filme, claro, é muito mais que isso. Além de um fantástico painel de tipos sicilianos — o louco de estimação da cidade, o mafioso local, o comunista, riquinhos e pobres, o ganhador da loteria, a prostituta, quase todos vistos en passant — ele tem uma delicadeza e uma sensibilidade raras. E tudo isso sem ser piegas. É claro que “Cinema Paradiso” bebe da fonte do melodrama italiano — ninguém poderia jamais compreender o cinema italiano, mesmo o neo-realismo, sem entender a tradição operística da sua cultura latina –, mas consegue evitar, sempre, a pieguice. Consegue aquela boa mistura de humor e emoção que já colocou o cinema italiano entre os melhores do mundo.

No entanto, em algum momento lançaram uma versão do diretor, mais longa, essa que assisto agora. Nela, além de algumas cenas a mais, pouco relevantes, o romance de Totó e Elena ganha mais espaço, mais explicações e, mais importante, altera significativamente a percepção dos personagens.

E isso faz pensar sobre essa onda recente de versões do diretor.

Talvez a versão corrigida de “A Marca da Maldade”, de Orson Welles, seja muito melhor que a que foi originalmente aos cinemas. Eu, que não vi a versão original alterada pelo estúdio, não tenho certeza. Mas acredito que “Soberba” seria infinitamente melhor sem o final colocado a fórceps à revelia de Welles, porque ele é tão destoante do resto do filme que parece uma grande piada de mau gosto. O problema é que esses casos, em que um estúdio violenta um diretor que está dormindo, são muito raros. A maior parte desses filmes são o resultado de conflitos e negociações, de opiniões normalmente ponderadas e discutidas à exaustão. Ninguém tenta fazer um filme ruim deliberadamente. E nenhum diretor aceita mudanças em seu filme sem discutir ou brigar.

No fim das contas, versões do diretor são interessantes apenas porque fazem as pessoas ir mais uma vez ao cinema, comprar novamente o DVD. São um fenômeno recente que só interessa de verdade aos produtores, talvez a um diretor mais vaidoso que acha que o filme como ele o concebeu é melhor do que aquela que milhões de pessoas aclamaram como obra-prima.

Assim como Apocalypse Now Redux não acrescenta nada a um filme que nasceu clássico, a versão do diretor empobreceu “Cinema Paradiso” de forma impressionante. O que Tornatore não conseguiu entender, ou aceitar, é que foram justamente os cortes feitos que limparam do filme o melodrama, o romantismo barato; que deram a dimensão de verdade universal à vida de um pobre menino siciliano. Não é a inserção de um reencontro digno de fotonovela italiana que vai fazer melhor um filme originalmente delicado e sutil. O filme que foi originalmente aos cinemas era limpo, verdadeiro. Não tinha gorduras, e em vez de chafurdar no melodrama e no clichê, tinha uma verdade melancólica que o erguia acima da grande maioria dos outros filmes.

“Cinema Paradiso” é tão mais belo sem essas explicações, sem que a gente saiba por que Elena sumiu no mundo sem avisar ao Totó. É tão mais bela sem entender a profundidade do papel de Alfredo como demiurgo; sem reencontrar Elena; sem explicar tudo aquilo que vimos. A permanência de Elena é tão mais bela, tão mais significativa sem encontros furtivos de duas pessoas de meia idade dentro de um carro numa praia erma; a lembrança de Alfredo é tão mais verdadeira e imponente sem que precisemos vê-lo como um Mangiafuoco cego.

Eu e tantas pessoas olhamos às vezes para trás e vemos pessoas que desapareceram no mundo, que um dia estiveram próximas e então se afastaram, desapareceram na névoa da tempo. Nós não as reencontramos, nunca, e por isso suas lembranças adquirem uma pátina que as torna mais belas à medida que elas também vão desaparecendo. Foi isso que Tornatore não entendeu. Ele não percebeu que, nesses casos, o reencontro apenas traz tristeza e destruição, aniquilando um passado que, então, jamais será tão belo novamente.