O Cruzeiro

Eu sou fã de revistas, sempre fui, e como o disco arranhado que sou, de vez em quando lamento aqui o fim das bancas onde elas eram vendidas.

Revistas editavam a informação disponível, definiam o que era importante saber, apresentavam algo que talvez você quisesse conhecer, e no fim das contas isso facilitava a vida.

A verdade é que a maior parte da informação, mesmo aquela que você julga importante ou que minimamente lhe interessa, é inútil. Não muda a sua vida em absolutamente nada, e você não poderá fazer nada quanto a isso. Me diga em que a morte da princesa Diana mudou a sua vida. Em certa medida as revistas aproximavam e homogeneizavam o mundo, sem o excesso de angústia dos dias de hoje; sem fazer nenhum juízo de valor, é algo a que éramos acostumados, e sua ausência é sentida.

Mas nenhuma das revistas que agora desaparecem a três por quatro pode se comparar à revista O Cruzeiro.

Tenho uma aqui em casa. Comprei num sebo em São Paulo, nem lembro mais quando foi. E do momento em que a folheei pela primeira vez até hoje, essa revista me deslumbra.

Ao lado está o seu expediente. O que chama imediatamente a atenção é a variedade absurda de assuntos que uma revista semanal conseguia abarcar. O Cruzeiro conseguia atender aos interesses de leitura de toda uma família, fosse ela qual fosse, pertencesse à classe que pertencesse; bastava saber ler. Mas mesmo analfabetos — que nesse tempo eram mais ou menos a metade da população brasileira — podiam folhear a revista e ter prazer nisso.

Essa variedade, claro, nem se compara à vastidão do universo daquilo que se chamou um dia de World Wide Web. Mas ela tinha duas vantagens que a web não tem: estava tudo em um lugar, condensado, e era informação que não se podia encontrar em outro lugar, não com tal facilidade. E essa era a mesma informação a que seu vizinho ou o sujeito que morava a dois mil quilômetros de você também tinha.

Havia uma certa magia que se perdeu, mas também uma conexão que as redes sociais, paradoxalmente, não podem dar.

Papel semelhante tinha uma revista como a americana National Geographic. Tenho algumas dos anos 50 e 70, e andei folheando outras numa biblioteca. Por muito tempo elas desvendaram a multidões a vastidão e as maravilhas de um mundo que não poderiam ser reveladas de outra forma, com exceção de documentários como os de James Algar para a Disney, que mais tarde fariam a alegria das crianças que assistiam a “Disneylândia”, eu entre elas.

Mas era diferente. Havia nas revistas um senso de raridade que os filmes extinguiriam, de profundidade também. Filmes significavam abundância de imagens, mas o conhecimento que as revistas lhe ofereciam era mais sólido, mais ponderado. Essa raridade, essa escassez, trazia ao mundo uma certa magia que hoje não é mais possível, assim como o mineiro de hoje não experimenta, pela primeira vez diante do mar que viu pela TV, o mesmo deslumbramento daquele que nunca tinha visto ou ouvido nada semelhante, que não podia imaginar o que é a onda quebrando na praia. A abundância nos deu o direito de sermos blasés com o mundo.

As pessoas têm a mania de dizer que a chegada de um novo meio de comunicação não destrói os anteriores. Durante muitos anos jornalistas do copo meio cheio abriam a boca para dizer que o rádio e a TV não acabaram com os jornais — o que era só meia verdade, porque em 1950 uma cidade como Rio, então capital federal, tinha talvez dezenas de jornais diários e 30 anos depois não tinha meia dúzia. O rádio diz que a TV não acabou com ele — ah, ouça rádio hoje, ou mesmo há 30 anos, e compare com o auge da Rádio Nacional; procure um programa como PRK-30 e, por favor, não ouse compará-lo ao Pânico.

Mas uma coisa é inegável, e não tem otimismo que negue isso: a TV acabou com revistas como O Cruzeiro. Em seu lugar ficou um arremedo da Life, que era a Manchete, e as “semanais de informação” modernas — ao menos eram modernas entre os anos 60 e 90 —, como a Veja e a IstoÉ que acabou no início deste ano: revistas para serem lidas inteiras no dia em que são publicadas, voltadas para um público específico, quase um complemento da televisão. Jamais aspiraram a ter a complexidade e abrangência daquelas revistas de um tempo em que, na quase totalidade do país, elas materializavam imagens desconhecidas.

A internet está matando todas ela, dando lugar a um mundo de informação excessiva, inexpressiva e inútil, e é claro que não faço ideia das consequências. Andam dizendo que estamos ficando mais burros, e eu não duvido. Eu, pelo menos, estou. E desconfio que o mundo sem revistas é feito para emburrecer a gente, mesmo.

One thought on “O Cruzeiro

  1. Você falou de algo muito importante: a organização da informação.

    Eu sempre busco por isso: curadoria, pra não me perder, não ter um trabalho maior em descartar informação inútil do que propriamente de consumir a útil.

    Tenho um sistema bom, uso o Feedly, o YouTube, os podcasts no Spotify, e as redes de texto (X e Bluesky) mas eu sou um entre 1000. A maioria das pessoas não consegue fazer isso, e se perde.

    Aí penso nos versos do Caetano: o sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?

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