Brian Epstein

Só agora assisti a Midas Man, filme inspirado na vida de Brian Epstein. É interessante, na medida em que cinebiografias podem ser. Esse tipo de filme normalmente impressiona mais pelo que deixa de fora do que pelo que inclui.

Midas Man se diz um filme de ficção, provavelmente como defesa contra processos judiciais e talvez, até, licença para distanciar-se um pouco da realidade. Por isso, pode-se relevar detalhes, situações, invenções que os roteiristas escolheram. Mas é também inspirado em uma pessoa real, com uma história bem conhecida, e isso requer um certo grau de verdade e de verossimilhança.

Uma cena em que tudo isso se confunde é a apresentação no Royal Variety Show de 1963.

Depois da clássica frase sobre a aristocracia balançar suas joias, o filme apequena os Beatles e os faz tocar Money, porque torna mais óbvio e mais impactante o significado da frase. Mas isso jamais aconteceria, nem nos mais encharcados sonhos de John Lennon. Os Beatles sempre souberam transitar entre a ironia simpática e as cutucadas mordazes, com um nível de espirituosidade e inteligência que os Stones, por exemplo, nunca tiveram. O filme não compreende isso, não entende que fazer isso seria simplesmente agressão e um faux pas. Na vida real, depois da alfinetada eles tocaram Twist and Shout.

Há outros detalhes no filme, no entanto, que suscitam algumas questões.

O primeiro aspecto é a sexualidade de Brian, tema que de modo geral é abordado de maneira equilibrada. O filme é bem-sucedido em mostrar os efeitos da repressão ao homossexualismo na Inglaterra de então, e talvez acerte em não tentar adentrar muito na profunda angústia de Brian em relação a essa parte de sua vida. Mas havia um componente masoquista em Brian que o atraía a marinheiros, homens brutos. Em resumo, Brian gostava de apanhar. Às vezes a coisa saía de controle, e Brian apanhava mais do que queria. O retrato que Midas Man faz desse aspecto é raso, infelizmente, e contextualiza de maneira errada uma agressão que ele sofre.

O filme também ignora o que é mais controverso na história de Brian com os Beatles: a infame viagem que ele fez com Lennon para a Espanha, enquanto Cynthia Lennon ainda estava de resguardo puerperal. Ninguém sabe o que realmente se passou ali. Sempre se falou da fascinação de Brian por Lennon; e é certo que, para Lennon, ir para a Espanha com Brian era principalmente uma jogada de poder dentro da banda. Mas ele sempre disse que tudo aquilo foi “intenso, mas não consumado”; o filme poderia explorar isso, sem cair no sensacionalismo, e teria como resultado um Brian mais multidimensional. Mas desde 1995 nada que não abone a imagem impecável dos Beatles é sequer tolerado pela pequena máquina que administra seu espólio.

O filme apresenta Brian como um empresário sobrenaturalmente eficiente, já a partir do título. Não foi bem assim, e para entender isso basta lembrar das tantas bandas que ele empresariou e se perderam nas brumas do tempo. Além disso, Brian fez alguns péssimos negócios para os Beatles. Para que se tenha uma ideia, quando os produtores de A Hard Day’s Night o procuraram para fazer o filme com seus rapazes, Brian queria saber quanto os Beatles teriam que pagar por isso. Como disse McCartney anos depois, ele era verde. Aliás, Midas Man não mostra também a resistência permanente de McCartney, o que fazia dele justamente o beatle que Brian mais se esforçava em agradar.

No filme, a relação entre Beatles e Epstein parece perfeita, perfeita demais. Nunca foi. É claro que não se pode questionar sua devoção, seu empenho total, e sua percepção intuitiva de que quanto mais divulgação, mais benefícios a banda teria. Isso o filme consegue passar muito bem. Mas por outro lado, Brian não conseguia enxergar a dimensão que os Beatles alcançaram, e que era possível divulgar a banda e ganhar dinheiro com isso também. O Brian real era menos cool, mas muito mais rico e interessante que o que vemos em Midas Man.

Também faz questão de ignorar que depois do fim das turnês, a relação entre ele e a banda se deteriorou. Brian já não sabia qual o seu lugar no mundo. Falou até em vender os Beatles a Robert Stigwood, que acabou tendo que se contentar com os Bee Gees e em fazer um dos piores filmes da história, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Talvez tenha sido essa a sua maior deficiência: não entender que havia um lugar para ele no mundo novo que os Beatles estavam criando. Em 1967, Brian era um homem deprimido, sem propósito e amedrontado. Não há sentido em especular se sua morte foi acidental ou suicídio, como alguns quiseram fazer crer. Mas não dá para negar que o seu consumo de drogas tinha sido acelerado pelo vazio existencial que ele vivia naquele momento.

Talvez o grande problema do filme seja a insistência em fazer de Brian Epstein uma figura muito maior do que o que era, como tem sido a regra em tudo o que se refere aos Beatles. Brian era gigantesco como era, e isso é suficiente.

Os 100 melhores filmes do New York Times

Depois que o crítico A. O. Scott pendurou as chuteiras, as coisas parecem ter desandado na editoria de cinema do New York Times. Tenho a impressão de que a decana do velho jornal agora é a Manohla Dargis, que uns 15 anos atrás escreveu um longo artigo louvando a ideia de blockbusters. Essa parece ser a visão de cinema do jornal atualmente. E só isso explica a lista de 100 melhores filmes do século XXI que o jornal publicou há alguns meses, e que eu esqueci de comentar.

A lista começa errada e termina errada. O melhor do século, para eles, é “Parasita”, um filme mal resolvido que não consegue se manter à altura de sua primeira metade. “Parasita” está muito longe de ser essa obra-prima que apregoam, não era sequer o melhor do ano em que ganhou o Oscar. Há pelo menos algumas dezenas de filmes melhores, e isso contando só os que estão presentes na lista.

Chega a ser inacreditável que um dos maiores cineastas vivos — e dos pouquíssimos a quem se poderia conceder o título duvidoso de “autor” —, Pedro Almodóvar, tenha apenas “Volver” na lista; seu “Fale Com Ela”, por exemplo, é infinitamente maior, e quase toda a sua produção é superior ao rame-rame americano incluído aqui.

Enquanto isso Greta Gerwig, que a julgar pelo New York Times é a maior cineasta viva, comparece com “Frances Ha”, bom filme, e “Lady Bird”, medíocre.

Woody Allen se tornou veneno. Seu “Meia-Noite em Paris” foi injustamente elogiado à época, e eu acho que seu último grande filme foi “Desconstruindo Harry”, mas Allen teria lugar nessa lista com alguma folga. Infelizmente, o mundo continua em sua cruzada injusta e criminosa contra Allen, e o resultado é uma lista que, só por sua ausência, já se torna capenga.

É triste quando se deixa de incluir um filme porque se resolveu que seu diretor não é boa pessoa. Mas o mais curioso, mesmo, é que como esses critérios são sempre imbecis, estúpidos e deletérios, não fazem isso com Leni Riefenstahl, cujo Olympia sempre está nas listas de melhores filmes. Sieg heil.

Os filmes de super-herói, gênero que só se pôde realizar adequadamente neste século e se esgotou rapidamente, tem dois filmes: “O Cavaleiro das Trevas” e “Pantera Negra”. Este último, que me perdoem, é só mais um filme da Marvel quando ela já se esforçava para espremer o bagaço de um modelo criado alguns anos antes. Entrou pelas cotas. Enquanto isso, “Homem Aranha 2”, um filme perfeito dentro do gênero, e os primeiros “Homem de Ferro” e “Vingadores”, que definiram essa estrutura, são ignorados. Ignorado também é Sin City, um exercício magnífico de direção e estilo.

Três desenhos animados entram na lista: “WALL-E”, “Up” e “Ratatouille”. São excelentes, todos eles — a primeira metade de “WALL-E” é um poema visual estonteante, uma obra-prima. Mas falta “Shrek”, um desenho muito mais influente e surpreendente, e “Os Incríveis”, também inovador de uma maneira que, por exemplo, “Ratatouille” não é. E que me perdoem esses cultuadores do novo, mas a sorte de todos é que “Branca de Neve e os Sete Anões” não concorre a esses prêmios, porque nenhum deles ainda conseguiu superar o que deu início a tudo isso.

Amour está na lista. Mas The Father, que também fala sobre demência, é muito melhor em termos de linguagem cinematográfica. As soluções de Christopher Hampton e Florian Zeller são brilhantes, e são elas que fazem com que o filme não afunde sob a interpretação gigantesca de Anthony Hopkins. Mas eles esqueceram disso.

“Melancolia”, de Lars Von Trier, está na lista no lugar que deveria pertencer, por direito natural, a Dogville. Dogville é talvez o filme mais brilhante, mais absolutamente cinematográfico deste século; “Melancolia” é longo demais, chato demais, mas eles não acham isso.

Um aspecto curioso da lista é a reduzidíssima presença de filmes iranianos. No início do século, eles eram louvados indiscriminadamente, por virtualmente todo mundo — e eu sempre achei que confundiam choque cultural com qualidade cinematográfica. A Separation está lá; eu pelo menos, prefiro Monsieur Lazhar e o crudelíssimo Incendies — sei, sei, não são iranianos, um é canadense e o outro, do Villeneuve, é franco-canadense, mas para mim é tudo turco.

Tàr, Ocean’s Eleven, Gravity, Almost Famous, The Social Network, Moneyball, uma tonelada de filmes medianos encontra lugar nessa lista, “Roma”, para mim um dos dez melhores deste século, está lá no meio. “O Segredo dos Seus Olhos” — o original, não a refilmagem americana — não está em lugar nenhum.

A lista acaba sendo um retrato mediano do panorama cinematográfico americano. E no fim das contas, o que ela diz é que é cedo demais para fazer uma lista com 100 grandes filmes, porque ainda não deu tempo para isso. O que não justifica a inclusão de tanta bobagem.