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Quer me irritar, corrija minhas vírgulas.

Deixa eu começar dizendo que eu sei que sei escrever, a modéstia à puta que pariu.

Não conheço gramática, nunca aprendi. Lembro que descobri o que era aposto já no século XXI, e fiquei feliz e orgulhoso; de lá para cá quase esqueci o que é. Mas sei escrever. Sei usar crase, também, e me assusta quem não saiba, porque sua lógica é fácil demais.

Acontece que eu sou baiano e aprendi o básico do portuga velho de guerra lendo o que me caía nas mãos, não na escola onde a professora Rose, da Alfabetização, tentou me forçar a escrever em letra de forma quando eu já tinha chegado sabendo ler e escrever, e a professora Maria José, da primeira série, tentou me convencer que o correto era falar “naisci”, e não “nasci”. Aprendi a desconfiar de regras desde muito cedo.

Mas, acima de tudo, eu sei usar vírgula. Ou melhor: sei como deveria usar e sei por que não uso, quando não uso.

É o Word, esse escroto americanizado, que fica me mandando colocar vírgulas onde não quero colocar. O Word tem alma de contador. É ele que me faz revoltado, que me faz escrever este texto.

Talvez a principal razão pela qual sou fã absoluto de Jorge Amado seja a maneira baiana como ele usa vírgulas. Com o Amado você aprende que é a vírgula, não o ponto, nem as reticências que dão a qualquer texto o ritmo que você quer — que dá a delicadeza necessária às vezes, a conexão certa entre raciocínios apenas semelhantes, que deixa clara a distância exata que existe entre um e outro, nem maior, nem menor.

Uma das coisas mais maravilhosas que li quando criança foi o monólogo de Leopold Bloom no final de “Ulysses”, a tradução do Houaiss. Não li o livro todo na época, claro. Mas aquelas vinte e tantas páginas sem vírgulas, sem pontuação, deixaram um legado indelével: eu aprendi que era possível escrever sem vírgulas, e as coisas faziam um sentido estranho, tão melhor que os livros a que eu estava acostumado.

E porque era possível passar sem elas entendi a sua singularidade, entendi por que eram especiais.

É por isso tão triste um escritor como Hemingway. Pontos. Muitos pontos. Não que eu não o entenda. Sabe Deus como o velho fanfarrão ajudou a limpar o horizonte de uma literatura muitas vezes empolada e rococó. Mas Hemingway é um escritor americano e aquela ruma de pontos acaba mostrando isso, uma atitude típica, quase puritana, um certo jeito duro de ver o mundo, gringo sem cor e sem ginga que não sabe sambar.

Fosse baiano — não, baiano não, baiano seria demais para ele — e Hem saberia que vírgula é amor, é dengo. É ainda mais que o fim do preto e branco, é a percepção de que o mundo é mais doce do que pontos tão marciais querem fazer parecer. Vírgula é a continuação do carinho, a certeza de que nem tudo acaba.

Ponto é peremptório, é grosseiro, é dá ou desce. Vírgula não, é desça não, neguinha, dê, vá… Vírgula é um sujeito implorando, por favor, eu imploro, sabendo que vai receber.

Tem coisas que ninguém deveria usar. Pontos de exclamação, por exemplo. Por quê? Por que gritar dessa forma? Coitados, parecem alegria falsa, sorriso amarelo seguido de um “êêêba…” desenxabido dado por criança que ganha roupa em vez de brinquedo no Natal.

E pois. Existe alguma palavra mais feia do que pois? Pois é a coisa mais redundante que um filho de Deus já colocou neste mundo. “Vou comer uma buchada, pois estou com muita vontade”. Pobre intrometida, sinhazinha sibite de nariz adunco e queixo duplo e amostrada que só faz conspurcar um texto que uma vírgula, sempre ela, resolve com menos afetação e mais delicadeza: “Dá um beijo, eu quero tanto…”

Ah, as reticências… Deixa eu avisar, reticências são perigosas, são sonsas. Moças sonsas são um perigo, e quando você se dá conta elas colocaram Rohypnol na sua bebida e levaram sua carteira, são as moças que quando a porta se fecha não têm mais os olhos baixos nem são mais reticentes, e lhe jogam na cama e lhe rasgam as roupas, e é nessas horas que você corre o risco de se apaixonar perdidamente por elas, e largar a mulher em casa e os quatro filhos, começar a faltar à repartição, pedir dinheiro no agiota, e ir atrás delas até o dia em que vão embora com outro sujeito, deixando como destino para você apenas uma mesa de boteco vagabundo que apara lágrimas tão amargas, tão amargas, me ouça. Reticências são Circes que lhe levam ao redemoinho…

Que outros mais fortes fiquem com as reticências, que os idiotas fiquem com os pontos de exclamação. Eu fico com as vírgulas.

Mais um adeus aos jornais

Não sou jornalista. Não quero ser. Não posso dizer que nunca quis porque aí pelo final dos 80 eu quis, e cheguei a escrever num semanário já defunto, O Que, jornal de um amigo que me permitia escrever mal e ainda me pagava, de vez em quando, uns caraminguás por isso.

Não sou jornalista porque não tenho vocação para repórter. Fossem outros os tempos, tempos de redatores e copidesques, eu talvez pensasse no assunto. Seria um bom copidesque e um excelente redator, modéstia às calendas. Mas quando me dei por gente o jornalismo tinha mudado, tinha ficado mais sério. Não sei se mais ético — que ético, mesmo, o jornalismo de modo geral nunca foi; mas o método de produção tinha mudado, as funções também.

Não sou jornalista e no entanto minha vida está irremediavelmente ligada a jornais e revistas. Impressos, sempre, os únicos a poderem ostentar essas definições bem específicas. E por isso eu sinto uma tristeza enorme quando vejo jornais e revistas desparecendo, sem que ninguém sinta de verdade sua falta.

Não devia ser surpresa, porque quase todo dia me certifico que algumas das cinco ou seis bancas de jornais que ainda restam em Aracaju continuam funcionando e cumprindo sua função original, que é vender periódicos. Mas dois ou três anos atrás, num bate-e-volta em Belo Horizonte, procurei jornais para comprar e tive dificuldades em achar. A Hudson, que substituiu a LaSelva do meu tempo, não vende mais jornais, muito menos os de outros estados; vão longe os tempos em que aeroportos como Galeão e Cumbica eram praticamente centrais de distribuição de jornais de todo o país e mesmo estrangeiros, quase tão longe quanto os tempos em que as companhias aéreas davam jornais para seus passageiros assim que entravam no avião. Ninguém se interessa mais. As notícias estão no celular.

Achei um Estadão em Confins, no entanto. Devia fazer tempo que não via jornais impressos do sudeste, porque ele circulava em formato berliner já havia algum tempo e eu não fazia ideia. Enquanto esperava o avião que me levaria para a minha via crucis de conexões em horários ingratos, li o jornal e me assustei com o que lia.

Que jornal ruim.

Muitos anos atrás, considerei o Estadão o melhor jornal brasileiro: era mais bem escrito, mais denso, com bons textos. Nunca gostei do estilo da Folha de S. Paulo, mesmo na época em que ela não se igualava a qualquer pasquim do interior e não publicava matérias pagas da Prefeitura de São Paulo sem identificação; o que se salvava nela era o Mais!, caderno cultural dominical que às vezes podia ser brilhante.

Mas agora o Estadão me dá apenas as notícias que li no dia anterior, sem o necessário aprofundamento que, na minha opinião, tornaria o jornal mais relevante. Desapareceram também um número grande demais de editorias e seções.

Lendo isso que escrevi me sinto um velho retardado e bêbado — e poxa, eu não sou retardado —, que fica repetindo e repetindo as mesmas coisas, sem parar. Nada disso, claro, é novidade. Nem mesmo a minha tristeza. Mas ainda não consegui aceitar que jornais impressos não significam mais nada.

Eles estão condenados há muito tempo, e não há reinvenção possível que consiga reverter essa caminhada inexorável rumo ao fim. O que ainda sustenta os jornais brasileiros é o absurdo legal de obrigar empresas e governos a publicarem balanços e editais neles, só isso, e o fato de ainda terem um resquício de diálogo com a elite dirigente do país, o que abre espaço junto a governos e alguns poucos anunciantes muito grandes. Classificados não fazem mais sentido, e por que comprar um quarto de página de um jornal se um post patrocinado no Instagram vai custar infinitamente menos e alcançar muito mais gente? Os jornais vão continuar definhando, junto com a morte dos cada vez mais velhos que se acostumaram a viver com eles.

Mas acho que seria possível, ao menos, evitar que os velhos abandonem os jornais. Paliativo bobo e insignificante, sabemos todos, mas indício de um resto de dignidade e valor. Se é para cair, que caiamos todos em pé, com os punhos fechados e dedo médio em riste.

Por causa do susto que tive com a mediocridade do Estadão, fui catar edições em PDF dos grandes jornais americanos. Dispensando o USA Today que nunca prestou, baixei e folheei edições do New York Times, Wall Street Journal e do Washington Post.

Em primeiro lugar, é tão melancólico perceber que os jornais nunca foram tão bonitos. Parecem as palmeiras talipot que estão floridas no Aterro do Flamengo neste exato momento, apenas para morrer em seguida. Pessoalmente me sinto mais confortável, mesmo, é com o aspecto blocado dos velhos standards em P&B, mas é difícil não se deslumbrar com a limpeza e elegância dos jornais agora feitos no computador. O WSJ ainda tem os hedcuts que a Gazeta Mercantil copiava no Brasil; mas ele não se compara em termos de espaço visual com o que eu conheci 20 ou 30 anos atrás. Curiosamente, eu sempre entendi que diagramação de jornais é vertical, mas o WSJ estrutura seus artigos na horizontal. Como não lembro como ele era quando circulava como standard, imagino que talvez seja um sinal dos tempos.

Os jornais trazem o equilíbrio entre as notícias que todos querem ver e as que precisam ver. O trabalho de reportagem, inimaginável hoje nos grandes jornais brasileiros — e que nunca existiu nos pequenos — é impressionante. A qualidade do fotojornalismo americano é infinitamente superior ao brasileiro. Mas é o nível alto do debate presente em suas páginas que mais surpreende, especialmente no Wall Street Journal. Para brasileiros que passaram anos lendo e ouvindo os editoriais do Estadão e do Jornal Nacional, é quase um alívio ver o pensamento de direita alguns andares acima da estupidez rasa da direita brasileira. E olha que a era Trump está cobrando um preço alto ao jornal.

Deles, apenas o Washington Post tem alguma semelhança com os jornais que eu lia 30, 40 anos atrás. Uma página inteira de quadrinhos, horários de TV e cinemas, uma ligação grande com a cidade materializada em endereços, horários. É um jornal mais agradável de ler que o New York Times. Deve haver alguma explicação sociológica para isso, ou talvez seja só o aferramento a velhos hábitos de um sujeito que cresceu lendo a Veja e nunca conseguiu se adaptar à Época.

E aí volto para o Estadão, jornal medíocre que não faz mais nenhum sentido.

Não se trata apenas da competição com a internet. A impressão que ele deixa é a de que há uma decadência na maneira de fazer jornal impresso, na seleção de assuntos, na compreensão do que é realmente importante. É como se, sabendo que a morte bafeja em seu cangote, eles tivessem se resignado. E talvez seja o melhor que eles fazem.

O Cruzeiro

Eu sou fã de revistas, sempre fui, e como o disco arranhado que sou, de vez em quando lamento aqui o fim das bancas onde elas eram vendidas.

Revistas editavam a informação disponível, definiam o que era importante saber, apresentavam algo que talvez você quisesse conhecer, e no fim das contas isso facilitava a vida.

A verdade é que a maior parte da informação, mesmo aquela que você julga importante ou que minimamente lhe interessa, é inútil. Não muda a sua vida em absolutamente nada, e você não poderá fazer nada quanto a isso. Me diga em que a morte da princesa Diana mudou a sua vida. Em certa medida as revistas aproximavam e homogeneizavam o mundo, sem o excesso de angústia dos dias de hoje; sem fazer nenhum juízo de valor, é algo a que éramos acostumados, e sua ausência é sentida.

Mas nenhuma das revistas que agora desaparecem a três por quatro pode se comparar à revista O Cruzeiro.

Tenho uma aqui em casa. Comprei num sebo em São Paulo, nem lembro mais quando foi. E do momento em que a folheei pela primeira vez até hoje, essa revista me deslumbra.

Ao lado está o seu expediente. O que chama imediatamente a atenção é a variedade absurda de assuntos que uma revista semanal conseguia abarcar. O Cruzeiro conseguia atender aos interesses de leitura de toda uma família, fosse ela qual fosse, pertencesse à classe que pertencesse; bastava saber ler. Mas mesmo analfabetos — que nesse tempo eram mais ou menos a metade da população brasileira — podiam folhear a revista e ter prazer nisso.

Essa variedade, claro, nem se compara à vastidão do universo daquilo que se chamou um dia de World Wide Web. Mas ela tinha duas vantagens que a web não tem: estava tudo em um lugar, condensado, e era informação que não se podia encontrar em outro lugar, não com tal facilidade. E essa era a mesma informação a que seu vizinho ou o sujeito que morava a dois mil quilômetros de você também tinha.

Havia uma certa magia que se perdeu, mas também uma conexão que as redes sociais, paradoxalmente, não podem dar.

Papel semelhante tinha uma revista como a americana National Geographic. Tenho algumas dos anos 50 e 70, e andei folheando outras numa biblioteca. Por muito tempo elas desvendaram a multidões a vastidão e as maravilhas de um mundo que não poderiam ser reveladas de outra forma, com exceção de documentários como os de James Algar para a Disney, que mais tarde fariam a alegria das crianças que assistiam a “Disneylândia”, eu entre elas.

Mas era diferente. Havia nas revistas um senso de raridade que os filmes extinguiriam, de profundidade também. Filmes significavam abundância de imagens, mas o conhecimento que as revistas lhe ofereciam era mais sólido, mais ponderado. Essa raridade, essa escassez, trazia ao mundo uma certa magia que hoje não é mais possível, assim como o mineiro de hoje não experimenta, pela primeira vez diante do mar que viu pela TV, o mesmo deslumbramento daquele que nunca tinha visto ou ouvido nada semelhante, que não podia imaginar o que é a onda quebrando na praia. A abundância nos deu o direito de sermos blasés com o mundo.

As pessoas têm a mania de dizer que a chegada de um novo meio de comunicação não destrói os anteriores. Durante muitos anos jornalistas do copo meio cheio abriam a boca para dizer que o rádio e a TV não acabaram com os jornais — o que era só meia verdade, porque em 1950 uma cidade como Rio, então capital federal, tinha talvez dezenas de jornais diários e 30 anos depois não tinha meia dúzia. O rádio diz que a TV não acabou com ele — ah, ouça rádio hoje, ou mesmo há 30 anos, e compare com o auge da Rádio Nacional; procure um programa como PRK-30 e, por favor, não ouse compará-lo ao Pânico.

Mas uma coisa é inegável, e não tem otimismo que negue isso: a TV acabou com revistas como O Cruzeiro. Em seu lugar ficou um arremedo da Life, que era a Manchete, e as “semanais de informação” modernas — ao menos eram modernas entre os anos 60 e 90 —, como a Veja e a IstoÉ que acabou no início deste ano: revistas para serem lidas inteiras no dia em que são publicadas, voltadas para um público específico, quase um complemento da televisão. Jamais aspiraram a ter a complexidade e abrangência daquelas revistas de um tempo em que, na quase totalidade do país, elas materializavam imagens desconhecidas.

A internet está matando todas ela, dando lugar a um mundo de informação excessiva, inexpressiva e inútil, e é claro que não faço ideia das consequências. Andam dizendo que estamos ficando mais burros, e eu não duvido. Eu, pelo menos, estou. E desconfio que o mundo sem revistas é feito para emburrecer a gente, mesmo.

O circo

A foto ao lado foi tirada há uns 15 anos na BR-101, diante de um posto da Polícia Rodoviária em Malhada dos Bois, Sergipe.

Não é difícil imaginar sua história: o comboio de um circo passou por ali, foi parado pela Polícia Rodoviária, o trailer estava em péssimo estado e com documentação totalmente irregular. O circo foi embora, jamais pagou a multa — talvez mais cara que o próprio trailer — e ele ficou lá durante alguns anos, como um monumento triste a uma era que tinha acabado.

Durante muito tempo o circo foi o lugar onde crianças podiam ver de perto maravilhas inacreditáveis. Leões, tigres, acrobatas, podiam rir com os palhaços, tentar entender como o mágico fazia um helicóptero desaparecer do picadeiro.

O cinema e a TV reduziram essa importância, porque podiam oferecer proezas ainda mais impressionantes. Mas mesmo para crianças sofisticadas nas cidades grandes, um domador na jaula dos leões era uma experiência impossível de ser replicada pelo cinema ou pela TV.

Mas isso era verdade para o século passado, e este século XXI já se encontra bem adiantado. Tihany, Bartholo, Orlando Orfei, Garcia, Vostok: os grandes circos brasileiros acabaram, ou mudaram completamente. O Tihany a que fui em Água de Meninos, no final dos anos 70, era um circo magnífico. Mas nos anos 90 anunciava constantemente que estava mudando a natureza dos seus espetáculos, agora era algo mais próximo do music hall, e na última vez que fui a ele tinha moças bonitas desfilando e dançando como em um musical de Busby Berkeley, e nem sombra de um leão, de uma onça, nem mesmo um gatinho.

Nenhum deles resistiu à pressão cada vez maior de uma sociedade cuja sensibilidade em relação aos animais vinha mudando aceleradamente.

Em fevereiro de 2000, fui assistir ao Vostok em Aracaju, com minha filha e os meus sobrinhos. Pela primeira vez, fiquei no camarote — curiosamente, desde criança a imagem mental que tenho de camarote é justamente esse tipo, o quadradinho com cadeiras à beira do picadeiro, e não frisas em teatros chiques.

Foi a última vez que vi um domador de leões em ação.

De Aracaju o circo seguiu rumo ao norte, parando em Maceió. Em abril estava em Recife quando um daqueles leões agarrou e matou um menino que passou perto demais da jaula.

Aquele foi o golpe de misericórdia na ideia de circo como eu conhecia. A pressão dos grupos de defesa dos animais, que já vinha conquistando vitórias irreversíveis nos anos anteriores, pôde dar seu golpe de misericórdia. A comoção nacional pela tragédia do Vostok acabou de vez com os animais no circo. Não apenas os ferozes, como tigres e leões, mas cavalos, poodles, qualquer coisa de quatro patas.

Circo sem bicho, para mim, nunca foi circo. Certo, eu gostava dos acrobatas, do mágico, até mesmo dos palhaços, mas tudo isso era acessório, apenas: eu gostava era do domador colocando sua vida em risco e mostrando às bestas ferozes quem era que mandava naquela bodega.

A verdade é que sempre que via o “Mundo Animal” ou os canais tipo Discovery da vida, com aquelas cenas de caçadas nas savanas africanas, eu nunca deixei de torcer pelo leão.

E então o circo acabou para mim.

Fui mais algumas vezes, mas minha filha vem de outra geração, não gostava, deixei de ir. O circo foi substituído por desenhos animados da Pixar, por peças de teatro infantil, a cultura do circo passou a se resumir a peruanos equilibrando malabares em cruzamentos. Os governos do PT deram uma aliviada ao setor, liberando dinheiro para que os circos se reequipassem: lonas novas, novos caminhões. O setor circense ganhou um respiro que precisava havia muito tempo.

Mas há alguns anos fui a um espetáculo pela primeira vez em muito, muito tempo. E sentir novamente um cheiro que eu julgava esquecido, o cheiro da lona e da serragem, foi como reencontrar um velho amigo, perdido há muito tempo e quase esquecido.

Mas só um pouco mais tarde veio a revelação.

A contorcionista tentava acertar um balão atirando com os pés. É uma atração comum, não era nada que eu já não tivesse algumas vezes.

Ela errou.

Foi quando entendi algo que nunca tinha conseguido perceber, satisfeito com meus leões que rugiam para o domador.

A magia do circo não estava nos bichos que só se podia ver ali, nas acrobacias perfeitas, nas motocicletas que não se esbagaçam dentro do globo da morte. Ela estava justamente na possibilidade do erro, no que pode não dar certo, e era isso que fazia crianças prenderem a respiração antes de cada feito heroico dos artistas. A magia do circo estava na sua humanidade. E isso não tem TV, não tem cinema, não tem inteligência artificial que substitua.

Simonal

Desde que assisti a “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, o documentário sobre Wilson Simonal, uns 15 anos atrás, uma coisa me incomoda.

Ao longo dos anos, se consolidou uma certa narrativa de que Simonal foi vítima de um “cancelamento” da esquerda, tese que é, curiosamente, encampada por ao menos parte tanto da esquerda quanto da direita. Mais recentemente, a noção de que ele foi prejudicado também pelo racismo velado que se espraia na sociedade brasileira ganhou força, fruto de um olhar revisionista nem sempre acertado, e adequa essa percepção às exigências socioculturais de um tempo diferente.

Isso me incomodava porque lembro de Simonal aparecendo em programas como Flávio Cavalcanti e Hebe Camargo, nos anos 80; ele não foi banido da mídia, como essa narrativa — que existe pelo menos desde os anos 80, se não antes — insiste. E porque, ao contrário de ao menos parte de quem repete essa história, eu conheço os discos de Simonal.

Resumindo a história: na virada dos anos 70, Simonal era um dos cantores de maior sucesso do país. Como muitos artistas, vivia à larga. E como muitos artistas, acabava gastando mais do que ganhava. Quando percebeu isso, procurou em seu contador um bode expiatório. Inculto, refletindo os valores da classe de onde vinha e de sua própria personalidade razoavelmente oportunista, apregoava ao mundo que era “assim com os hôme”, e pediu a dois investigadores ligados ao DOPS que dessem um esquenta no contador, para que ele confessasse que tinha desviado o seu dinheiro. A coisa saiu de controle, ganhou os jornais, e além da reprovação social pelo que tinha feito, Simonal ganhou fama de ser informante do SNI. A partir daí, segundo essa visão, Simonal seria boicotado por um ambiente artístico predominantemente de esquerda, e teria sua carreira brilhante interrompida.

Malditos comunistas.

Mas nada disso corresponde à realidade. Até 1983, Simonal só não lançou um álbum ou compacto em 1981. Em média, um LP a cada dois anos. Sua imagem foi arranhada, claro, mas o boicote não impediu que ele lançasse seus discos, fizesse seus shows.

O problema é que ninguém ouvia.

A história tem mostrado que se um artista lança bons discos ou tem o que dizer, suas posições políticas interessam pouco ou nada para quem gosta deles. Sérgio Reis, Zezé di Camargo e Luciano, Leonardo, Amado Batista continuaram com seu público, mesmo tenho se alinhado ao que a política brasileira produziu de mais podre desde Carlos Lacerda. Lobão, sujeito errático cujo ápice se deu quase 40 anos atrás e que acabou se tornando, em determinado momento, uma espécie de embaixador de uma direita canalha para uma geração que envelhecia, está voltando ao que se entende hoje por mídia, aparecendo em podcasts até com Casagrande, sujeito notoriamente de esquerda, ainda que festiva; é muito adequado a um tempo em que opiniões bombásticas são muito mais importantes do que fatos. Mas Lobão é um homem inteligente, articulado, que consegue parecer mais culto do que é e que tem vantagens mais que óbvias quando comparado a, por exemplo, implausibilidades como Roger Moreira, a melhor prova da presença de DNA neanderthal no homo sapiens. Os outros fazem ou ao menos cantam a música que seu público quer ouvir.

Simonal era um cantor magnífico, com um swing e uma noção de tempo invejáveis. Enquanto teve repertório à altura, em acordo com o seu tempo, fez um sucesso arrebatador, mais do que merecido. Mas a partir de 1972, ou pelo menos de 1973, seus discos caem abismalmente de qualidade. Se tornam chatos, repetitivos, burros mesmo na escolha de repertório. E isso acontece justamente durante o que é ,talvez, a mais genial era da música brasileira, a geração mais brilhante que a música brasileira já teve e que nunca mais se repetirá — e da qual a morte de Gal Costa marcou o início do fim. Talvez a crise por que passava tenha influenciado nisso. O que não se pode alegar é o tal cancelamento político antes que estético, nesse caso.

Um único boicote, na verdade, foi eficaz — mas não foi por política. Com o dinheiro desaparecendo, ele se reuniu com Boni e Walter Clark e ameaçou não participar do FIC 1970 se tivesse algumas demandas atendidas. Para piorar, correu para contar o que aconteceu no programa de Flávio Cavalcanti. É o comportamento típico de quem perdeu a noção de quem realmente é, algo nada incomum entre artistas do seu porte. Resultado: foi banido do festival e de toda a programação da Globo a partir daquele instante. Ainda não havia bolsominions alucinados para dizer que a Globo é de esquerda, mas perder o acesso a um canal que, se ainda não era hegemônico, já se consolidava como o mais importante do país, certamente não fez nenhum bem à sua carreira.

Descobri há pouco que existe uma biografia de Simonal escrita por Gustavo Alonso que diz mais ou menos isso. Ainda não li. Não sei se ele chegou à mesma conclusão — mais bem informada, claro — que eu: a de que Simonal foi vítima dele mesmo, e que sua trajetória é a mesma de muitos outros artistas, embora mais espalhafatosa em sua decadência. E que, paradoxalmente, todo esforço de contar sua história e vindicar sua carreira, seja por que campo ideológico for, e que termina em uma tentativa de dar uma dimensão política falsificada à sua decadência, é o que garante em parte sua permanência histórica.