Quer me irritar, corrija minhas vírgulas.
Deixa eu começar dizendo que eu sei que sei escrever, a modéstia à puta que pariu.
Não conheço gramática, nunca aprendi. Lembro que descobri o que era aposto já no século XXI, e fiquei feliz e orgulhoso; de lá para cá quase esqueci o que é. Mas sei escrever. Sei usar crase, também, e me assusta quem não saiba, porque sua lógica é fácil demais.
Acontece que eu sou baiano e aprendi o básico do portuga velho de guerra lendo o que me caía nas mãos, não na escola onde a professora Rose, da Alfabetização, tentou me forçar a escrever em letra de forma quando eu já tinha chegado sabendo ler e escrever, e a professora Maria José, da primeira série, tentou me convencer que o correto era falar “naisci”, e não “nasci”. Aprendi a desconfiar de regras desde muito cedo.
Mas, acima de tudo, eu sei usar vírgula. Ou melhor: sei como deveria usar e sei por que não uso, quando não uso.
É o Word, esse escroto americanizado, que fica me mandando colocar vírgulas onde não quero colocar. O Word tem alma de contador. É ele que me faz revoltado, que me faz escrever este texto.
Talvez a principal razão pela qual sou fã absoluto de Jorge Amado seja a maneira baiana como ele usa vírgulas. Com o Amado você aprende que é a vírgula, não o ponto, nem as reticências que dão a qualquer texto o ritmo que você quer — que dá a delicadeza necessária às vezes, a conexão certa entre raciocínios apenas semelhantes, que deixa clara a distância exata que existe entre um e outro, nem maior, nem menor.
Uma das coisas mais maravilhosas que li quando criança foi o monólogo de Leopold Bloom no final de “Ulysses”, a tradução do Houaiss. Não li o livro todo na época, claro. Mas aquelas vinte e tantas páginas sem vírgulas, sem pontuação, deixaram um legado indelével: eu aprendi que era possível escrever sem vírgulas, e as coisas faziam um sentido estranho, tão melhor que os livros a que eu estava acostumado.
E porque era possível passar sem elas entendi a sua singularidade, entendi por que eram especiais.
É por isso tão triste um escritor como Hemingway. Pontos. Muitos pontos. Não que eu não o entenda. Sabe Deus como o velho fanfarrão ajudou a limpar o horizonte de uma literatura muitas vezes empolada e rococó. Mas Hemingway é um escritor americano e aquela ruma de pontos acaba mostrando isso, uma atitude típica, quase puritana, um certo jeito duro de ver o mundo, gringo sem cor e sem ginga que não sabe sambar.
Fosse baiano — não, baiano não, baiano seria demais para ele — e Hem saberia que vírgula é amor, é dengo. É ainda mais que o fim do preto e branco, é a percepção de que o mundo é mais doce do que pontos tão marciais querem fazer parecer. Vírgula é a continuação do carinho, a certeza de que nem tudo acaba.
Ponto é peremptório, é grosseiro, é dá ou desce. Vírgula não, é desça não, neguinha, dê, vá… Vírgula é um sujeito implorando, por favor, eu imploro, sabendo que vai receber.
Tem coisas que ninguém deveria usar. Pontos de exclamação, por exemplo. Por quê? Por que gritar dessa forma? Coitados, parecem alegria falsa, sorriso amarelo seguido de um “êêêba…” desenxabido dado por criança que ganha roupa em vez de brinquedo no Natal.
E pois. Existe alguma palavra mais feia do que pois? Pois é a coisa mais redundante que um filho de Deus já colocou neste mundo. “Vou comer uma buchada, pois estou com muita vontade”. Pobre intrometida, sinhazinha sibite de nariz adunco e queixo duplo e amostrada que só faz conspurcar um texto que uma vírgula, sempre ela, resolve com menos afetação e mais delicadeza: “Dá um beijo, eu quero tanto…”
Ah, as reticências… Deixa eu avisar, reticências são perigosas, são sonsas. Moças sonsas são um perigo, e quando você se dá conta elas colocaram Rohypnol na sua bebida e levaram sua carteira, são as moças que quando a porta se fecha não têm mais os olhos baixos nem são mais reticentes, e lhe jogam na cama e lhe rasgam as roupas, e é nessas horas que você corre o risco de se apaixonar perdidamente por elas, e largar a mulher em casa e os quatro filhos, começar a faltar à repartição, pedir dinheiro no agiota, e ir atrás delas até o dia em que vão embora com outro sujeito, deixando como destino para você apenas uma mesa de boteco vagabundo que apara lágrimas tão amargas, tão amargas, me ouça. Reticências são Circes que lhe levam ao redemoinho…
Que outros mais fortes fiquem com as reticências, que os idiotas fiquem com os pontos de exclamação. Eu fico com as vírgulas.
Ao lado está o seu expediente. O que chama imediatamente a atenção é a variedade absurda de assuntos que uma revista semanal conseguia abarcar. O Cruzeiro conseguia atender aos interesses de leitura de toda uma família, fosse ela qual fosse, pertencesse à classe que pertencesse; bastava saber ler. Mas mesmo analfabetos — que nesse tempo eram mais ou menos a metade da população brasileira — podiam folhear a revista e ter prazer nisso.
A foto ao lado foi tirada há uns 15 anos na BR-101, diante de um posto da Polícia Rodoviária em Malhada dos Bois, Sergipe.