Uma nova era para os Beatles

Nos últimos tempos eu vinha refletindo cá com meus zíperes sobre o que me parece ser uma enorme má vontade minha em relação aos mais recentes lançamentos dos Beatles. É como se eu fosse incapaz de encontrar uma só boa palavra para falar sobre cada um deles enquanto as pessoas se mostravam extasiadas por eles, como se tudo me incomodasse, como se eu me recusasse a ver ou entender o que eles têm de bom.

Uma parte é compreensível e, para mim, justificável. O que realmente importa na obra dos Beatles são os discos lançados entre 1963 e 1970. O que vem depois pode até ser interessante, e alguns desses novos discos são grandes acréscimos à obra original, como o Live at the BBC, mas o que realmente importa são aquelas cento e tantas canções. E a maior parte do que tem sido lançado é simplesmente material rejeitado em seu tempo. Outtakes são interessantes apenas para fãs ainda em estágio de demência, como eu fui um dia.

Por isso venho falando mal dos coitados há tempos. Décadas de beatlemaniame deram o juízo necessário para insistir em ter um alto grau de exigência em relação a esses lançamentos., e a reconhecer os cada vez mais frequentes defeitos neles. Em 2011 já via na voz destroçada de McCartney um problema, que só foram comentar abertamente agora, em sua última turnê. Desde o início, me entediavam profundamente as caixas de aniversário de seus álbuns, em que a Apple Corps passou a seguir o modelo lançado anos antes por McCartney e sua MPL, reembalando os mesmos discos com o que fosse possível de sobras de estúdio e uma apresentação luxuosa e caríssima.

É justo agora, quando começava a achar que o problema estava em mim (porque uma das coisas que a vida me ensinou é que, quando você acha todo mundo chato, o chato é você), que as pessoas parecem finalmente ter chegado à mesma conclusão.

Semana passada a Apple divulgou o lançamento deste ano: uma nova versão do Anthology, agora com um álbum a mais, uma versão ampliada do documentário para o streaming e o relançamento do livro.

O documentário terá mais trechos das entrevistas feitas originalmente, e imagino que também utilizem IA para fazer um upscale da imagem original para adaptá-la às atuais resoluções em 4K ou pelo menos Full HD. Seria realmente interessante ver mais horas da última reunião dos Threetles.

O quarto disco, por sua vez, terá algumas poucas gravações inéditas — apenas 12, em um álbum triplo, todas meros outtakes, sem absolutamente nada de relevante: mais uma vez, a expectativa dos fãs em ouvir Carnival of Light foi frustrada —, e novas versões das músicas inéditas lançadas em 95 e 96, Free as a Bird e Real Love.

Antes de prosseguir, quero lembrar aqui o que disse na época do lançamento do Now and Then:

Estão dizendo que esta é a última canção dos Beatles. Não é. É algo completamente diferente: é o início de um novo tempo. (…) Posso apostar com qualquer um que o próximo passo será remasterizar a voz de Lennon em Free as a Bird e Real Love.

Eu gostaria de poder iniciar com isso um novo negócio de previsões, e se alguém quisesse os números da próxima Mega Sena eu poderia vender por módica quantia, e ainda parcelar em três vezes. Mas a verdade é que isso era absolutamente óbvio. A maioria do material disponível dos Beatles não tinha chances de ver a luz do dia oficialmente porque sua qualidade sonora era, muitas vezes, baixa. As novas tecnologias de IA possibilitam resgatar ao menos parte dessas gravações de maneira honesta. É como a descoberta de um novo veio em uma mina esgotada.

Mas tudo cansa nesta vida, até o descanso. Vendo o material anunciado, as pessoas estão reclamando de pagar muito caro por muito pouco — algo de que doentes como eu reclamavam há mais tempo, porque conhecem a abundância de material pirata disponível por aí. E algumas passaram a se perguntar se o volume e a qualidade do material neste lançamento poderia ser um indicativo de que baú do qual os Beatles tiram o leite das crianças nos últimos 30 anos está começando a secar. E é aqui que discordo deles.

Eu fiquei impressionado com a mediocridade da edição de aniversário do Let it Be — por sinal, a única que comprei, porque sempre quis ter o álbum Get Back com aquela capa; é como se eu, que estou longe de ser o colecionador que pensava ser aos 15 anos, finalmente sentisse que essa a era única coisa que faltava para mim. O material disponível é absurdamente variado (fiz uma sugestão de gravações que poderiam ser incluídas, num post que talvez represente a última manifestação de fé deste pobre escriba na Apple — talvez fosse o lockdown, não sei; mas é um indicativo do volume de material interessante que ainda está oficialmente inédito), mas o que foi efetivamente incluído era parco e fraco.

Agora entendo o que era: o nome disso é racionamento, é gestão de recursos. O material é finito e precisa ser liberado aos poucos, de maneira que garanta um fluxo regular capaz de gerar a renda necessária pelos próximos anos.

Usando como exemplo as gravações disponíveis das sessões do Let it Be, daqui a dez anos é possível que lancem uma nova versão do álbum, agora com novas canções que ficaram fora até agora. Ou discos completamente inéditos, com títulos possíveis como “Raspa do Tacho Vol. 6”, ou coisa parecida. Sem falar nos shows ao vivo — são mais de 50 disponíveis, alguns completos, outros com umas poucas canções, inclusive apenas ouvidas ao fundo de reportagens de rádio ou TV, a maioria imprestável.

O leitinho das crianças não está ameaçado. Os Beatles entenderam que sempre terão uma legião de fãs dispostos a pagar caro pelo que, hoje, são essencialmente mementos, souvenirs, em um tempo em que até mesmo fãs dedicados como eu adquirem seu discos nas redes de torrent. Para esse pessoal, mais do que a experiência estética ou mesmo espiritual de ouvir uma canção, o que vale mesmo é ter nas mãos um artefato que dê materialidade e substitua essa experiência. Os Beatles sabem que não é mais a música que importa.

E aqui, talvez, esteja a maior ironia de todas.

Como eu imaginava, Free as Bird foi realmente remixada. O vocal original de Lennon foi adequadamente tratado, e agora soa mais natural. Mas, por incrível e inacreditável que pareça, ela ficou pior.

Em 1995, saber que a música tinha sido feita sobre uma gravação em cassete gerava uma condescendência necessária e benéfica para a bravação. A qualidade da parte de Lennon era ruim, mas para todos nós, era a qualidade da gravação, algo que não se podia consertar, e então ela importava pouco ou nada. Com o vocal restaurado, não dá mais para evitar lembrar que ela era apenas uma demo caseira, com uma voz quase em falsete, sem nenhuma pretensão. É paradoxal: a canção soa melhor, mas seu efeito é pior. É melhor ouvir a versão original.

Talvez isso seja um indicativo do que podemos esperar daqui em diante. Não sei. Do que tenho certeza é que esse é apenas o primeiro passo de uma longa fieira de lançamentos semelhantes.

Mas não se mata cavalo?

Quando as chuvas voltaram a inundar o Rio Grande do Sul este ano, agora com menos gravidade, lembrei da tragédia do ano passado, e de um artigo na Folha de S. Paulo que usou o destino do cavalo ilhado em um telhado de Canoas para um pequeno ensaio sobre a questão da miscigenação racial, cujo autor infelizmente esqueci. Ele o considerava um símbolo do hibridismo racial brasileiro, da maneira como nós nos enxergamos. Se não podemos mais admitir a ideia de miscigenação, se ela deu lugar a uma reinterpretação americanizada e binária de uma disputa inconciliável entre brancos e pretos, então transferimos nossa visão atávica sobre raças para os vira-latas.

(O nome que deram ao cavalo, Caramelo, me irrita. Aquele era um cavalo baio, mas as redes, eminentemente urbanas e que nunca sentiram o cheiro de um equino — que o general Figueiredo preferia ao cheiro de povo — precisam dar às coisas os nomes que já conhecem, adequá-las ao mundo novo da comunicação miojo. O mundo não é mais o que é; é como influencers o veem, e então a ignorância — o não saber que aquela cor, em um cavalo, é baia — ascende e ocupa o lugar da informação correta. Talvez nunca tenha sido realmente diferente, mas agora é como se tudo tivesse tomado anabolizantes.)

O artigo é bom, apesar dessa insistência típica destes tempos de reduzir situações complexas a símbolos chamativos. Dois ou três pontos nele me incomodavam, mas já nem lembro quais eram.

O resgate do cavalo Caramelo, claro, acalmou os corações angustiados nas redes sociais e possibilitou deixar de lado a consciência mais ampla das dimensões da catástrofe gaúcha no que diz respeito a animais. Apenas para ficar na discussão que interessa aos que preferem bicho a gente, não sei se dá para fazer ideia da quantidade de vacas que tiveram o leite empedrado em seus ubres, porque a infraestrutura de grandes e pequenos criadores foi destruída e elas não podiam ser ordenhadas. Não se faz ideia de quantos bois, cavalos, carneiros, cachorros, porcos, galinhas morreram. O setor rural nas áreas atingidas foi destruído, mas qualquer discussão mais profunda saía dos holofotes, porque não interessa, não gera engajamento, não dá dinheiro em um mundo que se acostumou a uma corrida de ratos cada vez mais sórdida e desesperada. As pessoas precisam da imagem insólita de um cavalo em cima de um telhado, de um cachorrinho sendo resgatado e nadando no ar. Precisam de imagens que falem ao coração seletivamente terno de gente confortavelmente instalada, não aos seus raciocínios e em um mundo saturado de informação, só o que é diferente é capaz de falar às pessoas. E assim, não há necessidade de se discutir o que causou a tragédia, como se lidou com ela, porque afinal o cavalo Caramelo foi salvo e está muito bem, obrigado. Recebeu doações para garantir sua alimentação pelo resto da vida, algo que não faz sentido sob nenhum aspecto que não seja a existência midiática e a capacidade nativa de se mobilizar por causas desimportantes mas apelativas. A inefável Janja se engajou pessoalmente pelo seu bem-estar.

Eram as mesmas redes que durante a crise louvavam o voluntariado, ajudando em parte a obscurecer quem realmente fez a diferença, no fim das contas: o Estado — apesar do patético, pequeno e vergonhoso Eduardo Leite. A caridade, afinal, nos justifica e nos redime, acalma nossas consciências, e nada mais realmente importa.

E então impressiona a maneira como nos acostumamos a um mundo onde tudo é like, tudo é exposição. Todo mundo correu para tirar sua lasquinha na tragédia: de Janja a Felipe Neto, de Ana Maria Braga a Giovanna Ewbank. Uns com mais senso, outros com mais desespero em não perder a oportunidade; mas mesmo senso e desespero hoje parecem calculados, porque cada um ocupa o seu nicho, com suas necessidades e clamores, e sabem como dar o seu público a desgraça que eles querem.

Eu, pelo menos, não consigo mais ver esse pessoal sem lembrar imediatamente de “Mas Não Se Mata Cavalo?”, de Horace McCoy. Não pelo cavalo, que o livro não tem nenhum; mas pelo desespero que, embora manifestado de maneiras diferentes, parece ser o mesmo em 2025 e durante a Depressão americana. O mesmo desespero que fazia as pessoas dançarem até a morte para garantir que no dia seguinte não passariam fome as faz produzir conteúdo, qualquer que seja, para as redes.

As diferenças que parecem óbvias, pela distância no tempo e no espaço, no fim das contas apenas parecem. Enquanto a classe média da terra do Siegfried Ellwanger defendia armada suas casas — ou defendeu durante algum tempo, nunca pude saber; as notícias rapidamente deixavam de aparecer e não tinham o que no jornalismo se chama suíte, porque mesmo a miséria alheia numa hecatombe cansa — e as grandes vítimas, negras e pobres, eram alijadas do noticiário, a não ser quando suas histórias individuais podiam ser destacadas para gerar lágrimas no Jornal Nacional ou no Fantástico, a impressão que ficava era a de que o mundo está cada vez mais dessensibilizado, que passou a só existir em pequenos vídeos de Instagram ou TikTok.

E essa é talvez uma tragédia ainda maior. Porque se somos todos caramelos, o prognóstico é muito ruim.

Há uma epidemia pior que a de Covid-19 em andamento:uma epidemia de gente pobre e feia se expondo e fazendo graça de suas misérias e esquisitices em suas casas sem reboco e telhados de Eternit, acreditando que as redes são uma nova Serra Pelada; 40 anos são tempo suficiente para que se esqueça que, naquele garimpo, meia dúzia de garimpeiros enriqueceu e outros 100 mil tiveram que se contentar em carregar sacos de areia na cabeça quilômetros de escadas acima e morrer em deslizamentos de terra. Mas qualquer que seja sua classe, o que os caramelos querem, no fundo, é enriquecer fácil. A diferença entre pobres e ricos é apenas estética. E os cavalos agora somos nós.

Um bastardo chamado Rock

Primeiro foi meu identitarista preferido, Lelê Teles, que me mandou um vídeo de Instagram em que um negão reivindicava a paternidade negra do rock and roll.

Minha primeira reação foi de incredulidade: “Peraí: esse pessoal criou o jazz — o jazz, velho, o jazz. A forma superior de música popular. A música erudita do século XX — e fica brigando pela paternidade de uma música vagabunda como o rock?”

Não vi o vídeo inteiro, que eu tenho mais o que fazer, ainda que seja nada.

Depois apareceu para mim no YouTube um vídeo em que uma narradora de voz monocórdia e jovem faz um apanhado da história do rock para dizer mais uma vez que o rock é invenção de negros, como sempre roubados por brancos saudosos dos tempos da escravidão.

Mães negras americanas deveriam registrar seus filhos como Rock porque aí, pelo visto, os pais não iriam sumir — ah, eu sei que não deveria ter escrito isso, não posso fazer essa piada porque ela só pode ser feita por negros americanos e eu não tenho lugar de fala. Mas sabe como é: foda-se.

A verdade é que eu nunca tinha pensado demais nisso. Para mim e para o resto do mundo ajuizado, o rock é uma criação progressiva e coletiva, como absolutamente toda e qualquer linguagem artística. Um a um, cada músico, branco ou negro, foi colocando seu ingrediente pessoal numa enorme sopa de pedra feita a partir de ritmos diversos, negros como o rhythm and blues e brancos como country & western.

(Escrevi “brancos e negros”; me perdoe. Esqueci maravilhas filipinas como os Tielman Brothers.)

Mas depois de ver esses dois vídeos entendi que o rock and roll, na verdade, é música de branco. Sempre foi música de branco. Eu é que não tinha percebido.

A maneira mais simples de demonstrar isso é fazendo uma pergunta simples: tirando Jimi Hendrix, e em menor medida Phil Lynott do Thin Lizzy, qual artista negro chegou ao estrelato tocando rock nos anos 60 e 70 (vou poupar pixels lembrando que Ike e Tina Turner, Prince, Michael Jackson faziam outro tipo de música, e que artistas como Lenny Kravitz e Living Colour são já dos anos 90, ainda assim exceções que confirmam a regra)?

Não tem. O rock se tornou domínio de golden gods como Robert Plant.

A verdade é que a música negra evoluiu por caminhos separados a partir do momento em que as canções de Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino caíram no gosto do consumidor jovem branco. Essa primeira onda se esgotou muito rápido. Por maior que seja o impacto de cada um, não dá para esquecer o fato de que a obra de qualquer dos pais do rock, brancos ou negros (ou filipinos, antes que eu esqueça novamente), se esgota em uma coletânea de grandes sucessos. Ouça o último disco de Chuck Berry, de 2017: é a mesma música que ele fazia 60 anos antes — uma das faixas se chama Lady B. Goode, por sinal. O mesmo vale para o último álbum de Jerry Lee Lewis.

Mas a música negra não parou ali. Ela continuou evoluindo, por caminhos divergentes. Soul, funk, disco, West Coast Sound (nesses dois últimos casos, sejamos justos: dessas desgraças ninguém briga pela paternidade, né?), hip hop, rap. O rock ficou relegado aos branquelos.

É por isso, por essas limitações, que já no comecinho dos anos 60 aquilo que era revolucionário em 1955 tinha degenerado no twist — eu repito, twist não é música que se dê ao respeito.

Em menos de cinco anos, toda uma geração — Berry, Richard, Jerry Lee, Carl Perkins, Everly Brothers, Gene Vincent, o próprio Elvis — não tinha nada de realmente novo a dizer. Foi preciso que meninos da classe trabalhadora da Inglaterra e uma nova geração americana, como Bob Dylan e os Beach Boys, reinventassem essa música para que ela ressurgisse como algo completamente diferente e maior, agora melódica, harmônica e liricamente mais sofisticado, com uma mensagem mais complexa que ajudaria a dar voz a uma geração e elevaria o que era apenas um gênero musical a um fenômeno cultural e de transformação social.

E aí eu lembro da moça de voz chata que fez um vídeo explicando que rock é música negra.

O vídeo apareceu para mim por acaso, e eu já ia mudar para algo que me interessasse mais — como fazer mudas de fruta-pão, por exemplo, negócio difícil dos infernos — quando a vi cair numa armadilha.

Ela falou de Hound Dog.

Você conhece Hound Dog. Se não conhece, não sei como chegou até aqui, e muito menos por quê. A moça usava a canção para mostrar como a indústria branca roubou o talento dos negros. Hound Dog foi lançada por Big Mama Thornton — por sinal, heroína adequada ao resgate pelos novos tempos, preta, gorda, lésbica e talentosíssima; então veio aquele matuto sórdido, um tal de Elvis Presley, e como ele era branco e bonito e tinha uma pélvis reboculosa, roubou a música e fez dela um sucesso absurdo. Ah, ladrão safado.

O problema é que Hound Dog é o exemplo perfeito de tudo o que escrevi até aqui. A canção circulava por aí havia alguns anos antes que Elvis a transformasse num clássico absoluto do rock and roll. Eu gosto muito da versão de Big Mama, mas são canções completamente diferentes. E basta ouvir as duas versões para entender perfeitamente tudo o que tentei dizer até agora.

Hound Dog , no entanto, não é a obra de um pobre bluesman que vendeu a música a um produtor esperalhão por duas mariolas e um cigarro Iolanda. Foi composta por dois garotos judeus de Nova York, Jerry Leiber e Mike Stoller. Compositores, aliás, de boa parte dos maiores clássicos do rock and roll.

A versão de Thornton, para início de conversa, não é rock and roll. É rhythm and blues — tecnicamente é um clássico blues de 12 compassos. É uma versão adorável, sensual, ostensivamente sexual — é a moça reclamando de um malandro que se aproveitou dela até onde pôde—, cheia de swing, feita para que você rebole sua cintura bem encostado à cintura de quem você quer chamar, mais tarde, de cachorrão ou miseravona. Uma das gravações de Thornton, com a banda de Muddy Waters, é especialmente brilhante.

Mas o que Elvis traz é outra coisa. O menino de Tupelo deu a essa canção uma agressividade, uma ansiedade, uma urgência que está para as versões anteriores como o pós-punk do Nirvana está para o bubblegum rock de The Archies. Comparar as duas versões é como comparar Barry Manilow e Dead Kennedys. Elvis dá, ali, expressão à angústia adolescente. Reduzindo a letra à expressão do desprezo e mágoa, tirando o caráter sexual e dando a ela uma camada de ódio, indignação e revolta que não havia na versão original, Elvis canta em um frenesi que é a melhor definição do que é o rock and roll.

Um crítico cujo nome não lembro dizia que não sabia definir o que era rock, mas sabia identificar um quando ouvia. Ele devia estar se referindo a essa canção.

O mais triste nisso tudo— e talvez o que realmente importa — não é que esse seja um perfeito exemplo da ineficiência dessas tentativas de reescrita da história a partir de uma ótica identitária, que só conseguem o efeito contrário ao que queriam demonstrar. É que depois dessa separação essas vertentes voltariam a se encontrar. É o que se ouve hoje, em grande medida. Uma música cada vez mais repetitiva, derivada, dependente de padrões pré-existente em algum computador. Tão ruim que dá até a impressão de que as pessoas estão buscando algum sentido para sua vida espiritual quando brigam para ver quem é o pai de um filho bastardo chamado Rock.

Sobre o identitarismo

O Marcus fez um comentário ao último post, reclamando do que parece considerar ataques ao identitarismo e, por tabela, à própria ideia de luta das minorias.

Justo, mas há alguns problemas ali.

O primeiro problema do identitarismo está resumido na segunda frase do comentário do Marcus:

O que chamam de “identitarismo” é apenas a luta de minorias para ser respeitadas, ou, em casos extremos, não ser mortas. Para negros, gays, lésbicas, transexuais, mulheres, pessoas com deficiência, “identitarismo” é a luta por ser uma pessoa completa.

Não é. A impressão de que o identitarismo é a grande representação moderna da luta social de minorias, toda ela, mascara o fato de que na verdade é apenas um segmento pequeno, míope e bastante equivocado de uma luta bem maior.

O problema central do identitarismo é que ele não diz respeito a transformação social real, que necessariamente é algo sistêmico e amplo. Diz respeito a autoestima, a reconhecimento, ainda menos que conquistas para grupos específicos. A identidade, como diz seu nome. É um modo de ver o mundo e reivindicar direitos que, como lembrou o Leo Bernardes, nasceu nas universidades americanas, nas condições específicas de uma sociedade muito mais rígida que a brasileira — e não por acaso, lá é chamado de “cultura woke”, o que denota seu caráter obviamente oriundo da cultura religiosa puritana americana, quase messiânico; o sentimento que deu origem ao identitarismo é o mesmo que nos legou a Lei Seca — e que uma elite acadêmica brasileira, profundamente influenciada pelos Estados Unidos e esvaziada ideologicamente, tenta importar para cá, trazendo junto inadequações e desconsideração de contextos.

Esse trecho de “O Progressista de Hoje e de Amanhã”, de Mark Lilla (lembrando que nos EUA “liberal” significa “progressista”), ajuda a colocar as coisas em perspectiva:

A grande abdicação liberal começou na Dispensação Reagan. Com o fim da Dispensação Roosevelt e o surgimento de uma direita unificada e ambiciosa, os liberais americanos se viram diante de um sério desafio: desenvolver uma nova visão política do destino do país, adaptada às novas realidades da sociedade americana e aprendendo com os fracassos de velhas atitudes. Isso os liberais não souberam fazer. Envolveram-se na política identitária, perdendo o sentido do que compartilhamos como cidadãos e do que nos une como nação. Uma imagem do liberalismo de Roosevelt e dos sindicatos que o apoiavam era a de um aparto de mãos. Uma imagem recorrente do liberalismo identitário é a de um prisma que reflete um único raio de luz, produzindo um arco-íris. Isso diz tudo.

A política identitária certamente não representa nada de novo na direita americana. O mais impressionante durante a Dispensação Reagan foi o desenvolvimento da sua versão de esquerda, que acabou se tornando a doutrina seguida por duas gerações de políticos, professores, jornalistas, militantes liberais e filiados ao Partido Democrata. Não foi um acidente histórico. Pois o fascínio (e em seguida a obsessão) pela identidade não desafiava o princípio fundamental do reaganismo, o individualismo: ele o reforçava. A política identitária de esquerda se tratava, a princípio, de grandes grupos de pessoas — afro-americanos, mulheres — que buscavam reparar grandes erros históricos se mobilizando e se valendo de nossas instituições políticas para assegurar seus direitos. Mas nos anos 1980 essa política cedera lugar a uma pseudopolítica de autoestima e de autodefinição cada vez mais estreita e excludente, hoje cultivada nas faculdades e universidades. Seu principal resultado foi fazer os jovens se voltarem para a própria interioridade em vez de se abrirem para o mundo exterior. Isso os deixou despreparados para pensar no bem comum e no que deve ser feito, na prática, para assegurá-lo — especialmente a difícil e nada glamurosa tarefa de persuadir pessoas muito diferentes de si a participarem de um esforço comum. Todo progresso da consciência identitária liberal tem sido marcado por um retrocesso da consciência política liberal, sem a qual nenhuma visão do futuro pode ser imaginada.

(…)

O paradoxo do liberalismo identitário é que ele paralisa a capacidade de pensar e agir da maneira adequada para conseguir o que se diz querer. Vive hipnotizado por simbolismos: conquistar uma diversidade superficial nas organizações, recontar a história de modo a deslocar o foco para grupos marginais e não raro minúsculos, inventar eufemismos inócuos para descrever realidades sociais, proteger os olhos e os ouvidos de adolescentes acostumados a filmes de terror contra qualquer encontro perturbador com pontos de vista alternativos. O liberalismo identitário deixou de ser um projeto político e se materializou num projeto de evangelização. A diferença é a seguinte: evangelizar é dizer verdades ao poder. Fazer política é conquistar o poder para defender a verdade.

Não pode haver política liberal sem uma consciência de coletividade — do que somos como cidadãos e do que cada um de nós deve ao outro. Se os liberais esperam algum dia recapturar o imaginário dos Estados Unidos e se tornar uma força dominante em todo o país, não bastará que sejam melhores do que os republicanos em inflar o ego do mítico trabalhador braçal. Eles deverão oferecer uma visão do nosso destino baseada numa coisa que todos os americanos, de qualquer condição, de fato compartilhem. E essa coisa é a cidadania.

Cidadania é a palavra-chave aqui. A luta identitarista não é mais por direitos comuns, por igualdade. É sobre ser simplesmente ouvido num mundo midiático em que você só existe se existe nas redes sociais; daí a patacoada de brigar pelo uso de turbante, daí a criação de um conceito deletério como “apropriação cultural”, daí a transformação lamentável de um conceito inclusivo e significativo como o “lugar de fala” em instrumento de exclusão e reserva de mercado por essa minoria extremamente vocal. É o mesmo pessoal que reivindica o candomblé como eleeneto central de sua nova identidade mas fecha os olhos ao fato de que a maioria dos macumbeiros hoje são brancos: os negros estão é nas igrejas evangélicas, algo terrivelmente incômodo para eles, e que mostra ao menos uma certa desconexão com a realidade.

(Nos EUA foi pior. Sem a plasticidade cultural luso-brasileira, os negros americanos tiveram sua identidade cultural totalmente destruída — um pouco menos na Louisiana francesa, claro. Daí que em sua busca por uma identidade uma parte resolveu se reinventar no islamismo, algo que nunca fez parte da identidade cultural dos africanos nos EUA.)

Por isso é tão importante a “palavra”, por isso “ressignificar” é tão central em suas políticas. Foi no universo acadêmico, frequentado por uma elite cultural que vive não da ação, mas da palavra, mesmo que vazia e direcionada a ouvidos surdos, que essa abordagem cresceu e se multiplicou. Como digo aqui há uns 20 anos, esse pessoal parece achar que basta chamar uma pessoa de LGBTQIAPN+ para impedir que um homofóbico lhe desça a porrada.

Em uma esquerda que se viu órfã de um modelo viável de transformação a ser apresentado, com a queda dos regimes socialistas (e sem a capacidade de investigar e tentar entender o modelo chinês), foi fácil se fragmentar em disputas pequenas, localizadas, de pequenos grupos. O problema é que se tornou pequeno demais, e deixou de falar para a sociedade.

Uma matéria antológica na New Yorker, de 1916, mostra bem no que isso resultou. A matéria, publicada antes das eleições, acompanhava a campanha de Hillary Clinton.

Ali, George Packer já apontava o que havia de errado na esquerda americana: nas últimas décadas, o Partido Democrata havia se elitizado e assumido um discurso aparentemente voltado exclusivamente para as minorias: mulheres, negros, gays. Enquanto isso, a classe média branca, empobrecida pela desindustrialização do país e pela crise no setor de serviços causadas por gigantes online como a Amazon, se via abandonada pelos democratas, que se dirigiam às minorias e simplesmente ignorava essa parcela da sociedade. Não se trata de perda de privilégios, e sim de direitos: desempregada, em meio a uma epidemia de opioides que reflete a falta absoluta de perspectivas, ela se via numa situação não muito confortável, forçados a escolher entre o Partido Democrata aliado ao rentismo globalizado, e um lado, e o Partido Republicano aliado à elite produtora nacional do outro.

A escolha era óbvia. Resultado: perda de direitos por brancos, mulheres, negros, gays. Como diria Dilma, perdeu todo mundo. É o que costuma acontecer quando se perde a ideia de conjunto.

Sem pensar muito, posso mencionar dois exemplos graves da cegueira e estupidez dos identitaristas. Um já foi abordado aqui: um jogador de vôlei fez cara feia para a ideia de um “Superman gay”, as pessoas caíram matando em cima dele e ele perdeu o emprego. Por essa perseguição, se transformou em deputado — e agora não se restringe a dar opinião, agora ele vota projetos contra gays, contra a igualdade racial, contra o direito ao aborto.

O episódio lembrou o quanto há de autoritário e totalitário nesse movimento que se pretende exclusivo. O que chamam de cultura de cancelamento é mais que uma resposta legítima a opiniões contrárias. Em nome do respeito, da defesa de “ideias certas”, tolhe não apenas manifestações racistas, mas também quem tem uma visão levemente diferente da deles.

O outro exemplo é ainda mais complicado. Há cinco anos, a historiadora Lilian Schwarcz resenhou um espetáculo da Beyoncé para a Folha de S. Paulo. O tom da resenha era elogioso, mas ela fez algumas reparações ao final. E disse que a Beyoncé precisava “entender que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”

O mundo caiu. Schwarcz levou pancada de todos os lados do movimento identitário, lhe negando, para começar, o tal “lugar de fala” — no que parece ser uma manifestação clara de uma certa cultura de gueto, de um sectarismo tosco e infantil.  Tudo isso culminou em um pedido de desculpas, em que Schwarcz reconheceu o seu lugar de branca e, portanto, impossibilitada de dar sua opinião sobre racismo ou mesmo fazer reparos estéticos ao que se pretende uma obra de arte. Foi o pedido de desculpas mais indevido que já vi.

Eu não conheço a obra de Lilia Schwarcz. Li apenas um de seus primeiros livros, “Retrato em Branco e Preto”, e isso há mais de 30 anos. Tampouco vi o tal espetáculo. Pela descrição, era uma adaptação tipicamente hollywoodiana, com todos os seus excessos, de “O Rei Leão”.  Se for isso mesmo, era simplesmente uma merda — ruim em sua origem, ruim em sua execução. Negritude não redime a breguice hollywoodiana. Mas dizer isso, para os identitaristas, parece ser o equivalente a assinar a ficha de filiação à Ku Klux Klan.

Nesse affair, infelizmente, não há inocentes. Imagino que a Schwarcz tenha pedido desculpas porque é esse o seu tema de estudo, é para esse público que ela escreve e publica livros. É no ambiente tóxico da Academia que ela circula. Na minha opinião, ela foi simplesmente covarde e pensou no leitinho das crianças — mesmo sendo uma das donas de uma das maiores editoras do país.

Mas esse clima de autoritarismo, de policiamento do pensamento é, talvez, o mais assustador. Alguns anos atrás o Itamar Vieira Júnior pediu a cabeça do Leandro Narloch na Folha de S. Paulo. Ele não queria ver opiniões como a dele no jornal, o que ilustra a dificuldade extrema desse pessoal de conviver com a pluralidade de pensamento, ou mesmo de combater ideias divergentes. Essa vocação para calar os outros é preocupante.

Mais grave, no entanto, é a tentativa de revisão da história. O identitarismo nos legou duas heroínas no Livro de Aço: Dandara e Luiza Mahim. O fato de nenhuma das duas ter existido — no caso de Mahim, mãe de Luiz Gama, não existe como heroína, já que não há nenhum indício de que tenha sequer participado da revolta dos Malês, que nos últimos 40 anos adquiriu uma proeminência talvez não muito justa — não importa para esse pessoal, porque o que conta, mesmo, é a fantasia adequada. Precisam tanto de uma simbologia que se adeque ao seu discurso que, então, a realidade é o que menos importa. Menos mal que Luiz Gama — este um verdadeiro gigante, um dos maiores de nossa história — também esteja no tal Livro.

Vem daí também a insistência em definir a escravidão brasileira como tão ruim ou pior que a americana.

Os Estados Unidos receberam cerca de 400 mil escravos africanos. Quando da Emancipação, havia 4 milhões de escravos e 490 mil negros livres, 11% da população negra no país. A verdade é que, em 1860, a “peculiar institution” não estava sob risco imediato nos estados escravagistas; o que se discutia era sua expansão para os novos territórios. Lincoln só assinou a Emancipação depois de bem adiantada a Guerra de Secessão, e fez isso para conseguir mais soldados e mais apoio no território Confederado

O Brasil traficou quase 6 milhões de escravos da África. Em 1872, havia 1,5 milhão de escravos e 4,2 milhões de negros livres. O número de escravos desabou ainda mais rapidamente nos 16 anos seguintes, na esteira do maior movimento popular da história até então, e da certeza de que a Abolição era inevitável.

Pode não ser melhor ou pior; não acredito que seja possível qualificar um sistema escravagista como melhor ou pior que outro. Mas é preciso ser muito estúpido para achar que essa diferença de números, e a presença de uma população negra livre e numerosa, ainda que absolutamente oprimida pelo racismo e pela estrutura socioeconômica do país, não geram uma dinâmica de relações sociais muito mais complexas que aquelas condicionadas pelo binarismo americano. No mínimo, inviabilizam qualquer tentativa cega de aplicar o mesmo receituário americano aos problemas nacionais.

Eu considero que uma das grandes contribuições brasileiras à humanidade é a miscigenação generalizada — “Que se misture tudo!”, dizia Gerônimo. É aterrorizante ver grupos identitaristas chamando, hoje, essa miscigenação de genocídio. Não é à toa que eles insistem em colocar na boca de Gilberto Freyre a expressão “democracia racial”, que na verdade foi dita por militantes negros americanos ao verem no Brasil uma situação social muito diferente da que conheciam.

Falando nisso, e de volta a Lilia Schwarcz, mais recentemente ela publicou um tweet em que diz exatamente isso, que a miscigenação racial neste país é o resultado de estupros. É um pressuposto que tem menos base histórica do que adequação forçada à narrativa dominante de um tempo. Não se trata nem mesmo de entender qualquer relação interpessoal entre senhores e escravos como “estupro estatutório”, devido à estrutura de poder. Mas de negar a variedade e a complexidade dessas relações em uma estrutura de dominação, negar inclusive protagonismo aos milhões de negros livres que já existiam antes da Abolição e que, sim, tomavam o que consideravam ser as melhores decisões.

Nessa moda identitarista de tomar como ofensa pessoal quaisquer posições em relação a grupos, mesmo aqueles perdidos no tempo, eu poderia dizer que a honra da minha família foi atacada pela Schwarcz. Eu, como grande parte dos brasileiros, descendo de escravos e de senhores de escravos. No ramo familiar que posso rastrear mais facilmente — aquele eminentemente branco e “fidalgo” —, meu pentavô mereceu um artigo nos jornais de Sergipe e do Rio por manter escolas para ensinar os filhos dos escravos a ler e por mantê-los em seu engenho mesmo depois de velhos; seu neto, meu trisavô, casou com a filha de um de seus ex-escravos. Pelo menos nesse ramo, eu posso garantir que não houve estupro nenhum.

O Marcus finaliza dizendo que o que tenho escrito sobre o assunto lembra a ele Wilson Gomes e Pablo Ortellado. Nunca li nada do Ortellado, mas conheço um pouco do Wilson Gomes. Não creio que o Marcus tenha dito isso como elogio, mas, sinceramente, pelo menos no que se refere ao Gomes não acho que eu esteja em má companhia.

Isso me lembrou outro sujeito, seu colega de UFBa, que conheço um pouco melhor: Antônio Risério. Seu “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros”, em que denuncia o binarismo artificial que os identitaristas tentam aplicar à sociedade brasileira, é um bom livro, e obviamente é execrado por esse pessoal. Já faz algum tempo que Risério vem sendo atacado com força pelos setores identitários, e eu tenho notado um fenômeno extremamente previsível: Risério tem se aproximado da direita, até por uma questão de sobrevivência e resistência aos ataques.

Ou seja, o identitarismo apenas divide, reduz. Cria guetos, justamente aqueles que devia tentar extinguir. Ao ver o mundo pelo seu umbigo e com as lentes erradas, focando no que é acessório, enfraquece o movimento social, reduz à caricatura, gera apenas fraqueza. Não é um bom caminho.

Mas, lá no fundo, este velho marxista-leninista é um otimista. Como todo bom materialista dialético, ainda tenho a esperança de que dessas contradições surja uma síntese que expurgue a palhaçada exagerada dos identitaristas. Não sei se viverei o suficiente para ver esse dia. Mas isso não quer dizer que eu vou fechar os olhos para sua estupidez.