Duas novas revistas

A Piauí e a Rolling Stone nacional lançaram seus primeiros números em outubro. Só leio agora.

A Rolling Stone chega com toda a pretensão que quase 40 anos de estrada podem dar. Seu editorial diz que ela é “referência — senão máxima, muito próxima disso — do jornalismo cultural e político, questionador e transgressor”.

Não podia estar mais enganado. Referência máxima em jornalismo cultural ainda é a New Yorker; e de transgressora a Rolling Stone não tem absolutamente nada, há muito tempo. Velhos não costumam transgredir. E a Rolling Stone, definitivamente, é velha. Tão velha quanto os anos 60. Não é à toa que os dois principais entrevistados de sua edição de estréia sejam o auto-denominado dono dos anos 60, Bob Dylan, e Jack Nicholson, um símbolo daquele estilo de vida.

Naqueles tempos, a Rolling Stone era inovadora porque refletia, acuradamente, a sua época. Mas o tempo passou. Nos anos 80 ela protagonizou uma campanha publicitária brilhante, em que mostrava a distância que havia sido percorrida: dizia aos anunciantes que havia uma diferença entre a percepção de uma revista dos anos 60 e a realidade de uma Rolling Stone cujo público era cada vez mais afluente. A campanha não podia ser mais verdadeira. E o papel de porta-voz do seu tempo já foi usurpado pela Wired há 13 anos.

Se alguém prestar atenção ao projeto gráfico da Rolling Stone vai ver os tipos serifados, elegantes que ela usa. São lindos. Clássicos. E são o melhor símbolo do que ela é hoje: uma revista perfeitamente adequada ao sistema — talvez mais que qualquer outra, por se inserir em uma indústria, a musical, tão establishment que está desesperada ao se ver ameaçada pelo novo, a troca de arquivos pela internet.

No fim das contas, a RS nacional é uma revista, no máximo, mediana. Melhora um pouco se for comparada à antiga Bizz, uma das revistas mais medíocres e provincianas da história do país, onde músicos frustrados escreviam sob pseudônimos resenhas sobre suas próprias bandas, que só eles ouviam, e se deliciavam em anunciar bandas de um buraco qualquer da Inglaterra, que ninguém jamais ouviria.

A RS se propõe a fazer uma mistura de matérias escritas aqui e traduções da revista-mãe americana. Grosso modo, as matérias americanas são melhores que as brasileiras. São mais bem escritas, mas isso vale para toda a imprensa nacional. O texto da Time sempre foi melhor que o da Veja, o do New York Times sempre foi melhor que o da Folha de S. Paulo, e por aí vai. Mas mesmo isso não quer dizer absolutamente nada. Por exemplo, há duas entrevistas americanas que se destacam, pela qualidade do texto e sensibilidade do repórter. Todas extremamente laudatórias, o que não parece ter nada a ver com os adjetivos “questionador” e “transgressor”.

Uma das entrevistas é com Bob Dylan, a julgar pela qual o velho Zimmerman é tão importante para o cenário musical atual como foi nos anos 70. E outra com Jack Nicholson, a julgar pela qual o velho ator, aos 69 anos, ainda come tantas mulheres quanto aos 30. Prova material A de que a RS já chegou aqui caducando.

As matérias nacionais são bobas, com exceção de uma sobre o PCC — que mesmo assim se ressente da falta de conhecimento político mais profundo. A pior delas é uma matéria (quatro páginas, mas apenas uma de texto) assinada por Ricardo Soares sobre política. Beira a imbecilidade, refletindo apenas o pensamento geral de uma classe média que não consegue deglutir o que ouve no Jornal Nacional e regurgita o mesmo discurso fácil.

Mas mesmo no que tem de melhor, a tal tradução das matérias da original americana, a revista comete erros bisonhos. Um trecho da matéria sobre Dylan:

(…) o blues antigo e seus músicos era mais estranhos do que qualquer purista fosse capaz de declararm, restringindo-se a 12 faixas de lamentações de bar, mas retratandos declamações narrativas (…)

Não li a matéria no original. Mas sou capaz de apostar a bunda do Bia que “12 faixas de lamentações de bar” é uma tradução analfabeta de “12-bar blues tracks” — ou seja, faixas de blues de 12 compassos. Se eu estiver certo, esse é o tipo de erro inaceitável em uma revista musical. A tradução parece ter sido feita pelo Google.

O fato é que a Rolling Stone já chega como uma revista velha e ultrapassada. Por exemplo, tem a tradicional sessão com notinhas curtas que fazem as vezes de resenhas de discos. Isso quer dizer que ela não entende que os áureos tempos da mídia impressa acabaram. Notinha curta sobre um novo álbum, do tipo que se fazia a três por quatro em 1986, não quer dizer mais nada, porque antes que a revista chegue às rotativas toda a internet já espalhou conceitos sobre o disco e definiu o sucesso de uma nova banda ou artista. A RS não parece entender que hoje mais vale, para uma revista impressa, fazer boas matérias com um bom julgamento e bastante informação sobre alguns discos que realmente achem relevantes, em vez de entupir os leitores com informação insuficiente e redundante.

A outra revista é a Piauí.

Embora não seja melhor que a Rolling Stone, pode vir a ser. Tem um time excelente de colaboradores, gente que respeita lubricamente a velha vagaba do Lácio. Traz algumas boas matérias — dessas as melhores são uma do Ivan Lessa, pela qualidade extrema do texto, e uma da Danuza Leão, pela escolha acertadíssima do seu objeto, o costureiro Guilherme Guimarães, e por demonstrar uma visão extremamente acurada. Traz também um bom conto do Rubem Fonseca, provavelmente parte do livro que está lançando por estes dias — mas bom apenas por estar em uma revista com cara de jornal. E algumas boas matérias humorísticas — uma das quais, a que fala sobre a República da Molvânia, lembra muito os bons tempos do jornal Planeta Diário, nos anos 80.

O pior, mesmo, é o projeto gráfico. Ao que tudo indica, queriam buscar a simplicidade máxima — essa deve ter sido a justificativa — mas conseguiram apenas uma das revistas graficamente mais medíocres da atualidade. Falta identidade a ela.

E mesmo assim, embroa seja decepcionante, de modo geral a Piauí promete mais que a Rolling Stone.

Mas padece de um problema: não parece ter encontrado ainda sua própria personalidade. O resultado, por enquanto, é apenas um amontoado de textos — todos bem escritos, mas que não chegam a fazer uma revista.

As duas novas revistas da grande imprensa brasileira, lançadas com espalhafato, não cumprem suas promessas. E me deixam com a impressão de que a última grande revista a aparecer foi a Raygun, há mais de 10 anos — enquanto tinha o projeto gráfico revolucionário do David Carson. E talvez ela fosse brilhante porque era, simplesmente, ilegível.

(Depois de escrever este post comprei o segundo número da Piauí. Ainda não li, apenas passei os olhos. E embora pareça ter textos mais densos, ainda parece o mesmo samba do crioulo doido.)

27 thoughts on “Duas novas revistas

  1. Extremamente equivocada a sua avaliação sobre a Bizz.

    A Bizz foi a principal formadora de público roqueiro das últimas décadas. Foi graças a ela que muita gente teve acesso a coisas como Kraftwerk, Joy Division e Velvet Underground.

    Sobre “bandas de um buraco qualquer”: a primeira a ser enfocada na seção de bandas novas foi o Jesus and Mary Chain, quando ainda não era nada. Hoje todo mundo sabe quem é Jesus and Mary Chain.

    Entre as bandas que eram acusadas de só receber espaço porque tinha músicos que trabalhavam lá, estava o Fellini. Hoje o Fellini, que não vendia nem mil cópias na época, é reconhecido até na Europa como uma banda importantíssima e uma das melhores do país.

    Também não concordo com alguns exageros indies, mas apostar em novidades é essencial. Não vamos jogar o bebê fora junto com a água do banho.

  2. Fora isso, no geral concordo com o resto de sua avaliação. E acho que a Piauí vai acabar encontrando o seu caminho. Competência eles têm.

  3. Aina não encontrei tempo para ler nenhuma das duas. Mas acho que a Piauí é uma tentativa de ser fazer algo de diferença em termos de jornalismo e isso já mercece aplausos. A RS terá que se adaptar como a matriz se adaptou.
    gd ab

  4. Rafael,

    Grande análise, concordo com quase tudo…

    Uma pergunta:

    O que você acha da Trip?

    Sei que ela é mais voltada pra um público de garotões surfistas (ou garotões de meia-idade) que acham que tem alguma coisa na cabeça, mas tem algumas coisas muito boas nela…

    Abs

  5. é isso aí, rafa. a rolling stone é uma merda mesmo. uma revista yanque. veja só, falar mal do governo lula na primeira edição. caluniar o genoino, joão paulo cunha e nosso companheiro cid gomes daquele jeito. revista boa é carta capital, caros amigos. o resto é lixo. vamos pedir a proibição de qualquer revista q fala mal do nosso governo do povo.

  6. Marcus,

    A avaliação da Bizz é equivocada? Certo. Vamos ver os seus exemplos.

    Citar o Jesus and Mary Chain não quer dizer absolutamente nada. A Bizz falou antes, por exemplo, do REM, caso você não lembre, ou do Butthole Surfers. Mas o fato de citar uma ou duas bandas que viraram alguma coisa só quer dizer que a revista não era totalmente idiota. Porque a grande maioria das que ela desenterrava de um porão de Manchester (ou melhor, de alguma revista que em tempos sem internet o Brasil não lia) nunca foi ouvida por ninguém. Se ela não acertasse de vez em quando é que a coisa ia ficar feia.

    E o fato de o Fellini ser considerado importante hoje muda alguma coisa na política editorial da revista? Isso é imbecilidade. Não muda o fato de fazerem jornalismo sem princípios. Não muda o fato de ela ser canalha.

    Além disso, eu não sei nada sobre esse tal reconhecimento do Fellini. Fiquei sabendo agora. Não que eu saiba muito sobre a cena pop mundial, que isso não me interessa, mas pelo menos mostra que esse reconhecimento não é tão universal assim. Ao mesmo tempo, sei que o Cansei de ser Sexy está indo a algum lugar. O Cólera também foi.

    Finalmente, quando a formação de público roqueiro pela revista, você está viajando. Revistas não formam público, a priori. Atendem a um público previamente existente. Do contrário não vendem. Revista de grande editora não é fanzine.

    Finalmente, a importância da Bizz era maior na província. Sua importância, tenha certeza, era maior no Pará do que em São Paulo. Além disso, você está confundindo a sua geração e a época em que você se formou com uma importância que a Bizz não tem. É na adolescência que as pessoas se interessam mais por música. Se não houvesse a Bizz, você se informaria do mesmo jeito. Isso eu garanto.

    Por exemplo, não foi através da Bizz que ouvi falar de Velvet Underground ou quetais. Foi através de amigos, que me emnprestavam seus discos e me diziam o que ouvir.

    E ainda assim, mesmo achando que a importância de revistas como a Bizz é maior na província que nos grandes centros, e até admitindo que ela “forma” público, não custa lembrar que o que saiu do Pará foi a banda Calypso.

    Nilton,

    Chegue mais pertinho, pra eu te contar um segredo.

    Chegou? Pronto.

    Você é um idiota.

  7. Uia! Você chamou ele de idiota por causa da metáfora do bebê ou por que ele é do Pará? Você está ficando uma persona non grata mais polêmica do que Diogo “Abril” Mainardi, Paulo NY Francis e (gran finale) Olavo “me dá um dinheiro” de Carvalho…
    Em relação ao post: Bizz sempre foi um ícone de informação musical dos desinformados que leêm (ou folheiam) uma única fonte de informação. Como as pessoas que fazem isso lendo Veja e se sentem atualizadíssimas – se não são as mesmas…
    Vou desejar sorte para a Piauí. Gosto do Rubem Fonseca.]
    Abraço.

  8. 1) não li nenhuma das duas, vou dar uma olhada e depois dou minha opinião. Mas o problema é ter lido seu post antes, já vou com o olhar “contamindado”…rs
    2) vc continua uma petúnia, heim?…rs…bj

  9. ai, ai.
    fica apostando minha bunda por aí, GUEI.
    :>/
    a questão da bizz: ela era a única fonte de informação sobre música; não tinha internet, revista importada era cara. melhor que a bizz só aquele seu amigo mais velho e antenado que emprestava os disco. foi um deles que me apresentou o velvet. mas coheci o belle & sebastian, por exemplo, através de uma resenha do zeca camargo na bizz.

    ok, ok, péssimo exemplo. mas o vic chesnutt me chegou também através da bizz.
    :>)
    gostei da rolling stones – ainda mais por NÃO TER COMPRADO: ganhei de aniversário do brigatti. mas esse esquema de algumas linhas sobre os lançamentos e, principalmente, a CLASSIFICAÇÃO COM ESTRELINHAS – meu deus! – ninguém mais merece isso. estou pra fazer um texto sobre isso, classificação com estrelinhas. o disco do dylan mereceu três estelas e o dos raconteurs, quatro. o que isso SIGNIFICA?

    piauí: devia chamar PIUÍ. parece um trenzinho desgovernado.
    ;>)

  10. Sobre a RS não posso falar: não li. Já sobre a Piauí vi os dois números. Os textos estão acima da média quando comparados com o jornalismo cultural que grassa pela grande imprensa. Concordo contigo: ainda meio sem rumo, falta personalidade. E nos dois números o que teve de melhor foram os perfis (do estilista na número 1 e do banqueiro falido na número 2).

  11. Faltou dizer uma coisinha sobre a piaui: compará-la à New Yorker é muita pretensão. Falta muito, muito mesmo pra poder pelo menos evocá-la.

  12. O grande problema da RS Brasil são as resenhas, absurdamente superficiais. A Bizz dá de 10 nisso. Comparando, acho que a menos velhusca aí é a RS, que não tem medo de dar capa pra artistas pop (na matriz, Britney Spears, Black Eyed Peas, etc), que tem espaço sim para assuntos mais jovens abordados na Wired (MySpace, por exemplo) enquanto a Bizz ultimamente fica só nos consagrados, nos artistas “respeitados”, nas matérias com cara de enciclopédia, tipo as da Uncut (que são muito boas, aliás).

    Vou achar muito legal se a RS Brasil der capa pra Wanessa Camargo. Falo sério. Dá muito bem pra abordá-la sem cair num papo “Contigo” ou “Tititi”.

    Quanto à piauí, só de ler textos bem escritos feito os da Danuza Leão, Ivan Lessa, João Moreira Salles (é dele o perfil BRILHANTE sobre Roberto Jefferson, na primeira edição) já fico satisfeito. Sobre “personalidade” de revista, é preciso tempo. Revista só costuma ganhar uma “cara” com várias edições lançadas.

  13. Eu até ia responder ao seu comentário, Rafael. Tem coisa que se aproveite lá. Mas essa de citar o Calypso foi apelação. Apelou, perdeu a razão.

    Você está parece o Hermenauta, dando patada.

  14. Rafael, sinceramente, que você faça a crítica ligeira que fez à Bizz no artigo, eu acho perfeitamente aceitável, correto, perfeito, super.

    Mas responder à réplica coerente, contextualizada e moderada do Marcus do jeito que você fez, da maneira apelativa que fez, é uma coisa que foge à minha compreensão.

    Também quero dar uma paulada ligeira e descontextualizada. Posso? Então lá vai:

    Quer dizer que porque você tinha um amigo que conhecia o Velvet Underground, então a revista é uma porcaria? Tenha santa paciência…

  15. A pior delas é uma matéria (quatro páginas, mas apenas uma de texto) assinada por Ricardo Soares sobre política. Beira a imbecilidade, refletindo apenas o pensamento geral de uma classe média que não consegue deglutir o que ouve no Jornal Nacional e regurgita o mesmo discurso fácil…

    Cara , esse teu comentário revela uma indigência mental alarmante… como já disse um leitor seu por aqui vc é um idiota completo…irrecuperável, fascistoíde e rancoroso… não entende português básico…o que tem a ver meu raciocínio com classe média e Jornal Nacional… que ignorante que vc é…

  16. bons comentários…sempre é bom esse bate-papo para o mercado editorial…
    tb comento alguma revistas no meu blog…

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