Reencontrando os Clássicos da Literatura Juvenil

No último Natal consegui me dar um presente que procurava havia muito tempo.

Eu tinha sete anos, quase oito quando cheguei em casa e havia uma encomenda para mim. Naquele dia específico as pessoas estavam com raiva desta pobre criança, porque aparentemente eu tinha desaparecido a tarde toda, com um amigo. Era injustiça, porque não procuraram direito: tivessem ido ao Porto da Barra e nos encontrariam mergulhando do quebra-mar, aproveitando a maré cheia do fim de tarde.

Jailton, o amigo que estava comigo, ganhou uma surra. Eu ganhei um esporro e livros. Minha avó tinha mandado do Rio uma caixa com uns quinze volumes de uma mesma coleção, “Clássicos da Literatura Juvenil”. Os números dos livros eram descontinuados, e isso me deu a certeza de que havia mais volumes. Eu estava certo, e algumas semanas depois chegaria outra remessa: eram ao todo trinta livros.

Eram livros belíssimos para mim: capa dura, bem ilustrados, um cheiro único e inesquecível. Nos três anos seguintes eu leria todos os eles, alguns muitas vezes. Só não li então o número 21, “Robinson Crusoé”, que caiu do caminhão numa mudança, e “Aventuras de um Petroleiro” porque me parecia chato — quem em sã consciência deixaria de reler “As Aventuras de Tom Sawyer” para saber das desventuras de um navio? Eu os leria anos depois, mas não seria a mesma coisa e eles não fazem parte da minha infância.

Esses trinta títulos, de qualquer forma, fariam parte da minha vida.

Como vieram em duas levas diferentes, desde o início tive a impressão de que havia mais do que apenas aqueles trinta. Essa impressão durou anos, e aumentou em 80, 81, quando comprei dois livros de banca, “O Corsário Negro” de Salgari e “O Máscara de Ferro” de Dumas. Eles tinham muitas semelhanças com a minha coleção, embora fossem brochuras e pertencessem a outra série, “Grandes Aventuras”: mas era o mesmo estilo de capa, a mesma estrutura, até a mesma tipologia. Só fui confirmar essa desconfiança no final dos anos 80, quando achei o número 38 na casa de um amigo. Eu estava certo desde o início. Eram cinquenta volumes, quase o dobro do que tinha embalado a minha infância. Mais tarde, cheguei a comprar alguns que achava em sebos, mas eles não me interessavam mais, e eu comprava para dar de presente.

Com o tempo a minha coleção foi se deteriorando e sumindo. Depois, morando no Rio, eu os encontraria em absolutamente todos os sebos a que ia, custando 2, 3 reais. Mas nunca a coleção inteira, e nunca em bom estado.

Com a chegada do Mercado Livre passei a procurar por ela com alguma regularidade. Mas as que apareciam eram sempre esculhambadas, degradadas em excesso pelo tempo, ou excessivamente caras. A essa altura os livreiros entenderam que só quem procura por esses livros é gente nostálgica que quer recuperar um pedaço de sua própria infância e que, naturalmente, está disposta pagar mais por isso; só não entendem que nenhuma infância vale o preço que eles passaram a cobrar, criança é bicho chato que só merece cascudo. Além disso, eu nunca quis a coleção completa. Queria apenas os trinta primeiros.

E então, no fim do ano passado, apareceu uma coleção incompleta, mas com todos os volumes que eu queria em excelente estado e mais uns 15 de lambuja, pelos quais não me importaria em pagar.

Feliz Natal, Rafael.

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Anos atrás, falando dessa coleção aqui no blog, um post comparando-a à Coleção Vagalume gerou uma pequena polêmica, desnecessária. As pessoas ficam ofendidas quando você não liga para algo que lhes é importante, exigem um respeito indevido; se eu disser que Anitta é lixo, o que eu sinceramente acho, vai aparecer alguém para falar da minha estupidez, do meu preconceito, do meu elitismo, do meu mau gosto. Nada contra a Vagalume (li quase todos os publicados até o início dos anos 80, e alguns, como “Cabra das Rocas”, são excelentes), mas não dá para comparar Marcos Rey a Alexandre Dumas, mesmo aguado para crianças. Revendo a coleção, passando os olhos em todos eles para reencontrar palavras velhas conhecidas, essa certeza aumentou. Dei sorte de ler esses livros quando era criança. Se tem algo por que devo ser grato é pela chance de passar a infância em meio a essa coleção. A literatura moderna só existe por causa de livros como esses. O século XX viu se esgotarem as possibilidades do grande romance, e foi forçado a ir além, a lidar com outras formas de contar uma história, porque autores como Dickens, Dumas ou o Balzac que não está aqui contaram o que havia para ser contado. Proust, Mann levaram o romance adiante por falta de opção, porque livros como os livros desta coleção já tinham sido escritos. Posso apostar que Joyce só escreveu Finnegan’s Wake porque Cooper já tinha escrito “O Último dos Moicanos”.

Mas há um outro aspecto que me chama a atenção. Passar os olhos sobre essa coleção, se me traz de volta à infância, também mostra que vivo em outro tempo.

O fato é que, parcialmente graças a esses livros, boa parte os meus referenciais estiveram sempre no passado, e o faroeste sempre foi mais interessante para mim do que, por exemplo, ficção científica — mesmo os livros de Verne faziam parte do passado. Por isso não me interessei por “Aventuras de um Petroleiro”. A II Guerra Mundial ainda era muito recente, havia acabado menos de trinta e cinco anos antes; para que se tenha ideia, é menos tempo do que o que se passou desde que aquela caixa de livros chegou lá em casa. E este é um mundo totalmente diferente. Daqui a pouco se comemora o centenário da invasão da Polônia pela Alemanha. Veteranos da II Guerra, se ainda existem, não estarão vivos em quinze anos, e nenhuma informação nova poderá ser produzida, e a guerra que definiu o mundo em que cresci será algo que definitivamente ficará no passado, congelado para sempre. As bancas em que esses livros eram vendidos vivem hoje seus últimos dias, desaparecem uma a uma como lemingues se jogando de um penhasco.

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Infelizmente os livros que comprei não têm mais o cheiro dos que minha avó me mandou mais de 40 anos atrás, e do qual ainda lembro. Mas reconheço cada um deles. Sempre soube de cor a ordem de cada livro, e há uma série de nomes, como Miécio Tati (que ainda hoje pronuncio Táti) Marques Rebelo, Carlos Heitor Cony, Herberto Salles, Paulo Mendes Campos, Virginia Lefèvre, até mesmo Orígenes Lessa, que conheci ali e que foram meus amigos de infância. Eram os responsáveis pelas adaptações. Alguns deles sabiam até onde ir em termos de supressão de informações — Miécio Tati, por exemplo, adaptou “O Conde de Monte Cristo” e retirou de maneira bastante sutil as referências à homossexualidade da filha de Danglars; Oswaldo Waddington julgou melhor não nos informar que Emily foi seduzida por Steerforth em “David Copperfield” e virou puta. Outros não: Herberto Salles omitiu a morte de Beth em “Mulherzinhas”, e não havia necessidade disso.

A internet me mostrou que não fui o único a ser profundamente influenciado por esses livros. Uma moça dedicou um blog inteiro a eles.  Dia desses o Sergio Leo, numa discussão no Facebook sobre o racismo de Monteiro Lobato (discussão para mim excessivamente adulta e acadêmica, porque tenho a impressão de que crianças hoje se interessam tanto por Monteiro Lobato quanto por Huckleberry Finn), falou da coleção. E um repórter da Globo, em suas aparições em casa durante a pandemia, ostentava orgulhosamente esses livros em lugar de destaque na sua estante.

Já vi internet afora gente lamentando que esses livros deveriam ser republicados. É bobagem. As pessoas já não se interessam por eles, eles dialogam com outro tipo de sensibilidade, e com outro tempo. A coleção, por exemplo, traz dois livros de Zane Grey, e não foram poucas as vezes em que, caindo de algum cavalo, me imaginei um Nevada ou um Ben Ide em dia de pouca sorte. Muitos dos seus livros de faroeste ainda estão no prelo nos EUA, mas eu realmente não compreendo que uma criança brasileira hoje tenha algum interesse nisso. Esse mundo não lhes pertence mais, eles seguiram adiante. Videogames, redes sociais e maratonas de séries na Netflix vêm antes de livros; e se os leem, garanto que preferem Harry Potter ou Percy Jackson a mosqueteiros seiscentistas usando talabartes e espadas.

Em algum momento, imaginei que deveria ter esses livros para que meus filhos os pudessem ler. Vã esperança. Como eu disse, eu não esperava que o mundo continuasse girando e as pessoas perdessem o interesse por coissa de duzentos, trezentos anos atrás. Quer dizer: ninguém, não. Só eu, bobo a ponto de comprar de novo aqueles livros que li na infância, apenas para poder passear pelas suas páginas, e reencontrar a infinidade de pedaços de texto que nunca esqueci.

Revisionismos

O Edilson publicou, no Facebook, um texto de autor desconhecido sobre a natureza positiva dos super-heróis. Lá vai:

  • X-Men é sobre direitos civis. Se você não percebeu isso, não entendeu X-Men.
  • Pantera Negra é sobre direitos civis. Se você não percebeu isso, não entendeu Pantera Negra.
  • Capitão América literalmente enfrentou nazistas. Ele é a personificação da luta contra a extrema-direita. Se você não percebeu isso, não entendeu Capitão América.
  • O Império em Star Wars é fascista. A Aliança Rebelde é antifascista. Se você não percebeu isso, você não entendeu Star Wars.
  • O Justiceiro não foi feito para ser um modelo para a polícia ou Forças Armadas. Seus roteiristas o fizeram falar claramente contra isso em suas revistas. Se você não percebeu isso, você não entendeu o Justiceiro.
  • Deadpool é queer. Ele é pansexual. Fato. Se você não percebeu isso, não entendeu Deadpool.
  • Star Trek é sobre igualdade entre todos os gêneros, raças e sexualidades. Já em meados dos anos 60, a série adotava uma postura pró-escolha e defendendo o direito de escolha das mulheres. Um de seus temas mais claros é aceitar diferentes culturas e aparências e trabalhar juntos pela paz. (Também é anticapitalista e pró-vegana). Se você não percebeu isso, não entendeu Star Trek.
  • Superman e Supergirl (e vários outros super-heróis) são sobre imigrantes. A posição desses quadrinhos é pró-imigração e pró-igualdade e aceitação. Se você não percebeu isso, você não entendeu Superman ou Supergirl.
  • Stan Lee disse: “O racismo e o fanatismo estão entre os males sociais mais mortais que assolam o mundo hoje”. Se você é fanático ou racista, não entendeu nenhum dos personagens que Stan Lee criou.
  • As histórias com as quais crescemos nos ensinaram a valorizar outras pessoas e culturas e valorizar as diferenças entre nós. Somente os vilões eram xenófobos, sexistas, racistas ou totalitários. Não consigo entender como alguém poderia não ter percebido isso.
  • Se você está chateado por haver um Homem-Aranha preto, ou um Capitão América preto, ou uma Thor, ou que a Miss Marvel seja muçulmana, ou que a Capitã Marvel seja pró-feminismo ou qualquer outra coisa que os “fãs” de direita dizem, como ”estarem roubando a minha infância” – você nunca entendeu isso, em primeiro lugar. As coisas que você alega que estão agora “cedidas aos esquerdistas” nunca estiveram do seu lado, para começar.

Se você se considera um fã dessas coisas, mas ainda acha que a comunidade LGBTQ + está muito “na sua cara”, ou tem um problema com o Black Lives Matter, ou deseja “tomar o país de volta dos imigrantes”, então você não é realmente um fã.

A cultura nerd não se tornou de repente de esquerda… sempre foi sobre igualdade. Você foi ensinado a ser intolerante. Você se tornou o vilão nas histórias que costumava amar.

E o que eu queria dizer é: quanta bobagem.

Super-heróis podem ser sobre o que se quiser que eles sejam, porque são obras de ficção em construção permanente. Vão, necessariamente, refletir o seu tempo e os valores da maioria. Mas tentar dar a eles uma natureza intrínseca a partir de um tempo específico é uma grande forçação de barra.

Acho que nada pode simbolizar isso como Star Trek. O autor desconhecido tem toda a razão sobre a série original. Era isso mesmo, e refletia o zeitgeist dos anos 60. Mas a última releitura, disponível na Netflix, é completamente diferente. Está centrada nas conquistas individuais da personagem principal — uma mulher negra —, refletindo o individualismo dos nossos tempos e uma consciência identitária que se torna, aos poucos, mais sólida.

No fundo, super-heróis são basicamente sobre oportunidades de mercado. Há um mercado de meninas que não tem um personagem com quem possam se identificar? A Mulher Maravilha vai nos redimir. Bandas de rock tomaram a juventude de assalto? Olha os Jovens Titãs aí, gente. O movimento pelos direitos civis está crescendo? Vamos criar personagens para esse nicho. No caso do Pantera Negra, nunca vi um rei multibilionário sem todos os direitos civis, militares, sexuais e siderais que quiser. É bom lembrar que muito mais próximos do movimento negro estão Luke Cage e o Falcão — estes, sim, sempre lidaram com essas questões. O Pantera era um americano rico numa América africana, só mudava a cor.

Dizer que somente os vilões eram “xenófobos, sexistas, racistas ou totalitários” é desconhecer a história desse tipo de quadrinhos. Ou melhor, é fazer uma leitura parcial das coisas, em que se seleciona os valores que se quer impor sobre o passado. De modo geral, eles até se enquadram no combate ao totalitarismo, porque essa sempre foi a mensagem básica da democracia capitalista americana, e racismo declarado nunca foi bem aceito no mainstream. Quanto ao resto… Lembrei agora do Aranha esculhambando os ativistas universitários na NYU, fazendo libelos contra o uso de drogas — ou o Superman sempre salvando a Lois Lane que insistia em fazer “coisas de homem” (como ser uma repórter infinitamente superior a Clark Kent) e sempre quebrava a cara.

O mais absurdo, no entanto, é essa história sobre “Super-Homem imigrante”. Isso só pode ser sacanagem, não há outra explicação. Porque se Kal-EL é imigrante, é um sueco multibilionário e super-armado numa aldeia de pigmeus. É para comparar mesmo com os haitianos na Av. São João ou os bolivianos nos ateliês de costura? E não custa lembrar que o sujeito, desde o início, foi um baluarte do american way.

O Capitão América enfrentou nazistas, é verdade. Foi criado para isso. A verdade, no entanto, é que até o Batman enfrentou nazistas. A velhinha racista, matadora de índios e exploradora de mexicanos no Wyoming, ao seu modo, enfrentou nazistas comprando war bonds. Mas bastou a guerra acabar e o bom e velho Capitão passou a descer o cacete nos comunistas, enquanto nas horas vagas Steve Rogers era um professor dedicado a extirpar das universidades americanas a ameaça vermelha. Morasse no Brasil nos anos 70 e seria informante do SNI.

Essa do Justiceiro é barra pesada. Porque ele simboliza tudo que há de ruim na cultura americana de violência e o libertarianismo com sua negação da necessidade do Estado. É bom lembrar que nasceu como vilão nas revistas do Aranha. O fato de ser alçado a herói (assim como o Venom, embora este representa um aspecto moral enquanto o Justiceiro é claramente político) é sintoma de uma banalização da violência e de uma desmoralização do Estado que devia nos preocupar.

E me desculpem pelo que vou dizer: não acompanho quadrinhos novos há tempos, mas não acho que seja tão simples dizer que um Aranha negro me incomoda pelas razões apontadas aí. Perdi interesse no Aranha quando ele foi substituído pelo Ben Reilly. O problema é que Parker sempre foi tão ou mais importante quanto o Aranha; simplesmente não dá para pegar a essência do personagem e mudar. Fingir que não se entende isso,em nome de uma luta identitária, é simplesmente má fé.

Muito melhor é fazer o que se tem feito: valorizar adequadamente personagens negros como Luke Cage ou o Pantera Negra. E por favor, botar a Capitã Marvel nesse bolo é complicado, porque ela sempre foi feminista. Não sei se ainda é a Carol Danvers, mas nos anos 70 era já era uma mistura bem adequada de Superman e Lois Lane.

Isso está pior que o revisionismo de Kruschev.

Saudades da Editora Abril

Vi há um tempo uma matéria antiga falando do suicídio da Editora Abril, escrita pelo Thales Guaracy. Ele conta das opções equivocadas, do gerenciamento caótico que levou a editora a um fim melancólico. A incompetência dos herdeiros de Roberto Civita já tinha sido matéria para muito mais gente, crônica de morte anunciada ao longo desses anos em que o fim da Abril vinha sendo dado como inevitável.

Eu acompanhei a sua agonia. Quando anunciaram o cancelamento dos títulos da Disney era óbvio que o fim estava próximo, porque “O Pato Donald” era uma espécie de talismã do fundador Victor Civita e um símbolo importante do que a editora representou um dia. Depois vi o cancelamento de outros tantos títulos importantes, como a Casa Cláudia. Finalmente vi a editora ser vendida por quaisquer mil-réis, seus títulos entregues a outros como os filhos de um retirante, e a Veja circulando com uns anunciozinhos pingados em suas páginas, sombra pálida do que foi em outros tempos e muito inferior às suas concorrentes, hoje.

Não dá para dizer que é injusto, porque em seus últimos anos a Abril decidiu errar a mão na mistura possível de jornalismo e política. Chegou a ser mais vilificada que a TV Globo, especialmente por causa da guinada em direção à extrema direita e ao não-jornalismo dado pela Veja. Não foi pouca gente que comemorou a derrocada e venda da editora.

Eu não estava entre eles porque sempre achei que as coisas nunca foram assim tão simples, e a disputa política acaba obscurecendo um fato muito simples: a Editora Abril foi, talvez, a editora mais importante do país.

As pessoas gostam de falar da Companhia das Letras ou da CosacNaify, ou de alguma outra que esteja na moda hoje ou seja grande o bastante para angariar simpatias. Nenhuma delas tem a importância da Abril na história deste país.

Ela fez ao menos tanto pela alfabetização de milhões de brasileiros quanto o Mobral; provavelmente mais. De lambuja, junto com a Globo, deu lá sua contribuição ao processo ainda incompleto de definição de uma identidade cultural brasileira, que abrangesse o país todo como um fator comum e se sobrepusesse ao regional, dando sequência a um projeto nacional iniciado durante o Estado Novo.

Victor Civita, judeu ítalo-americano, começou a Abril com uma revista que não deu certo, “Raio Vermelho”. Pouco depois, lançou “O Pato Donald”, porque seu irmão Cesar já tinha os direitos de publicação da Disney na Argentina. A editora se virou por algum tempo, expandiu o número de títulos aos poucos, deu sorte com fotonovelas, e nos anos 60 passou a crescer em ritmo vertiginoso.

No final da década de 70 a Abril vendia quatro milhões de revistas em quadrinhos por mês; Tio Patinhas, por exemplo, vendia 500 mil exemplares. E tinha o que se poderia considerar as melhores revistas adultas do país. Veja, Exame, Placar, Cláudia, Quatro Rodas, Nova, Playboy.

Mas seu grande papel na história do país não está aí. Ele começou, mesmo, com a decisão que salvou a editora: publicar enciclopédias em fascículos e coleções de livros nas bancas, no final dos anos 60, seguindo um modelo que dava certo na Itália.

Isso não fez dela apenas a maior editora do país, uma terra em que edições de livros raramente passavam dos três mil exemplares. Com os fascículos, a Abril possibilitou a centenas de milhares de famílias o acesso à cultura. Porque uma coisa era o sujeito coneguir, sei lá, 1000 cruzeiros para dar numa Barsa, numa Mirador. Outra era comprar, a cada semana ou quinzena, mais um fascículo da enciclopédia tal e qual por cinco ou dez cruzeiros. Num país que praticamente inventou o cheque pré-datado, isso era o paraíso. Conhecer, Novo Conhecer, Enciclopédia do Estudante, Informática, Nosso Século: qualquer pessoa com mais de quarenta anos consegue lembrar imediatamente de várias enciclopédias lançadas pela Abril.

Além disso, as tantas coleções de livros que ela lançou ao longo de sua história levaram o melhor da literatura mundial e brasileira a uma infinidade de casas. A coleção Imortais da Literatura Universal, reempacotada em diversos formatos ao longo das décadas, ainda hoje é respeitável. A Grande Sucessos, dedicada à literatura do século XX,  lançou no Brasil “A Sangue Frio”, de Capote. As coleções Mistério e Série Mistério e Suspense não devem nada à insuperável Colecção Vampiro. Virtualmente toda área da cultura foi abordada pela Abril em suas coleções: Teatro Vivo, Os Pensadores, Os Economistas, tantas outras. E a Clássicos da Literatura Juvenil merece mais um post neste blog.

Sem falar nas tantas coleções de discos, da Taba à Gigantes do Jazz, passando pela ópera e pela MPB.

Hoje os sebos do país estão repletos de coleções da Abril, inúteis como jornal de ontem, acumulando poeira em suas estantes. As enciclopédias porque perderam sua função; os livros porque, por serem edições de massa, são descartados como sem valor quando seus donos morrem. Mas isso dá uma ideia bem aproximada da grandiosidade desse projeto cultural.

Para mim, ela era essencialmente duas coisas: a editora das melhores e mais bem cuidadas revistas, fascículos e livros que eu podia comprar numa banca e uma espécie de companheira de infância e adolescência. Faço parte da última geração a crescer com os quadrinhos Disney.

Nos anos 80, a Abril deu uma dignidade às revistas da Marvel e da DC que as editoras anteriores, como Cruzeiro, Bloch e Ebal jamais conseguiram dar — embora uma certa elite acostumada a quadrinhos importados, já naquela época, reclamasse do que chamavam “formatinho”, da demora na publicação de histórias, disso e daquilo. A minha vontade, cá nos ermos de Lampião, era de enfiar a porrada na cara desses playboys, porque eu ainda lembrava das revistas da Ebal. Obviamente, eu mal fazia ideia de que esse tipo de coisa só ia piorar nas décadas seguintes.

A Bizz apresentou para um bocado de gente as novas tendências em música. Era uma revista canalha, típica do pior que a cultura paulista pode oferecer, um provincianismo deslumbrado e colonizado, e que contava com articulistas cuja ética profissional era mais rarefeita que o vácuo sideral. Mas para quem morava longe dos grandes centros, era uma referência importante. Tem tanta coisa de que ouvi falar primeiro na Bizz: REM, Jesus and Mary Chain, umas coisas aqui e outras ali. Até mesmo coisas de que só ouvi falar, mesmo, mas que não ouvi porque nas rádios daqui isso não tocava e eu não tinha interesse em ir atrás.

É por isso que não consigo ter raiva da Abril. Pelos quadrinhos Disney, pela unificação dos quadrinhos da Marvel e DC, pelos livros que comprei em bancas. E a verdade é que morro de saudades da Veja.

Não tenho a mínima vergonha de dizer que tenho saudades daquela revista canalha. Nunca foi um grande padrão de notícias, é verdade. Uns anos atrás, com algum tempo livre, saí procurando notícia sobre os Beatles em seus arquivos e fiquei impressionado com a imprecisão, com o diz-que-diz repetido em suas páginas, com os boatos falsos impressos em suas páginas. E isso nos anos 70.

Mas ela foi, durante muito tempo, a melhor revista semanal do país, e não à toa sobreviveu a tantas outras: Cruzeiro, Manchete, Fatos & Fotos, Agora, Amanhã, Visão. Até hoje, sempre que ponho as mãos em uma, e mesmo odiando as mudanças a que o tempo lhe obrigou — tipologia, adequação a um mundo com fotos grandes e textos menores, entre umas tantas outras —, ela traz uma sensação de familiaridade que nenhuma outra revista pode trazer para mim. Me sinto à vontade lendo a Veja porque foi ela a revista que mais li durante muito tempo.

Em uma de minhas fotos mais antigas, eu estou “lendo” uma Veja. Mais tarde, ainda criança mas já desasnado, lia a revista com certa frequência — aqueles bons tempos em que a gente só lia o que interessava, no meu caso principalmente as notícias sobre livros e filmes. Depois, já trabalhando, a Veja era uma das revistas fundamentais para se ler toda semana. Não há como não sentir saudades.

Mas por mais variada que tenha sido a atuação da Abril, agora que tudo acabou e ela é uma sombra do que foi, longe dos Civita e sem nada da personalidade que tinha em seu fastígio, é curioso ver que sua glória e decadência acompanharam a trajetória dos quadrinhos Disney.

O fim começou bem antes da internet. Segundo “O Homem Abril”, do Gonçalo Júnior, Roberto Civita identificava o início do fim no momento que a Censura Federal liberou a nudez total nas revistas masculinas, em 1980. A queda nas vendas foi imediata. Ali as revistas em quadrinhos perderam o público adulto. Mas a decadência continuou e se acentuou ao longo das duas décadas seguintes por mais razões. A ampliação do número de casas com televisão, o surgimento do videogame e depois da TV a cabo, até mesmo o aumento da violência urbana que fez com que as crianças deixassem de ir sozinhas às bancas de revistas, a necessidade de escala da Abril, tudo isso foi destruindo as vendas das revistas em quadrinhos. A Turma da Mônica sofreu menos, ancorada em um bom esquema de assinaturas e com a mudança para a Editora Globo. Finalmente veio a internet, o apocalipse da mídia impressa.

Em dezembro de 1979 havia 85 títulos de revistas, de todas as editoras, nas bancas. Em dezembro de 2018 havia 279. Pelos números pode-se pensar que o mundo melhorou muito. Mas duvido que a tiragem do conjunto dessas 279 revistas chegue a pelo menos metade dos quatro milhões que só a Abril, com 29 daqueles 85 títulos, tirava.

A Abril pertence a um outro mundo, que a internet enterrou. Recentemente, dando uma volta na zona norte de Aracaju, notei algo que nunca havia percebido antes: não há mais bancas de jornal ali.

Na zona sul elas também são cada vez mais raras. Umas poucas resistem, uma luta inglória já condenada ao fracasso, e não acredito que revistas continuem sendo sua principal mercadoria. A banca de Florêncio, onde décadas atrás eu tinha conta, hoje vende frutas e verduras. Bancas de revistas pertencem a um passado cada vez mais distante. Como a editora Abril.

Síntese

Pipocando, nas redes, artigos questionando o modelo de trabalho do capitalismo.

Resumindo da maneira mais grosseira possível a dialética marxista, um problema só aparece quando a solução já existe.

Resta saber se o pessoal está realmente a fim de encarar o modelo social e de trabalho chinês.

Daniel Boone

Entre as coisas boas da quarentena está assistir a episódios de “Daniel Boone” com a minha mãe.

Não apenas por passar esse tempo vendo a véia adivinhar os finais dos filmes. Mas porque assistir a “Daniel Boone” é sempre um prazer enorme, que raramente pode ser compartilhado.

Durante anos fui a única pessoa que se lembrava de alguns seriados antigos, como “Daniel Boone” e “Joe, o Fugitivo”. A internet veio me mostrar que eu não estava sozinho. Escrevi sobre o seriado uma ou duas vezes aqui, e esses são daqueles posts que receberam, ao longo dos anos, centenas de comentários, cada um deles provando novamente que durante muitos anos estive errado, eu não era o único a lembrar.

Rever os episódios agora — dublados, óbvio, porque não existe “Daniel Boone” sem a dublagem da AIC, não para mim — me faz lembrar que, em 1979, a TV Aratu exibia o seriado a partir das 11:45. Eu voltava da escola ansioso para assisti-los. Durante mais de um ano, uma eternidade quando se tem 8 anos, assisti a todos os episódios que pude do seriado, inclusive da tal primeira temporada que dizem nunca ter sido reexibida no Brasil depois dos anos 60, o que apenas mostra que quem escreveu isso não entendia como as TVs funcionavam antes das antenas de satélite se espalharem pelo país.

Ultimamente tenho pensado no quanto esse seriado me influenciou na época. Difícil saber. O que sei é que durante anos eu quis ter um chapéu de raccoon. Na verdade ainda quero, a única diferença é que não sairia à rua com ele. Lembrei também que, com meus revólveres e espingarda de espoleta, varri da Barra os casacas vermelhas (você já viu um soldado inglês com túnica vermelha e mosquete na Barra? Pois é, eu fiz um bom trabalho). Meses mais tarde, ganhei uma faca de caça e uma bússola, e explorei os areais e arbustos de Itapuã como se estivesse me escondendo de shawnees. Os areais não existem mais, foram soterrados pela especulação imobiliária. A criança também não existe mais, ou está escondida esperando dias melhores para voltar.

O tempo passou e vieram outros seriados. Mas olhando para trás, com a falsa sabedoria que os anos me deram, acho que nenhum foi tão importante quanto “Daniel Boone”. Não que eu conheça bem o mundo dos seriados mais modernos, com umas poucas exceções; mas tenho a impressão de que, mesmo se conhecesse, não faria diferença. Não existem mais seriados como aquele: feitos para toda a família, seguindo uma série de normas e tabus e o que jovens rebeldes chamariam de hipocrisia, enquanto vendem valores tão paradoxais quanto honra, honestidade e altruísmo de um lado, e do outro a justificativa da invasão e roubo das terras dos índios; aliás, nem mesmo índios existem mais, inventaram uns substitutos para eles chamados nativos americanos. Por tanta coisa, por tanta água passada debaixo da ponte, um seriado como esse seria inviável hoje em dia, ao não condenar peremptoriamente a expansão inglesa no território americano, ao não incluir a devida proporção de negros e gays, ao não inventar mulheres protagonistas em outro tempo histórico, porque o diálogo a ser feito é com dias bem diferentes.

Pois é, ultimamente tenho pensado nessas coisas.

Assistir a esses episódios me faz lembrar também que, para mim, o YouTube é a grande maravilha da internet. Essa invenção dos diabos, essa tal de internet deu ao mundo coisas ruins e deletérias como o Facebook e o Twitter e é a causa de um mal-estar civilizatório geral, e vai demorar muito tempo até a humanidade conseguir usar essas ferramentas de maneira minimamente racional. Mas deu também o YouTube. Eu não paro de me impressionar com o acervo que as pessoas disponibilizam nele. É a melhor coisa a assistir num aparelho de TV hoje, muito melhor que qualquer Netflix na vida. Nos últimos anos, assisti a coisas inimagináveis: seriados que assisti há décadas, desenhos de que já não lembrava, capítulos finais de novelas que 40 anos atrás eu odiava, comerciais inesquecíveis, tutoriais de quase tudo.

Uns anos atrás, em Miami, assisti num desses canais de TV aberta a um episódio de “Ilha da Fantasia” que tinha visto em 1980, e que tinha me ensinado que havia existido uma sujeita chamada Mata Hari. Foi uma surpresa agradável. Mas o fato é que no mundo analógico e unidirecional em que cresci e do qual nunca saí completamente, demorou 34 anos para ver aquilo de novo, e mesmo assim por acaso. Isso me lembra que cresci numa época em que momentos como esse eram raros e, talvez por isso, mágicos. O YouTube torna isso quase normal, fácil, realiza o sonho de criança de muita gente — ao mesmo tempo em que tira quase toda a sua importância.

Venho de um tempo em que essa universalidade da oferta não existia. Se você perdesse um episódio do seu seriado favorito, um capítulo de sua novela predileta, dificilmente poderia assistir a ele em outra ocasião. Isso acabou, mas eu sou um filho do meu tempo, e assim me dou ao direito de me maravilhar a cada edição do Globo Rural que assisto no Globoplay. E a cada episódio de “Daniel Boone” que alguém disponibiliza no YouTube.

Assistir a “Daniel Boone” e aos aforismos pseudo-índios de Mingo me faz lembrar também que escrevi aqueles posts há 15, 10 anos. De lá para cá, tanta coisa mudou. Fess Parker morreu, até a Patricia Blair morreu. Incrivelmente, além do Darby Hinton e da Veronica Cartwright, mais jovens, está vivo Ed Ames — embora não por muito tempo, aparentemente. Mais um indício mal-vindo de que o tempo passou. A mulher de cabelos de fogo como a palha do milho que eu cobiçava na flor dos meus 8 anos morreu em 2013, aos 80. O homem que certamente foi um modelo para mim morreu antes e ainda mais velho. Isso me faz ter consciência de que o tempo está passando. E me faz lembrar de coisas não tão boas.

“Daniel Boone” é referência para parte da minha geração e da geração anterior à minha. Gente que viu o seriado como hoje assistem a Walking Dead, às vezes como “televizinho”, na maior parte das vezes em TVs preto e branco. Fazem parte de um tempo que, a cada nova descoberta, a cada nova tecnologia, parece mais e mais distante, até pré-histórico.

Essas pessoas, assim como eu, hoje têm mais tempo para trás do que pela frente. Elas vão desaparecer, pouco a pouco. E é aí que toda essa tecnologia nova, que me permite o resgate de algo tão velho, se mostra anacrônico, quase patético. É possível que todo esse material que colocaram na internet sobreviva, que continue aí enquanto o coronavírus não nos mata a todos. Mas breve não vai ter mais função, porque as pessoas não estarão mais interessadas em “Daniel Boone” ou “Sítio do Picapau Amarelo” ou “Túnel do Tempo”.

Talvez essa seja uma das razões por que, nesta quarentena meia boca, eu goste tanto de assistir a “Daniel Boone” com minha mãe. Porque por 50 minutos voltamos 40 anos no tempo, e assistimos a um tipo de filme que não se faz mais, e isso congela o tempo e o faz eterno, imutável.

Numa quarentena, eu não preciso de muito mais que isso.

Get Back

Em algum momento deste ano, provavelmente setembro, a Apple Corps. lançará um documentário feito a partir das dezenas de horas de negativos do filme que nasceu para a televisão como Get Back e acabou nos cinemas como Let it Be. Pelo menos por enquanto, se chama The Beatles: Get Back.

Devo ter escrito mais sobre o Let it Be neste blog do que sobre qualquer outro aspecto dos Beatles.

Resumindo o que já escrevi: Let it Be é um dos filmes mais chatos da história. O diretor Michael Lindsay-Hogg não tinha o talento nem a experiência necessários para conseguir tirar algo realmente bom de uma banda em franco processo de desintegração. O filme original já foi restaurado há muito tempo, mas uma série de questões, principalmente pessoais, impediram o seu relançamento. O disco que acompanhou o filme só não é o pior dos Beatles porque tem algumas de suas melhores canções, mas é mal produzido e em nenhum momento consegue realizar nem a visão original, crua, básica, nem atender ao padrão cafona e superproduzido de Phil Spector, que foi chamado para consertar as coisas. O álbum Let it Be… Naked, lançado em 2003 como uma tentativa de McCartney dar a última palavra para restaurar a “visão original” do disco, não fez nada para melhorar a situação, sendo provavelmente o pior dos caça-níqueis lançados a partir de 1994.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção no filme é que a história que ele contava, no fundo, era uma história otimista, de superação pela música. Fosse outro o desenlace da história e ele mostraria como uma banda em crise se reuniria nos estúdios de Twickenham, onde o frio das almas era ainda maior que o do estúdio, ganharia nova vida ao se mudarem para os estúdios da Apple, e terminaria na apoteose do show no telhado, onde o futuro se mostraria quente e ensolarado porque, para aqueles quatro sujeitos, a música nos salvará a todos.

Mas a banda acabou ainda antes do lançamento do filme, e Let it Be se tornou um epitáfio melancólico e mal feito, indigno do que tinha sido a maior e mais influente banda de rock de todos os tempos.

O tempo passou e nos últimos anos os Beatles e suas viúvas, sentindo o bafo da indesejada das gentes cada vez mais quente em suas nucas, vêm se empenhando em consolidar e deixar para a posteridade sua versão de sua própria história. A série Anthology nos anos 90, retomada de um projeto iniciado por McCartney ainda antes do fim da banda, foi o primeiro passo. Eight Days a Week, o documentário medíocre dirigido por Ron Howard e lançado em 2016, foi mais um tijolo nessa construção, e o mais radical: fingiu que Pete Best não existiu, deu aos Beatles uma importância histórica maior do que a que realmente têm, e o resultado foi quase um conto de fadas, que jogou para baixo do tapete tudo o que havia de ruim na carreira dos Beatles até aquele momento.

De certo modo, é um esforço compreensível, embora se possa questionar sua honestidade, justamente uma das maiores qualidades da banda.

Faltava decidir o que fazer com o Let it Be. Meio século de distância, tempo mais que suficiente para apaziguar mágoas, apagar muitas das más lembranças e fortalecer as boas, e a necessidade de fazer a caixa registradora tilintar garantiram a retomada do projeto. Não é nenhuma surpresa, claro: todos sabiam que, mais cedo ou mais tarde, o Let it Be seria relançado.

Sempre achei que a Apple deveria entregar os rolos para Martin Scorsese e deixá-lo recontar a história. Scorsese, que acima de tudo ama rock and roll, saberia reeditar aquele material e lhe dar uma narrativa coerente e o drama necessário para torná-lo interessante.

Mas as coisas não saíram bem assim. Em vez de simplesmente relançar o Let it Be, resolveram fazer um novo filme. No lugar de Scorses, a Apple preferiu Peter Jackson, provavelmente porque terá mais controle sobre o produto final. A julgar por They Shall Not Grow Old, seu belo documentário sobre a I Guerra Mundial, Jackson pode fazer um bom trabalho, algo que transcenda o interesse apenas aos fãs. Mas a essa altura é bom não fazer apostas. A possibilidade de sair algo chapa branca e quase irreal é muito, muito grande.

É quase certo que o novo filme mostrará, em sua quase totalidade, rostos cordiais sorrindo enquanto fazem música. Os estúdios de Twikenham se transformarão em um ambiente cálido, cheio de amor entre quatro irmãos que amam a música que fazem. Eu não duvidaria que, no final, saiam todos voando em direção ao céu, como em “Milagre em Milão”.

Por um lado, isso não é tão ruim quanto parece ser. Eles podem estar tentando adocicar a história dos Beatles, mas é inegável que ela foi prejudicada pelo fato de John Lennon ter sido o seu principal narrador. Como lembrou Ian MacDonald, Lennon se comportava quase sempre como o pecador arrependido, olhando para trás com vergonha ou, no mínimo, iconoclastia. Em entrevistas como a da Rolling Stone em 1970, Lennon destilou ódio e ressentimento contra a banda e principalmente McCartney, inclusive às vezes mentindo descaradamente (o que ele admitiria em suas últimas entrevistas). Lennon dizia sandices como a parceria ter acabado em 1964 (refletindo a mágoa com o fim dela, no fundo), ou que o melhor trabalho da banda foi realizado no início, tocando ao vivo, e sequer fora gravado (refletindo, por sua vez, a ascensão de McCartney como motor dos Beatles). Apenas o carisma descomunal de Lennon justifica que tanta gente tenha acredito no que eram mentiras óbvias.

Depois da morte do ex-parceiro, McCartney passaria a vida tentando contrapor essa narrativa, ao limite da cretinice. Primeiro reafirmando o seu papel na banda, reivindicando parte da glória que ele acha que lhe foi injustamente tirada e tentando se livrar de duas décadas de ataques quase sempre injustos da crítica. Depois, mais velho e mais seguro, consolidando a versão de uma banda que, acima de tudo, se amava profundamente.

Como todo mundo, não faço ideia do que será esse documentário. Será uma remontagem do Let it Be? Um documentário com narração em off? Terá a participação dos remanescentes como a série Anthology? Permitirão que Yoko Ono tenha voz, o que não fizeram até agora? Ninguém sabe.

Sei apenas o que eu faria: um documentário sobre a feitura do filme, em duas partes de duas horas. Com narração em off e sem a participação dos quase octogenários ex-beatles. Tentar acompanhar de maneira linear os acontecimentos daquele mês — os conflitos, as tentativas de fazer música, a saída de George, a volta aos estúdios da Apple, as discussões sobre o passado e o futuro da banda, os preparativos para o show no telhado — certamente daria o que falta em densidade narrativa. E certamente tentaria equilibrar os maus momentos (como este, que dificilmente será mostrado) com os bons.

***

A parte musical promete ser mais interessante.

É certo que vão relançar o Let it Be remasterizado. Eu não gosto das remasterizações recentes da banda, acho que carregam demais nos graves, mas esse disco é talvez o único que merecia um trabalho realmente profundo. O Let it Be sempre soou estranho, abafado, e a remasterização de 2009 não conseguiu resolver esse problema. Só acho que poderiam relançá-lo com a capa da edição americana, dupla, com a maçã vermelha no selo, e com o livro que originalmente o acompanhava.

Mas essa é a chance de lançar também o Get Back original, com a capa que recriava a do Please Please Me e que simbolizava não apenas a evolução da banda, mas também o fim de seu ciclo.

E, principalmente, eu mergulharia nas centenas de gravações feitas naquele janeiro de 1969.

Há uma infinidade de gravações fantásticas, embora talvez pouco comerciais. Por exemplo, Get Haus (Get Back em algo que parece alemão), Get Back numa versão mais lenta e pesada (conhecida com Get Back Under Water), Get Back, I’ve Got a Feeling e I Lost My Little Girl cantadas por John e Maxwell’s Silver Hammer trucidada por ele, que desprezava a canção, uma demo de Gimme Some Truth (que tem participação de McCartney na letra), Eddie You Dog, Almost Grown, You Win Again, Madman a-Coming, e I Want You e I’m so Tired cantadas por Paul. Versões interessantíssimas de Two of Us, I’ve Got a Feeling, Oh! Darling em rimo latino, Suzy Parker, Bad Finger Boogie, Honey Hush, Gone, Gone, Gone, e Twenty Flight Rock e High Heeled Sneekers, Watching Rainbows, bobagens como On a Sunny Island, ultrajes como Negro in Reserve e When You’re Drunk You Think of Me e What’s the Ise in Getting Sober?, obviamente Commonwealth e No Pakistanis, Get Off (que daria em Dig It), Tennessee, Friendship (por irônica que possa parecer), Midnight Special. E, claro, fecharia com a versão de Love Me Do com Billy Preston nos teclados. Full circle, diriam eles.

Mas sou capaz de apostar que muito pouco disso verá a luz do dia, oficialmente. Eles devem fazer o que vêm fazendo: um bocado de outtakes medíocres das canções já lançadas. Por sorte, tudo isso está disponível em discos piratas, facilmente encontráveis na internet, e cada vez mais se espalha pelo YouTube.

De resto, let it be.

Elegia ao rock brasileiro

Nunca fiz segredo de que sempre considerei os anos 80 uma pausa civilizatória e não entendia o saudosismo que cercava aqueles tempos, visto aqui e ali internet afora.

Talvez eu não fosse velho o suficiente para sentir esse saudosismo, e nesse caso ainda não sou agora.

Havia um porém, no entanto, que sempre omiti: eu também considerava aquela a melhor década do rock brasileiro.

Ele tinha percorrido um longo caminho. É impressionante a mediocridade do rock brasileiro dos anos 60, com as exceções de praxe. Os valores de produção ajudavam muito a estragar as coisas, é verdade; produtores desacostumados aos padrões que vinham sendo burilados havia décadas pelo blues de Chicago e pelo rhythm and blues não sabiam direito como gravar aqueles instrumentos elétricos e barulhentos. Mas não era só isso. Musicalmente estavam sempre uns bons anos atrás do que se fazia no mundo anglo-saxão, e apenas em alguns momentos podia-se adivinhar ali a tradição melódica ibero-brasileira. Liricamente estavam abaixo de Love Me Do, dos Beatles, mesmo se descontarmos a mania de a ordem dos verbos trocar para as letras poderem assim rimar — o que é ainda mais impressionante quando vemos a sua pobreza.

Mas o rock já tinha se tornado o mainstream da música internacional e aqui não seria diferente. Passando por alguns bons momentos nos anos 70, o rock brasileiro chegou aos anos 80 suficientemente maduro para se tornar o gênero dominante na indústria fonográfica.

E então aquela geração conseguiu algo fantástico.

Os anos 80 foram a última década em que a juventude brasileira se expressou em uma única linguagem, e essa linguagem era o rock. Olhando em retrospecto, isso talvez tenha sido possível porque a periferia olhava de longe o show, a pobreza não tinha voz (se isso era bom ou não são outros quinhentos). Os meios de produção eram caros, e os de distribuição eram limitados; isso permitia que gravadoras, rádios e emissoras de TV definissem o que o país iria ouvir. Claro que mesmo então havia outras linguagens tentando se afirmar, e Thaíde e Racionais são exemplos óbvios. Fora do eixo Rio-São Paulo, havia movimentos novos como o axé music na Bahia, talvez mais válido em termos socioculturais do que propriamente musicais. Mas eram apenas nichos. A música daquela geração foi o que hoje chamam de Rock BR.

O rock conseguiu o que a Tropicália não conseguiu, por exemplo. Rico ou pobre, branco ou preto, era na música cantada por bandas como RPM, Paralamas do Sucesso, Titãs que aquela juventude se reconhecia e tentava passar sua mensagem para o mundo. Não que fosse grande coisa, que adolescência é uma das piores invenções do século XX; mas era um fenômeno importante que não se repetiria.

E justiça seja feita: mesmo inferior à tradição brasileira, era uma música com uma preocupação lírica maior do que hoje. Se comparadas a um tempo em que rebolar um rabo cheio de celulite virou arte e feminismo, e em que mediocridades desafinadas como Johnny Hooker se sentem no direito de criticar um Ney Matogrosso apenas porque compensam a ausência de talento pela adequação a um discurso político adequado, as letras do rock brasileiro dos anos 80 eram dignas de Bob Dylan.

Mas o tempo foi muito malvado com os roqueiros brasileiros dos anos 80 — pensando bem, não é com todos nós?

A mera passagem do tempo e a derrocada da indústria fonográfica fizeram com que uma geração inteira tivesse uma velhice menos admirável do que sua juventude e sucesso prenunciavam. Um integrante do Zero andou ganhando a vida por uns tempos em Aracaju — agora ele sabe. O Ultraje a Rigor virou uma oficina de estultícies e termina sua carreira como o Caçulinha de um dos comediantes mais medíocres e patéticos que este país já produziu, Danilo Gentili. Luiz Schiavon, do RPM, pelo menos durante algum tempo se tornou o Caçulinha ipso facto, tocando na banda que animava o Programa do Faustão.

A perversidade do tempo, no entanto, não é o bastante para explicar a deterioração ética desse pessoal.

Um dos fenômenos mais curiosos é a facilidade com que a maior parte deles, em idade provecta, passou a se espojar politicamente na direita. O número de relíquias dos anos 80 que passou a adotar posições que pareciam inimagináveis 35 anos atrás é impressionante, e não para de crescer.

Certo, há as exceções, e gente como Clemente, João Gordo e Leoni mostra que nem tudo foram espinhos. Mas de modo geral, aquele pessoal do rock envelheceu de maneira vergonhosa e reacionária.

A verdade é que, se alguém não entende como isso aconteceu, é porque não quer.

Nos EUA e na Inglaterra, as bases do rock eram populares. Nos EUA, o rock acabou sendo apropriado pela classe média branca e a indústria cultural da música leve negra, mas nunca deixou de lado a sua origem popular. Na Inglaterra, com um sistema de classes diferente, o rock tinha a mesma base social do hip hop brasileiro hoje: era uma juventude proletária que encontrou no skiffle, e depois no rock, um meio de expressão adequado e que o enriqueceu com a sua própria tradição musical.

Mas se nos EUA ou na Inglaterra o rock and roll era música de garotos pobres, a sólida tradição musical brasileira o relegou inicialmente a uma parcela de uma das elites mais vira-latas do mundo, sempre com os olhos fixos no que vem de fora, o mais longe possível do que lhe pareça popular. Do ponto de vista social, o equivalente musical do rock no brasil é a música brega: Odair José, Fernando Mendes, Carlos Alexandre. Gente que cumpre a profecia antropofágica oswaldiana e digere e regurgita aquilo que engole. Não foi à toa que o rock no Brasil se afirmou primeiro em São Paulo, terra de parcas referências musicais e provincianismo cultural que confunde com cosmopolitismo. No Brasil, o rock se transformou em música de menino rico empurrada goelas abaixo dos meninos pobres.

Essa equação, infelizmente, tem mais variáveis. No mundo inteiro, roqueiro tende a ser muito ignorante, e aqui não seria diferente. Parece achar que a única música que presta é o rock e raramente se aventura muito além dele. Nos anos 70, declaravam guerra à discothèque; nos anos 80, as revistas que eu lia estampavam orgulhosamente em suas capas que ali não entrava Menudo. É o mesmo pessoal que chama o dia em que Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper morreram num acidente de avião de “o dia que a música morreu”: 2 de fevereiro de 1959. Se morreu, não avisaram e ela seguiu em frente: 1959 é o ano de três dos meus discos preferidos, Kind of Blue, Time Out e Mingus Ah Um, e alguém deveria escrever que esse foi, talvez, o mais fantástico ano da música popular em todos os tempos. Apesar dos garotos com a cara enterrada na neve, a música ia bem, obrigado.

(Essa ignorância e insularidade sempre se refletiram na baixa qualidade da crítica de rock. Mesmo luminares como Lester Bangs, Robert Christgau ou Jon Landau sempre fizeram uma crítica subjetiva, limitada, às vezes mesquinha. No Brasil era ainda pior: de Maurício Kubrusly e Roberto Mugiatti [de quem eu gostava muito por ser fã dos Beatles] na Somtrês à súcia que se amontoava na Bizz, o que faziam era mau jornalismo e má apreciação musical.)

Desde o início, o mundo do rock brasileiro sempre foi o do adolescente rico ou de classe média. Esses sempre foram os seus valores. Era essa a sua revolta. Eu não sei onde a Paula Toller morava, mas certamente não era em Parada de Lucas. Romance e sexo, o gap geracional, as elucubrações existenciais limitadas a que se entregavam enquanto coçavam o saco em seus quartos eram a base de suas letras.

Basta olhar para a produção da maior banda dessa geração, a Legião Urbana. Se cantavam “Que País é Este”, não iam além do que mesmo hoje qualquer bolsominion entende como verdade absoluta. Mas o que cantavam mesmo eram as dores da adolescência, a dor de cotovelo com uma cara nova. Eu, pelo menos, sempre achei estranho um sujeito de trinta e poucos anos cantar que ia fugir de casa e que seus amigos estavam procurando emprego. Já era hora.

É sintomático que entre os roqueiros dos anos 80 abundassem os instrumentos importados de primeira linha, Fenders e Gibsons e Rickenbackers, numa época em que importações eram proibidas e o comum dos mortais se aventurava em Gianninis e Goldens — enquanto o pessoal que tocava em puteiros se virava com as Tonantes da vida, muitas vezes com proficiência admirável.

Muitos anos atrás, numa mesa de bar com o vocalista de uma dessas grandes bandas paulistas dos anos 80, fiquei impressionado com o fato de que, bem avançado nos seus 40 anos, o rapaz se comportava e tinha valores de adolescente. Tinha orgulho de sair no tapa com as pessoas, tratava mulheres como um garoto imaturo trataria. Parece fazer parte da cultura rock um apego trágico, até um tanto ridículo, a uma adolescência que deveria passar suavemente mas à qual se agarram como a uma tábua em alto mar.

Música feita por meninos “ricos” e bobos. O que podia dar errado?

O resultado foi uma música cujo universo lírico, mesmo em seus momentos, nunca esteve muito além das preocupações de classe média. Era um universo limitado, pequeno, mesquinho. Quem se der ao trabalho de comparar as letras do samba ao longo de sua existência com aquelas ficará abismado com a diferença de qualidade e de percepção do mundo.

Quando um Ultraje a Rigor cantava a rebeldia adolescente, era com o viés deletério de “Inútil”, o mesmo viés que vimos novamente há pouco tempo, nas carreatas de ricos com máscaras pedindo o fim do isolamento social contra o coronavírus porque seriam os pobres a morrer, ou as preocupações menores e individualistas da classe média como “Rebelde Sem Causa” ou “Ciúme”. Se se posicionava em relação aos costumes com “Sexo”, por exemplo, era sempre um posicionamento que refletia, antes de tudo, os valores individualistas da classe média. E na maior parte das canções que chegavam a tocar no aspecto político, raramente saiam das platitudes expressas pela sua classe. Os Engenheiros do Hawaii prestavam “atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada”, bradavam que “toda forma de poder é uma forma de morrer por nada” e ordenavam “ouça o que eu digo, não ouça ninguém”. O niilismo dessas canções refletia um estado de espírito típico da juventude. Mas representavam principalmente um viés de classe que, à época, podia ser facilmente incorporado pelos mais pobres e adquirir uma ilusão de universalidade.

Não é à toa que a segunda onda do rock brasileiro, vinda de Brasília e integrada por filhos da elite dos funças, ostentava letras que deviam muito à concepção de mundo que o serviço público traz, mas também com olhos e ouvidos firmemente voltados para uma viela qualquer em Manchester, sempre mais chique que um beco no Vale das Pedrinhas (garotos que, imagino, conseguiam contrabandear instrumentos com mais facilidade).

O fato é que a rebeldia do rock brasileiro sempre fugiu do cunho social. Era a rebeldia ante o horizonte limitado da classe média, alheia a questões econômicas estruturais que não fizessem parte das preocupações de sua classe.

Olhando bem, a essência sociológica do rock brasileiro é exatamente a mesma da bossa nova: a classe média branca com uma visão muito própria do valor do trabalho e profundamente influenciada pela música internacional de elite. No caso da bossa nova era o jazz, que se misturou com o samba em proporções variáveis, dependendo do artista. O rock já cortou caminhos e incorporou a tradição musical tupiniquim em muito menor medida. Era apenas o filho problemático da bossa nova.

E então chegamos ao momento em que essa geração, prestes a pegar seus cartões de estacionamento para idosos, resolve mostrar ao mundo que razão, mesmo, quem tinha era Belchior.

Nesse meio tempo, entretanto, aconteceu uma hecatombe política: a queda do muro de Berlim, a implosão do bloco socialista e a extinção imediata de alguma alternativa ao capitalismo reforçou a necessidade de voltarem-se para seus próprios umbigos. No Brasil, o crescimento do antipetismo, o incômodo desse pessoal com os pobres que passaram a dividir o mesmo avião que eles deu validade ao liberalismo que, no fundo, sempre esteve na sua base ideológica, geralmente disfarçado de liberalismo de costumes.

Por isso, quando um Lobão coroa sua trajetória errática, falastrona e oportunista — alguém lembra dos tempos em que ele, já decadente mas achando ter descoberto sua mina de ouro particular, cantava loas às rádios comunitárias, desde sempre covis de corrupção e mercadejamento político? — com uma tentativa de se transformar em um guru de extrema-direita, estava dando o prosseguimento lógico a toda uma postura ideológica que, disfarçada ou não, sempre permeou essa geração. Quando investia em suas diatribes contra Lula, quando ameaçava sair do país se Dilma fosse reeleita, ele apenas refletia a evolução lógica da ideologia da sua tribo. Tudo bem que, vagabundo e frouxo como suas ideias, ele não fosse capaz de cumprir suas promessas. Mas isso importa pouco. Lobão é apenas o representante mais visível de toda uma geração que, na velhice, finalmente fez as pazes consigo própria.

Dizem lá na terra que originou tudo isso que a maçã não cai longe da árvore. Ao rock brasileiro jamais houve outra opção. Para defini-lo, o melhor é recorrer não a ele, mas à disco music: como cantava Gloria Gaynor, I am what I am.

Yoko Ono

Uns anos atrás, um comentário a uma foto de Yoko no Instagram me chamou a atenção.

Alguém teve a pachorra de deixar ali uma série de ofensas à velha dama, acusando-a de ter acabado os Beatles e enveredando pelo racismo puro. Podia ser apenas mais um lembrete do fato triste de que as redes sociais desvelaram a imbecilidade global antes contida em cada pessoa ou pequeno grupo; mas era muito mais que isso. Imediatamente pensei que, se Lennon estivesse vivo, talvez tivesse que cantar novamente para ela dois versos de I’m Losing You, do seu último disco: “But hell, that was way back when / Well, do you still have to carry that cross?

É impressionante que alguém, mesmo meio século depois, ainda tenha que conviver com isso, com esse ódio impessoal que, ainda que fosse justificado, deveria ter arrefecido com o tempo. Não interessa que tenham se passado 50 anos desde que a queridinha das gentes acabou, em meio a uma briga excessivamente pública. As pessoas ainda odeiam Yoko Ono porque a elegeram para a desgraçada que acabou com os Beatles.

E não foi.

Em 1968, a banda estava em crise por várias razões, a menos importante das quais não era a musical. A chegada de Yoko pode ter ajudado a catalisar algumas das tensões já presentes, pode ter sido mais um fator para o seu fim; mas ela não tinha como terminar algo do qual não era parte. Os Beatles estavam acabando porque seus fundadores tinham se tornado adultos; porque cinco anos de pressões inimagináveis cobravam sua conta; porque sua situação financeira era caótica; porque suas concepções musicais se tornavam divergentes ou, no mínimo, mais individuais; porque Lennon, com alguma razão, e Harrison, sem nenhuma, achavam que a banda os limitava; porque a mudança no centro de gravidade da banda de Lennon para McCartney deu início a uma nova dinâmica de poder e influência dentro do grupo.

Nesse aspecto, a injustiça com Yoko é ainda maior. Naqueles momentos em que Paul McCartney consegue disfarçar bem o seu desconforto, lembra uma coisa importante: ele acha que Yoko salvou a vida de Lennon.

Há muito tempo me pergunto se, fosse outro o destino e Lennon tivesse conhecido Yoko em outra fase de sua vida, sua fascinação pela mulher e pela artista teria sido a mesma. Lennon em 1967 era um sujeito absolutamente perdido. Os Beatles tinham deixado de excursionar, o que para outra banda teria significado seu fim imediato, e ele passava seus dias em um torpor que misturava apatia e consumo exagerado de LSD. Isso é perfeitamente visível na sua produção no período. A contribuição solo de Lennon ao Sgt. Pepper’s é pífia, quase coadjuvante — o que é, aliás, a razão do seu eterno despeito em relação ao álbum. Descontando Strawberry Fields Forever, uma canção genial mas que também deve muito ao trabalho feito no estúdio, suas duas melhores canções no álbum, Lucy in the Sky with Diamonds e A Day in the Life, são parcerias ainda que desiguais com McCartney. Tente imaginar A Day in the Life, especificamente, sem a segunda parte cantada por Paul, sem o “I’d love to turn you on”, e sem as ideias orquestrais que poderiam ser creditadas, no mínimo, à participação coletiva da banda e de George Martin: seria só mais uma excelente canção simples como Watching the Wheels, composta em Weybridge por um eremita com surtos esporádicos de inspiração, um sujeito que passava o dia viajando diante de uma televisão com o som desligado, frustrado com aquilo em que sua vida parecia ter se resumido: um casamento fracassado, um filho com o qual jamais teria alguma intimidade e uma banda em que o poder real se consolidava a cada dia nas mãos de seu melhor amigo, maior parceiro e maior rival.

Não dá para saber se outro Lennon, livre das drogas e um pouco mais seguro de si em relação ao seu papel na banda e no mundo, teria reagido da mesma forma ao ir à exposição de Yoko na Indica Gallery em novembro de 1966, se enxergaria nela a “mulher-dragão” que lhe daria a proteção e o estímulo de que ele precisava com desespero.

Yoko supriu em Lennon a necessidade de alguém que fosse ao mesmo tempo mãe, amante e parceira. Ela conseguia ocupar, sozinha, o espaço de Julia, Mimi e McCartney, e um pouquinho mais. Em Yoko, Lennon encontrou alguém que podia respeitar intelectualmente e na qual podia se apoiar sem medo. De certa forma, era uma McCartney que ele podia levar para cama.

Infelizmente, isso ajudou a desarticular toda a estrutura de funcionamento dos Beatles, em um momento particularmente difícil. Enquanto as mulheres dos Beatles se adequavam ao que tinha se estabelecido como uma divisão natural do trabalho e seus espaços nas vidas de cada um, Yoko instigava e forçava a si mesma dentro de um ambiente que lhe era hostil.

Não era algo inocente. Yoko não era burra e era extremamente ambiciosa. Talvez as coisas não sejam tão frias e objetivas como podem parecer, mas Lennon e os Beatles eram claramente a sua grande chance na vida: ela percebia que ali estava, no mínimo, uma oportunidade única de dar visibilidade ao seu trabalho, e eu não duvidaria que, em algum momento de delírio, ela tenha acalentado ao menos secretamente o sonho de se tornar parte da banda. Pelo menos em um momento inicial, Yoko tentou aproveitar a proximidade dos Beatles para fazer deslanchar sua carreira, quase como um parasita daquele tipo que mata o hospedeiro. McCartney reclamaria que, durante as filmagens do que viria a ser o Let it Be, ela sempre dava um jeito de ficar diante das câmeras, muitas vezes fazendo o seu próprio trabalho. Mais tarde, o que ela permitiu (e provavelmente incentivou) que Lennon fizesse com seu filho mais velho, Julian, foi desumano (curiosamente, tanto o filho dela, Sean, quanto Julian são músicos. E a ironia é que Julian é infinitamente mais talentoso que Sean; vale a pena escutar sua discografia). Nisso qualquer fã dos Beatles tem razão: sua presença era desagregadora.

Mas ela só podia fazer o que Lennon permitia. Foi Lennon quem levou sua cama para os estúdios quando ela sofreu um aborto; quem insistiu para que ela aparecesse no Let it Be e nas fotos de publicidade do conjunto; foi ele quem de repente tentou impor uma mulher estranha a uma banda singularmente coesa, o “monstro de quatro cabeças” como definiu Mick Jagger.

Acho que inconscientemente Lennon acreditou que isso poderia redefinir a estrutura de poder dentro da banda. O resultado foi o contrário: a manobra de Lennon acendeu o pavio para a implosão dos Beatles. E sob vários aspectos, essa foi a pior coisa que poderia acontecer a Yoko.

Dentro do seu campo, da sua linguagem, Yoko era uma artista capaz, até onde minha ignorância e desdém por esse tipo de arte me permitem avaliar. Entendo ainda menos de arte de vanguarda do que de mecânica de aviões — mas pelo menos gosto de aviões. Ainda assim, acho Cut Piece um negócio interessante. E por inaudíveis que sejam seus discos de esgoelamento, o fato é que ela tinha uma ideia do que queria dizer, um conceito claro do que era arte, e é até possível ouvir ecos da música que ela fazia nos discos do B-52’s. Finalmente, quem quer que tente escutar sem preconceitos o Some Time in New York City, de 1972 — e conseguir abstrair sua voz irritante—, vai perceber que as canções de Yoko estão, no mínimo, no mesmo nível das de Lennon.

Lennon reconhecia e respeitava, talvez até mais que o justo, o talento e a capacidade de sua nova parceira. Juntos, os dois embarcaram em uma bad trip típica dos anos 60, com bed ins, surtos de messianismo odara, uma exposição de suas vidas sem precedentes na cultura de massas e a tentativa de fazer de suas vidas uma obra de arte, tudo condizente com a concepção artística de Yoko e que John, sempre em busca de algo para preencher o seu vazio, abraçou incondicionalmente.

Fãs podem reclamar, mas o Lennon que entrou para a história foi exatamente esse recriado por Yoko Ono, um Lennon sem humor, que se levava a sério demais e que acabaria se tornando ícone de uma paz que, em sua vida privada, ele jamais seria capaz de alcançar.

O mais irônico é que, enquanto as pessoas culpam Yoko pelo fim dos Beatles, em vez disso deveriam agradecê-la por algo que é realmente responsabilidade sua: impedir a reunião da banda. Em 1974, solto em Los Angeles, longe de Yoko, Lennon considerou a possibilidade de voltar a compor com McCartney. Se isso ocorresse, uma volta dos Beatles seria possível, embora talvez sem George Harrison. Mas antes ele reatou o casamento com Yoko (ironicamente por intermédio de McCartney), e é impossível saber o que resultaria dessa reunião hipotética. Do ponto de vista das composições, é provável que o nível subisse bastante. A competição e colaboração entre os dois certamente traria bons frutos. E é possível que a própria realização das canções melhorasse bastante. Só não dá para deixar de lembrar que o tempo dos Beatles havia passado e que o mais provável é que essa reunião apenas quebrasse a mística da banda.

Foi nesse momento que se consolidou definitivamente a lenda do johnandyoko, do casal 20 do rock, do rock star feliz em casa fazendo pão e cuidando do bebê enquanto a mulher ia para a rua garantir sua fortuna, ou pelo menos assim diz a lenda.

Nunca foi bem assim. Naqueles seus últimos anos, Lennon voltou à apatia em que se encontrava quando conheceu Yoko. Mas ele tinha se tornado dependente dela, em sua eterna busca pela mãe que o tinha rejeitado. Yoko não tinha esses problemas, e quando percebeu que o casamento estava condenado, tratou de arranjar um amante, Sam Havadtoy, rapaz novo que logo depois da morte de Lennon ela passou até mesmo a vestir com as roupas do defunto, num relacionamento muito mais duradouro que o seu com Lennon.

E então veio o dia 8 de dezembro de 1980, a partir do qual Yoko Ono se tornaria a curadora da memória de John Lennon e a mais feroz guardiã do seu legado.

Ela até podia frequentar outras camas, mas nisso ela foi extremamente fiel ao falecido. Uma constante na vida de Lennon foi o seu esforço em passar uma imagem idealizada e edulcorada de si mesmo. O rebelde, o artista corporificado, o revolucionário da classe operária, o homem que vivia uma história de amor perfeita. Yoko cumpriu o seu desejo. A imagem quase santificada de Lennon, do gênio que mudou o mundo com uma mensagem de paz e amor e se tornou o grande mártir do rock and roll, que ela passa ainda hoje às portas da morte, não condiz com que o se sabe sobre ele; mas é uma imagem vitoriosa e, acima de tudo, leal, seja lá por quais razões for.

E ela fez tudo isso às custas, de certa forma, de seu próprio sacrifício. Seu envolvimento com os Beatles tirou, para sempre, a sua individualidade — e paradoxalmente teve o efeito contrário do que ela parecia querer naqueles primeiros anos. Ela jamais será lembrada por outra coisa que não John Lennon. A exposição e a riqueza que Lennon lhe possibilitou garantiram que ela continuasse produzindo, mas a avaliação dessa produção será sempre contaminada por sua história com os quatro rapazes de Liverpool.

A aura inexplicável que beatifica os Beatles, que desculpa e justifica todas as suas ações e os torna imunes a virtualmente toda crítica, é a mesma que demoniza todos aqueles que cruzaram seus caminhos, como Allen Klein. É a mesma que faz pessoas dizerem, ainda hoje, desaforos em seus posts no Instagram. Yoko, inocente ou não, é mais uma vítima dessa aura. No fim das contas, o preço que ela pagou foi bem alto.

A solidariedade do “trade”

Nos últimos dias andou circulando nas redes esse card com um apelo do trade turístico.

Sinto informar, mas eu quero é que se fodam.

Eu tinha uma viagem a Roma marcada para ontem. Há algumas semanas, quando a chapa por aquelas bandas começou a ficar realmente quente, liguei para a TAP tentando remarcar as passagens para novembro. Até podia, mas teria que pagar a diferença tarifária e taxa de remarcação. No fim das contas, as passagens sairiam pelo triplo do preço original. E se cancelasse não receberia nenhum tipo de reembolso porque, compradas em novembro do ano passado, elas tinham preço promocional.

Não adiantou argumentar que o adiamento era por uma questão de saúde pública, etc; eu estava por minha conta e o prejuízo, em qualquer caso, seria só meu.

Naquela hora não vi nenhum oferecimento de ajuda ao turismo, nenhum pedido de união e de solidariedade.

Eu desisti e já estava conformado em acionar a empresa na justiça. Só que a Terra é plana, mas dá voltas. Veio o lockdown italiano e a TAP se viu obrigada a cancelar todos os voos para a bota.

Na última semana, passei literalmente horas pendurado ao telefone esperando para resolver a questão do reembolso. Foram dezenas de ligações, que sempre caíam, às vezes depois de mais de uma hora ouvindo a muzak terrível deles, técnica que imagino feita justamente para fazer você desligar em desespero. Agradeço à boa alma que inventou o viva-voz, sem o qual eu não conseguiria passar por essa via crúcis. Só fui conseguir falar com eles ontem à noite, coincidentemente quase na hora em que deveria estar embarcando.

São essas companhias que vêm agora pedir solidariedade e ajuda. As mesmas que cobram pela sua bagagem enquanto mentem dizendo que vão baixar o preço da sua passagem. Que têm lucros bilionários e quando a coisa aperta correm atrás do dinheiro do Estado.

Que se fodam.

Ah, mas não é bem assim, dizem. Tem os pequenos, dizem. As agências de turismo, o receptivo, etc.

O problema é que aí a coisa é ainda pior.

É inacreditável que não percebam o quão canalha e irresponsável é esse apelo para que as pessoas viajem em um momento tão grave. Remarcar para quando, se ninguém sabe quando essa crise Walking Dead termina? Deixar o dinheiro com eles enquanto o governo autoriza empresas a reduzirem pela metade os salários de doentes?

O que eles estão pedindo é que você salve a pele deles, e que se danem a saúde e mesmo as vidas das outras pessoas. Inclusive a sua. Neste exato momento, centenas de pessoas estão presas em cruzeiros e quetais porque, sem tirar a responsabilidade desses idiotas — e daqueles que cederam às pressões embutidas no “nós não vamos devolver o dinheiro”—, essas empresas exerceram uma versão muito própria desse tipo de solidariedade, como sempre.

Eu importo pouco para eles porque não sou cliente de agências de turismo há muito tempo, desde que, para evitar trabalho e aproveitar a suposta expertise do pessoal, fui em uma e pedi para organizarem uma viagem. Me sugeriram hotel em Whitechapel com preço de Bloomsbury, além de uma série de penduricalhos que só serviam, obviamente, para aumentar a comissão da vendedora. Saí de lá com um “amanhã a gente compra” que, se funcionava para minha mãe, deve funcionar para mim também.

Afinal, que solidariedade é essa? Eu me pergunto quanto dessa solidariedade foi posta em prática antes. Comigo eu sei que não foi.

Me pergunto quanto dessa solidariedade é exercida no dia a dia. Quantos deles deixam de pegar Uber para pegar um táxi e ajudar um defensor que tem uma cota diária de dinheiro para entregar ao dono do táxi? Indo mais longe, quantos deles se juntaram aos funcionários públicos na defesa de suas aposentadorias? Quantos protestaram contra a reforma da Previdência? E é melhor não falar da reforma trabalhista, que sei que eles apoiam em sua quase totalidade.

Não, não. Eu não sou solidário a eles. Fodam-se e boa viagem.

Quatro momentos

Pensando aqui nos momentos mais comoventes da história do cinema, me vieram à lembrança quatro cenas, imediatamente.

1 – O menino Ricci vendo o pai sendo quase preso após tentar roubar uma bicicleta, em “Ladrões de Bicicleta”.

2 – Zampano abandonando Gelsomina em “A Estrada da Vida”.

3 – Von Aschenbach morrendo só e triste na areia da praia.

4 – Totó descobrindo a herança que Alfredo lhe deixou, em “Cinema Paradiso”.

Não pode ser à toa que os quatro filmes são italianos.

(E, curiosamente, a cena em que Rosaria se joga aos pés do filho morto em “Rocco e Seus Irmãos” não consegue me dizer nada.)