Aquele que aponta o caminho

Eu ainda morava em Aracaju quando ele começou a pregar nas ruas do centro da cidade, de preferência em frente ao Palácio do Governo, na mesma praça onde Fausto Cardoso foi morto em 1906.

Ele vestia ternos baratos e velhos, e trazia sempre uma Bíblia evangélica nas mãos. Gritava, fazia gestos largos e dramáticos, batia na Bíblia como a prova irrefutável de tudo o que dizia; a saliva se acumulava branca no canto de sua boca, aquela que não era expelida enquanto ele nos advertia contra o fogo do inferno mas nos oferecia a salvação eterna. Fui embora e voltei, e ele continua ali.

Até hoje, quando vejo algum católico falar do fanatismo dos evangélicos, eu lembro dele. Por sua vez, ele me lembra que os católicos de antigamente eram exatamente assim: a mesma loucura, o mesmo proselitismo descontrolado, a mesma vontade de mostrar aos outros a Luz que o salvou. É homem de uma única certeza: a de que sua fé o faz melhor, e que é seu dever retribuir à altura guiando este rebanho de cordeiros insensatos no caminho do Senhor. Quando o vêem gritando sobre o Senhor e se afastam quase inconscientemente, como virariam os olhos a um menino com hidrocefalia, as pessoas esquecem que o termo evangélico se aplica também aos católicos, e que o que fez a força dessa religião foi justamente essa mesma loucura evangelizadora, a mesma vontade de impor ao mundo a sua verdade. Aqueles que o acham ridículo deveriam saber que ao entrar em suas igrejas para a missa do domingo carregam a mesma herança de grotesco, de loucura, que aquilo que lhes justifica vem da mesma matriz torta que gerou o pregador das ruas do centro de Aracaju.

Eu gostava de imaginar o seu passado; se se converteu depois de uma vida de pecados semelhante à minha ou se foi criado por pais evangélicos e pios. Prefiro achar que sua vida foi aventurosa e difícil; que ele foi mau e fez mal, que foi apontado na rua como péssimo exemplo e criatura perigosa, mas que de repente descobriu Deus. Só uma mudança tão radical justificaria o seu furor evangélico, a disposição de pregar para ouvidos moucos por tantas centenas de tardes.

Ele se joga ao sacrifício da humilhação pública como cristãos igualmente enlouquecidos se jogavam aos leões e às fogueiras romanas. Para que alguém se torne capaz de tanto abandono de si mesmo é preciso que saiba, no fundo do peito, o que significa a certeza da salvação, e esse conhecimento só tem quem conhece a verdadeira danação, aquela que se paga aqui e não no inferno. Eu, que apenas me converto todo dia a mim mesmo, seria incapaz disso. Ao contrário de mim, que acumulo pecados capitais que pretendo continuar acumulando enquanto o bom Deus me der saúde, ele modelou sua vida nas dos apóstolos, e quer que sejamos salvos também, como ele foi. Ele é um bom homem.

Perto do Natal do ano passado consegui tirar uma foto sua. Era uma vontade antiga, mas raramente ando com uma câmera pelo centro, nossos horários não se batiam. Um dia eu o achei. Ele estava no cruzamento de dois calçadões, perto da igreja católica mais antiga da cidade e diante de uma casinha de Papai Noel, daquelas onde desempregados vestem uma roupa vermelha no calor de dezembro e colocam uma barba postiça para tirar fotos com meninos enjoados.

(Eu sempre imaginei que Papai Noel fosse a profissão dos sonhos de um pedófilo, sempre imaginei seus olhos brilhando enquanto um menininho de quatro anos senta em seu colo e ele pergunta, trêmulo, “o que você quer ganhar, meu filho? Seja um bom menino…”)

Me escondi para tirar as fotos. Eu tinha certeza de que ele não gostaria que um sujeito que não conhece o fotografasse — e ficaria ainda mais revoltado se soubesse quem eu sou, se soubesse dos meus esforços para tirar tantas ovelhas do bom caminho do Senhor, esforços ditos baixinho em pescoços perfumados. Foram fotos ruins, as pessoas passavam na frente, o foco nunca estava correto.

Aí ele me viu.

O meu pregador então se transformou em um artista. Ou, se artista ele já é, em um artista ainda melhor, iluminado por sua musa divina. Olhou para mim e tudo nele indicava aprovação, quase gratidão. E ele foi mais veemente em sua peroração, seus gestos se tornaram ainda mais largos, sua voz se tornou mais confiante. De repente ele não estava mais diante da multidão de passantes que o ignoravam: o calçadão havia se transformado num púlpito de verdade, agora ele tinha alguém que prestava atenção em suas palavras. E coroou a sessão apontando teatralmente para o céu — como Agnes indicando que Dora havia morrido, ou Moisés enganando alguns milhares de hebreus e os metendo na grande fria de suas vidas. Minha lente, ele talvez tenha achado, lhe daria a chance de apontar o caminho para mais pecadores. Baixei a câmera e ele me fez sinal de positivo. E voltou o olhar e a fala para a multidão triste de materialistas que não tinham Deus em seus corações.

Foi quando entendi. Eu só teria vergonha de ser fotografado porque fé, mesmo, eu tenho apenas em mim mesmo. A minha fé tem o meu tamanho, e Deus é muito menor que eu. Mas ele, não: ele acredita em algo muito maior que ele, e essa é a sua desculpa e a sua razão.

Originalmente publicado em 13 de abril de 2007 @ 0:00

O aiaiai da vergonha

Desde que me mudei, há uns seis meses, uma coisa me incomodava no meu edifício.

Acontece entre meia noite e uma da manhã, pouco antes de eu ir dormir. Umas duas vezes por semana. Não consigo esquecer da primeira vez que escutei o sujeito, que quase certamente mora num apartamento em cima do meu. Primeiro o silêncio da madrugada em que as pessoas decentes dormem. Aí os sons.

É assim: “ai. Ai. AI. AAI. AAAII!!! Aaaaaaaaaai…” Coisa de três, quatro segundos. O homem grita muito alto. E então volta o silêncio calmo da madrugada.

Da primeira vez fiquei feliz pelo sujeito. Ali estava alguém que, ao contrário deste pobre e inconformado leigo no assunto, estava fazendo aquilo para o que a humanidade realmente nasce, aquilo que dá sentido à vida. Houve até um sábado em que, às oito da manhã, eu ainda na cama olhando para o teto, o aiaiai se revelou em toda a sua força — e eu estava no quarto fechado, ainda com o ar-condicionado ligado. O aiaiai já tinha tomado conta do condomínio na noite anterior, e lá estava o rapaz novamente. “ai. Ai. AI. AAI. AAAII!!! Aaaaaaaaaai…”. Ele era bom, pelo menos disposto. Ou tinha lá suas razões: “Namorada nova”, o despeitado aqui pensou.

O fato é que tudo o que sei do sujeito é que faz saliência com a janela aberta e faz barulho, muito barulho. Sei também que não devo ser o único a ouvi-lo, porque o rapaz é, digamos, muito vocal.

Mas então isso começou a se repetir (nas madrugadas, nunca mais durante a manhã). De engraçado, o aiaiai passou a ser tedioso. Porque só então percebi uma coisa importante, tão importante que não entendo como não tinha notado antes.

Eu não ouvia a moça.

Havia algo errado. Embates amorosos devem ser acompanhados de gemidos mútuos — mas os dele são dispensáveis, enquanto os dela são a razão mesmo de viver. É simples assim. Alguns conseguem isso com esforço; outros, mais abençoados por Deus e pela atenção, obtêm melhores resultados.

No entanto, ali só quem se divertia era ele. Talvez não houvesse mulher. Talvez o sujeito gritasse assim porque estava sendo servido por um rapaz guapo e musculoso. Talvez fosse o amante do sexo solitário mais ruidoso de que se teve notícia. De qualquer forma, eu já tinha desistido de entender. Já começava a achar que o meu vizinho escandaloso tinha um caso com uma boneca inflável.

Até que, numa dessas madrugadas, eu a ouvi.

Estava na janela da sala fumando o último cigarro do dia, olhando para a lua — profética, a lua estava em seu quarto minguante. Uns sons vieram do andar de cima. Não era o escandaloso, não ainda. Pelo contrário, eram os sons mais bonitos que um homem pode ouvir, os ais e uhns de uma mulher. Ela se empolgava um pouco. Dizia palavrinhas de mulher que trepa mal: “Ai, amor, ui, meu bem, assim”. Palavras maravilhosas, certamente, boas de se ouvir em tantas horas, mas que não se sustentam diante da análise fria daqueles que não estão entre suas pernas. Eram quase burocráticas: indicavam menos a amante feliz do que a mulher que se esforça em agradar o homem que ama. Ela gemia baixinho, e eu só ouvia porque sua janela estava aberta e eu estava debruçado na minha, pensando na morte da bezerra.

Exatamente nessa hora, o momento maravilhoso em que os gemidos dela aumentavam de intensidade, e se sentia mais verdade neles, a paz da noite foi cortada pelo som tenebroso de sempre: “ai. Ai. AI. AAI. AAAII!!! Aaaaaaaaaai…”

E fui tomado por uma vergonha imensurável, que me fez baixar os olhos e me esconder em meu quarto. Eu tinha percebido o que acontecia, e a visão que se descortinava em minha mente era tenebrosa.

A mulher até que se divertia. Mas quando o sujeito percebia que ela estava gostando, se soltava. Julgava encerrado o seu dever e corria enlouquecido em busca do seu aiaiai, e a mulher embaixo dele — embaixo, com certeza — que se virasse como podia.

O resultado, em poucos segundos, era um sujeito feliz, satisfeito, provavelmente deitado na cama olhando para o outro lado, e uma mulher decepcionada, talvez ainda se contorcendo por ter sido interrompida em sua caminhada, talvez com a sensação de que lhe prometeram o paraíso e tudo o que recebeu foi São João do Meriti.

Não é possível explicar o arrependimento que tomou conta de mim por ter me mudado para aquele condomínio. De repente, eu tinha passado a morar no cafofo da humilhação. Esse era o meu vizinho, e o seu opróbrio me amaldiçoava também. “Você mora no condomínio tal?”, alguém me perguntaria, e eu desviaria os olhos e responderia “Não, eu moro com dois travestis, um traficante, uma prostituta de 20 reais, um alcagüete da polícia viciado em crack e um torcedor do Botafogo num barraco de 10 metros quadrados no Morro do Péla Porco”. “Não, ali quem mora é o meu irmão. É a ovelha negra da família, ele bebe, coitado, olha onde ele foi parar.” Eu não hesitaria em mentir para salvar o que restava de minha honra: honra para a qual nunca dei nada, que nunca valeu um tostão furado e que eu trocaria por qualquer bunda grande com dois peitos em cima, mas para a qual há limites abaixo dos quais não se pode descer.

Pensei até em andar com um coração amarelo no peito, sinal de minha vergonha, e uma confissão de que eu deveria ser desprezado por todos porque morava no mesmo condomínio que o sujeito do aiaiai.

A vergonha, no entanto, não eliminava a revolta. Aquele sujeito era uma vergonha para a classe e para os homens que se julgam dignos desse nome. Houvesse uma assembléia dos homens machos do sexo masculino e ele seria execrado publicamente, e seu corpo coberto com piche e penas, e nós o faríamos desfilar pela rua em sinal de execração. E espalharíamos as fofocas mais vis, e diríamos que o aiaiai desvairado do sujeito se devia ao fato de ele estar mordendo fronha, mas diríamos isso apenas por picuinha: porque sabemos que bastaria dizer a alguém o que esse abominável faz — em voz muito baixa, como se dizia há 50 anos que fulana deu um mau passo — para que as pessoas fizessem expressões horrorizadas e fingissem não acreditar nisso. “Não! Jura?”

Eu já estava olhando os classificados em busca de um novo lugar para morar, um lugar que não me envergonhasse e cuja mácula não fosse transferida a mim por associação. “Coitado… Mora tão mal… No prédio do Doente do Aiaiai…” Eu sabia exatamente como se sentia, como o favelado que não quer ser confundido com um traficante.

Mas bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.

Um outro sábado. Três da manhã. Eu chegava em casa e estava tirando os sapatos no escritório. Como está virado para outro lado, de lá não se costuma ouvir o Doente do Aiaiai.

E então eu a ouvi.

Era outra mulher, em outro apartamento. Mora em um apartamento abaixo de mim. E a sua existência redime a nossa.

O que eu posso dizer — porque dessas coisas não guardo os detalhes, nunca guardo, sei apenas da sensação que nunca se repete, que nunca é a mesma — é que a moça estava sendo bem cuidada. Muito bem cuidada. E deixava claro, a todos os que quisessem ouvir, que a sua noite estava terminando da melhor forma que se podia imaginar, um final estendido em meio a pequenos gritos e muitos gemidos. Ali estava uma mulher feliz, e isso, por um vício terrível de personalidade (ou mero condicionamento pavloviano), me deixava também feliz.

Até aí nada demais. Moças se divertindo são relativamente comuns. Lembro de outro prédio em que morei, no Ceará, onde de vez em quando se ouvia uma mulher fazendo “Ungh! Ungh! Ungh!”, e se sabia exatamente qual o ritmo seguido pelo seu amado. Nada demais, eu já disse. Mas havia um detalhe que não podia passar despercebido, e Deus está nos detalhes como dizia o Van der Rohe.

Só se ouvia a moça.

A redenção, afinal. Depois de meses ouvindo eventualmente um sujeito escandaloso e ruim de cama dar o seu showzinho mambembe e vergonhoso, a honra do meu prédio era resgatada por um rapaz cujo nome e semblante desconheço, mas que reconheço como irmão espiritual.

Porque em vez de gritar aiaiai, como se estivessem enfiando uma trolha sarracena no seu rabo, o sujeito preferia fazer o seu trabalho comme il faut. Um trabalhador honesto, dedicado. Um homem.

E nesse sábado eu fui dormir feliz, porque a vergonha que maculava o meu edifício tinha sido lavada em suor e em saliva.

Originalmente publicado em 4 de abril de 2007 @ 0:00

Rafael, Orlando, Mary e Rolando

Luiz Pereira Carlos, em comentário a um post qualquer:

Quem é Rafael Galvão(?). Quantos anos tem Rafael Galvão (?).
Desculpe a curiosidade, mas não é em vão, há fortes motivos para saber com quem estou falando, se com Orlando ou com Mery.

Fico imaginando como seriam as coisas se eu fosse Orlando. Não sei quem é o dito, mas digamos que seja um sujeito legal. Seria bom ser outra pessoa, uma boa pessoa. O curioso é que, por alguma razão, mais que algum Orlando que eu eventualmente conheça o nome me lembra outro, quase um anagrama: Rolando, aquele que demorou para tocar sua corneta e se ferrou num desfiladeiro qualquer. Rolando tinha heroísmo escrito em sua testa. Eu, que no máximo exibiria um “otário” carimbado na minha, só me beneficiaria com essa troca.

Infelizmente eu não seria um bom Rolando, porque assim que os bascos chegassem eu tocaria a trombeta, gritaria, assoviaria, me ajoelharia pedindo para não me matarem que eu tinha mulher e sete filhos e uma avó tetraplégica para criar, sairia correndo, faria o diabo com um medo danado de morrer. Ao contrário do conde de Carlos Magno, eu dificilmente entraria nos livros de história, a não ser como “Rolando, o Frouxo de Roncevaux”.

Se eu fosse Mery, ah, antes eu teria que dizer que sempre achei que se fosse mulher eu seria extremamente cachorra. Daquelas bem vadias — ou bem livres, de acordo com a sua visão das coisas. Se eu fosse Mery eu seria dadeira, como dizia Caymmi. Claro que o Luiz, cioso da honra e da reputação da amiga cujo paradeiro procura, vai dizer que não, que Mery não é nada disso, é moça fina e direita. E nesse caso eu não quero ser a moça. Não tem graça ser mulher se não for para dar com a mão na cabeça para não perder o juízo — e melhor, sentir o juízo escorrendo entre os dedos. Mas se Mery for tudo isso que eu seria se Mery eu fosse, se for capaz de alegrar com candura as noites de tantos, por favor, Luiz, me dê o telefone dela.

Mas aí lembrei que o nome Orlando evoca outra pessoa: o Orlando de Virginia Woolf. Nesse caso, Luiz, acho que você está me sacaneando. Eis as duas opções que tenho: uma mulher e um homem que se transforma em mulher. Você não me deu muitas alternativas, Luiz. E eu sou só um paraíba estranho a essas sofisticações todas.

De qualquer forma não sou Orlando e não sou Mery, sou só Rafael. Não é grande coisa, eu sei, mas foi tudo o que consegui ser — confesso que com pouco esforço porque sou baiano e esse negócio de tentar melhorar pode cansar. Coloque a culpa na genética, no ambiente pernicioso em que fui criado, no excessivo apego a coisas simples como mulheres com a bunda grande. Coloque a culpa no que quiser, não importa. Eu vou continuar sendo só Rafael.

Por isso, tudo o que posso dizer é que a pergunta realmente pertinente aí é: quem é Rafael Galvão.

E isso, meu amigo, mesmo depois de tantos e tantos anos de vida, eu ainda não sei.

Originalmente publicado em 22 de março de 2007 @ 0:00

Manual do Corno Moderno

Hoje este blog vai prestar um serviço inestimável de utilidade pública.

Vai abordar um tema que preocupa a grande maioria dos homens e mulheres; talvez aquele que mais os aterroriza em um mundo cada vez mais confuso, em que as certezas se diluem a cada dia, em que, como diziam Marx e Marshall Berman, tudo que é sólido desmancha no ar.

Hoje nós vamos falar do homem traído.

Este blog vai oferecer, aqui, informações cruciais para que vossa senhoria saiba identificar, com presteza e segurança, os sintomas que indicam que vossa mulher tem hoje pensamentos outros que não a dedicação integral a vossa felicidade completa.

Esses conhecimentos me foram passados por uma grande amiga, em uma mesa em que se discutia os meandros e desvios das relações a dois. Não são segredos que mulheres passem para homens normalmente, mas que amigos passam para amigos. Fica aqui então o meu agradecimento duplo: pela amizade e pela informação.

No entanto, que não se veja neste pequeno opúsculo apenas um alerta aos homens. Porque ele não é. É também um guia destinado às mulheres, concebido com o intuito de alertá-las para que não se acomodem em manobras diversionistas antigas, que começam a se tornar conhecidas e previsíveis. Este blog sabe o quanto mulheres podem sofrer nas mãos de homens insensíveis, homens que às vezes sequer sabem o que estão fazendo. É contra esses que este blog se solidariza com as mulheres em sua revolta: é esse o pior tipo. Acreditamos firmemente que, se vossa senhoria vai fazer alguma merda, que a faça por desejo e por vontade, e não por incompetência.

Portanto, este pequeno guia deve servir também como um estímulo para que as tantas mulheres que encontraram em outra cama uma réstia de felicidade descubram novas estratégias. Que se pense na minha amiga como uma Miss M do adultério; e neste blogueiro que vos transmite esse conhecimento como um mero escriba desejoso de ajudar esses tantos e tantos amantes vespertinos, venturosos em sua alegria mas eternamente condenados pela culpa e pelo medo.

1 – Ela quer ficar sozinha

Foram anos de casamento em que vossa senhoria e vossa consorte padeceram um do outro. Não falo aqui daqueles dias em que se está apaixonado, porque nesses tudo é agradável. Falo dos outros, daqueles momentos em que preferiríeis ver o cão na sua frente a tolerar a mulher com quem se casou. Essa é a parte realmente ruim do casamento: os dias em que vocês não estão apaixonados. Os dias em que se sequer se amam, em que mágoas acumuladas durante os anos de consórcio conjugal borbulham esperando uma chance de transbordar.

Durante todos esses dias a sua mulher ficou no seu pé, às vezes lhe tirando a paciência com suas miudezas, com coisas desimportantes que acabavam lhe irritando. Tudo aquilo em que pensáveis era sempre mais importante do que as miçangas que ocupavam a mente de sua esposa.

É essa mulher que de repente não precisa mais de vossa senhoria, que quer ficar sozinha. Mau sinal.

Por que vossa senhora gostaria de ficar sozinha, assim, sem razão? Pensai com vossos botões, senhor; e enumerai as razões que sei que vais enumerar, e às quais me antecipo aqui: vossa senhora não sabe fazer nada sozinha; precisa de vós para tudo; faz parte da natureza feminina essa tendência à chateação, à solidão a dois.

Isso mostra apenas quão pouco vossa senhoria conhece a mulher com quem dividis a cama, e que agora emprestais a outro cidadão.

No entanto, mais importante do que isso é a outra novidade em vossa vida: no pouco tempo que passais juntos, ela vos cobre de carinhos e atenções, e é a mulher atenciosa dos tempos em que a vida em comum à frente parecia uma autobahn alemã, e não a picada de piçarra esburacada entre Capim Grosso e Santa Brígida que acabou se revelando.

Se fosses mais atento, vossa senhoria perceberia que essa necessidade súbita de solidão e os momentos de carinho intenso são duas faces do mesmo sintoma.

Esse sintoma se manifesta da seguinte forma: digamos que ela tem umas quatro horas livres por dia, quatro horas que poderia passar ao lado de vossa senhoria. Durante meia hora ela o cobre de atenção, de mimos, para que possa passar mais tempo pensando no homem que realmente faz o seu coração bater mais rápido.

Nos tempos modernos, e é isso que nos interessa aqui, essas horas em que ela se vê impossibilitada de cair nos braços do homem que a faz suar não é mais gasto apenas em devaneios e lembranças: depois que inventaram a internet, o contato pode ser mais constante, contínuo. Então as juras de amor que deveriam ser para o senhor, e que foram um dia; as idéias para novos prazeres, que o senhor já não é capaz de oferecer; tudo isso agora tem novo destinatário. Esquecei toda a conversa sobre informação, novos horizontes, educação: a Internet foi feita unicamente para aplacar um pouco a saudade que queima o peito dos amantes clandestinos.

Não quero ser cruel, caro senhor, mas imaginai as coisas que são ditas pelas teclas do computador em vossa sala, ou quarto. Imaginai as juras de amor; mais que isso, imaginai as pequenas e grandes coisas que ela sonha fazer com outro homem que não vossa senhoria. Imaginai suas coxas se contorcendo enquanto ela sorri para o computador: e imaginai também que nada disso, meu senhor, é por vossa causa.

Os dois sintomas sempre vêm juntos, mas o senhor é incapaz de perceber. O que vos incomoda é o fato de que ela aparentemente não precisa mais de vossa senhoria; entretanto, ao outro sintoma vos acostumais rápido, chegais a julgar como algo natural, porque é assim que as coisas devem ser. Pobre de vós e de vossa fronha.

2 – Ela se torna mais tolerante com vossa senhoria

Foram anos em que ela reclamou do jornal largado ao lado do sofá, da toalha molhada sobre a cama, da saída com os amigos no sábado à tarde, do futebol no final do domingo.

A tudo isso, a todos os resmungos, a todas as queixas, vossa senhoria já tínheis se acostumado com um suspiro. Suspiros parecem ser uma constante na vida de homens casados. Para vossa senhoria, isso era apenas parte daquele complexo sistema de compensações que torna viável qualquer casamento.

Mas de uns tempos para cá as coisas parecem ter melhorado. Ela finalmente entendeu que vossa senhoria é um homem ocupado, um provedor que precisa cumprir horários. Compreendeu que vida tão estressante requer uma válvula de escape, uma imersão no mundo masculino da qual ela deveria se sentir grata por ser excluída. Compreendeu que o mundo masculino é cheio de exigências, e que deveria haver uma divisão natural do trabalho em que cuidar da toalha molhada e jogar o jornal no lixo deveria ser tarefa exclusiva da mulher que vossa senhoria tem em casa.

Ela compreendeu. Quem não compreende é vossa senhoria.

Não entendeis que o sistema de compensações continua o mesmo; só mudaram os objetos. Agora, sua tolerância é maior porque o que ela precisa compensar é também maior: são as aspas que crescem lassas em sua testa.

Acredite ou não, ela ainda ama o senhor. E daí que ande fazendo o indizível com outro homem? Só isso não faz com o amor acabe — quando menos porque depois de tantos anos essa vida medíocre que ela vem levando tem que parecer ter valido a pena. Queira ou não, ainda sois o homem com quem ela dividiu a existência durante tantos anos. Por mais extáticos que sejam os momentos que vossa mulher passa sob outro homem, sois vós ainda seu grande referencial de vida. É por tudo isso que ela tenta vos compensar, e só o senhor não percebe.

E esse é talvez o melhor de todos os sintomas. Esquecei a galhada frondosa que ora lhe orna a fronte: vossa vida agora está melhor do que antes. Tendes de volta a mulher doce, compreensiva, adorável, por quem vos apaixonastes. Portanto pensai, caro senhor: melhor dividir os bônus do casamento do que arcar sozinho com os ônus.

3 – Sexo no piloto automático

É provável, é mais que provável que vossa senhoria se ache uma máquina de fazer sexo. Vossos cinco minutos são o máximo a que uma mulher com juízo pode querer na sua vida. Nisso não estais só, feliz ou infelizmente. Mas não é de outros homens que trato aqui, é da queda de vossa senhoria.

Mas para que não fique aqui a impressão de que apenas os pouco inclinados para os embates gozosos são embaídos, é forçoso levantar uma consideração simples, antes de avançarmos por esta seara: faça vossa senhoria o que fizer, o amante de vossa mulher faz melhor. Por favor, não vire o rosto: o sujeito que, talvez até neste exato momento, está comendo a sua mulher é melhor de cama que vossa senhoria. Pelo simples fato de não ser vossa senhoria.

Sejamos honestos: depois de, digamos, sete anos de casamento, vossa vida sexual não tem mais graça. Vossa senhoria já conhece a mulher com quem há tantos anos resolveu dividir o lar. Se vos restar ainda um certo interesse, vossa senhoria já conhece os atalhos para algo que quase se assemelha a um orgasmo, daqueles fraquinhos, daqueles que melhor seriam chamados por “missão porcamente cumprida”.

Mas se não lhe resta nem essa faísca de interesse, se o que sobrou de um grande amor cheio de adjetivos foi o tédio puro e simples, então nem isso: uma trepadinha burocrática de cinco em cinco dias, quando muito — menos ainda se o trabalho passa por uma daquelas temporadas em que exige tudo de vossa senhoria. Não tendes mais ganas de deixar vosso rosto encharcado dela, aproveitais o ciclo lunar para um merecido (em vosso entender, ao menos) descanso. Amanhã precisais trabalhar.

É compreensível que depois de alguns lustros tenhais esquecido dos tempos em que trabalháveis 16 horas por dia e mesmo assim não perdíeis o almoço executivo do motel, conciliando tempo e amor quando possível; e chegáveis no trabalho com o cabelo molhado e dizíes que tinha ido cochilar em casa. Vossa senhoria talvez tenhais até esquecido dos tempos em que dormia cinco horas por dia porque uma mulher apaixonada sentia urgência de vosso corpo, de vosso cheiro. Tínheis tempo para tudo: porque tudo era novo, e há no homem algo que o impele a explorar, e a gostar de suas descobertas enquanto elas são novas.

Mas esse tempo passou e vossa senhoria, sinto ter que dizer, não é mais o mesmo.

Podeis me chamar de machista, se quiserdes, e talvez eu seja mesmo: mas se vossa senhoria comesse decentemente a sua mulher, nada disso aconteceria. Simples assim. Não há senhora que freqüente as tardes de motéis de preço módico — amores clandestinos são também amores dispendiosos — que não reclame de pelo menos um desses dois aspectos em relação ao bom cumprimento dos vossos deveres conjugais: freqüência ou qualidade. E quantas camas de motel já ouviram desabafos desse tipo, relutantes a princípio, e finalmente francos, abertos?

Não vos indignai comigo, não ainda. Em vossa defesa, posso dizer que me parece tarefa árdua demais que, após uns 15 anos, olhar a celulite de vossa esposa e acordar diante do seu mau humor consiga ainda evocar desejos intensos, que consiga mais que um suspiro conformado com a sina que vos parece irremediável. Além disso, do mesmo mal que acomete vossa senhoria padece vossa consorte. Ela também já não vê tanta graça no senhor.

O fato é que, independente das qualidades intrínsecas de vossa senhoria, o amante de sua mulher a come melhor que o senhor. Conformai-vos. Mas se serve de consolo para um homem que, como vós, se vê roubado no que tem de mais importante, sabei agora que sois também o instrumento de vingança, e que a revindita corre célere.

Depois de uma tarde com o seu novo homem, amor tanto mais grandioso quanto efêmero; depois de gritar e gemer e perder o fôlego e redescobrir o paraíso; depois de o ter dentro de si e por instantes não querer jamais que ele saia dela; depois de o sentir cansado sobre o seu corpo, e sentir ser ela a causa desse cansaço sorridente; depois de tudo isso, meu dileto senhor, é convosco que eventualmente ela precisa deitar.

E por isso, meu senhor, não poderia haver maior vingança. Ainda que não vos tenha causado dor ela vos tirou algo importante; é nesse momento que ela terá que pagar o pecado do adultério. Vossa senhoria poderíeis até rir, se a ignorância não lhe cobrisse os olhos.

Por ser usada por vossa senhoria ela se sentirá suja, indigna; não saberá a quem está traindo. Ela chega em casa ainda fresca do amor, ainda com o gosto do seu homem em sua boca; e então é obrigada a conspurcar a beleza que viveu, com o vosso corpo suado. Sem saber, cometereis uma violação, terás machucado aquela que vos tirou o que, julgais, é vosso. E inocente, sem culpa, tereis se vingado do que ela vos fez; nesse momento a confusão de sentimentos, em que amor, desejo e lealdade se confundem, faz a sua primeira vítima. Conspurcar, indignar, violar: são esses os verbos que constituem vossa vingança. É a isso que sois reduzido, mas em vossa degradação vossa senhoria também a degrada.

E aí tendes o vosso casamento: um sistema de compensações em que as mágoas não precisam ser conhecidas para causarem dor em alguém.

***

Aqui termina este pequeno guia. Que tenha servido de alerta para homens e mulheres. Há pelo menos mais três itens que deveriam ser incluídos, como o fato de ela de repente querer ficar mais bonita; mas chega, por enquanto. Tampouco caberia aqui o ponto de vista do amante, caído de amores ou, como sói acontecer mais comumente, leviano. Fica apenas um último pedido: por favor, não se importem com o uso da segunda do plural, nem com os erros de ortografia resultantes da falta de familiaridade. Ele era necessário: não é porque a mulher de um homem diz ai em outros ouvidos que podemos ter essa intimidade paternal com ele, como se tem com o porteiro que recebe uma gorjeta no Natal. Eles podem sem traídos e vilipendiados, mas ainda assim não merecem ser chamados de cornos.

Originalmente publicado em 15 de março de 2007 @ 21:18

Os vagalumes que não acendem o rabo

Um post antigo sobre a Coleção Vagalume é um daqueles que recebem poucos comentários, mas constantes. Quase todos discordando, claro, que concórdia não é o subtítulo deste blog. Para uma sociedade que respeita o livro como um crente respeita a religião dos outros, mas que encara o exercício de ler como uma dieta, ação adiada sempre para a próxima segunda-feira, dizer que a coleção é medíocre e imprópria para ser adotada como padrão escolar é quase como xingar a mãe do sujeito. O fato de ler alguns livrinhos de cerca de 50 páginas, por aí, lhes traz legitimidade e a devida inserção na sociedade.

O que não parecem ter entendido é que não há nada de mau em ler aqueles livros. Eu li muitos; eram bom passatempo, livrinhos que se lia em meia hora. Mas poderia dizer que também li Sabrina, Júlia, Bianca, Tex, Mônica, Sidney Sheldon, Harold Robbins, Tio Patinhas; e daí? A questão nunca foi essa. Era o fato de o sistema educacional brasileiro ter feito uma escolha mediocrizante ao priorizar essa coleção como padrão literário para os estudantes. Goste-se ou não dela, a Coleção Vagalume é sub-literatura.

A outra questão que o post defendia era simples: a Coleção Vagalume não formou mais (ou melhores) leitores que livros de autores de nível muito superior. Continuamos sendo um país de analfabetos e iletrados; mas agora com cada vez menos referenciais. Talvez venha daí o antagonismo que os comentaristas criaram entre os vagalumes e Machado de Assis (que não foi citado no post mas que as pessoas parecem ter como sinônimo de boa literatura em língua portuguesa. Preferiram passar batido pelo Eça que citei; daquele pelo menos ouviram falar).

Essa comparação quase automática com o bruxo do Cosme Velho talvez seja o maior indicativo de que a coleção Vagalume não cria leitores. Eles sequer compreendem que Machado pode ter livros densos como “Quincas Borba”, mas também bobagenzinhas românticas como “Iaiá Garcia”; não compreendem porque, pelo visto, nunca mais leram nada. Talvez por isso, por colocarem tudo em um balaio só, eles façam como o Fábio Lopes e digam que não se pode “fomentar o gosto pela leitura com Machado de Assis”. Não apenas criam um antagonismo que não existe, como fazem supor uma questão muito interessante: para esses comentaristas, antes da Coleção Vagalume ninguém neste país lia qualquer coisa. Porque não se pode fomentar, etc.

Nos anos 80, claro, este país virou um paraíso de literatos. Patrícia:

Não há uma só pessoa que tenha sido alfabetizado na década de 80 que não se lembre de um livro da coleção vaga-lume. E ainda se lembrar dos titulos e das historias… Só por este motivo já esta provado a importância e a influência dos livros da coleção vaga-lume.

Lembrar não é o problema. Eu lembro daquela banda que cantava Vamos a La Playa, ô ô ô ô ô. Mas isso não faz deles algo minimamente importante.

Se alguém conseguir me mostrar qual a vantagem de, por exemplo, (inserir aqui qualquer título da coleção Vagalume) sobre “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, eu ficaria muito grato. Eu não consigo ver nenhuma. Porque, independente do seu nível de compreensão, o livro do defunto autor é sempre adequado a qualquer nível. Não é necessário que se compreenda Machado no nível de um Harold Bloom. Basta ler e gostar. Ninguém está pedindo que se discuta aspectos sociológicos ou psicológicos do sujeito da ABL.

Se alguém consegue entender um livro qualquer daquela coleção — por exemplo, os policiais para retardados de Marcos Rey — consegue entender também “A Mão e a Luva”. Consegue entender, até, “Memorial de Aires”, o livro mais superestimado da literatura brasileira. Mas as crias dos vagalumes que não acendem o rabo, criadas com o vocabulário reduzido e os raciocínios simplórios desses livros, parecem esbarrar nas dificuldades intransponíveis criadas por uma mesóclise. Não conseguem entender que Machado é fácil, é de uma simplicidade enganadora; e que não há nada de mau em ser enganado dessa forma.

Mas mesmo agora eu acabo enveredando por aspectos acessórios do texto. O ponto central daquele post era o de que a intenção das escolas, ao adotarem como prato principal a Coleção Vagalume, não tinha sido realizada. Ela não formou leitores. As livrarias não estão mais cheias hoje por causa dela. O resultado é que continuamos analfabetos — mas agora com mais orgulho e auto-condescendência, porque em algum momento da vida conseguimos ler, sei lá, “O Caso dos Meninos Retardados na Ilha do Girassol”.

Emanuelle:

Jamais uma criança de 10 anos vai se interessar por um chatíssimo José de Alencar, com sua linguagem incompreensível até para pessoas acima de 20 anos…

Jamais é tempo de menos. Eu tinha 10 anos quando saí da Graça, onde morava, e fui andando até a Ediouro que ficava na esquina da Av. Sete com a Politeama para comprar “O Guarani” (junto com “As Viagens de Tom Sawyer”e “Winnetou”). Tinha lido “Iracema” no ano anterior e gostado. Crianças de 10 anos se interessam por Alencar, sim; difícil é entender que uma pessoa de 20 anos ainda corra atrás do cearense. De qualquer forma, o conceito de linguagem incompreensível só é justificado quando as pessoas, além de não serem expostas a boa literatura, também são alijadas da boa gramática por professores analfabetos certos de que, assim como eles, crianças não conseguem entender nada.

É o exemplo do Diogo Basso:

Li Memórias Póstumas de Brás Cubas aos 21 anos, e a muito custo. Se eu me deparasse com esse livro aos 12 tenho certeza que não passaria nem da primeira página (quem já o leu sabe porque). Aos 12 eu lia a série Vaga-Lume, e até pouco tempo tinha pra mim que o melhor livro que eu já tinha lido era um justamente dessa coleção (Açúcar Amargo).

Se aos 21 você não consegue ler nada melhor que o que lia aos 12, você tem problemas sérios. Está explicada a dificuldade em entender um livro tão absurdamente genial. “Açúcar Amargo” deve realmente ser melhor que os outros três livros que o Diogo leu.

Diogo é um exemplo vivo de um dos problemas mais graves da sub-literatura ensinada nas escolas: ela baixa o nível e acostuma ao que é menor. É como o sujeito que toma Canção a vida inteira e estranha o gosto de um Chianti. As pessoas parecem criar uma ojeriza instintiva a literatura um pouco mais elaborada. Jamais leriam um Osman Lins, por exemplo, para citar um de que a imensa maioria deles jamais ouviu falar.

Mesmo assim, gente como o Mauro Cesar se irrita:

Rafael, percebe-se que você não entende absolutamente nada sobre formação de leitores e é graças a gente como você que o Brasil patina nos indicadores de leitura. Leia esse artigo aqui e aprenda um pouco:
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1244

Eu pensava que o Brasil patinava nos indicadores de leitura porque, além de questões sociais mais graves e mais decisivas, professores preguiçosos e mal formados baixaram o nível do ensino. Porque o que sobra neste mundo é gente que adota a demagogia burra como modelo de vida, e se irrita com quem acha os seus valores e suas idéias inadequados. Mas o Mauro, com a arrogância da ignorância que é peculiar em quem tem orgulho de cada livro ruim que leu, viu neste pobre blogueiro um ser nocivo à sociedade. Preciso agradecer a ele.

O Alexandre Franco mostra outra conseqüência:

Infelismente , nao concordo com vc , se hoje eu me interesso, pela leitura ,é porque tive uma introduçao gostosa, sem pressao

O Alexandre tem razão. Eu, concordo, que, pressão, nessas, horas, torna, tudo, mais, traumático. Carinho e paciência, em momento tão importante, são fundamentais. Ouvi falar de mulheres que se tornaram frígidas por isso, pela pressão na hora da introdução. Tem uns escritores por aí que são uns cavalos. Mas acho que agora entendi. Alguns preferem a Coleção Vagalume para evitar esses traumas: porque são pequenos e fininhos.

No fim das contas, eu fico é com o comentário do Elton:

Acho que entendi o seu ponto de vista: nada contra a molecada ir na biblioteca e ler os livros da coleção vaga-lumes por diversão, mas o uso destes livros pelos professores como a base de cursos de literatura, ou melhor, de leitura, não é adequado. Não duvido que tenha gente por ai usando Paulo Coelho com o mesmo intuito. Nada contra os que voluntariamente se prestam a ler este tipo de porcaria, mas existem coisas mais adequadas de se colocar em uma sala da aula. E vamos parar com essa estória de que ler qualquer coisa aumenta o nível intelectual, como se passar os olhos sobre letras pretas em fundo branco tivesse alguma propriedade mágica. Muitas vezes o efeito de certas leituras é exatamente o contrário, como não me deixa mentir a imprensa nacional.

Eu não escreveria com mais concisão e simplicidade. E por isso continuo afirmando que, se é para ser analfabeto, que se seja analfabeto em algo realmente bom. Pelo menos é uma ignorância mais nobre, se é que há alguma nobreza nisso.

Originalmente publicado em 27 de fevereiro de 2007 @ 14:13

É mister John Daniel’s para você

Ah, Adriano

A primeira reação que tive ao ver seu comentário foi pensar: como alguém pode não gostar de Jack Daniel’s? Eu reconheço em todos o direito a seus gostos. Mas não admito que alguém ouse não venerar a Lady Day, e não reconheço que se não goste de Jack.

Mas é John Daniel’s para você, Adriano. Cuidado aí com a intimidade. Jack só se deixa chamar por esse nome por quem realmente gosta dele. Por quem o conheceu aos poucos, em muitas noites longas em que risos se misturaram a lágrimas; mas principalmente por quem ele conhece de verdade, por aqueles de quem ele conhece a alma. Não vá afetando uma intimidade que você não tem nem quer ter. Mister John Daniel’s.

Há umas poucas coisas na vida que precisam de ritual. Um ritual simples, porque rituais complicados tiram a alegria do viver, e os prazeres se perdem na necessidade de seguir os passos dos outros. Jack sabe disso. Ele não lhe diz o que fazer. Sequer coloca a mão no seu ombro, porque sabe que a sua dor não passará com isso; em vez disso, apenas fica do seu lado, calado, olhando para você. É só disso que você precisa.

Aquele que lhe apresento como Jack Daniel’s só pode ser entendido por quem sabe que se fechar os olhos pode ter pesadelos. Sonhos ruins, perversos, que lhe farão acordar com medo, procurando um ar que lhe pareceu faltar. Por quem, como um Ebenezer Scrooge atormentado pelo passado, está sempre sujeito a fantasmas que chicoteiam com lembranças que você queria enterradas.

Existem poucas coisas que se deve fazer sozinho nesta vida. Uma delas é deitar em um sofá no escuro, só você e os milhões de demônios que atormentam a sua consciência, que lhe fazem ter calafrios pela canalhice que você cometeu um pouco antes, pela mulher que você machucou, pelo amigo que você ofendeu. É só ali, naquele sofá, que você pode entender por que sabe que vai magoar uma mulher, sabe que é errado, ao mesmo tempo em que admite resignado que  não conseguirá evitar.

E nessas horas, nesse sofá no escuro, só duas companhias lhe são permitidas. Uma delas é Billie Holiday ou Chet Baker; você pode escolher qualquer um dos dois porque eles, como ninguém mais, sabem o que se passa em sua alma. Quando um Baker com voz tão pequena canta My Funny Valentine, ou uma Billie que não tem mais esperanças destroça o seu coração com Solitude, então você entende, e não são necessárias outras palavras. Só eles sabem quem você é, só eles olham para você sem raiva, sem pena ou sem censura. Certo, eles dizem “mas que merda você fez, hein?” Mas dizem também “tudo bem, eu também fiz”. E então, por alguns instantes, você sente que não está sozinho no mundo; que alguém consegue entender tudo aquilo que passa tão rápido por sua cabeça, tão rápido que nem você consegue compreender. Só eles podem traduzir, em palavras que dizem mais do que parecem dizer, aquilo que você jamais teria coragem de falar. E mesmo assim apenas naquele momento, num sofá no escuro, apenas você, a música, a fumaça azulada do cigarro e o perfume que vem de um copo.

Esse copo de Jack Daniel’s é a sua outra companhia, Adriano, e só ela. Cada dose tem que ser dupla, se você vai colocar gelo que seja apenas o suficiente apenas para esfriar e suavizar, não para tirar o gosto. Só isso. Mais nada. Ninguém para falar que essa merda foi envelhecida em barris de carvalho no cu da Escócia. Ninguém para vir com viadagem sobre a qualidade da água das highlands. Ninguém para encher seu saco. Só você, a música e seu copo.

E os seus demônios.

Jack é diferente, Adriano. É diferente, por exemplo, de um Johnny Walker com roupinha de nojentinho dizendo em falsete keep walking, keep walking. Johnny é um filhinho de mamãe inglês que anda por diletantismo, porque cansou do Bentley com motorista, um maricas que nunca precisou pegar um ônibus na vida; Jack é alguém que sofreu e fez sofrer, que desaba na mesa do boteco depois de chorar por ela, e que se conseguir voltar para casa vai voltar a pé, mas não porque tem que “keep walking“: mas porque é assim que as coisas são. Johnny se acha grande, se acha o dono do mundo. Jack, e todos nós, sabemos que porra nenhuma interessa, que é tudo uma grande brincadeira, e que a gente às vezes chora enquanto ela não acaba. Sabemos que não somos nada, mas que nossas pequenas tragédias são enormes.

Só Jack entende o que há de inexorável nesta vida; as suas tantas promessas não cumpridas, os compromissos a que você não compareceu, só ele entende que você mente sendo sincero. Jack sabe; Johnny não fala nossa língua.

Jack Daniel’s é para quem se arrepende. Não acredite em quem diz não se arrepender de nada nesta vida; porque esse é um idiota, não merece sequer sentir o cheiro do milho. Ou então, pior, não viveu, tem o orgulho néscio de nunca ter errado porque só tomou as decisões certas na vida e não sabe de nada, de nada. De nada. É só outro idiota. E de idiotas o mundo está cheio, é contra eles que Jack nos protege.

Só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca fez nada errado; quem nunca se arrependeu de nada. Quem nunca viu uma mulher chorar na sua frente, por sua causa, e só sentiu enfado; quem nunca jurou um amor que não sentia por causa de um rabo maravilhoso e peitos que precisavam ser engolidos por sua boca; só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca puxou os cabelos dela sabendo que ela ia gostar, quem nunca deixou o seu colo marcado de vermelho como quem diz você é minha. Só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca ouviu “desse jeito você acaba comigo”.

O resto não vale a pena. O resto é Logan, nome que não merece sequer um sobrenome, bastardo que é.

Por isso não, Adriano. Jack Daniel’s, não. É mister John Daniel’s para você. Marque hora com antecedência. E então pode falar mal o quanto quiser, porque ele não vai se importar.

Originalmente publicado em 23 de fevereiro de 2007 @ 10:10

Canto de amor e desamor para Maroca

Eu não sabia quem era a Maroca. Sabia apenas que mora perto de mim, mas não perto demais, e sabia também que sua voz chegava fraca até mim.

Não sabia nada sobre ela, ainda não sei, e quando me apresentei dei nome falso para que ela não soubesse quem era este seu admirador secreto. Preferi amar Maroca assim, oculto e em silêncio, uma espécie de Cyrano frouxo na penumbra diante de sua Roxana: “A causa disso tudo, eu sei como explicá-la: é no meu coração que vos recebo a fala; meu coração é grande, é fácil de encontrar; pequena é a vossa orelha, e custa a procurar; a minha fala sobe… a vossa vem de cima…”

Desde o início me apaixonei pelo seu nome; só a paixão justifica que alguém cite Ronstand. Maroca. Poucos nomes tão brasileiros, tão antigos; talvez apenas Rita, Rita que tem gosto de jaboticaba. Maroca: Maria chamada pelo apelido com carinho pela tia, talvez uma tia que ainda mói café em pilões caseiros. Maroca é nome de passarinho, nome leve como um coleirinha. Maroca chamada assim pelas amigas, todas em blusas brancas abotoadas até quase o pescoço, com golas de renda e olhares que não são oblíquos porque só quem tem olhar oblíquo são as Capitus da vida, pelo menos é assim que me parece.

Maroca é um nome que só lembra coisas boas, como um retrato amarelado de família feliz pendurado na parede do quarto da avó.

Maroca era adorável porque não era egoísta, porque dividia o pouco que tem. E foi assim, por sua generosidade e desprendimento, que a Maroca cativou este pobre blogueiro. Uma generosidade tão grande que até me fez escrever a palavra “cativar”, palavra que só me lembra livros ruins lidos por misses.

Mas a Maroca mudou, como uma moça numa música de Chico Buarque. Ela está diferente, e por isso este post de desabafo. De repente ela deixou de ceder aos meus apelos, deixou de me mostrar os seus tantos encantos, passou a fingir que eu nem existia; e a Maroca sabe, como eu sei, que o desprezo é pior que o ódio, porque o desprezo é a não-existência, é o vazio; e além da Maroca, nada conseguia sobreviver ao vácuo.

Maroca se tornou igual ao Marcos e ao Tonzé, que também moram perto de mim e dos quais eu não tinha nada a falar, além de lamentar seu egoísmo e sua incapacidade de partilhar. É com raiva e desalento que escrevo isso enquanto bebo os últimos goles do meu copo de Jack Daniel’s: para ver se esqueço a Maroca. A Maroca que de repente jogou fora o que tinha de angelical e de bom, que virou uma pessoa pequena como o Marcos e o Tonzé. Maroca me decepcionou, me fez sentir como um marido apaixonado que vê sua mulher lhe dizer, com a frieza daqueles em quem não existe mais amor, que ele não significa mais nada para ela.

De repente eu não tinha mais wi-fi em casa, porque a vagabunda da Maroca resolveu fechar a sua rede.

Ah, Maroca, quer saber? Eu não te amo mais.

Originalmente publicado em 7 de fevereiro de 2007 @ 10:21

De volta ao golpe do cinema de autor

A teoria do cinema d’auteur já começou com um grande engodo, a idéia maluca de cámera stylo. Da maneira como foi enunciada por Alexandre Astruc, ela é um misto de utopia impossível e jogo de palavras. Tem pouco a ver com a realidade técnica do cinema, e como conseqüência trouxe ao mundo milhares de pessoas ao redor do mundo saindo do cinema e comentando: “O filme é uma merda, mas o diretor é genial”.

Segundo Astruc, o cinema se libertaria “pouco a pouco da tirania do visual, da imagem pela imagem, do enredo imediato e concreto, para tornar-se um meio de escritura tão leve e tão sutil quanto a linguagem escrita”.

Um amontoado de bobagens. Seria impossível ao cinema se tornar sutil como a escrita porque ele não possibilita o mesmo nível de criação por parte do espectador. Um leitor pode imaginar ao seu gosto, por exemplo, uma daquelas longas descrições iniciais de Balzac; a câmera, seja caneta ou porrete, não lhe dá essa opção. No livro “O Falcão Maltês” Sam Spade, mesmo que Dashiell Hammett o tenha descrito razoavelmente (louro, sobrancelhas em V, cara de mau), tem o rosto que você quiser; e certamente o seu Sam Spade é bem diferente do meu. No filme com o mesmo nome (pelo menos no original; em português ele se chamou “Relíquia Macabra”), de John Huston, Spade vai ter sempre a cara exata de Humphrey Bogart, com cabeção e tudo. E esse é apenas um exemplo pequeno.

O fato é que a despeito das idéias opiáceas de Astruc a literatura continua, e continuará, sendo uma arte infinitamente superior ao cinema. Vamos colocar as coisas da seguinte forma: Thomas Mann conseguiria colocar em livro qualquer filme existente. Mas nenhum, absolutamente nenhum diretor conseguiria fazer de “A Montanha Mágica” um filme com o mesmo grau de sutileza e profundidade do livro. A teoria de Astruc só valeria se um dia o cinema conseguisse dizer tanto sobre madeleines quanto Proust (o que levanta outra pergunta: por que alguém quereria repetir uma insanidade dessas?). Além disso, sem imagem e sem roteiro, o que existiria? É provável que nem o próprio Astruc tenha uma idéia precisa.

É mais fácil entender a teoria do autor dentro do momento específico político e econômico da cultura francesa. Aqueles que fizeram a Cahiers du Cinema eram parte de uma geração talentosa e ansiosa por realizar grandes filmes. Logicamente, como eram franceses, precisavam de um aparato filosófico para justificar teoricamente o que se propunham a fazer: um cinema com menos recursos técnicos mas — às vezes, e só às vezes — grandes idéias. De certa forma, a teoria do autor é uma aplicação do existencialismo francês ao cinema. Algo muito bonito em teoria, mas cuja prática é bem diferente.

Na Wikipedia a definição da teoria abre exceções:

A teoria do autor afirma que um filme ou o conjunto da obra de um diretor (ou, mais raramente, um produtor) reflete a visão pessoal e preocupações desse diretor, como se ele ou ela fosse o autor primário da obra.

Dois aspectos aí chamam a atenção. O primeiro é a exceção aberta para o produtor, o que prova que a teoria podia ser malandra, mas não era completamente maluca; mesmo criada por e para diretores como um instrumento político, reconhecia que o papel dos produtores é decisivo. David O. Selznick, penhoradamente, agradece a exceção aberta enquanto corre do fantasma de “…E o Vento Levou”.

Obviamente, aqueles que defenderam tanto a função do diretor neste blog não leram isso. (Por acaso sempre davam como exemplos filmes em que o diretor era também o roteirista, de preferência Godard. É engraçado como as pessoas gostam de citar o finado; eu me sentiria mais confortável com um diretor mais talentoso como Truffaut. Infelizmente esquecem que já nos anos 60 ele passou grande parte do controle criativo para o seu pessoal, como Jean Pierre Godin. Talvez isso explique a sua morte, não sei; mas com certeza reforça a tese do cinema como arte coletiva.)

O segundo aspecto é quase hermenêutico: o “como se”, que soa como um usurpador envergonhado. Como o sujeito essencialmente honesto que tenta aplicar uma mentira na qual nem ele acredita.

Pelo menos da maneira como foi defendida pelo pessoal da nouvelle vague, a teoria do cinema d’auteur não tem por referência o cinema de modo geral. É basicamente uma proposta de renovação de um modo de produção, dentro de circunstâncias históricas e geográficas bem específicas. Deveria ser compreendida como uma espécie de reação ao momento específico da produção cinematográfica francesa, mais ou menos como um “grito dos despossuídos” diante do que julgavam ser o banquete do establishment; gente boa e nova, à margem do sistema econômico cinematográfico, que precisava de espaço e entendia que naquele esquema jamais teria chance. Uma nova geração que precisava de espaço, e que estava disposta a fazer cinema de maneira economicamente mais precária.

Ou seja: na prática, a conversa de diretor-autor não passa muito de justificativa para a nouvelle vague. Só pode ser realmente compreendida dentro da necessidade francesa de se fazer cinema fora das estruturas tradicionais.

Não há nada de realmente exclusivo nisso. O discurso do cinema de autor, sob certos aspectos, é o mesmo discurso da pobreza repetido em tantos lugares ao longo da história. Elites culturais de países pobres sempre tendem a afirmar uma espécie de teoria de valorização da pobreza, como meio de possibilitar a realização de suas obras. O neo-realismo não poderia ter surgido em outro lugar que não a Itália destroçada do pós-guerra (e por isso “Roma, Cidade Aberta” é um filme tão superestimado); o cinema novo é produto exclusivo do Brasil destroçado de sempre (o que explica os elogios feitos a uns tantos filmes ruins de Glauber); a França que terminava de raspar a cabeça de colaboracionistas nos deu a nouvelle vague.

No entanto, assim que os países ficam ricos essas elites culturais parecem adotar outro discurso — e talvez seja por isso que o mesmo Visconti que dirigiu o monumental “A Terra Treme” terminou a vida como o esteta brilhante e luxuoso de “Morte em Veneza”. E Sergio Leone, com o requinte visual e ideológico de “Era Uma Vez no Oeste” — decididamente um dos melhores westerns de todos os tempos, com mais massa cinzenta que cinco filmes de Howard Hawks e dois de John Sturges juntos, para ficar apenas em dois diretores incensados pela Cahiers du Cinema — não teria lugar no cinema materialmente pobre da Itália de 20 anos antes.

O resto é pura embromação. Parte de uma confusão proposital entre os conceitos de autoria e interpretação, negando a esta virtualmente toda ação criativa para dar àquela mais do que sua cota justa.

Vamos lá: em sua função específica, um diretor pode se dar no máximo o título de intérprete. Como Astruc sabia bem como funcionava um set de filmagem, é mais do que justo chamar sua teoria de conto do vigário.

A pergunta óbvia é a seguinte: se a estrutura básica (quando menos) do filme é dada pelo roteiro, se a definição visual é dada também pelo diretor de fotografia (e muitas vezes pelo cinegrafista, quando não são a mesma pessoa. Pergunta: “A Lista de Schindler” tem a mesma estética visual de “A Guerra dos Mundos?” O mesmo “olhar”? Quem é o autor deles, então?), e se tudo isso é personificado e amarrado pelos atores, como o diretor pode arrogar a si o papel de autor único e exclusivo?

O golpe está em dar ao cinema um mecanismo diferente de todas as outras artes coletivas. Por exemplo, no teatro e na música ninguém tentou fazer do diretor ou do maestro o autor da obra em questão. Eles são, sempre, intérpretes. Podem modificar, podem acrescentar ou retirar elementos, mas por definição não passam de regentes de um processo coletivo que parte de uma obra específica e cuja autoria primordial é bem definida. Só isso. Mais nada. O resto é conversa mal intencionada de teóricos picaretas.

O pessoal do teatro tem a honestidade de admitir que aquela é uma arte coletiva. Que partindo de um elemento inicial, a peça propriamente dita (e que normalmente tem ainda menos indicações visuais que um roteiro típico), o resto é construído coletivamente pelo diretor, pelos atores, pelo cenógrafo. Um diretor de teatro poderia, com mais justiça, se outorgar o título de autor; ele não tem um diretor de fotografia para dar sua marca à peça. Mas o pessoal do teatro é intelectualmente honesto. Talvez porque tenha mais tempo de estrada.

Truffaut disse que não há bons e maus filmes, apenas bons e maus diretores. Outro joguinho de palavras. É o caso de perguntar se o recém-falecido Robert Altman, por exemplo, era uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Afinal, ele é o sujeito que fez “M.A.S.H”, mas que também cometeu Prêt-à-Porter” — sem falar em “Doutor T e as Mulheres”. Como não consta que o sujeito fosse esquizofrênico, o mais provável é que, como apontou um crítico americano, com um bom roteiro nas mãos Altman fazia um filme brilhante; sem um bom roteiro, fazia a versão em celulóide do Lexotan.

Eu não conseguiria encontrar exemplo melhor.

Originalmente publicado em 5 de fevereiro de 2007 @ 0:00

15 respostas para a Vivien Morgato

A Vivien fez uma pergunta no penúltimo post:

(levantando a mao) posso perguntar? por que um dos blogueiros mais inteligentes (vc, caso nao tenha entendido…daaaaa) dessa tal de blogosfera ainda teima em pagar de adolescente punheteiro??

Ô, Vivinha… Faz assim comigo, não. Eu gosto tanto do Mãe Joana… Mas vamos lá, deixa eu responder.

1 – Porque minha idade mental é de 2 anos, e o doutor já disse que não aumenta.

2 – Porque eu posso não ser mais adolescente, mas…

3 – Porque, como o Alexandre lembrou, algumas verdades são universais.

4 – Porque eu sou um sujeito muito complexo.

5 – Porque eu não sou um sujeito sério.

6 – Porque eu sou um caso sério.

7 – Ah, essa estranha dicotomia ibérica entre inteligência e trabalhos manuais…

8 – Porque a Jolie é realmente melhor que o Tarantino. Eu acho.

9 – Pior é o Alex, que gosta de pé.

10 – Mundo de merda. O Bia escreve um livro chamado “Sexo Anal” e é o gênio da nossa geração. Eu respondo uma pergunta, uma simples pergunta, e viro adolescente punheteiro.

11 – Porque, como publicitário, eu dei um conselho válido mesmo que isso me custe respeitabilidade.

12 – Porque propaganda é a alma do negócio. O Alex pede pés e recebe. Então…

13 – Falta dessas coisas é um horror, sobe para a cabeça e aí nego fica assim, só pensando nisso…

14 – Porque eu gosto de cachorras. Jolie é nome de cachorra.

15 – Porque eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, Rafaeeeeel…

Originalmente publicado em 2 de fevereiro de 2007 @ 10:03

Married with Children

Ao longo dos quase quatro anos em que este blog está no ar, muitas pessoas, de maneira consistente e regular, deixaram comentários a um post antigo sobre “Daniel Boone”, que está perdido em algum lugar (seriado sobre o qual devo falar novamente, quando a preguiça deixar).

Ninguém, no entanto, deixa comentários no único post sobre Married With Children. Ninguém procura no Google por ele. As pessoas parecem ignorar esse seriado, mesmo que ele tenha sido um dos que passaram mais tempo no ar, recorde batido depois pelos Simpsons, e que o canal Sony tenha exibido reprises até pouco tempo atrás.

Married With Children foi o melhor seriado que a TV americana produziu em toda a sua história — e isso inclui unanimidades como “Os Simpsons” ou “Seinfeld”. Contava o dia-a-dia de uma família típica americana, os Bundy: pai, mãe, filho, filha, cachorro. Poderia ser igual a tantos outros seriados — qualquer um pode citar pelo menos cinco feitos dessa matriz, o american way of life soletrado para simplórios — não fosse por um pequeno detalhe: em Marrried With Children não havia amor, felicidade, não havia redenção, não havia nada. Havia esperança, sim; mas ela nunca conseguia chegar ao final do episódio. E por isso os Bundy eram uma família tão típica quanto, por exemplo, as pessoas felizes de “Cosby”; só que era mais verdadeira.

Foi talvez o seriado mais vulgar feito pela TV americana. E também o mais selvagemente engraçado, o mais cínico, o mais insolente. Principalmente, foi o mais cruel seriado americano já feito.

O cinismo começava pela música de abertura, Love and Marriage de Frank Sinatra, talvez a maior antítese possível ao que o seriado mostrava (“Love and marriage, love and marriage / Go together like a horse and carriage“); passava pelo nome da família, Bundy, que não lembra coisas boas a nenhum americano. E terminava no prazer sádico com que humilhava todos eles. Apresentava uma visão das instituições mais sagradas americanas, o casamento, a família e o tal sonho americano, como eles realmente são para milhões de pessoas — respectivamente o fim de qualquer esperança de felicidade, uma ilusão que não passa muito do primeiro orgasmo (dele, não dela), e um grande, interminável e mesquinho pesadelo.

O modelo familiar era subvertido: Al Bundy era um fracassado na escala mais baixa da cadeia alimentar masculina (vendedor de sapatos femininos, o que o fazia ter pesadelos à noite com senhoras imensamente gordas de pernas abertas diante dele); Peggy Bundy era uma dona de casa preguiçosa e mal amada; Bud Bundy era um bobo que não comia ninguém e cuja única companhia feminina era uma boneca inflável; e Kelly Bundy era uma adolescente promíscua e indefensavelmente burra.

Com esses ingredientes Married With Children foi capaz de fornecer um dos mais acurados retratos da família típica americana. Não há concórdia, há raiva, inveja, despeito, desprezo mútuo; não existe amor, existe apenas o fracasso que os mantém juntos. De uma forma torta, eles são, sim, uma família; mas apenas porque não podem aspirar a nada melhor que isso.

Walter Mosley é, na minha opinião, o melhor autor policial da atualidade. As pessoas devem conhecer pelo menos um livro dele, porque virou filme: “O Diabo Veste Azul“, com Denzel Washington no papel de Easy Rawlins. Desgraçadamente, há apenas outro livro seu publicado em português, Little Scartlet, com o título estúpido de “Quem Matou Nola Payne?” porque editores brasileiros parecem não conseguir perceber que, na velha e boa tradição do hard boiled, quem matou quem é o que menos importa. Essas perguntas ficam para farsantes como Agatha Christie. E com apenas esses dois livros em português os leitores brasileiros perdem a chance de ler bons romances noir como Black Betty e A Red Death.

Há quatro anos, quando a Fox, canal que exibia originalmente o seriado, fez um especial de reunião do elenco de Married With Children, Mosley escreveu um artigo para o New York Times que o definia com perfeição. Ele lembra que Al Bundy era o seu herói porque era um sobrevivente, no único seriado que não sentia a necessidade adulatória de redimir a classe trabalhadora com uma visão rósea e falseada de sua realidade. Era um artigo tão bom que eu guardei, e que agora disponibilizo aqui.

Porque Al Bundy também era o meu herói. Havia algo de tremendamente familiar em sua estupidez, no jeito como chegava em casa todas as noites, enfiava a mão dentro das calças e assistia ao seu seriado preferido, Psycho Dad, que sublimava o que podiam ser suas maiores vontades.

Como eu disse, ninguém deixa comentários no post sobre Married With Children, enquanto enchem regularmente a caixa do post sobre “Daniel Boone”. Mas “Daniel Boone” é um seriado que deixou de ser exibido há pouco mais de vinte e cinco anos. Talvez daqui a umas duas décadas as pessoas consigam lembrar de Married With Children. Mas é improvável. Se “Daniel Boone” impressiona pelos sentimentos nobres e pelos bons exemplos, Married with Children só pode impressionar pelo retrato feio que faz da família e dos bons costumes. E disso ninguém gosta de lembrar.

Originalmente publicado em 31 de janeiro de 2007 @ 0:00