Cena noturna

Segunda-feira. Quase meia-noite. Estou saindo do restaurante onde fui encontrar minha amiga mais antiga e o seu namorado.

Ele nos vê parado na frente do restaurante e se aproxima.

Tem seus cinquenta e tantos anos, ele. Magro, moreno, cabelos bem grisalhos, um rosto comprido com aquele perfil eslavo, quase equino, mas com os traços de gerações de mestiçagem. Seu rosto não me é estranho e eu acho que já o vi em algum lugar.

Ele se apresenta. “Meu nome é Fulano, sou radialista… Oi, dona Beltrana! Eu não reconheci a senhora, faz tanto tempo… A senhora tá bem?”

Ele conta a sua história, explica com detalhes. Ele agora está em Tal Lugar, está com Sicrano que ganhou a prefeitura, graças a Deus, mas nessa coisa de troca de governos o pessoal não o pegou para levar de volta — pirraça, só pirraça, vocês sabem como é, e agora ele estava incomodando as pessoas para voltar pelo menos para a rodoviária, onde pegaria uma das ambulâncias que vêm para Aracaju.

A camisa gasta é Tommy Hilfiger, a calça é indeterminada, o sapato é barato. No pé esquerdo, no lugar onde o dedo mindinho grita desesperadamente para sair, há um rasgo. Ele é um homem que mesmo na miséria ainda gasta alguns minutos de sua manhã para se arrumar com o melhor que tem, para colocar a camisa por dentro da calça, a roupa limpa, a aparência de normalidade, aquele querer ser sempre melhor.

E porque ele gosta da minha amiga, eu dou dez reais a ele. Ele vai embora, feliz.

Me despeço e vou para um posto no meio do caminho, comprar uma última cerveja e um maço de cigarros, que a noite a gente sempre termina sozinho, a gente e nossos demônios. E quando paro o carro ali está ele, indo para a loja de conveniência. Ele me vê, me reconhece, me cumprimenta surpreso.

Eu saio do carro e vou comprar meus trecos. Passo por ele e recebo um cumprimento: “Oi, mestre! Me perdoe!” Eu não sei por que ele perde perdão, se pelo pedido há poucos instantes, se por eu tê-lo visto agora. Eu não tenho por que perdoá-lo.

Quando saio ali está ele, sentado empertigado, altivo, e é sempre bonito ver alguém sentrado com a coluna ereta. Ele que estava entrando na loja não entrou, agora apenas espera. Olha para o nada à sua frente com altivez e orgulho, quase esnobe. Talvez o dinheiro em seu bolso esteja queimando, pedindo para ser gasto, mas agora ele não pode. Ele vai esperar que eu vá embora para que a sua estória não seja desmontada, para que eu, o amigo da moça que ele cumprimentou com respeito, não perceba que tudo aquilo era mentira.

Ou talvez nem isso, talvez ele saiba que eu já sei, se me conhecesse saberia que eu sei.

Mas ele não me conhece. Se me conhecesse saberia que eu entenderia. E entraria para comprar sua cachaça, feliz, talvez até piscasse e sorrisse para mim, e durante algumas horas ele seria, ele também, um homem feliz, esquecido de tudo, esquecido da vida, esquecido da morte.

Salvador, em algum lugar do passado

Não sei muito sobre o filme abaixo. Encontrei em um grupo do Facebook, que tampouco sabia alguma coisa sobre ele.

O que sei é que ele mostra uma Salvador ainda existe e que já não existe mais, mas da qual lembro perfeitamente: o Jardim de Alah com barracas de camping; a região do Iguatemi, ainda em sua primeira encarnação, ainda vazia; a Rodoviária então nova, e daqui a pouco substituída por outra em Águas Claras; o Dique, um parque que mais ou menos ainda existe às suas margens, camelôs no comércio vendendo antiguidades nas calçadas, o Plano Inclinado.

As baianas que ainda não tinham sido contaminadas pelo vírus evangélico e ainda não vendiam “bolinhos de Jesus”; o monstrengo que conhecem por Prefeitura de Salvador ainda não existia; e as putas ainda faziam ponto nos bregas da Ladeira da Montanha, embaixo do Elevador Lacerda

Estão ali a Ribeira, a feira de Água de Meninos, o Bonfim ainda sem o costume estranho de amarrar fitinhas em suas grades, o Humaitá e Mont Serrat.

O Parque da Cidade ainda tinha os tipis e os iglus estranhos em fibra de vidro que deveriam ser brinquedos infantis, mas eram utilizados basicamente como banheiro — assim como o labirinto e o castelo que não aparecem aí.

Estão ali também o Iate das gentes chiques, o Pelourinho de praxe antes da reforma de ACM, Santo Antônio, a Acalanto, a Arembepe longe dos meus domínios, Itapuã e Pedra do Sal, o Abaeté e a mais bela entrada de aeroporto do mundo. O Centro Administrativo, o Pestana que ainda se chamava Méridien visto ao longe, os hotéis de Ondina que ainda tinha as piscinas artificiais de água salgada — o Bahia Praia Hotel que nem sei se ainda está lá.

Ali também estão os sinais da destruição irreversível. Eis ali um casarão da Vitória funcionando como loja de material de demolição, abastecida pela destruição criminosa das mansões que ainda existiam em grande número, mas sumiam a cada dia. Essas lojas floresceriam ao longo dos anos 80, até que não houvessem mais casarões a serem destruídos.

Acima de tudo ali está o Porto da Barra ainda com saveiros. São dois momentos distintos, um fim de tarde com a maré alta e um doa normal de praia. E quero acreditar que, ali em meio àquelas pessoas, eu estou lá.

The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years

Estou impressionado com o fato de The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years, de Ron Howard, estar sendo considerado por jornais no mundo inteiro — inclusive jornais que respeito como o Guardian — como um dos bons filmes do ano. Devem ter visto um filme que eu não vi.

Para quem acompanha a história dos últimos 25 anos de lançamentos em vídeo da Apple Corps., Eight Days a Week não traz novidades além de algumas imagens inéditas, incluindo uma versão porcamente colorizada do primeiro show nos EUA, em Washington. É a versão sanitizada e embelezada que os Beatles decidiram deixar para a posteridade, um filme superficial que apenas reconta pela milésima vez a versão oficial.

É uma oportunidade desperdiçada. Com um pouco mais de rigor Eight Days a Week poderia fazer uma análise da evolução — ou retrocesso — da banda na estrada. Poderia lembrar, por exemplo, que em 1966 as pessoas já não lotavam completamente os grandes estádios que uma banda que já não fazia sequer questão de tocar certo encarava com enfado e às vezes medo.

Em vez disso Eight Days a Week tenta cumprir o seu papel na mitificação absoluta banda, enfatizando, por exemplo, a sua recusa em tocar para audiências racialmente segregadas. É talvez o único ponto positivo do filme, ao lembrar que ao contrário do silêncio de praxe que eram obrigados a fazer sobre questões polêmicas, como a guerra do Vietnã, os Beatles se pronunciaram ativamente contra a segregação nos EUA. Obviamente, tudo é tão inflado que às vezes passa a impressão de que a segregação só acabou porque os Beatles queriam.

Um documentário decente sobre esse período jamais poderia deixar de dar ao menos um vislumbre do lado negro, pouco recomendável das turnês. Das autoridades locais que eram obrigados a bajular, as pequenas humilhações a que precisavam se submeter. Ou, principalmente, das orgias de sexo e drogas que tinham lugar nas excursões e a que Lennon se referiu em sua fase iconoclasta, e que ele definiu como uma cena de “Satyricon”. Dos “pedágios sexuais” que tietes pagavam a roadies e managers para terem uma chance de dormir com os seus ídolos — naquele momento, para aquelas pessoas, eles eram os reis do mundo, mais famosos que Jesus Cristo, e a fé requer sacrifícios. Faltam até mesmo anedotas clássicas, como George Harrison na Mansão Playboy levando duas coelhinhas para o quarto — o rapaz tinha bom apetite.

O filme sequer menciona Jimmy Nichol, o baterista que substituiu Ringo, doente, em alguns shows na Austrália. A essa altura, acreditando piamente na versão que vieram construindo ao longo dos últimos 45 anos, Ringo sequer deve se lembrar do medo que sentiu ante a possibilidade de ser substituído, como Pete Best. A julgar pelo filme, esse medo nunca existiu porque ninguém jamais ouviu falar de Pete Best.

Esse é o problema mais grave desse conto de fadas póstumo: a tentativa de obliteração total da presença de Pete Best, seu primeiro baterista, da história da banda.

We love Preludin!Pete Best foi defenestrado em agosto de 1962, quando George Martin, depois do primeiro teste na Parlophone, avisou que iria usar um baterista de estúdio nas gravações. A história diria que a banda tomou essa decisão porque Best não combinava com aquele monstro de três cabeças que, naquele momento, eram John, Paul e George; porque Ringo era melhor baterista; e porque havia algum tempo que eles queriam tê-lo na banda.

Tudo isso é verdade; mas não foi o fator determinante. Os Beatles chutaram Pete — sem sequer terem a decência de falar isso a ele: confiaram a tarefa a Brian Epstein — porque entenderam que naquele momento ele estava atrapalhando o seu caminho para gravar um disco. Botaram o coitado para fora para poder entrar no mercado fonográfica, e dificilmente o teriam expulso se não houvesse aparecido a oportunidade. Lennon e McCartney não podiam vender a mãe porque elas já tinham morrido; venderam Pete Best.

Mean and moody.Ao negar a Pete Best seu papel na história dos Beatles e ignorar a sua existência, ou admitir esse ponto ético tão baixo, Eight Days a Week falseia a história dos Beatles. Porque Best era quem estava nas baquetas quando os Beatles definiram sua formação definitiva (bateria, um baixista canhoto e dois guitarristas) e desenvolveram o seu estilo, tocando oito horas por dia em Hamburgo. Foi ele quem passou por todo o processo de aprendizado ao lado de John, Paul e George (e de Stu Sutcliffe, também deixado de lado pelo filme). Não interessa o que digam agora: Best era tão beatle como Lennon ou McCartney, para todos os efeitos. Foi em protesto contra a sua saída que os fãs no Caverno deram a George o olho roxo que ele ostentou envergonhadamente na gravação de Love Me Do.

As pessoas vivem perguntando quem é o quinto beatle. A resposta é simples: Ringo. O quarto foi Best.

Pete Best foi um dos primeiros cadáveres que os Beatles deixaram ao longo da estrada em sua caminhada muitas vezes implacável em busca do sucesso; depois viria Mal Evans, e Brian Epstein morreu pressentindo que seria mais um deles.

***

Agora eu sou assim...Acompanha o filme uma nova edição do Live at the Hollywood Bowl. O disco lançado à revelia da banda em 1977 (para enfrentar o lançamento, pela Lingasong, do The Bealtes Live! at the Star-Club in Hamburg, Germany; 1962), tinha 13 faixas com canções gravadas em três shows diferentes, em 1964 e 1965, e uma capa elegante e simples. A reedição, naturalmente remasterizada, traz quatro faixas bônus, é apresentada mais ou menos como a trilha do novo filme e traz uma nova capa, a mais medíocre de toda a história da banda.

Apesar da remasterização ser excelente e o disco soar muito melhor agora, é um lançamento insuficiente em 2016. Dá para entender a escolha feita por George Martin em 1977, diante das limitações técnicas. Mas um relançamento do Hollywood Bowl, para fazer sentido hoje, poderia incluir os três shows na íntegra; até mesmo o de 29 de agosto, em que houve graves problemas com os microfones. Se você quiser ouvi-los, procure por The Beatles – The Complete Hollywood Bowl Concerts nas redes da vida.

Se preferir ver os meninos em ação, no YouTube alguém fez o impossível: juntou fontes diversas e criou um filme do show inteiro.

...Mas eu era assim.Mas uma solução ainda melhor seria fazer um novo disco, uma trilha real e adequada para acompanhar o filme. Algo mais abrangente, que cobrisse toda a trajetória dos Beatles em shows ao vivo.

O disco que eu faria seria simples. Começaria com uma gravação de Baby Let’s Play House, feita no dia em que Lennon conheceu McCartney. Algumas gravações feitas em 1960 na casa de McCartney, como Hello Little Girl e I’ll Follow the Sun. Passaria para uma seleção de canções gravadas no Cavern em 1962: Kansas City, Catswalk, One After 909 e uma preferida minha, um ensaio de I Saw Her Standing There com John na gaita. Algumas faixas do Star Club, cujas gravações agora pertencem a eles. Depois, o show no London Palladium que marcou o início da Beatlemania. Daí para gravações do primeiro show nos EUA, e uma série de canções das tantas e tantas turnês de 1964 e 1965 — de preferência aquelas que nunca tenham aparecido em disco oficial, como If I Fell; incluiria, claro, Lennon insultando a audiência, como em Atlanta. Em seguida, algumas gravações dos shows no Budokan, no Japão, e canções do Candlestick Park, o último show da última turnê dos Beatles. Incluiria então as versões de Revolution e Hey Jude apresentadas na TV inglesa, e terminaria com os takes não usados do show no telhado.

Na verdade qualquer um pode montar esse disco, ou um mais adequado às suas próprias preferências. Todo esse material está disponível na internet. É o que faz esses lançamentos da Apple menos frustrantes. Por mais inepta que seja a maneira como estão lidando com o material disponível — por exemplo, adiando ao máximo o lançamento do Let it Be, ou deixando de seguir a minha sugestão e dar o material bruto para o Scorsese fazer outro filme —, a internet nos redime.

A nova esquerda brasileira

No país inteiro o PSOL optou por sair sozinho.

Em Aracaju ele continua sendo aquela coisa maluca que já deu Avilete Cruz ao mundo, e agora tem a velha e boa Meire repetindo bordões cansados, encarando uma eleição municipal como se fosse congresso de sociólogos e apresentando como vice algum estudante que parece pensar estar em um sarau universitário.

Em Salvador o PSOL prefere amargar o traço nas pesquisas em vez de apoiar a Alice Portugal — não que isso pudesse barrar o passeio absolutamente compreensível de ACM Neto. Em Recife a situação é parecida. A estratégia parece só estar dando certo em Belém e Porto Alegre.

No Rio, o Freixo recusou a união das forças de esquerda já no primeiro turno. Sua sorte é que Jandira e Pedro Paulo têm um número até significativo de votos para forçar um segundo turno; não fosse isso Freixo ia para o saco ainda mais rápido, numa eleição que é do Crivella — o que, por sua vez, é algo mais grave e com piores consequências do que as pessoas parecem se dar conta.

Mas em São Paulo a coisa é mais grave. O candidato natural era o Haddad. Ao dividir o campo, Erundina e o PSOL abriram caminho para o crescimento da Marta. Direito deles, claro, e é compreensível que vejam num momento surreal como o atual a chance de se afirmar como uma nova opção. Mas o resultado pode ser esse que está se desenhando: vai entregar Sumpaulo para o Dória. Ou para a Marta, na melhor das hipóteses.

O PSOL está reprisando, com 30 anos de atraso, a mesma estratégia que deu certo para o PT nos anos 80, se distanciando “do que está aí”. Mas eles são incapazes de uma leitura sensata da realidade. Os anos 10 não são os anos 80. A redemocratização é um momento diferente do pós-derrocada do PT. O PSOL, que em algum momento até guardou uma promessa de futuro, acaba sendo uma versão estereotipada e empobrecida do PT de outros tempos, sem a base sólida que os movimentos populares emprestavam ao PT.

E isso é o mais triste. De certa forma, e em alguns aspectos, o PT representou um avanço em relação aos partidos comunistas; o PSOL é apenas um retrocesso. (PSTU e PCO não devem ser levados em conta porque já completaram a transferência para uma dimensão alternativa, e a Rede — bem, a Rede tem Marina Silva; que o pano da decência caia sobre esse cenário.)

Numa das primeiras manifestações contra o impeachment em Aracaju, os batuqueiros do Levante da Juventude desfraldaram um imenso painel pedindo “assembleia constituinte já”. Parecem não ter ideia do descalabro que seria uma constituição produzida hoje. Deu vontade de dizer: “guardem essa miséria e vão pra casa estudar, meninos”.

E essa é a nova esquerda brasileira. Uma esquerda pueril, atrasada, desconectada da realidade e com problemas sérios de compreensão de conjunturas, que parece definir seus programas através de temas e likes de Facebook. Acima de tudo, profundamente ignorante e aferrada aos seus bordões fáceis. De vez em quando acho que eles poderiam ler o capítulo 9 de “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”. Mas nessa nova e natimorta esquerda, se ainda há uma sombra de debate acadêmico sobre Marx, falta uma releitura de Lênin — muito mais importante hoje, na minha opinião. Não por acaso o sujeito que disse que a prática sem a teoria é cega, e a teoria sem a prática é estéril.

André Singer e o marketing político

A cada dois anos a cena se repete. Basta que se aproximem as eleições para que o marketing político se torne assunto recorrente nos jornais, especialmente nas colunas de opinião. E então eles aparecem.

De um lado vem um bocado de gente falando com aparente propriedade sobre o tema, sempre dando a receita infalível para ganhar eleições e reforçando o mito deletério do marketing como panaceia universal para eleger até sabonete. São geralmente platitudes, as mais óbvias possíveis. “É preciso usar as redes sociais”, “é preciso cuidar da imagem”, “contrate um profissional”. São na verdade pedidos de emprego disfarçados, mas infelizmente bastante simplórios. Não entendem a natureza da besta nem o seu mecanismo.

Do outro vêm os jornalistas que não sabem do que estão falando.

André Singer é um sujeito normalmente ponderado e que sabe o que diz. Mas em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, no início desta semana, faz algumas considerações tão bobas sobre marketing político que impressionam pelo nível de desinformação e pela miopia nas avaliações e prognósticos apresentados.

Singer começa com o pé errado ao dizer que este é o momento em que os partidos definem os planos de campanha. Passa a impressão de estar vivendo em 2014 e de não ter entendido ainda que a campanha já começou. Não se trata de figura de linguagem: a campanha na mídia, como as pessoas a entendem, já começou.

O que mudou foi a mídia.

Na história do marketing político há algumas datas que representam marcos importantes. 1989, por exemplo, quando Lula e Collor demonstraram o poder da televisão. 1994, pelas circunstâncias atípicas (com medo de que Lula repetisse o sucesso de 1989, Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco limitaram as possibilidades de uso do horário eleitoral) mas que deixaram lições importantes. Ou 2002, quando a vitória do modelo mais sólido utilizado por Duda Mendonça (ali distante da sua fórmula frouxa do “Fulano fez, did it, lo hizo”) sobre a pirotecnia publicitária de Nizan Guanaes mostraram que o marketing político tinha alcançado a sua maturidade estrutural e formal.

2016 é outro desses anos fundamentais. Talvez o mais importante de todos, porque a mudança que está acontecendo neste exato momento vai muito além do uso da TV e de circunstâncias legais. É uma mudança estrutural, como poucas antes dela, e apresenta definitivamente um mundo que vinha se anunciando já há uns bons 15 anos. Talvez seja mais difícil percebê-la porque a conjuntura nacional — a Lava Jato, a crise econômica e, em menor medida, a proibição de contribuições empresariais, que se junta orgulhosamente ao panteão em que já estão a proibição do aborto e a criminalização do uso de drogas — deve fazer desta uma eleição singular. Mas o futuro está aqui, bem claro.

Esse é o principal problema do artigo do Singer: ele não entendeu o alcance da minirreforma eleitoral do ano passado e não consegue ver o que está se passando diante do seu nariz; compreende ainda menos o futuro que se apresenta. É impossível acertar dessa forma — assim como ao marketing é impossível eleger um candidato vazio.

A avaliação que ele faz é a de que, como o tempo de campanha na TV e no rádio diminuiu, diminuiu também a importância da comunicação. O problema é que está acontecendo justamente o contrário.

A correção menos relevante a ser feita a esse amontoado de equívocos é o de que essa diminuição tão apregoada é ilusória. Verdade que o tempo dos programas de TV e rádio diminuiu; mas se até 2014 os candidatos majoritários colocavam no ar três programas por semana, agora irão ao ar todos os dias. Além disso, o tempo dedicado às inserções de 30 e 60 segundos dentro da programação normal das emissoras aumentou consideravelmente. No fim das contas, se produziam 2 mil minutos de vídeo a cada campanha. Agora serão 3 mil. Sem falar nas centenas de municípios sem emissoras de rádio ou TV que poderão fazer suas campanhas na internet. Criatividade e planejamento estratégico vão ser mais importantes do que nunca.

Mas essa é só uma mudança como tantas que acontecem a cada ano eleitoral, e que são modificadas novamente nas eleições seguintes. Não é sequer mais importante que o fim da Lei Falcão, ou o tal cerceamento promovido há 22 anos. A verdadeira revolução, que terá consequências importantes e irreversíveis, está na criação da figura do pré-candidato.

Até 2014, candidatos só podiam botar seu bloco na rua após as convenções partidárias. Agora estão liberados para fazer campanha na internet desde muito antes: só não podem pedir voto explicitamente.

Isso abriu um mundo novo para o marketing político brasileiro, e indiretamente deve influenciar um pouco a maneira de fazer política no país. No fim das contas, as campanhas propriamente ditas durarão mais tempo, sobre uma variedade de novas plataformas audiovisuais. As eleições brasileiras ficaram mais parecidas com as americanas, onde a campanha na mídia começa dois anos antes, com a luta de pré-candidatos pela indicação partidária.

É uma guerra cujo principal teatro será a internet. 2016 deve entrar para a história como a primeira eleição em que a TV desempenhará um papel um pouco menor na disputa pelo voto. A consolidação das redes sociais, da internet móvel e da banda larga está dando ao tal mundo virtual — especialmente o Facebook, o Twitter e o mais imprevisível e incontrolável de todos, o WhatsApp — uma importância que era apenas antevista nas eleições passadas. Até agora, a internet era usada principalmente como suporte à campanha definida na TV e no rádio ou simplesmente para marcar “presença online”. Mas agora será ela a definir as campanhas, e isso quer dizer que as outras mídias fatalmente virão a reboque do que se construir nesses meses que precedem as convenções.

Obviamente, a legislação pode mudar nas eleições de 2018 e a figura do pré-candidato pode desaparecer mais uma vez. Mas o que ela trouxe em 2016 deve permanecer: o uso das redes sociais como instrumento de campanha real, explorada com ferramentas de marketing político, é algo inexorável, ainda que eventualmente precise se adaptar a novas normas sempre inconstantes.

Há outros aspectos estranhos no artigo do Singer. Como o recurso àquele velho lugar-comum que diz que “programas de TV são o maior escoadouro de dinheiro em eleições”, o que mostra que ele não entende como se processam as campanhas na vida real e a criação das estruturas eleitorais. O cenário que ele identifica pode até vir a se concretizar em breve, e se acontecer será bom para a sociedade; mas não é realidade ainda, e os milhões distribuídos por Eduardo Cunha deveriam ser evidência suficiente para que isso ficasse claro.

Além disso, em um ataque estranho de neo-ludismo, ele pede campanhas em que o candidato fale diretamente para o eleitor: o candidato e a câmera, olho no olho, “só propostas”. Esse é mais grave. Seu princípio é o da negação do marketing como ferramenta educacional, e a crença de que ele tem uma importância mistificadora maior do que a real.

O que o Singer não parece saber é que esse tipo de campanha que ele quer já existe. Quer entender a diferença que o marketing político faz? Olhe as câmaras municipais, estaduais e federal. Os excelentíssimos senhores que estão ali foram eleitos dessa forma, com pouquíssimos recursos de comunicação. O resultado é o império do clientelismo, da politicagem mais rasteira, da política como balcão de negócios, o império que se justifica na defesa de Deus, da família e “contra a corrupção”.

A comunicação política, ao expor à sociedade as propostas e realizações dos candidatos, fomenta o debate e aumenta as expectativas. Ao longo dos últimos 30 anos, serviu para fazer parte do sistema político brasileiro avançar; o que o está destruindo se consolidou justamente na área onde ela não tem tanta importância, as eleições proporcionais. Por mais que alguns setores odeiem, o fato é que o marketing político ajudou a consolidar a democracia.

Mais que isso, indica também uma recusa em compreender o mundo à sua volta. Como lembra este artigo de Steve Viva, política hoje é mais que teatro, é também showbiz. Goste ou não disso, essa foi a maneira como a sociedade evoluiu. Subir num pilar como um Simão do Deserto buñuelesco e clamar aos céus pela volta de uma variação da Lei Falcão não vai mudar isso, assim como amar televisões valvuladas não as trará de volta.

Claro, nem todo mundo compreendeu isso ainda. Singer é um deles. Mas a mudança está aí, e é irreversível.

O Jesus histórico

Sempre que vejo alguém falando do “Jesus Histórico”, tenho a certeza de estar diante de um quase picareta. Não existe Jesus histórico fora do Novo Testamento. As poucas menções contemporâneas, ou quase, feitas a Jesus que existem fora dos evangelhos, canônicos e apócrifos, e das tantas epístolas, atos e etc. são, no mínimo, questionáveis. No máximo fraudes, mesmo.

Talvez por isso tanta gente levante a possibilidade de que Jesus jamais existiu; que ele é uma espécie de Robin Hood, uma lenda formada a partir da combinação de várias pessoas diferentes, separadas no tempo e no espaço.

A Salon publicou uma pequena lista de razões pelas quais Jesus não deve ter existido. São válidas. Mas elas não provam que Jesus não existiu: apenas mostram que é impossível escrever algo honesto sobre o Jesus histórico.

A razão 1 — a inexistência de fontes seculares que comprovem a existência de Jesus — não quer dizer muita coisa. Não é porque não há citações das fontes oficiais que ele não existiu: a árvore cai na floresta mesmo que você não veja. Na verdade, seria até improvável haver tais citações naquele momento.

Pouca gente conhece o episódio de Zé Lourenço e o Caldeirão. Se mora fora do Nordeste, menos ainda. Ao contrário de eventos semelhantes como Canudos e o Contestado, o Caldeirão ficou pouco conhecido fora do Ceará. No entanto, foi a primeira vez em que o Estado brasileiro utilizou bombardeio aéreo contra sua própria  população civil.

Se esse nível de desconhecimento acontecia ainda em pleno século XX, não é difícil imaginar como os eventos trágicos, e relativamente comuns em uma província perdida num cudemundo do Império Romano, podiam não interessar aos historiadores romanos. A condenação de um pregador judeu qualquer simplesmente não era importante na época; como comparar às dezenas de seguidores de Spartacus crucificados ao longo da Via Ápia? Mesmo que a notícia chegasse aos centros de poder, seria vista como mais uma entre tantas crucificações de fanáticos religiosos. O estranhamento sobre a ausência de Jesus dos anais só é possível quando se dá a ele uma importância que só viria posteriormente. É mais ou menos como o Velvet Underground e sua influência bem tardia.

A segunda razão (os primeiros escritos do Novo Testamento desconhecem detalhes demais da vida de Jesus) é muito mais complexa, e contém a principal verdade desse texto: Jesus Cristo, mais que causa, é efeito do cristianismo.

Parece óbvio que a maior parte dos elementos que constituem a mitologia de Jesus — a imaculada conceição, a ressurreição, a fuga para o Egito, o hímen complacente de Maria — foram definidos aos poucos, com o passar do tempo, como forma de caracterizar o caráter divino de Jesus e adequar a narrativa ao zeitgeist místico de sua época. Ninguém mente mais, para si e para os outros, que religiosos.

Mas o principal argumento do artigo, a ausência dos aspectos biográficos de Jesus nas epístolas de Paulo como evidência de sua inexistência, é muito frágil. O problema é que o fato de os evangelhos sobreviventes só terem sido escritos algum tempo depois não impede que a história fosse contada desde antes de Jesus cair nas mãos de Pilatos. Além disso, é preciso lembrar que Paulo falava a comunidades cristãs, que presumivelmente já conheciam a história de Jesus. Paulo era um pregador e um doutrinador. Um livro de doutrina jurídica não costuma perder tempo explicando a canalhice de um Gilmar Mendes.

A terceira razão apresentada, a de que os livros do Novo Testamento não pretendem ser relatos em primeira mão, é mais um problema para os historiadores do que para a existência ou não do nazareno. Escritos décadas após a morte do sujeito e baseados na tradição oral de uma população majoritariamente analfabeta, ela acaba se misturando com a quarta, a de que os evangelhos se contradizem entre si, e que também é frágil. As diferenças entre eles, afinal, não são tão grandes assim, se devendo principalmente aos ruídos na transmissão oral. Se não fosse a existência de tantos evangelhos apócrifos seria até admirável que sejam tão semelhantes (não, é mentira: aparentemente uns basearam-se nos outros); mas o fato é que essa é a narrativa selecionada pela Igreja, em um tempo em que a própria ideia de historiografia era bem diferente.

E finalmente a quinta: o tal Jesus histórico. O fato é que quem escreve livros sobre isso poderia muito bem escrever sobre o Abominável Homem das Neves ou sobre o Eldorado ou sobre a Fonte da Juventude, daria no mesmo. Esses autores fazem, no mínimo, um grande exercício de imaginação e conjecturas para justificar o que certamente já é sua tese inicial, juntando fragmentos históricos reais para validar, de alguma forma, a sua própria ideia de Jesus. Por isso, de acordo com o livro que você ler, o Jesus resultante pode ser um rabino, um zelote, um fariseu, um pacifista — ele é essencialmente o Jesus que você constrói, seu alter ego.

Sempre tive a impressão de que Yeshua ben Yosef, se existiu, era pouco mais que um maluco pregando algum tipo de mensagem apocalíptica nas praças da Judeia. Tempos de ocupação política e militar como aqueles são extremamente propícios para isso, e ele não devia ser o único. Provavelmente não era o mais influente ou respeitado enquanto vivo: o fato de ele precisar da bênção de João Batista para se legitimar indica que aquele que transformaram em seu primo era a verdadeira grande liderança religiosa popular da época, naquele espaço específico. Além disso, Josefo fala muito mais de João do que de Jesus.

E em verdade, em verdade vos digo: por alguma razão o sujeito foi crucificado. E as pessoas acharam injusta a crucificação, e Jesus se tornou maior na morte do que tinha sido em vida, e o seu nome circulou de boa em boca, e catalisou um sentimento de mal-estar e de inquietação que as gentes viviam naqueles dias. E aos poucos a sua lenda foi se criando; e novos milagres foram inventados, e a sua mensagem foi se consolidando, adaptada aos tempos e aos públicos; e Saulo de Tarso entendeu que era preciso uma ruptura com a tradição judaica e pregou aos gentios, e elementos romanos foram agregados para que Ele se tornasse o Deus e o Filho de Deus. Amém.

O cachorro do Vinícius

Lembro bem de todos os cachorros que não tive. Primeiro foi um collie, como quase todo mundo que viu “Lassie” uma vez na vida. Depois, graças a “Joe, o Fugitivo”, um pastor alemão que só faltaria falar. Um brevíssimo idílio com os são bernardos durou os pouquíssimos meses até ver dois afghan hounds que moravam na Princesa Isabel, e desde então nunca mais quis saber de qualquer outro cachorro.

Mas antes eu vi um são bernardo de perto.

Era 1980, final do primeiro semestre. Eu morava em Itapuã, a uns 500 metros da casa de Vinícius de Moraes, que hoje é um hotel. Ia caminhando em direção ao centro do bairro, por uma das ruas de dentro. E então ali estava ele na varanda gradeada de outra casa, um pouco distante: deitado, indolente, muito maior do que eu imaginava. Ele nos viu e se levantou latindo, babando quinze litros de uma baba densa.

Nunca tinha visto um antes. Conhecia o cachorro, claro, não apenas porque tinha um livro com as raças de cães que eu jamais compraria, o “Livro de Ouro dos Cães”, mas porque mais ou menos naquela época tinha assistido a um episódio de Disneylândia que contava a história de Barry, o mais famoso de todos os são bernardos.

É uma lembrança desimportante, que ficou apenas pela coincidência de ter visto o primeiro exemplar da raça pouco depois de ver um filme sobre um deles. Até que neste feriado, lendo a biografia de Vinícius de Moraes por José Castelo, cheia de defeitos mas suficiente, descobri que quando foi morar em Itapuã ele comprou um são bernardo.

Vinícius tem uma certa história com minha família. Passou muito perto de levar um soco de meu pai, uns dez anos antes.

É uma história curta, simples. 1969: recém-casados, meus pais, Vinícius e alguns amigos estão num bar de uma Itapuã ainda meio selvagem. O poeta ainda não tinha se mudado definitivamente para lá nem casado com a Gesse Gessy.

Simpático, exuberante, galanteador e bêbado, embora já um tanto decrépito e prestes a dar início a uma fase estranha em sua vida, Vinícius resolve cantar “Minha Namorada” para minha mãe e lhe passa um bilhete.

Diante do constrangimento de minha mãe, meu pai começa a rir. E, rindo, fala para o poeta:

“Pare com isso, Vinícius. Porque se você continuar eu vou ter que lhe dar um murro, e vai ficar feio pra mim bater num velho como você.”

Tem coisas que a gente fala rindo mas o olhar da gente não sorri em dueto. A serenata parou, os bilhetes também. A noite seguiu tranquila e alegre, como eram as noites em que, dizem, Vinícius estava à mesa.

Agora fico sabendo que pouco tempo depois Vinícius se mudou para a Bahia, casou com Gesse — e, de certa forma, com Toquinho —, construiu aquela casa em frente à qual eu passava todos os dias no caminho para a praia ou para a escola e arranjou o tal são bernardo. Deu-lhe o nome de Meu, como o papagaio de Ungaretti; mas num dia em que Ricardo Ramos foi lhe fazer uma visita rebatizou o pobre cão como Graciliano — porque, você sabe, era um são bernardo. Imundo, cheio de pulgas, o coitado passava seus dias na piscina, correndo do calor que faz na terra de Oxalá até que Vinícius resolveu o problema instalando um condicionador de ar em sua casinhola.

Mas isso tinha sido uns 10 anos antes. Àquela altura ele sequer morava em Salvador. Agora tenho quase certeza de que aquele são bernardo que vi numa manhã em Itapuã, aquela visão rara, era o de Vinícius. Não era um cachorro comum em Salvador, e quais as chances de haver dois tão perto? Imaginei que quando se separou de Gesse ele deu o cão a algum amigo, talvez Calazans Neto, talvez Carlos Bastos, sei lá quem morava naquela casa.

***

Mas ler a biografia de Vinícius, principalmente os seus últimos dez anos, me deixou pensativo.

Como quase todo mundo, sempre achei sua última fase, marcada pela parceria com Toquinho, fraca. Na verdade o problema não era ele, porque ali estão algumas de suas melhores letras. Era Toquinho: a música inofensiva, leve, boba e derivada apesar de extremamente melódica que ele fazia parecia insuficiente, quase antitética, para o poeta que foi um dos vértices da bossa nova e fez os afro-sambas com Baden Powell, ainda mais em tempos de Tropicália. Seus amigos, por sua vez, olhavam com estranheza a escolha de vida que ele fez: a palavra decadência é usada não poucas vezes em sua biografia. De grande poeta e letrista, Vinícius virou um velho macumbeiro excessivamente hedonista que parecia se apegar à juventude do parceiro e dos estudantes que iam aos seus shows em diretórios acadêmicos como Dorian Gray se agarrava ao seu retrato.

Mas hoje, mais velho, mais cansado, olhando para trás cada vez mais amiúde, vejo as coisas de maneira um pouco diferente. E nessas horas tenho inveja de Vinícius. Porque entendi o que ele era então: um sujeito que simplesmente decidiu se abandonar à vida — nem que para isso tenha abandonado também uma mulher grávida, mas o que é um cafajeste a mais ou a menos no mundo? — como tão poucos de nós jamais tivemos coragem.

Há muito tempo acho que no fundo só não se pode morrer entre os 30 e os 50 anos, aí é como se algo então tenha dado profundamente errado, porque é quando as pessoas finalmente vivem a plenitude que nunca mais recuperarão. Morrer na adolescência é uma tragédia mas as pessoas morrem assim mesmo, às vezes vítimas da temeridade própria dos que ainda se acham imortais; depois dos 50, estamos todos na mesma roleta, e se é triste, é pelo menos aceitável. A própria tristeza vai diminuindo com o passar dos anos, e aos 90 o que o defunto ouviria, se ouvidos ainda tivesse, não seriam as expressões de dor e a mulher histérica se jogando ao seu caixão: seria um “descansou, coitado” melancólico e conformado.

Eu e quase todo mundo olhamos para trás e, mesmo quando temos a sorte de nos orgulhar do que fizemos, também sentimos aquela ponta de tristeza diante da miragem de tudo o que não fizemos, por impotência ou covardia. Agora tenho a impressão de que Vinícius sentia um pouco menos de tristeza que o resto de nós.

Vinícius morreu aos 66 anos. Tinha vivido mais que a maior parte das pessoas viveria em 150. Mais que isso, se deu o direito de viver como bem lhe aprazia, e o preço que pagou em seus últimos anos, doente, foi mais que uma pechincha; tanta gente paga o mesmo preço e recebe bem menos. O que dizem ser sua decadência hoje chamo de ápice. E se a poesia, essa que os bobos escrevem com P maiúsculo, perdeu alguma coisa, paciência. Vinícius entendeu: nenhum poema jamais valeria uma noite de uísque, música, amigos e mulheres.

Marcelo Déda

Quando Marcelo Déda morreu, eu não escrevi nada. Fui ao aeroporto recebê-lo, mas não subi para o seu velório no Museu Olímpio Campos — que ele tinha criado e que era um dos seus orgulhos. Fiquei do lado de fora, junto com o povo que, mesmo esperando aquele desfecho havia meses, não conseguia disfarçar a dor e a tristeza.

Meses depois achei um e-mail dele:

Li a resenha do Rafael, nosso Chatôzinho, sobre “Kind of Blue”, citada por um site especializado em jazz. Magnífica! O Rafa é daquelas inteligências que me encabulam pela amplitude de interesses, conhecimento do que fala e certa dose de juvenil arrogância que, aliás, lhe cai bem. Lê-lo em seu blog (que está carente de atualizações) devolve-me à tabaroíce simãodiense de onde, às vezes, Amaral tenta me resgatar. Ouço o velho Miles em sua homenagem.

Mais do que nunca eu devia um texto, quando menos pelos elogios inesperados. Mas só fui escrever quase um ano depois. Era o meu recado particular, disfarçado de peça de campanha dirigida pelo Tarcisio Duarte e narrada pelo Edgard Martins. Foi escrita numa mesinha do café da produtora, em uns dois minutos, enquanto conversávamos. Pelo visto o texto já estava pronto há muito tempo, eu só não tinha escrito. Hoje, procurando outra coisa, descobri que ela estava no YouTube.

Revendo agora, depois de quase dois anos, gosto de pensar que Déda, que sempre teve absoluta consciência do seu papel e da sua missão, talvez tivesse gostado: em nenhum momento a gente esqueceu que o que a gente faz é política com sentimento, e em nenhum momento esqueceu o recado e o exemplo que ele queria nos passar.

Valeu, Déda.

O triste fim do futebol brasileiro

A quase derrota do Brasil ante o Paraguai anteontem foi melancólica. Talvez mais melancólica para mim, que lembro de um Brasil e Paraguai em 1979 como um dos primeiros jogos da Seleção Brasileira a que assisti.

Mais melancólica, no entanto, foi a certeza de que o futebol brasileiro acabou.

Não é pelo 7 a 1, nem pelo futebol feio ao mesmo tempo que ineficaz que se tornou a marca de um time que um dia “jogou por música”. Esses são apenas sintomas tardios. O futebol brasileiro vive já há muito tempo uma lenta agonia, cujo fim parece ser a redundância irreversível do antes considerado o melhor futebol do mundo.

As pessoas buscam causas aqui e ali. Criticam a corrupção endêmica na CBF, a velhice tática dos técnicos, a mudança estrutural do próprio futebol. Claro que todas essas mazelas contribuem, e muito, para deteriorar essa situação. Mas nada disso é razão suficiente.

A CBF em 1982 não era mais honesta que em 2016 — a única diferença era de escala. As concepções táticas atuais dos técnicos não são tão diferentes das de suas contrapartes europeias. E embora tenhamos hoje a impressão desconfortável de que somos um cachorro velho que não aprende os novos truques que os outros cachorros aprenderam, quem acha que o futebol mudou a ponto de se tornar realmente diferente deveria assistir ao documentário “Isto é Pelé”. Nele o ex-namorado da Xuxa menciona, em 1974, como o futebol tinha mudado desde 1958: mais rápido, menos espaços, mais aplicação tática — exatamente o mesmo diagnóstico que se faz agora.

Se eu fosse procurar uma culpada para servir de bode expiatório seria a Lei Pelé. E é no mínimo irônico que uma lei que deu dignidade ao ofício de jogador, e que leva o nome do símbolo da melhor fase do ludopédio pátrio, esteja destruindo o futebol brasileiro.

Não é que ela seja intrinsecamente má. Quando se lembra que Garricha deixou de ganhar um aumento porque um dos cartolas do Botafogo não admitia que um jogador ganhasse mais que um engenheiro como ele, não há como se opor à lei. Mas seus efeitos colaterais foram perversos.

Ao tirar dos clubes o controle sobre os destinos dos jogadores, a Lei Pelé tornou inviável a criação de grandes times como os do passado. Não é apenas o fato de que clubes não investem mais em jogadores porque sabem que na temporada seguinte eles estarão em outro time; é porque não têm mais condições de garantir que um time permaneça o mesmo por mais de um ano, e se perdem no labirinto complexo de negociações e renegociações em que cada um leva uma fatia do dinheiro, às expensas do time. Um time como o Flamengo do início dos anos 80 não é mais possível.

E sem grandes times, estáveis, não há grande Seleção Brasileira.

Até os primeiros anos depois do início da debandada geral dos jogadores brasileiros para a Europa, cada escrete canarinho era baseada nos melhores times de sua época. Em 1982, por exemplo, eram o Flamengo e o São Paulo; em 1962 e 1970, o Botafogo e o Santos.

Eram jogadores acostumados a jogar juntos. Conheciam seus companheiros de time, sabiam o que podiam esperar de cada um deles. E também eram acostumados a jogar uns contra os outros, o que fazia com que também conhecessem seus estilos, suas características. Com bastante tempo de preparação e aclimatação na velha e boa Toca da Raposa, era relativamente fácil formar um time entrosado e eficiente.

Era isso que fazia o Brasil o dono do melhor futebol. Não era o número de Copas conquistadas: era a certeza de que se teria, mesmo na derrota, um futebol com personalidade e um mínimo de qualidade. Eram os tempos em que o pior Brasil era infinitamente superior ao melhor Paraguai.

Em 1990 a Seleção tinha se tornado uma versão esportiva da Legião Estrangeira; e apenas Careca e Alemão jogavam juntos, no Napoli. Já naquele ano dava para perceber a diferença de qualidade em relação às Copas anteriores. Mas ainda havia um tempo relativamente grande de concentração, e embora claramente decadente a coisa ainda se sustentava porque, bem ou mal, os jogadores eram formados no Brasil. Iam para a Europa tarde, normalmente depois de consagrados na Seleção.

A Lei Pelé, acompanhando a evolução do mercado, pegou esse estado de coisas e o tornou insustentável. Indo cada vez mais cedo para o exterior — há dezenas, centenas de jogadores brasileiros mundo afora que sequer chegaram a jogar profissionalmente no Brasil —, eles simplesmente não conhecem uns aos outros. Convocados, trazem estilos de jogo diferentes entre si, baseados no modelo europeu. Alie a isso o tempo cada vez mais exíguo de preparação, e então pode-se compreender o 7 a 1. É impossível montar um time realmente bom dessa forma. O resultado é a dependência enorme do talento individual de cada um — que, por sua vez, precisa do suporte do grupo para se realizar. Como esse tal de grupo mal existe, o resultado é um jogo como o de anteontem.

A tragédia estava anunciada há muito tempo.

Talvez haja uma possibilidade de recuperação. Se não pode nem deve revogar a Lei Pelé, a CBF poderia determinar que apenas jogadores que atuem no Brasil sejam convocados. Talvez isso pudesse forçar ao menos um adiamento da emigração; na pior das hipóteses, pode-se perder em talento, mas ganha-se em entrosamento e na redefinição de um estilo próprio, adequado aos novos tempos.

Pode até parecer uma solução radical, e talvez nem seja suficiente. Mas qualquer coisa é melhor que o modelo atual.

Infelizmente, essa solução não vai ser tomada. De qualquer forma, o problema real está nos mecanismos do mercado, e contra eles não há remédio. E por isso é possível sair pelo meio da rua bradando em desespero que o futebol brasileiro acabou, que o futuro lhe reserva apenas sua cada vez mais rápida decadência à irrelevância.

Quem nasceu entre o final dos anos 60 e início dos 70 cresceu sob a égide do tricampeonato, ainda ouvindo os ecos de um tempo em que Pelé e Garrincha assombravam o mundo. Mesmo passando 24 anos sem ganhar uma Copa, sabíamos que só nos revoltávamos com isso porque acreditávamos que estávamos muito acima do resto do futebol mundial; uma Copa era um direito natural do melhor futebol do mundo. Tínhamos consciência de quem éramos, e essa consciência nos definia.

Não nos define mais.

Oscars de Melhor Filme: quem ganhou, quem deveria ter ganhado e por quê

Um dia, 11 anos atrás, resolvi fazer uma lista boba de filmes que ganharam o Oscar, e quais deveriam ter vencido no seu lugar, se fosse o caso.

Resolvi atualizar a lista e acrescentar alguns comentários rápidos justificando as escolhas. Os critérios continuam os mesmos: eu estava limitado apenas aos indicados.

Nesses 11 anos, vi e revi vários filmes. E é engraçado perceber que minha opinião mudou bastante sobre alguns deles.

Acima de tudo, uma certeza se consolidou: o Oscar não quer dizer nada sobre o cinema, nem mesmo sobre o cinema americano. É apenas um barômetro da indústria cinematográfica americana, suas circunstâncias e idiossincrasias. Não tem nada a ver com arte. Olhando a lista, o que realmente impressiona é o tanto de filmes brilhantes, muitas vezes melhores que a esmagadora maioria dos indicados, que foram repetidamente esquecidos pela Academia: “Rastros de Ódio”, “Tempos Modernos”, “Cantando na Chuva”, “Um Corpo que Cai”, “2001”, “Rio Vermelho”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Luzes da Cidade”, “Psicose”, “Manhattan”, “Quanto Mais Quente Melhor”.

A lista segue abaixo.

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