De arquitetos e de estantes

Sempre reclamei de uma coisa simples: arquitetos, pelo que se vê nas revistas de decoração, não sabem desenhar estantes.

É impressionante. Fazem coisas desproporcionais, pouco práticas, feitas para quem não tem o costume de ler mas quer mostrar seus livros. Por isso a melhor estante que vi até hoje nessas revistas de decoração não foi desenhada por um arquiteto, e sim por um jornalista. Prateleiras grossas para agüentar o peso dos livros, portas corrediças de vidro fosco (para diminuir a incidência de luz e a poeira, inimigos eternos), e armários embaixo porque quem lê um pouco costuma guardar papéis — não me perguntem por quê. As outras, desenhadas por arquitetos, costumam ser basicamente mostruários de uns poucos livros de mesa e objetos de decoração.

Mas dia desses, lendo uma revista, cheguei à conclusão de que não é culpa exclusiva deles.

O apartamento mostrado é o de uma assessora de imprensa. Nas estantes alguns livros, talvez não cheguem a 100. Uma olhada com atenção mostra que a moça, afinal, pode viver de escrever, mas não lê absolutamente nada.

Entre os livros, a maioria são didáticos, inclusive uma coleção de literatura que praticamente todos os estudantes usaram no segundo grau no final dos anos 80, e livros típicos da faculdade. Alguns livros de referência, como um antigo dicionário do MEC de inglês — o número de manuais e dicionários de inglês mostram que ela fez curso, e levou muito a sério; talvez trabalhe em uma empresa onde inglês seja realmente necessário. Fascículos encardenados, desses que acompanham revistas ou jornais. Um tiquinho de auto-ajuda, nada que comprometa a dignidade de ninguém. Uma constituição, daquelas de bolso distribuídas a rodo em 1988 (sempre que as vejo lembro que a minha é mais chique: é encadernada com uma inscrição com o meu nome, “Acadêmico Rafael Galvão”, e dedicatória de um dos constituintes). Uma edição de “Hans Staden”, o indefectível “Brasil: Nunca Mais”, as (excelentes) biografias de Assis Chateaubriand e do Barão de Mauá, uma edição antiga de “Olga”, um livro de Nelson Rodrigues.

Os livros da mulher, embora delatem sua idade — tem lá seus 35, 40 anos –, são o que se poderia chamar de corretos. E é justamente aí que está o seu problema.

Eles não passam disso. São os livros que todo mundo leu, que fizeram parte das conversas de bar. Livros que se lê como quem lê jornal, para se manter atualizado. Mas nem esses são garantidos. Às vezes fica a impressão de que a mulher não lê absolutamente nada.

A pista está em uma coleção que O Globo e a Folha de S. Paulo lançaram ano passado. É provavelmente a melhor dessas coleções que acompanham periódicos, e que a indústria conhece genericamente como fascículos. Capa dura, belo projeto visual nas sobrecapas, excelentes traduções, e uma seleção que mais acerta do que erra (“Cem Anos de Solidão”, “Lolita”, etc.).

É uma bela coleção. Tão bela que ela sequer tirou o plástico que os envolve.

A culpa pelas estantes pouco funcionais, definitivamente, não é apenas dos arquitetos.

13 thoughts on “De arquitetos e de estantes

  1. Não é apenas dos arquitetos. E, embora tenha entendido seu texto muito bem, vou por outro caminho, o do simples desenho dos móveis: é dos arquitetos e dos decoradores. Cambada de racinhas FDP essas duas! (e eu tenho todo o direito de falar mal, pois tenho carteirinha do CREA e estou com as anuidades em dia).

  2. Também servem portas de estantes conhecidas como “padarias”, que ao invés de serem corrediças na horizontal, abrem-se como uma porta de forno (só que de baixo para cima). As da biblioteca do Rui Barbosa são assim, se a memória não me trai.

    E seria algo revolucionário inundar os lares brasileiros com cópias de Lolita. Seria, não fôssemos uma nação de analfabetos: não lemos, e quando lemos, não entendemos.

  3. já que vc tocou no assunto, vou reclamar de outra coisa que me azucrina há anos: a falta de padrão no tamanho dos livros. Custava definir um padrão? Não há estante que dê conta. Tá bom, eu sou meio maníaca por organização e catalogo os meus por ordem alfabética e assunto ( já tive livraria ) mas tem alguns que sou obrigada a deixar de lado por conta de tamanhos esdrúxulos. Ou grandes demais ou pequenos demais. Parece bobagem,mas não é.
    Desculpe a sessão Procon, mas é que nunca ninguém lembra disso.
    Abraços

  4. Já que a Mônica tocou no assunto, também tenho reclamações interna corporis a fazer. No meu fracassado curso de jornalismo, eu tinha notas bem altas, e muitos colegas me davam seus textos de trabalhos para eu ler e dar uma opinião.

    Posso dizer sem sombra de dúvida que, de uma turma de cerca de cinqüenta alunos, no máximo dez sabiam escrever um mísero texto de faculdade sem erros gritantes de concordância, regência ou ortografia. São esses que depois vão escrever o que sai na principal fonte leitura da maioria das pessoas…

    Esses não chegam nem no nível da assessora de impressora “antenada” de seu post.

  5. Rafael,
    Você localizou o problema e a causa dele: pra que fazer estantes mais funcionais se eleas não irão funcionar? 🙂
    Ciao

  6. Detesto as pessoas que decoram a casa e, para dar um toque de intelectualidade, enfeitam suas mesinhas de centro com livros.

  7. Marcus, você também desabafando? Faz falta, né? Déia, eu concordo. Ah, e normalmente são aqueles livros de arte, grandes, com muitas figuras e papel de primeira. Torram uma grana em livros que nunca vão abrir quando poderiam muito bem pagar a pobre arquiteta aqui que, modéstia à parte, sabe desenhar estantes. Ah, Rafael, percebi um detalhe ali no começo: revistas de decoração. Olha, ali tem de tudo, menos ARQUITETURA. Aliás, quando se fala do lado de dentro da coisa, eu prefiro dizer ARQUITETURA DE INTERIORES. Existe muita coisa que me agrada que cabe nesse termo. No termo DECORAÇÃO não existe nada que mereça meu respeito.

  8. esse topico é de 2004. será que ainda terei resposta? muito se falou porém seria útil colocar aqui uns esboços do que seria uma estante ideal para quem realmente precisa guardar livros e papéis. encontrei o artigo buscando modelo de estante. não sou arquiteta mas gosto de desenhar meus próprios móveisde acordo com minhas necessidades e gosto.

  9. Todos os comentários são muito oportunos. Parabéns Rafael! Uma simples procura na internet por uma “estante” para colocar meus livros e, inesperada e felizmente, deparo-me com esse CASE, muito bem arquitetado, digo, argumentado. ÓTIMO! Tudo o que encontrei realmente é muito bonito, mas tem vários “poréns”.Ah, e olha que interessante, por aqui (Brasil)não vi nenhuma observação quanto aos cuidados com a instalação de estantes muito altas, ou quanto ao peso que suportam. Deve ser pq objetos de decoração não devem pesar muito, não é?!segurança: zero! ao puxar um livro, cuidado!!! Acho que adiciono o meu comentário e essa “quase enquete” e digo que já formulei, muito rapidamente, um ensaio quase filosófico, com muitas inquisições sobre essa situação (e nem um pouco imparciais, é claro!): estaria o livro perdendo seu lugar de destaque, decorrendo daí a descaracterização das estantes? seria atribuída à internet essa culpa? e numa família de 3 pessoas, quantas, simultaneamente, poderiam ocupá-la para leitura? quantos computadores seriam necessários nessa mesma casa? com tanta baboseira, é de se ver que é necessário um retrocesso. Vamos fazer a revolução das estantes pela volta dos livros ao alcance das mãos e das vistas; que tal? um movimento cultural. Um movimento pelo conhecimento, pela leitura, e pelo que estamos fazendo nós, eu, aqui, hoje. Ou, rendermo-nos (propositadamente) desfuncionalismo desfuncional, conforme apresentou o colega acima:pra que fazer estantes mais funcionais se eleas não irão funcionar? e conformar-se.

  10. eu, como arquiteto, proponho um workshop para os interessados:
    como decorar sua casa usando bem seus livros.
    Tenho prática nisso.
    Cm o workshop, vc aprenderá a posicionar bem os livros coloridos, proximos a objetos mais sóbrios da sua decoração.
    Ou então, maneiras práticas e funcionais de aproximar objetos mais decorados, mais barrocos, e com mais detalhes, a livros de arte, com belas ilustrações que encantam os olhos.
    Não percam a oportunidade!

    (ironias, claro.)
    Acho que o problema são os “novos ricos”. Casas decoradas por arquitetos da moda são as que vão pras revistas. E essas casas são de pessoas que adquiriram alguma estabilidade financeira recentemente. os “novos ricos” que geralmente ocupam bairros como itaim bibi, moema, morumbi, o reduto alphaville.
    Os mais intelectuais e inteligentes sabem mostrar o que interessa, sua boa recepção e seu bom gosto, e não objetos que façam alusão a um certo estrato social, como alguns ridiculos utiizam os livros, para demonstrarem uma intelectualidade (inexistente).

  11. cheguei a esta página pesquisando arquitetura pelo google, por interesse profissional, visto que sou comerciante (http://www.smarta.com.br )portantao nao vi a imágem do apartamento em questão, talvez fosse possível um link, no mais se voce nao fosse arquiteto poderia investir na carreira de detetive, pelas perspicazes deduções. abraço

  12. Sempre que um arquiteto projeta uma casa, apartamento, loja, escritório, ou faz uma adequação nos espaços dos clientes ¨layouts¨, entra a marcenaria, para dar o toque final em suas criações, e é neste ponto que oferecemos uma marcenaria para atender uma excelente criação, um excelente design com móveis:
    1) Bem feito, ergonômico, funcional, com entrega dentro do cronograma estabelecido ou calculado pelo arquiteto e seus clientes.
    2) Execução dos móveis com inteligência, usando materiais ecologicamente corretos e dentro dos padrões internacionais.
    3) Com assessoria constante de marceneiros profissionais em junta, para que cada peça, cada móvel, cada obra, sejam, únicos.
    Gostaríamos muito de dividir nossa experiência e realizarmos alguns de seus projetos, para podermos comprovar!

    gasparmarceneiro@hotmail.com

  13. Mara, felizmente, a culpa não é da internet. O computador é minha ferramenta de trabalho, mas não consigo mergulhar sobre ele para ler. Gosto do livro, de um lugar confortável e aconchegante para a leitura e o computador não combina com esse ambiente.
    Encontrei esse site ao procurar modelos de estantes para um pequeno apartamento e me deparei com os mesmos problemas citados acima. Revistas de decoração não me atenderam e a solução é buscar um modelo que mais se aproxime a minha necessidade e encontrar um bom profissional que o execute corretamente, pq essas revistas de decoração fogem realidade de 90% das pessoas.

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