Museu de Rua de Aracaju

A Ponte do Imperador foi construída em 1862 para receber a visita de Dom Pedro II. Mas sempre foi uma ponte que não levava a lugar nenhum: na verdade era apenas um atracadouro, inicialmente de madeira, mas reformado algumas vezes depois.

Ano passado a prefeitura de Aracaju deu uma finalidade àquela ponte. Construiu o primeiro Museu de Rua de Aracaju: uma enorme maquete do centro de Aracaju entre as décadas de 20 e 40. É uma obra magnífica, principalmente em uma cidade cujos poucos museus são pífios e indignos desse nome (em compensação, na cidade ao lado, São Cristóvão — a quarta mais antiga do país — está um dos melhores museus de arte sacra do Brasil).

A história de Aracaju sempre me interessou. Em parte porque é recente, em uma cidade que completou 150 anos. Em parte porque conheci, de uma forma ou de outra, vários daqueles que a fizeram.

Como a história do monsenhor Olímpio Campos, tio de minha bisavó, que em protesto contra o fim da educação religiosa na Escola Normal escreveu ao governador, que alegou não ter professores suficientes; Olímpio Campos então se ofereceu para ensinar de graça; e no debate que se seguiu, Olímpio chegou a governador do Estado — era uma época em que política podia ser movida, principalmente, por paixões e ideais.

Hoje Olímpio Campos é o nome do que, até há alguns anos, foi o Palácio do Governo e deve se tornar a Pinacoteca do Estado. Numa dessas ironias da vida, fica em frente à praça Fausto Cardoso.

Fausto Cardoso — que tem uma importância marginal na história da sociologia brasileira — representava a burguesia urbana do Estado. Quando invadiu o palácio criou um dos mais importantes acontecimentos políticos do Estado, porque depois de expulso e ficar xingando o batalhão que protegia o palácio de “Exército de bandidos”, acabou sendo morto na praça.

Foi minha bisavó quem deu abrigo ao homem que teria disparado o tiro contra Fausto Cardoso. A turba correu para lá, revoltada, exigindo o homem que tinha assassinado a face mais visível do progresso em um Estado coronelista e atrasado. Sinhá saiu à porta e disse: “Ele está aqui, sim. Agora quero ver alguém entrar.” Ninguém entrou.

(Algum tempo depois Olímpio Campos seria assassinado no Rio pelos irmãos de Fausto Cardoso, ao lado do Palácio Monroe. Dizem que seu corpo chegou a Aracaju em pedacinhos.)

Por tudo isso, por conhecer a história de Aracaju sempre por uma ótica pessoal, fiquei maravilhado com o museu. Não somente pela iniciativa de levar a história da cidade para o povo, mas porque eu conseguia me reconhecer ali. O Museu de Rua dava uma sensação de concretização a memórias que acabaram se tornando minhas.

Não posso dizer que sabia mais sobre a história da cidade do que as guias que ficam lá, explicando a maquete aos visitantes; mas certamente sabia coisas que elas não sabiam.

Ali está, por exemplo, a casa do calabrês Nicola Mandarino. Em 1954, Mandarino foi protagonista do crime mais sensacional de Aracaju, o assassinato de Carlos Firpo, ex-prefeito da cidade. É uma história fascinante, que envolve II Guerra, acusações de espionagem para o Eixo, assassinos de Paulo Afonso, dinheiro, sexo, amor e traição; uma história em que ninguém é inocente. Se algum dia eu escrevesse um romance, seria essa história que eu contaria: eu a conheço há uns 25 anos, porque minha avó não cansa de contá-la: Firpo era amigo de meu avô e padrinho de uma tia minha, e seu ódio aos assassinos continua intacto depois de 50 anos.

(Os autos do processo do crime sumiram do Tribunal de Justiça. Mas eu cheguei a vê-los, ainda criança, antes de serem retirados de lá.)

Rumo à zona norte fica o Mercado Thales Ferraz, provavelmente a única obra pública arquitetonicamente decente da cidade, atrás do antigo trapiche, que já não existe há muito tempo e onde saveiros não atracam mais. Lá no fundo está o morro do Bonfim. Perto dele havia alguns bordéis famosos. Quando ele foi desmontado, para dar lugar ao crescimento e à rodoviária da cidade, hoje Rodoviária Velha, diz a lenda que ali foram encontrados vários esqueletos de recém-nascidos, filhos das prostitutas. Só delas, de ninguém mais, de nenhum homem, porque filho de puta não tem pai, e ninguém se sente culpado pelos infanticídios cometidos ali.

O Museu de Rua eterniza uma cidade que não existe mais. A década de 40 passou e a cidade se descaracterizou. Hidroaviões não amerissam mais perto da Ponte do Imperador. A rua da Aurora hoje se chama Av. Ivo do Prado, mas o povo continua chamando-a de Rua da Frente, a rua que delimita Aracaju e o Rio Sergipe. E o sol continua nascendo ali, atrás dos coqueiros da Ilha de Santa Luzia.

33 thoughts on “Museu de Rua de Aracaju

  1. “E o sol continua nascendo ali, atrás dos coqueiros da Ilha de Santa Luzia.”
    Na Barra dos Coqueiros.

    Esse post me deu saudades da minha voh e suas historias de Sergipe.

  2. Lembro da Ponte do Imperador (sem o Museu, aliás grande iniciativa pra dar uma ‘utilidade’ à Ponte), da Rua da Frente, e até de São Cristóvão, q fui só uma vez … das histórias daí, muitas.
    A imagem do sol nascendo atrás dos coqueiros foi demais!
    Beijos, Rafa!

  3. Fiquei curiosa com a estória do assassinato do Firpo. Aposto que daria um ótimo post. Será que vamos ter que esperar o livro?

  4. “… uma história em que ninguém é inocente. Se algum dia eu escrevesse um romance, seria essa história que eu contaria: eu a conheço há uns 25 anos, porque minha avó não cansa de contá-la”. Escreve o romance, pô! Já sinto o cheiro de sangue e o pulsar do seu coração.

  5. Oi! Bom, eu estava pesquisando justamente sobre essa história de Nicola Mandarino. Ele era meu tio-avó. Conheço bem a história, que envolve ele e sua filha, minha prima, Milena Mandarino.
    Realmente chega a ser constrangedor ver o nome da família (que é conhecida em São Cristovão) de uma maneira tão suja, mas…
    Sou baiana, moro em Salvador, e adoraria me corresponder com você, até pra saber mais sobre o assassinato de Carlos Firpo.

  6. Sou estudante do curso de História na UNIT estou pensando em fazer um projeto sobre o museu de rua, ou sobre o Mercado Thales Ferraz, pois estou curiosa para saber mais sobre a história do mesmo.

  7. A Ponte do Imperador foi construída em 1859 e inaugurada em 11 de janeiro de 1860, no ato da chegada do Imperador Dom Pedro II à então Província.

  8. Boa Noite!
    Vc saberia me informar algum site q eu possa encontrar informações, tipo ano e como foi que surgiu a Rua João Pessoa, aqui em Aracaju.

    ***Adorei essas fotos do Museu de Rua, vc olhando rapido nem parece uma “maquete” é perfeito.

    Abraços.

  9. olá tudo bom sou estudante da UNIt do curso de história do 4º periodo e estou fazendo um trabalho sobre Olympio Campos se puder me ajudar com algum materia eu agradeço.

  10. Oi!
    Eu li uma parte do seu documentário e achei algo que me interessou muito, um pequeno comentário sobre Carlos Firpo.
    Você sabe onde posso encontrar mais informações sobre ele?
    Gostaria de saber como foi seu assasinato com mais detalhes.
    Se você puder conseguir essas informações eu agradeço muito!
    Beijos.

  11. Conteúdos como este é que fazem valer a pena acessar a internet. Parabéns.
    Gostaria de saber mais sobre esta história envolvendo Nicola Mandarino e Carlos Firpo.

  12. FALE SOBRE A ESCOLA NORMAL IERB QUE JÁ FORMOU MUITOS PROFESSORES AQUI NO ESTADO E ESTÁ EM DECADÊNCIA

  13. Cara, é fabuloso saber que vc teve acesso a historia da nossa capital desta forma tão direta, queria eu. Meus avós são de Santo Amaro, vieram para cá na década de 40, mas não tiveram o acesso à história que os seus avós e bisavós tiveram, foram apenas personagens. Conheço o ponto de vista do meu avó, ele foi policial naquela época conturbada, chegou a ser camareiro no hotel pálace, mas é apenas um ângulo, vc ao contrário, possui uma visão central. Bom, tb sou louco pela história da nossa capital e especialmente, gostaria de saber se vc tem informações sobre a éxpansão de aracaju rumo à zona sul, e sobre as modificaçoes sofridas no centro da capital. Por favor, mantenha contato, vc é uma fonte, ao que parece, bastante rica da história da nossa capital.

  14. gostaria de saber qual a origem do nome fontes cardoso em aracaju,pois meu oai nasceu aí,e dizem q foi meu avó um dos gdes colaboradores p a vinda do bonde puxado a burro,qq informacao me passe

  15. Muito interessante,porém alguns comentários são desnecessários.
    Como afirmar que a Ponte do Imperador não tinha utilidade antes do Museu de Rua? E a importância histórica não conta?
    E afirmar que o mercado é a única obra pública arquitetônica da cidade é lamentável….
    Mas de qualquer forma está legal.
    Tati.

  16. ohh kra bastante infeliz seu comentário em relação a ponte do imperador. procure saber mais sobre a história dela…tem livros bons como o de Ana Maria Fonseca Medina!!

  17. Olá Rafa obrigado por esse trabalho tão lindo, da nassa Aracaju olha tá show de bola
    um grande abraço muita paz.

  18. Bem, Rafael, a Ponte hoje é o MUseu de Rua, mas estou indignado porque parece que os vitrais que cercariam a ponte ainda esta inacabado, sem falar na placa da prefeitura que anuncia a obra, e o prazo descrito na placa já está vencido… o patrimonio histórico e artistico de Aracaju tá merecendo mais respeito, aos poucos a identidade histórica está sendo perdida e esquecida. Parabéns ! seu trabalho contribui para lembrança do que está esquecido.

  19. Ronaldo, o Ministério Público de Sergipe não gostou da idéia dos vitrais — de uso corrente nos melhores museus do mundo — e está questionando a obra. Por isso a paralisação.

  20. Oi! Rafael, gostaria de conhecer a história de Nicola Mandarino. e da familia mandarino, meu avó, era um Mandarino (italiano), eu não não conheço nada a respito da familia. Gostaria de saber sobre origem dos Mandarinos.
    Atenciosamente.

  21. Olá!

    O que vc sabe sobre a escola normal em Sergipe? se souber de alguma coisa, escreva, por favor,
    obrigada.

  22. OI RAFAEL,
    ADOREI O BLOG! SEREI LEITORA ASSIDUA DE HOJE EM DIANTE.
    PARABENS!!!!!1

  23. Hola me gustaria contactarme con alguien para interiorisarme mas sobre el apellido Mandarino de Italia soy de Uruguay y realmente no sabemos nada del apellido solo que mi bis abuelo era de italia y nunca pudimos adelatar nada en la investigacion…
    Gracias

  24. eu sou de aracaju nais to em sao paulo a doze anos e uma cidade muito bonita

  25. Parabéns, pelo site.
    Só hoje, dia 10 de janeiro, vi a referência ao meu opúsculo Ponte do Imperador.
    Obrigada, Ana Maria Fonseca Medina

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