Cine Rio Branco

Passei a adolescência em Aracaju e, numa cidade ainda sem shopping centers, o centro da cidade era, realmente, o centro da cidade.

O Cine Rio Branco ficava exatamente ali. Até 2002 era o cinema mais antigo de todo o mundo em funcionamento contínuo. Era a única coisa de classe mundial que Aracaju tinha, a única coisa realmente singular que aracajuanos poderiam se orgulhar de ter.

Como todos os moradores de Estados atrasados pobres e cidades pequenas, aracajuanos têm auto-estima baixa e são muito suscetíveis à opinião dos outros. Se ofendem quando alguém não acha que sua cidade é a tradução perfeita da imagem que escolheram (no caso de Aracaju, uma cidade calma, tranqüila e bem organizada de povo acolhedor — e não, eu não copiei isso de um folder turístico). Mas eles simplesmente não sabiam o que tinham nas mãos.

Certo, havia muito tempo que os intelectuais da cidade gritavam em mesas de bar que se deveria preservar o cinema, mas nunca fizeram muito mais que isso. E o Rio Branco foi demolido na virada de 2002 para 2003, na calada da noite. A maior parte do pessoal que gritava que deveriam preservá-lo, em uma espécie de reflexo condicionado, sequer pareceu notar.

Desde 1997 eu tinha certeza de que o Rio Branco chegaria ao fim. Foi quando fecharam o melhor cinema do centro, o Palace, com sua decoração que lembrava os fantasmas dos anos 50. Esse teve um destino que pode até se dizer honroso, porque se tornou um bingo. Depois foi o Cine Aracaju, com destino mais inglório: virou igreja evangélica por pouco tempo e hoje é um estacionamento.

Ninguém falou nada enquanto esses cinemas iam abaixo. Provavelmente não compreendiam a sua importância dentro da história cultural da cidade. Não sabiam que os cinemas de rua, mais que salas de exibição, são instituições que se integram à memória afetiva da cidade, que de maneira quase imperceptível chegam a ser formadores da própria identidade cultural da cidade. Apenas pareciam compreender o que significava o Rio Branco; infelizmente sua compreensão me parecia se limitar ao prédio em si.

O Rio Branco, à parte algumas placas comemorativas de grandes nomes do teatro brasileiro que passaram por lá, não tinha nada de especial. Não chegava aos pés, por exemplo, do Jandaia de Salvador, provavelmente o cinema mais bonito do Brasil e que até há pouco tempo se deteriorava em frente aos camelôs da Baixa dos Sapateiros vendendo defumadores e patuás. Sequer do São Luiz de Fortaleza e seu mármore italiano. Sua glória estava justamente na sua existência. O Rio Branco só era grande porque funcionava. Só por isso.

Havia algumas alternativas para ele, claro. Mas sempre faltou interesse e visão de um Estado que não preza por preservar a sua cultura, principalmente porque normalmente tem uma visão equivocada do que ela é.

O cinema foi abaixo, virou uma loja de roupas baratas, e agora não há mais nada a fazer. Só pegar as lembranças e tentar fazer delas algo compreensível. Uma delas é o outro recorde do Rio Branco. Em 1987 ou 1988, não sei direito, foi o cinema com maior público pagante em todo o país. Venceu cinemas de shopping centers do Rio e São Paulo. A razão era simples: o Rio Branco tinha se especializado, a partir do segundo quarto da década de 80, em filmes pornográficos. Era o único em Sergipe, em uma época em que a população mais pobre aina não tinha vídeo-cassete.

Era uma delícia passar em frente ao cinema e ver os títulos dos filmes em exibição. Eu sempre tive a impressão que os cineastas e tradutores brasileiros criavam os títulos desses filmes depois de um dia duro de trabalho: iam para um bar, enchiam a cara e, depois de contar piadas e fofocas, tentavam achar o título mais esculhambado dentro de um mínimo de pertinência possível.

Um deles era “Senta na Minha Que Eu Entro Na Tua”. E em 1989, época do sucesso do “Batman” de Tim Burton, o Rio Branco apareceu com o divino “Batxota”. Mas nada, nada poderá substituir a glória sado-masoquista delirante de “Penetradas por Trás com Dor e Força”. Quer dizer: quase nada. Porque aí a gente lembra de “Oh! Rebuceteio”, e por trás do sorriso que vem à boca imediatamente fica uma impressão de exuberância despudorada que não se vê mais por aí.

E na Semana Santa o dono do Rio Branco substituía os filmes de sacanagem por qualquer outro filme com título mais pio. Ele, como bom católico, tinha que respeitar a moral e os bons costumes de um povo que não sabia que o seu maior cinema estava às vésperas de uma morte inglória.

11 thoughts on “Cine Rio Branco

  1. Poh Rafael, tambem moro em Aracaju e assim como voce, tinha orgulho sim do Cine Rio Branco. Soh de pensar que meu sonho de consumo aos 13 anos era completar logo 18 para finalmente poder “adentrar” no Rio Branco, aquele antro de pornografia que eu tinha a maior curiosidade de conhecer. O tempo passou, fiz 18 anos, o video cassete trouze o porno p minha Tv, mas sempre admirei o velho cinema. E os titulos dos filmes ? Sempre que ia ao centro fazia questao de passar em frente p ler os titulos absurdos e dar boas gragalhadas. Infelizmente Sergipe perdeu o seu, talvez, unico orgulho mundial que possuia. Eh triste ver que nessa terra cultura, patrimonio historico, sao coisas tao banais a nossa classe “esclarecida”. Enfim, que o glorioso Rio Branco permaneca vivo nas nossas memorias. Abraco…

  2. Rafael, o cinema foi por anos o local de socialização, o centro cultural de muitas cidades. Me lembro que ir ao cinema sempre tinha esta aura de evento social-cultural e às vezes, também pornográfico. Bem, nesse caso a coisa não era tão socio-cultural, mas era legal mesmo assim. O individualismo aliado às novas tecnologias matou, ou ao menos esfriou muito este prazer. Mas vejo que em alguns lugares está voltando o tesão de ir ao cinema. Não se compara assistir uma comédia em casa, ou acompanhado de 200 pessoas gargalhando. Tudo uma outra coisa.

  3. Cinemas em qualquer parte do mundo (ver cinema paradiso) tÊm/tinham o mesmo ciclo:
    – surgem como grande novidade;
    – atingem um auge mostrando o que há de mais novo no mercado mundial de filmes;
    – começam a decair quando criam uma sessão semanal de filme pornô;
    – depois passam a mostrar 2 ou 3 pornôs p/ semana;
    – só mostram pornôs e criam sessões de strip e sexo no palco;
    – viram puteiros de terceira, após o que são fechados e o prédio é demolido ou vendido a uma igreja evangélica (crentes parecem gostar muito de ambientes nos quais os pecados que eles tanto abominam foram praticados com a amior devassidão…).

  4. Rafael, a especulação imobiliária não vê as coisas como nós vemos. Tudo e todos são apenas números, e vão-se as lembranças de todo um povo.

  5. aqui em niterói só existe um cinema de rua agora. numa cidade que já tem pouquíssimos cinemas acabaram de fechar a sala do grupo estação, o único, junto com o art-uff que passava alguma coisa menos comercial do que os cinemas de shopping. o art-uff, por suas vez, sofre com as maluquices da associação de professores e funcionários da universidade, a qual resolve fazer uma greve de 3 meses a cada ano (mesmo que nenhuma outra universidade pública o faça). durante a greve, sorry babe, no films. aí, eu pergunto: o que a gente faz? nada, fica na praça dando milho aos pombos. ou, na melhor das hipóteses, fica igual aos intelectuais de aracaju: enche a cara na mesa do bar e fica tudo por isso mesmo. abraço, cristiane

  6. Conheci o Rio Branco no início do anos 80, apesar de n ter visto nenhum filme lá. E como lembro do seu fim … Concordo c vc, Rafa, qdo fala do descaso à história cultural e à memória afetiva da cidade. Lamentavelmente o fim do Rio Branco n foi diferente do fim de tantas outros cinemas pelo país afora.

    Beijos,

  7. Passei (depois de séculos) pra dar uma espiada e te deixar um beijo. Vou voltar mais vezes pra ler tudo com calma e ver se já fez o blog pra pegá mulé …rs
    Vc não volta mais pra cá não? Que coisa!
    Saudades de vc.
    Mônica Araujo (ex peixa, sereia , etc :P)

  8. Queria Saber dos costume linguistico do Rio Branco de qual que municipio do Acre porfavor manda pra mim uma Respota

  9. Rafael,

    Antes mesmo de começar a passar filmes pornográficos, o cinema Rio Branco já estava alugado ao proprietário do Cinema Aracaju, que era um senhor de Itabaiana que não lembro agora o nome.Sei que chegou a ser eleito deputado federal.
    No último parágrafo do seu texto, quando você se refere ao proprietário, você comete um equívoco, pois nessa época o cinema já não estava sob a direção do proprietário.

  10. Ricardo,

    Você se refere a José Queiroz, que durante algum tempo controlou todos os cinemas de Aracaju, incluindo o Palace e, se não me engano, o Plaza. A propósito, foi um excelente deputado constituinte em 1988.

    Quanto ao último parágrafo, desculpe. Eu me referi a Zé Queiroz ali, que era arrendatário. Má escolha de palavras.

  11. O Cinema Rio Branco antes de ser arrendado ao Sr. José Queiroz, era um Cinema de respeito, exibia filmes incríveis, filmes que incomodavam aos Cinemas de sua propriedade como também arrendados, depois de algum tempo que ele ARRENDOU, ele liquidou esse CINEMA exibindo filmes pornos. Pergunte a ele se ele se lembra de SERGINHO no CINEMA RIO BRANCO, NESSA ÉPOCA.

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