Manuais Disney

Durante muito tempo, em vez de dormir cedo, me pegava imaginando que para muito pouca gente os manuais Disney foram importantes como para mim. Conhecia pouquíssimas pessoas que lembravam deles com o mesmo fervor que eu.

Isso mudou com a internet. Um bocadinho de gente compartilha suas lembranças. A Wikipedia tem uma lista deles. Infelizmente, ela parece conter alguns erros. Uma lista bem completa — com fotos das capas de cada um — pode ser encontrada aqui.

Os manuais eram livros ilustrados sobre algum assunto específico, pequenas enciclopédias para crianças publicada entre os anos 70 e começo dos 80. É bom descobrir que mais gente gostava daqueles livrinhos.

Mas melhores que essas referências na rede são as lembranças que tenho deles. Tive, e ainda tenho, uma boa parte desses manuais. Fizeram parte da minha infância, como as balas Soft — aquelas que matavam crianças sufocadas —, a Sessão Tarde e o Sítio do Picapau Amarelo.

Olhando para eles agora, preciso admitir que me forneceram boa parte do conhecimento sobre o mundo necessário a uma criança — e nisso a minha geração foi privilegiada em relação à imediatamente posterior. Eles combinavam, de maneira equilibrada e adequada, lazer e informação. Certamente não entendo muito mais de carros hoje do que entendia depois de ler o Autorama. E quase tudo o que sei sobre esportes e olimpíadas vem do Manual dos Jogos Olímpicos, com o Pateta como protagonista (que comprei uns poucos meses depois das Olimpíadas de Moscou).

Naquela mesma época ainda comprei o Manual do Detetive, que não tinha nada a ver com a Disney e trazia uma lupa como brinde, além de um monte de informações que moldaram a minha paranóia — como nunca andar encostado a muros e prestar atenção a quem anda na mesma rua que eu. Anos antes minha irmã teve o Manual da Mônica, onde aprendi, por exemplo, a história do jogo do bicho. Tive ainda o Manual do Mandrake; hoje nem Mandrake existe mais.

Não tive alguns manuais, como o do Tio Patinhas, que falava de economia; do Mickey, se não me engano sobre polícia e espionagem; do Gastão (que nunca soube direito sobre o que era); e do Professor Pardal, sobre invenções. Não os comprei por que não estavam disponíveis na época. Depois foram reunidos numa certa “Biblioteca do Escoteiro Mirim”, mas a minha época já tinha passado.

O Manual do Zé Carioca, lançado para aproveitar a Copa de 1974 e relançado em 1978, falava obviamente de futebol. O Autorama falava de automóveis. O Manual do Peninha era uma aula sobre jornalismo e sua história, e imagino que deva ter inspirado muita gente a se tornar jornalista; o Marmota lembra dele. O Manual da Vovó Donalda era sobre culinária. E não esqueço de comprar o Magirama em 1978, em Aracaju, e começar a leitura sentado na calçada do aeroporto enquanto perdia um vôo para Salvador.

Ver as páginas sobre os manuais confirmou minhas lembranças de que o último lançado — sem contar reedições medíocres — foi o Manual da Televisão, que comprei em 1985. Ainda o tenho e folheio de vez em quando. É excelente. Uma boa aula resumida de como funcionava uma emissora de TV.

E de todos aqueles manuais, o melhor era o Manual do Escoteiro Mirim.

O Manual do Escoteiro Mirim fornecia um amontoado de informações inestimáveis para uma criança; tinha até um pequeno dicionário de inglês, francês e acho que italiano e espanhol. Além disso, criou em mim uma vontade imensa de ser escoteiro, até o santo dia de 1982 em que vi as roupas ridículas que eles usavam, as bermudas, os lenços e os meiões de jogador de futebol de várzea, e decidi que minha auto-estima era muito maior que aquilo. Os escoteiros daqui sequer tinham chapéus de guaxinim, usavam umas boinas de produtor cultural desempregado. Decididamente, aqueles garotos com roupas esquisitas eram terceiro-mundistas demais para mim. Pareciam aprendizes de soldado raso. E mais tarde eu teria uma briga por jornal com o coordenador dos meninos liderados por um imbecil em Aracaju, o que enterrou de vez qualquer ilusão que eventualmente ainda tivesse a respeito deles.

Mas o que importa é que em 1979 aquele manual, junto com “As Aventuras de Tom Sawyer”, era minha leitura preferida. Li tanto que ele se desfez em pedaços, e comprei um novo volume em 1981. Tenho esse até hoje, sem capa, com muitas páginas faltando, mas uma lembrança legítima de que um dia, quem diria, eu fui criança.

O que mais se aproxima daqueles manuais, hoje em dia, é o “Livro Perigoso Para Garotos”. É um bom livro que deveria ser dado para qualquer menino aí pelos seus oito, dez anos. Mas mesmo que eu seja suspeito para falar, porque quase 30 anos já se passaram desde que lia o Manual do Escoteiro Mirim com absoluto deslumbramento, fica em mim a impressão de que a série de manuais Disney acabavam sendo mais completos e mais interessantes.

Em outubro do ano passado, no Rio, achei alguns desses manuais em uns sebos da rua Passos, e estavam em bom estado. No momento em que escrevo isto, eles estão sobre a minha mesa de trabalho, em casa. Estão quase destruídos. Minha filha e meus sobrinhos fizeram um bom trabalho com eles. Normalmente não gosto de ver livros destroçados, mas com esses não me incomodei. Mais uma vez, eles cumpriram seu papel. Não poderiam querer destino melhor que esse.

23 thoughts on “Manuais Disney

  1. Grande post.

    Eu também tive vários desses manuais — embora não tenham sido tão importantes pra mim quanto parecem ter sido pra você.

  2. Deu saudade. Eu pertenço à “geração imediatamente posterior” – devo ter uns 10 anos a menos que você – mas tive pai e mãe! Alguns deles eu comprei no sebo por conta propria, ainda na infância.
    O manual do Gastão eu tinha, era sobre sorte e superstições.
    Junto com Monteiro Lobato, esses manuais forneceram boa parte da cultura geral que ainda tenho.
    A capacidade de apreensão das crianças atualmente é muito subestimada. Ainda bem que nasci antes.

  3. herdei e ainda os tenho, sem capa. andei dando uma folheada, dia desses, e ainda me pareceram fantásticos. a memória mais clara é ter aprendido os apelidos das diferentes seleções de futebol com o manual do Zé.

  4. Beleza de post.
    Eu não me lembrava de vários dos manuais citados, apesar de ter lido TODOS os mencionados.
    Mas o que sempre vai estar vivo em minhas lembranças será o SUPER ALMANAQUE DO ESCOTEIRO-MIRIM. Ele vinha com cadeado e chave, lembra como era?

  5. Que delícia ver o Manual do Escoteiro…sabia que por causa dele eu fui bandeirante???
    As histórias da Disney são algumas das minhas melhores lembranças da infância
    Adorei o post.

    Beijão!

  6. Ah…rsrsrsrs…minha experiência como bandeirante foi por pouco tempo, pois eu era meio rebelde e achava chato aquele monte de regras. Mas adorava acampar.
    De qq modo, o Manual é maravilhoso!
    Beijos

  7. Eu tenho esse Manual do Peninha. É ótimo.
    Dia desses resolvi fuçar numa mala velha na casa de minha avó e a encontrei recheada de gibis que meus irmãos colecionaram ao longo da infância e adolêscencia.
    Foi como encontrar uma cápsula do tempo.?

  8. dos manuais eu tenho apenas uma vaga lembrança, mas eu lembro melhor da enciclopédia, que um primo meu tinha. meu sonho era ter aquela coleção de livros.

    haviam outros livros similares, voltados para crianças, e mais antigos. um outro primo meu tinha um manual que juntava sobrevivência, bricolagem e de quebra alguns conhecimentos sobre construção civil básica. foi nesse livrinho que eu e outros meninos da minha família aprendemos a fazer massa básica de cimento e outro concreto, numa época de advento dos videogames.

    não se fazem crianças como antigamente. pfff.

  9. Era fanzão do Mickey e do almanaque do Tio Patinhas.
    Adorava quando os sobrinhos consultavam o Manual do Escoteiro Mirim. Era um livrinho minúsculo mas tinha mais informação que a Enciclopédia Britânica.
    O primeiro manual foi o dos escoteiros mirins. Comprei, é claro.
    Como eu já tinha lido toda a coleção de Conhecer que era vendida em fascículos fiquei meio chateado, pois esperava mais informações sobre acampamentos e sobrevivência.
    Dá uma fuçada lá na tua papelada. Vê se acha os fascículos do Conhecer. Naquele tempo a Abril servia pra alguma coisa.

  10. Eu era uma criança meio sem noção…aos seis ou sete anos, queria tanto ler o manual do escoteiro-mirim (e a situação financeira lá não era boa), que peguei uma gilete do meu pai e tentei cortar uma foto publicada do manual, de modo que pudesse folhear as páginas…

  11. Rafael:

    Eu também, influenciado pelos escoteiros Huguinho, Zezinho e Luizinho, me tornei escoteiro e só não usei a farda ridícula porque não deu tempo; saí antes. Ai meu deus, como a gente se ilude e se decepciona nesta vida.

  12. Rapaz, aqui em casa ainda tem uns dez desses. Autorama, Maga Min, Tio Patinhas, Peninha, Mickey, Zé Carioca, Magirama, Escoteiros, Gastão e um outro que não lembro agora. Tive também o das Olimpíadas, mas lembro que já não era tão fodão quanto os mais antigos.

    Eita, que recordar é viver…

  13. Viajei aqui neste post. e eu , com 42 anos , lembro quando meu pai me trouxe o manual do Tio Patinhas, que trazia como brinde…
    A MOEDINHA Nº 1, tão desejada pela Maga Patalójika. 🙂

  14. Eu tenho até hoje a Biblioteca do Escoteiro Mirim.
    Estranho como ela me ensinou muitas coisas e como lembro delas até hj. Incrível. Eu era viciado nesses livros.
    Obrigado por me fazer relembrar aqueles bons tempos.
    Abs.

  15. O Manual do Escoteiro Mirim era meu sonho. Somente um amigo meu o tinha e eu adorava ir na casa dele para roubar goiabas brancas da casa do vizinho só para, na verdade, dar uma fuçada na coleção completa da Biblioteca do Marcos. Grande lembrança. Me despertou um impulso consumista. Vou googlar atrás destas peças. Quem sabe não acabe voltando aqui através do Oráculo?

  16. aff o super manual do escoteiro mirim simpelsmente me preencheu a infancia… de la tirava muita ideia, e de lá ia pra muita leitura.. e uma coisa puxa a outra… fantastico, que delicia de post rafa…

  17. Tive o “Manual do Escoterio Mirim” e o “Manual do detetive” entre outros mas estes dois fizeram parte de toda minha infância!!! Até hj trago manias e conhecimentos adquiridos c eles, impressionante!!!

    Que memória gostosa!!! Mto legal

  18. Eu fui da geração da biblioteca do escoteiro mirim… que era ótima! Mas tive pais que não davam muita bola pra minha vontade de colecionar livros (tive que começar a ganhar meu próprio dindin pra poder fazer isso a sério)…. fora que minha mãe era dada a “faxinas”, em que jogava fora as “coisas velhas de criança que não prestam mais agora que você cresceu”… Saco.
    Fiquei com vontade de procurar no mercado livre pra comprar. 🙂

  19. Eu tenho 39 anos e concordo plenamente com o Rafael. Aprendíamos bastante , pois a mídia em geral, respeitava nossa inteligência e não preocupava-se apenas com o lucro. Hoje estamos a mercê da mediocridade e exposição excessiva ( orkut, twiter, BBB e etc ) que de certa forma quer testar nossa inteligência. Os gibis principalmente foram essenciais em vários aspectos e contribuíram na minha formação social e cidadã.
    Há cerca de 3 anos, retomei minha coleção de gibis do Tio Patinhas, porém, coleciono os Manuais Disney também, aproveito também, para pedir, se alguém quiser se desfazer de gibis antigos, entrem em contato comigo antes…..não joguem fora simplesmente ou deixem-os jogados num canto, pois, meu intuito não é comercializá-los, mas cuidá-los e coleciná-los.
    Abraço a todos.

  20. Grande Rafael!
    Também tive alguns destes manuais e hoje os procuro para minha filha. Infelizmente só os encontro em mãos de colecionadores.
    Se souberes de algum sebo que os venda me manda um e-mail.
    Desde já agradeço!

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