O estuprador e as pseudo-feministas

Por e-mail, recebo a denúncia de que um colunista da revista Trip, Henrique Goldman, confessou um estupro cometido décadas atrás. Ela dá também o link para um post da Carla Rodrigues, indignada contra o sujeito e mobilizando leitores para uma petição online.

Aí vou ler o artigo e o post e vejo que as pessoas estão ficando loucas. E que a histeria pseudo-feminista pode atingir dimensões que quase chegam à demência.

(Diante da repercussão negativa, autor e revista apareceram com a justificativa de que o texto é ficcional. Eu acredito neles, porque o Papai Noel, o Saci e o Curupira me visitaram ontem e disseram que é verdade. De qualquer forma, as reações covardes do colunista e da revista são muito mais graves do que a publicação do texto. Em algum momento eles enganaram seus leitores. A questão agora é saber se foi quando publicaram um texto ficcional fazendo-o parecer real ou quando fugiram de suas responsabilidades dizendo ser ficção um texto real.)

A jornalista Carla Rodrigues deveria ter, pelo menos, lido direito o artigo antes de discutir estupro dessa maneira ultrajada. Se lesse, veria que nada do que o Henrique fez constitui legalmente estupro, como qualquer advogado pode explicar sem pensar muito. A coisa é ainda pior, porque tecnicamente quem poderia ter cometido atentado violento ao pudor — e não estupro — seria a pobre da empregada. Ela é quem tinha 20 ou 30 anos. O rapaz tinha apenas 14. E insistência não é violência. Ao acusar Henrique Goldman de estupro, Carla Rodrigues não mostrou apenas um feminismo falso, principalmente porque construído sobre premissas falsas: descupriu o seu próprio papel como jornalista.

Não custa lembrar que nos Estados Unidos essa mulher seria exposta à execração pública, como a professora Debra Lafave e algumas outras. A mãe indignada iria à imprensa falar da violência que o seu filho (aquele menino ali, com um sorriso feliz no rosto) sofreu nas mãos de uma depravada sexual. A boa sociedade puritana se escandalizaria, enquanto a legião de six-packers invejaria a sorte do garoto e lembraria de suas fantasias sexuais adolescentes com mulheres mais velhas; alguns mais sensíveis poderiam fazer um filme como “Houve Uma Vez Um Verão”.

O que torna incômoda a reação histérica do pessoal é a torção dos fatos em função de uma visão de mundo que beira as raias do absurdo politicamente correto. Há, principalmente, um grau extremo de hipocrisia em tudo isso: sabe Deus quantos homens brasileiros tiveram suas iniciações sexuais com empregadas domésticas — se a vida ao redor não foi suficiente para que elas soubessem disso já há algum tempo, bastaria olhar os tantos filmes brasileiros que abordam o tema, às vezes com razoável grau de poesia. Fazer um escândalo porque alguém falou abertamente sobre o tema e transformar isso em um caso criminal é um despautério.

Se em vez de enxergar estupros onde nenhum foi cometido o pessoal que está indignado discutisse o ponto realmente incômodo no conteúdo do artigo — o quanto da escravidão subsiste ainda nas relações entre patrões e empregados, principalmente os domésticos — esse pessoal faria um favor grande ao país. No entanto, preferem discutir bobagens sobre bases inexistentes.

Eu recomendaria a todas essas moças que fazem auê em torno desses fatos que lessem as posições de Camille Paglia sobre o assunto — estupro — incluídas no livro Sex, Art and American Culture. Faria bem à sua cultura geral e talvez tirasse um pouco da ansiedade e neurose que as pessoas estão associando a sexo ultimamente.

20 thoughts on “O estuprador e as pseudo-feministas

  1. Rafael:

    Você deve a ter razão, porém, o que o tal editor já devia saber é que: uma coisa é contar uma estória dessa entre amigos de boteco, a outra é fazer disso um artigo de uma revista como a Trip, de conteúdo obviamente misógino, nos dias politicamente idiotas de hoje. Deu no que deu!

  2. Rafa,

    Li sobre o artigo no LLL, fui atrás dos links, li o artigo, mastiguei devagar para não deixar migalhas no teclado do computador e – muito lentamente – refleti: não teria sido uma jogada de marketing que saiu pela culatra?

  3. Mas que não foi estupro não foi!
    Se fosse assim todos os caras de “pegada” e com “boa lábia” eram estupradores…

  4. Não li o artigo mas concordo com uma coisa que você escreveu (e que Aldous Huxley remediava com Soma em 1932): todos estão ficando loucos!
    Enquanto o pessoal se preocupa com essas bobagens, eu me preocupo com assuntos muito mais importantes como, por exemplo, o que vai ter para o jantar logo mais.

  5. aaaah, mas o pseudo feminismo é mesmo um problema sério, não? Pelo amor de deus, minha gente, o cara escreveu com todas as letras que a empregada não queria dar pra ele, que ele e o amigo “deram o bote” nela e já no cabeçalho da coluna está escrito “Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos”… Vocês conseguem ler o CONTRA A VONTADE DELA ou não? Isso não é ser “bom de lábia,” minha querida Raquel. é ser um mero idiota. Se o texto é ficcional ou não, pouco importa. É uma imbecilidade, típica da classe média paulistana que se acha dona do mundo e que todas as barbaridades que comete são simplesmente “engraçadas”. Vcs estão precisando acordar….

  6. Rafael,
    Situaçãozinha complicada essa em que se meteram Trip e o Henrique Goldman… A Trip sempre foi uma revista ousada, a assinei por um bom período, sua linha editorial me agrada muitíssimo, ao contrário do que comentou o leitor Santiago acima, não a considero uma publicação misógina, os ensaios publicados lá, invariavelmente tratam a mulher com adoração, procurando sempre imprimir um olhar poético nas fotos…
    Mas apesar de o caso relatado não constituir legalmente um estupro, não deixa de ser um caso sério de assédio sexual, não dá pra deixar de pensar que a coitada da Luísa pode ter sofrido muito psicologicamente por causa dos caprichos de um filhinho de mamãe com os hormônios escorrendo pela palma cabeluda da mão.
    De qualquer forma, entendo que a Carla Rodrigues está apenas exigindo a publicação de uma carta de protesto contra o artigo, certo? Acho perfeitamente justo e nem um pouco histérico.
    Um abraço.

  7. Barbara,

    Eis o trecho em que o sujeito narra a história:

    Não lembro qual foi o nosso papo, mas imagino que tenha sido a coisa mais ridícula do mundo. Pedimos, insistimos sem parar para que você “desse” para nós. Lembro de poucos detalhes. Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego.

    Insistência, eu repito, não é violência ou ameaça. Portanto, não houve estupro, e é esse o problema da reação da Carla Rodrigues, ao definir o caso como “confissão de estupro”. O Thiago está certo quando se refere ao assédio sexual, mas aí entra a idade dos meninos. O problema aí não é legal, já que não foi cometido estupro: é ético e moral, porque os meninos e seus hormônios funcionavam dentro de uma sociedade machista e pós-escravista. Esse é o ponto realmente importante, não a bobajada de estupro.

    E não, Barbara, isso não é típico da “classe média paulistana”. É típico do Brasil inteiro, e em parte é reflexo de 300 anos de escravidão, em parte,

    Você também diz que “se é ficção ou não, pouco importa”. E por essa declaração me permita te incluir no rol das pseudos, a contragosto. Porque se o texto for ficcional, pelo seu tom condenatório ele serve como denúncia de uma situação enfrentada por milhares de empregadas domésticas em todo o país. O “personagem” não está se vangloriando do que fez há 30 anos; pelo contrário, está condenando um comportamento mais comum do que meninas bem criadas imaginam, e por isso ele faz uma referência a Gilberto Freyre em um dos entretítulos. E isso faz toda a diferença.

  8. Mas, não achas o texto ruim? No blog da Carla tocaram na questão da literariedade, a questão ficcional (e lá comentei). Não que discussões tenham de ser geradas e fomentadas sob um princípio de qualidade, mas temos que tomar cuidado com certos alardes ulcerosos. Os pressupostos que movimentam nossos argumentos podem ser enganosos e aquilo que criticamos tão duramente pode ser bem parecido com nós mesmos (e vejo isso frequentemente nos comentários dos blogs que leio). “Classe média paulistana”, “conteúdo obviamente misógino”? O texto, em minha opinião não é bom. A trip, não é essas coisas. Os comentários femininos, quando se pretendiam sérios, escorregavam numa histeria beligerante de quem só opina com a verve que ora vi no ambiente recluso da internet. Enfim, o problema que pode ser levantado, e já o fizeram aqui, é o problema de classe. E juridicamente a questão foi facilmente resolvida.
    Abraço Rafael; após muito tempo, um comentário, então.

  9. Sugiro que vocês leiam o livro ” Eu nem sabia que era estupro”. é um estudo de uma americana sobre o estupro praticado por conhecidos das vítimas e as consequencias na vida dessas mulheres. Depois vocês me contem se dá para rir de tudo isso.

  10. não poderia ser estupro pois quem tem 14 anos é inimputável (não comete crimes, comete infrações penais).
    mas você afirmar que a emprega é quem estaria cometendo “Atentado violento ao pudor” é a maior bobagem que já li nos últimos tempos (cansa isso de as pessoas falarem sem ter conhecimento no assunto):
    Atentando violento ao pudor:
    art. 214 – Constranger alguém, MEDIANTE VIOLÊNCIA OU GRAVE AMEAÇA, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso DIVERSO da conjunção carnal.

  11. Peter, seu cansaço me cansou também. Sabe por quê? Porque você arrotou uma arrogância que, no caso, foi também ignorante.

    Você sabe exatamente o que é conjunção carnal? Forçar alguém a fazer sexo oral ou anal, ou masturbação — entre outros — não constitui estupro. Constitui “atentado violento ao pudor”. Você não entendeu a piada no texto e eu não vou explicar porque você foi malcriado com seu “cansaço”.

    Mas posso lhe dizer que, também se procurar, vai achar um bocado de “doutrinadores” do direito que negam a existência de um estupro masculino, porque para que se consume a vítima precisa ter uma ereção, desqualificando a “violência ou grave ameaça”.

    Vamos fazer o seguinte: procura aí um “doutrinador” que fale em estupro de homem e aí a gente volta a conversar, tá legal?

  12. Eu, como pseudo-feminista, não sou advogada e, portanto, não posso entrar no debate da tipificação penal. Estupro, pra mim e pra qq mulher, seja empregada doméstica nos anos 1960, seja de classe média hoje, é sexo contra a sua vontade. Então, para qualquer um que saiba ler, está lá escrito na coluna do Goldman assim:

    “Pedimos, insistimos sem parar para que você “desse” para nós.

    Lembro de poucos detalhes. Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego.”

    Não precisa ser nem feminista nem pseudo-feminista pra entender.

  13. Carla

    Estupro não é sexo contra a vontade segundo o Código Penal Brasileiro:

    Estupro Art. 213 – Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça:

    Sexo com menores de 14 anos também não é mais estupro no país.

    Isso ficaria mais próximo disso, mas creio que o crime já estaria proscrito e ato descrito teria ocorrido antes da promulgação deste trecho do CP.

    Assédio Sexual Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.

  14. Adorei o post, e concordo com ele (aliás o meu post sobre o assunto vai meio q na mesma linha).
    E por coincidência li esse livro da Camille Paglia – q é maravilhoso, diga-se de passagem.
    Não conhecia o blog,vou vir passear sempre aqui de agora em diante!
    beijos

  15. Meu Deus!! É incrível como os pseudos-doutores do Direito se acham. Procuram uma brecha nos artigos que leêm para mostrar pra todo mundo que o dinheirinho que mamãe e papai gastaram com ele na universidade serviu para pelo menos uma coisa: Encher o saco das pessoas!

    P.S: Muito boa defesa, Rafael!

  16. Estou rindo até agora, pensando aonde chegou o maldito politicamente correto!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    POr favor, se alguém foi estruprado foi o então menino!!
    Lu

  17. Recomendo assistirem Cama de Gato, pra terem uma idéia mínima da banalidade das coisas, qdo não NOS afetam.

    Se observarem a lógica da criação do roteiro, vão se surpreender, ou até msm assustar.

  18. Pingback: Blog do Lucho ~

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