As revoluções dos Beatles

Pergunte às pessoas que gostam um pouco que seja dos Beatles e a grande maioria dirá que gosta mesmo é da segunda fase da banda, aquela que se inicia com o Revolver. Dirão que a primeira fase é bobinha, e em parte isso vai se dever ao respeito a uma convenção simples e já consolidada: a segunda fase, melódica e harmonicamente mais ambiciosa e mais sofisticada, é a fase universalmente considerada “revolucionária” dos Beatles.

E elas estarão erradas. Porque em termos de “revolução” nada se compara àqueles quatro meninos cabeludos de Liverpool que cantavam ié ié ié. Esses são os verdadeiros revolucionários. O resto é só conseqüência.

É engraçado que se tenha perdido a perspectiva histórica do que representou a chegada dos Beatles ao cenário musical. Foi o som de uma única canção, Please Please Me, que criou o que hoje se chama de rock inglês e que, por tabela, revitalizou o então moribundo rock americano. E que abriu caminho para que dezenas de outras bandas e artistas aparecessem e trouxessem elementos novos, alguns dos quais fundamentais, para a evolução da música.

As pessoas esquecem que no início da década de 60 o rock and roll estava morto. Buddy Holly e Eddie Cochran haviam morrido em acidentes (respectivamente de avião e de táxi), Chuck Berry tinha ido para a cadeia, Little Richard tinha entrado numa grave crise existencial e se convertido à religião, Jerry Lee tinha caído em desgraça porque comeu a prima — mas casou –, e Elvis, bem, Elvis tinha morrido também. Outros grandes artistas da primeira onda do rock tinham se esgotado em termos de inovação criativa — e aí se inclua Carl Perkins, Everly Brothers e tantos outros. O que se ouvia então era twist. Twist não é música que se dê ao respeito.

Dentro desse cenário, o que os Beatles representaram em termos de renovação da música pop em 1963 é virtualmente impossível de ser quantificado. Há uma série de teorias sobre as razões pelas quais os Beatles tomaram os Estados Unidos de assalto em 1964, que vão da necessidade de uma válvula de escape a partir do assassinato de John Kennedy à combinaçào de irreverência e seriedade ilustrada nos terninhos eduardianos que os Beatles usavam sob seus cabelos compridos. Mas nada disso é tão importante quanto a sua música.

I Want To Hold Your Hand não se parece com nada feito antes dela. A energia, a coesão harmônica e a inventidade melódica que faziam parte da música dos Beatles representaram uma mudança de padrão muito mais importante, por exemplo, que a que eles fariam anos mais tarde com o Sgt. Pepper’s, considerado por muita gente o disco mais importante da história do pop.

Era aqui que estava o novo.

Havia mais coisas acontecendo simultaneamente — ou melhor, sendo gestadas. Na California os Beach Boys estavam aparecendo com algo novo; mas quem quer que ouça seus primeiros discos vai ver como o som parecia “comportado”. Em 1965 eles se aventurariam em uma grande aventura sonora, em canções mais elaboradas como Good Vibrations. Mas em 1963 eles apenas repetiam a fórmula da surf music com letras debilóides como as de Be True To Your School. Enquanto isso, a Inglaterra se preparava para regurgitar o rhythm and blues americano, mais ou menos como a França tinha absorvido o cinema americano; uma abordagem diferente e renovadora da música pop que estouraria em 1965 — e Satisfaction, dos Rolling Stones, talvez seja o seu maior símbolo.

Mas foram os Beatles que mostraram o que era realmente o novo. Satisfaction é caudatária direta desse caminho aberto por Please Please Me, inclusive na sonoridade. Com aqueles seus primeiros compactos — Please Please Me, She Loves You, I Want To Hold Your Hand — os Beatles definiram um padrão novo para a música pop. O que hoje pode parecer bobinho era revolucionário em 1964.

Bob Dylan percebeu isso imediatamente, e abandonou o folk para entrar de cabeça no rock and roll (o que talvez não tenha sido uma boa idéia, mas isso é uma opinião bem pessoal). O poeta Phillip Larkin também:

Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) -
Between the end of the
Chatterley ban
And the Beatles’ first LP.

Up to then there’d only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.

Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.

So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) -
Between the end of the
Chatterley ban
And the Beatles’ first LP.

O impacto da chegada dos Beatles é sentido em outras áreas do show business. Foram eles, por exemplo, que também criaram o que hoje se entende por cena rock. Foi a beatlemania que possibilitou os shows em grandes estádios. Para que se tenha uma idéia do que isso representa, é só lembrar que Elvis costumava se apresentar em feiras estaduais, em tablados.

Nada disso significa que se deva subestimar a sua importância a partir do Revolver, o momento em que eles viraram os queridinhos de um público que finalmente se rendia incondicionalmente à força crua do rock mas queria manter ainda uma certa dignidade; no entanto é bom lembrar que em 1967, ano do Sgt. Pepper’s, também surgiram coisas como os primeiros do Velvet Underground e dos Doors.

No Verão do Amor os Beatles não estavam mais sozinhos. Mas em 1964 estavam. Um sujeito com o cabelo na cintura podia ser transgressor em 1967, mas havia muitos outros como ele ao seu lado. Em 1963, os cabelos nos ombros dos Beatles eram absolutamente únicos. Quase tão únicos quanto a música que faziam. E por mais ingênuos que eles hoje pareçam, assim como a irreverência e até mesmo suas canções, a verdade é que foi naquele momento que eles pariram um mundo novo.

15 Comentários

AlanSeptember 21st, 2009 at 19:56

O que acredito que deva levar muitos a subestimarem a primeira fase deles é o fato das músicas serem realmente um trabalho revolucionário, mas para o começo dos anos 60. Os Beatles pós-Revolver ainda impressionam qualquer não-iniciado depois de 43 anos.

Radical LivreSeptember 21st, 2009 at 21:02

Rafael,

respeito muito sua opinião e tenho certeza que Please, Please Me foi altamente revolucionário no momento em que foi lançado.

Mas hoje, 40 e tantos anos depois, ele soa da mesma forma de que todos os outros artistas que você citou como mortos, convertidos ou em decadência. É isso aí, soa datado, antigo, pueril.

Sou plenamente agradecido pela revolução musical iniciada por esta música e pelos Beatles. Mas simplesmente não consigo mais ouvir a produção dos caras desta época inicial.

Na minha opinião, a partir de 1967, eles reciclaram de forma genial tudo o que tinha sido feito e lançado desde que iniciaram a revolução do Rock’n Roll, criando um diálogo com os outros artistas e bandas que simplesmente não existia antes de Revolver.

mas o entendido em Beatles aqui é você. esta é só a minha opinião.

abraços

DrexSeptember 22nd, 2009 at 00:48

Texto genial, Rafael. Me fez lembrar daquele fantástico filme do Robert Zemeckis (Febre da Juventude?) que mostra a primeira visita dos Beatles aos EUA. Aquela histeria toda, e o coitado do menino-fã cabeludo sentindo na pele como era revolucionário (e proibido) um rapaz ter cabelos compridos em 1964.

No fundo, os Beatles estavam no olho dum furacão (participando e sendo responsáveis por ele). Se pensarmos no quanto os costumes/valores/estética mudaram de 1963 até 1968, é estupendo. Lendo teu texto fica ainda mais evidente (e ainda mais admirável) o quanto eles foram revolucionários em 63, 64, 65, 66, 67… Essa potência realmente não é pra qualquer um.

Thiago AndradaSeptember 22nd, 2009 at 08:19

Cansei de ouvir gente dizendo “aí começou a virada”, quando falando a respeito do Rubber Soul. Falou em virada, é prova que sujeito não entende nada de Beatles. A carreira deles não teve virada, ela evolui constantemente. Há todo um período fantástico (62-65) que acaba por ser ofuscado pelo que veio depois. E aí eu cito especialmente o Beatles for Sale, meu favorito da fase inicial e talvez o mais discreto da discografia.

Rafael GalvãoSeptember 22nd, 2009 at 11:23

Radical,

O problema é: exatamente em que sentido canções como Yellow Submarine, When I’m 64, Honey Pie, Good Night, All Together Now , Obladi Oblada e mais um punhado de outras soam menos datadas e pueris que músicas como I Want To Hold Your Hand, A Hard Day’s Night, Help! I Saw Her Standing There ou Yesterday?

Thiago,

O engraçado é que eu nunca gostei muito do BFS. Sempre achei um disco meio cansado e pouco inspirado. Depois passei a ouvir principalmente por questões sentimentais: eu lembro bem de quando comprei o disco, e ouvi-lo me lembra 1986. Mas estava ouvindo agora e é impressionante como ele é bonzinho. Ainda é um dos mais fracos da “primeira fase”, porque há alguns extremamente bons e mais inventivos, mas um mau disco dos Beatles é melhor que muita coisa boa por aí. :)

victor freireSeptember 22nd, 2009 at 11:48

taí, esse é um dos posts nos quais eu concordo contigo, baiano. falando nisso, talvez seria interessante você escrever porque a bahia revolucionou a cena musical nacional em fins dos anos 60 (muitos colegas meus “nacionalistas” pernambucanos chamam alguém de herege por muito menos, embora eu concorde com eles e com você sobre o fato de pernambuco liderar a vanguarda atual da música brasileira).

Rafael GalvãoSeptember 22nd, 2009 at 18:24

Victor,

Acho que a pessoa ideal para falar sobre isso seria o Idelber.

Acho que a grande revolução baiana, na verdade, não veio nos anos 60: veio algumas décadas antes, com Caymmi. Mas, quanto a Caetano e Gil, achoque aquela geração tropicalista fez basicamente o que Pernambuco faria 30 anos depois: resgatou o que a Bahia tinha de mais tradicional, tanto em termos de música quanto de poesia e, à la Oswald de Andrade, misturou com o que tinha de mais moderno vindo de fora.

marcusSeptember 22nd, 2009 at 19:38

@Rafael Galvão

Já eu acho o For Sale o primeiro grande disco dos Beatles. Concordo com o que tu escreveu no post, Rafael, mas não sou um grande fã dos dois primeiros álbuns dos Fab Four.

Roger MoreiraSeptember 22nd, 2009 at 20:14

Humm, nunca entendi muito esse negócio de música datada. Esse termo é usado pejorativamente pra dizer que algo já era, passou, não cola mais ou não merece atenção. Mas, para mim, o que existe é música que eu gosto e música que eu não gosto. Considerando que, sinceramente, faz muito tempo que não vejo nada realmente original no rock, mas apenas reciclagens e misturas do que surgiu no máximo até os anos 80 – então fica difícil definir o que seria datado, exceto pelo critério do gosto pessoal ou do que está em voga.

Rafael GalvãoSeptember 23rd, 2009 at 13:14

Roger, welcome back. :)

Um comentário.

Acho que cada época deixa sinais claros em cada música, quando não na melodia e na harmonia, nos valores de produção e principalmente nos arranjos. Por exemplo, dá para saber com razoável precisão se uma canção foi gravada nos anos 50, 60, ou 70 apenas ouvindo. Basta eu ouvir aquela bateria com caixa excessivamente amplificada e sintetizadores a morrer pra saber que ela é dos anos 80.

Nesse sentido, não acho que a datação seja algo intrinsecamente ruim, porque é inevitável. Mas tenho certeza de que uma das coisas que fazem a permanência dos Beatles é justamente o fato de que uma percentagem considerável de suas canções não soam datadas — ao contrário, por exemplo, dos Beach Boys ou do Velvet Underground.

Agora, eu concordo plenamente com você: tem muito tempo que não aparece nada realmente original em termos de música. Não só no rock, mas no pop, na MPB, e até mesmo na última grande novidade, o rap.

karinSeptember 24th, 2009 at 17:58

Vício antigo, te leio regularmente. Nunca deixei de ler. Gosto dos textos desde sempre, mas, se é permitido, quero fazer duas críticas: Entre um texto e outro há um espaço de tempo muito longo e sinto falta de temáticas novas e alguma criatividade. Uma renovação seria muito bom.
Best Wishes.

Gisele LemperSeptember 25th, 2009 at 15:08

oh yeahhh, querido. sim, meu gato: nada se compara ao gatilho
dos beatles, desde seus primeiros moments. The first moment. O primeiro e mais importante movimento: Eu
que o diga… rsrsrs… beatlemaniaca, em pelo menos
dez sessões de a hard days night no cinema da tarde e pela vida afora…
adolescente, acho que falavam de uma forma de expressão musical que se consolidaria dp…. em mil formas de expressões da arte in the world.
Todo o resto é mera consequência… or not?

GustavoOctober 9th, 2009 at 11:58

Então Rafa, eu tenho passado justamente por essa fase do fã que olha carinhosamente a fase pré-Revolver, mas não dá o devido respeito.

É realmente engraçado porque a evolução que ocorreu depois de 1966 foi muito rápida (Hendrix, Joplin, Zeppelin, Cream, etc). Daí fica parecendo mesmo que I Wanna Hold Your Hand é inocente demais não só pros próprios Beatles, mas pra todo o rock ‘n roll que explodiu na segunda metade dos anos 60.

Mas apesar de tudo isso, não consigo deixar de sentir que o Abbey Road é catártico, definitivo e muito mais sublime do que Please Please Me, apesar de ser proporcionalmente, digamos, “menos revolucionário”. Não sei explicar. É como se existisse ali a síntese absoluta do que há de melhor entre quatro seres humanos fazendo música no século XX. Talvez o tempo me torne um pouco mais cético, não sei.

GustavoOctober 9th, 2009 at 12:08

Aliás, Rafa, você falou que o BFS é bonzinho, mas não chega a ser o melhor dessa fase.

Qual dos álbuns é o seu favorito desse período?

Eu tenho uma predileção especial pelo With The Beatles, mas acho que é por cansaço de tanto já ter ouvido o A Hard Day’s Night, o Help!, o Please Please Me. Continuo achando o BFS o mais fraco de todos.

Abs

Carlos ViniciusOctober 11th, 2009 at 12:41

Cara, excelente postagem. Acrescento uma impressão pessoal: as canções da primeira fase dos Beatles são excelentes, e a revolução musical nem sempre é uma guinada para a experimentação. No caso dos Beatles, o salto qualitativo dos primeiros discos em relação ao que se fazia na época é que foi revolucionário. “Pet sounds” só existiu porque Brian Wilson percebeu isso claramente.

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