Bastardos Inglórios

“Bastardos Inglórios” é um filme cheio de defeitos. Há falhas gritantes no roteiro, como o fato de Hans Landa deixar Shosanna fugir, ou, mais tarde, estrangular uma personagem quando isso não seria lógico nem recomendável dentro dos seus planos, que conheceremos logo a seguir.

Há também uma série de cenas desnecessárias — a chacina dentro da taverna, por exemplo, só se explica a partir da necessidade de Tarantino encaixar uma de suas marcas registradas, a carnificina generalizada — ou excessivamente longas. O filme, que dura pouco mais de duas horas e meia, poderia perder essa meia hora adicional em seu próprio benefício, e deixaria de se arrastar em sua metade. Mas o diretor, nesses momentos, parece ter idéias demais sem dispor da habilidade necessária para realizá-las.

O caráter referencial, pastiche — na melhor acepção da palavra — de gêneros cinematográficos em “Bastardos Inglórios” está claro já nos créditos de abertura, onde se misturam tipologias e cores diferentes. Essa é a personificação gráfica do cinema de Tarantino: um grande caldeirão em que gêneros diversos se misturam e se reciclam, reutilizadas com alguma classe e um estilo bem próprio.

As cenas iniciais, tomando suas referências do grande western spaghetti italiano, dão o tom do filme. Mas Tarantino não é sujeito de ficar restrito a um gênero apenas. A partir daí vários gêneros servem de referência, mas um em especial: o grande cinema de guerra dos anos 50/60, no estilo “resta-um” de “Os Doze Condenados” e “Fugindo do Inferno. “A Grande Ilusão” de Renoir, também, quando menos no reconhecimento, através da linguagem, do caráter transacional de qualquer guerra. As referências no entanto não se limitam ao cinema: vão até Chuck Berry (Nadine, em LaLousianne), Yvette Mimieux, e tantas outras espalhadas pelo filme. É sempre um jogo interessante tentar descobrir onde estão todas as referências citadas por Tarantino em seus filmes.

Taratino apresenta uma série de personagens dos quais nos lembraremos por muito tempo. Mélanie Laurent — a mais bela atriz com um perfil feio que o cinema já revelou –, Eli Roth e Diane Kruger desempenham seus papéis de maneira correta, mas sem brilho; Mike Myers e Rod Taylor fazem aparições surpreendentes e perfeitamente esquecíveis. Caricatura de uma mistura de Don Corleone, John Wayne e o americano tabaréu médio, além de um nome que homenageia o bom e velho Aldo Ray, Brad Pitt é mais um tipo que um personagem, resvalando conscientemente na caricatura.

É o ator austríaco Christoph Waltz, desconhecido até agora, que rouba o filme em um desempenho inesquecível — seu Hans Landa é uma metáfora curiosamente acurada do que representou o nazismo. Waltz está brilhante: seu personagem consegue transmitir a loucura e o sadismo inerentes ao regime. A partir do momento em que Tarantino resolve inverter os papéis de nazistas e judeus, se permite também criar um vilão mais rico e mais atraente que o nazista tradicional — embora como seja costume nos seus filmes, essa riqueza nunca seja completa: Tarantino é um criador de tipos, não de personagens.

Até aí, o filme seria mais um — um Tarantino normal, cheio de referências, bombástico e histriônico, quase caricatural; personagens improváveis (uma judia francesa namorando um negro? Então tá) e diálogos em que pequenas teorias pop acéfalas (desta vez sbre a diferença entre um rato e um esquilo) ganham força extra por serem expressadas em diálogos extremamente bem escritos; e de um modo geral a mise en scène substituindo o que deveria ser a força do roteiro.

Mas “Bastardos Inglórios” não é só mais um filme de Tarantino, é também o melhor filme de 2009, um ano particularmente inglório para o cinema, e o melhor do diretor desde Pulp Fiction.

Em “Bastardos Inglórios” Tarantino dá um passo à frente no seu estilo de fazer cinema. Pela primeira vez, o uso de referências cinematográficas que define o seu estilo se transforma verdadeiramente em metalinguagem. O resultado é uma das maiores declarações de amor ao cinema desde “Cinema Paradiso”. Ao fazer o que filmes não costumam fazer por timidez — afinal de contas, por que tanto pudor em matar Hitler, se são obras de ficção? –, Tarantino encontra um dos mais fantásticos ovos de Colombo do cinema em toda a sua história.

O que Tarantino diz ao espectador é que é apenas no cinema que a realidade pode ser transformada. No cinema os judeus perseguidos por Hitler passam de vítimas a bons predadores (o adjetivo é necessário porque na Palestina esse caráter predatório está evidente há muito tempo, mas essa é outra conversa). E se isso pode acontecer, a história também pode ser recriada.

22 thoughts on “Bastardos Inglórios

  1. Rafael:

    O Tarantino é o único diretor fiel ao cinema como o cinema se propôs na sua origem e deve ser sempre: lúdico. Com sua imaginação fantástica parece que ele nos diz. “Isso é cinema, portanto sem compromisso com realidade e sim com a boa história; realidade temos todos os dias”

    Diretor maravilhoso; filme idem!

  2. Rafael:

    Não peguei a referência a Chuck Berry / Nadine / LaLousianne. Procurei no google e também não veio nada.

    Se importa em explicar?

  3. Nadine é o título de uma das melhores canções de Chuck Berry (Nadine, honey, is that you? Seems like every time I see you darling you got something else to do). E a Lousianna é o lugar onde um sujeito chamado Johnny B. Goode vivia (deep down in Louisiana close to New Orleans, way back up in the woods among the evergreens)

  4. Rafael:

    Isso eu sei. No Tarantino volta e meia aparece alguma coisa do Chuck Berry.

    Só não lembro onde/quando aparece no filme.

  5. Achei o filme OK. Muito longe da “obra prima” de Tarantino que muitos falaram. É mais um filme de Tarantino pro bem e pro mal. Muito aquém de Pulp Fiction e Caes de Aluguel.
    Hans Landa me lembrou alguns personagens de Christopher Walken.
    E o ventilador no cinema, para mim, era uma referencia a cena inicial de Apocalipse Now.

  6. o filme é sensacional, apesar e pelos defeitos. apontei a principal falha para mim: Landa não ficar sabendo que o massacre do III Reich foi planejado e executado pela fugitiva Shosanna, aquela que ele deixou escapar, num improvável momento fru-fru.
    o estrangulamento da kruger, depois do momento cinderela às avessas (experimentar o sapatinho para ver se serve), bem pode ser explicado se considerarmos uma certa afetação efeminada de Landa – não teria ele algum horror a mulheres? ainda mais a uma mulher tão bela e poderosa?
    na adega, quando encontra o lenço com autógrafo da atriz, ele o beija. ele já sabia que podia matá-la.
    :>)

  7. Fred,
    Quando Mike Myers mostra o mapa a Michael Fassbender.

    Bia,
    A hipótese da misoginia de Landa funcionaria se ele não fosse um personagem tão frio.

  8. Assim que cheguei em casa fui checar o Christopher Waltz no imdb. É o primeiro filme dele para o cinema americano – até então só tinha feito filmes e séries de TV na alemanha e/ou áustria.

    O cara rouba o filme. A cena inicial dele (apesar do furo de não ter matado a shoshona), o diálogo com o francês que esconde a família judia, é 100%. sua atuação em todo o filme é de tirar o chapéu.

    espero vê-lo muito ainda por aí. um ator de verdade.

  9. Seu “ovo de colombo” até me fez pensar. E, de fato, é muito bem sacado por você. Achei estranho sair de um filme do Tarantino, que acho, com todos os erros, um dos melhores cineastas americanos dos últimos 30 anos, sem aproveitar nada.
    Tudo porque eu fiquei puto com o filme. Tirando o Coronel Landa, personagem e interpretações ótimas, e alguns diálogos bons, achei o filme uma mierda! Tudo porque os demais personagens são patéticos, com ótimo início, mas com meio e fim horrorosos.
    O que foi aquela participação do oficial da inteligência britânica? Entra no filme com pompa e sai de maneira patética, aliás como todos os outros, à exceção de Landa.
    É como você disse: muitas idéias ótimas, mas perdidas pelo meio.
    Assim, apesar do seu bem sacado “ovo de colombo”, achei o filme muito ruim.

  10. Olá, Rafael.
    Gosto muito do seu blog e quase sempre gosto de suas perspectivas, mesmo quando são meio absurdas, mas acho que hoje vou discordar do que você chama de falhas no roteiro.
    Não parece que Landa deixe a judia fugir; ela simplesmente foge. Ele não faz grandes esforços (poderia persegui-la) mas isso também faz parte de seu personagem.
    E sobre o estrangulamento, posso estar errado, mas Landa elabora os planos depois, junto com o espectador, quando descobre que não existe nenhuma maneira de salvar a explosão do teatro.
    Sobre a cena da carnificina na taberna, acho perfeita. É longa justamente para que não se torne artificial, pois as tensões vão se elaborando a ponto de que não seja possível nenhum personagem voltar atrás.

  11. Victor,

    No caso de Shosanna, não é muito esforço dar um tiro nas costas de uma mulher. Ou mandar seus soldados, que acabaram de matar uma família inteira, ir atrás dela. No caso do estrangulamento, considerando que ninguém sabia que Shosanna tinha o que poderia ser um “plano B, ele podia impedir que os dois ajudantes de Raine seguissem com o plano. Mas já tinha percebido que a guerra estava perdida. Quanto à carnificina, eu não acho que Tarantino consiga construir o suspense de maneira aceitável ali — me parece mais uma daquelas trademarks deles, com aqueles diálogos interessantes mas que não precisam ter muito a ver com o filme.

  12. Só vi o filme ontem.
    Achei pertinente a fuga da shoshanna. Capricho de deuses …

    Na abertura a referência é claríssima: Shane de george stevens. Os espaguetes do Leone ainda estavam longe de aparecer.

    Levou a ficção às suas últimas consequencias, como nunca antes na história da sétima arte… Haja “suspensão volitiva da incredulidade”.

    Talvez seja mesmo a maior qualidade do filme.

    Realmente um ovo de colombo!

  13. Coisa chata ficar achando defeito ao invés de se divertir com essa maravilha do cinema. O filme é ótimo e Christoph Waltz está fantástico!!!

  14. Você tava era à procura de referências. Isso nada tem a ver com o fato do nome ser LaLousianne.

  15. Gostei muito do filme, pois ele tem certos “ingredientes” necessários para prender a atenção e promover a emoção da platéia.Concordo com o Fred sobre o componente LÚDICO: “…Isso é cinema, portanto sem compromisso com realidade e sim com a boa história; realidade temos todos os dias”
    O Brad Pitt deixa claro que é uma “caricatura”, sua atuação é boa e engraçada…

    Agora, o impecável ator Christopher Waltz é o grande protagonista do filme! Ele é uma jóia rara!!! . Acredito até, que ele deve ganhar o Oscar pelo SHOW de atuação – um ator de primeira grandeza! Só para assisti-lo vale a pena ver o filme mais de uma vez… Está entre os meus 10 filmes que revejo (sou atriz) só para curtir a atuação dos atores – além do filme, é claro.
    O meu primeiro é Casablanca com sua quase perfeição cinematográfica. Difícil algum cinéfilo não tê-lo em sua coleção. O que você, Rafael e esta Turma de cinéfilos acham?

  16. O toque de genialidade do filme, pra mim, foi a piada mais obscuramente brilhante que eu já vi na minha vida: a cena em que a personagem Shosanna aparece, durante o massacre, na tela do cinema falando: “Esse é o rosto da vingança judia”.

    É uma óbvia sacanagem, já anunciada na cena que se passa na sala do general britânico, com o cinema norteamericano, dominado pelos judeus. Talvez por estar inserido numa época em que foi produzida uma quantidade anormal de filmes sobre o III Reich, o diretor levou a “vingança judia” às últimas consequências: por duas vezes, utilizou o cinema para sacanear os nazistas. Enfim, o final do filme é simplesmente fantástico.

    A atuação do tal do Waltz dá um brilho especial ao filme, muito embora eu ache que seu maior mérito seja o roteiro: Tarantino usa o espectador e seu conhecimento histórico para tornar o final surpreendente. Digo mais: creio que em todos os seus filmes Tarantino cria belíssimos diálogos totalmente desnecessários, como você disse; mas em Bastardos Inglórios isso não acontece. Os diálogos dão o tom da cena, e sua futilidade cria uma tensão que eu vi poucos diretores (apenas os gênios) atingirem.

    Resumindo: achei um filmaço, o melhor que eu assiti em muito tempo (fora, claro, os clássicos revisitados). Eu sempre vi o Tarantino como um grande potencial que não se realizava, que resvalava na genialidade só em algumas cenas (aliás, todos os seus longas até “Bastaredos Inglórios” são filmes de grandes cenas sem serem grandes filmes); entretanto, acho que agora ele se realizou. Eu colocaria “Bastardos Inglórios” na minha estante, lá do lado dos filmes do Kubrick, do Goddard, do Bergman…

  17. As opiniões que vi aqui (inclusive do blogueiro) são de pessoas que, ao que parece, foram ao cinema, assistiram ao filme, compararam com outros, e está feita a crítica. Acho, sim, que Tarantino fez uma obra-prima, e recomendo as seguintes leituras para uma compreensão um pouco mais aprofundada do filme:

    http://trombonearte.wordpress.com/2009/11/02/e-utivich-acho-que-fiz-minha-obra-prima/

    http://trombonearte.wordpress.com/2009/11/10/a-truculencia-narrativa-em-busca-de-uma-causa/

    • Ah, Scorsese, sem nenhuma dúvida. O trabalho dele de preservação é impressionante. E é quem mais entende de rock aí. 🙂

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