Oscars de Melhor Filme: quem ganhou, quem deveria ter ganhado e por quê

Um dia, 11 anos atrás, resolvi fazer uma lista boba de filmes que ganharam o Oscar, e quais deveriam ter vencido no seu lugar, se fosse o caso.

Resolvi atualizar a lista e acrescentar alguns comentários rápidos justificando as escolhas. Os critérios continuam os mesmos: eu estava limitado apenas aos indicados.

Nesses 11 anos, vi e revi vários filmes. E é engraçado perceber que minha opinião mudou bastante sobre alguns deles.

Acima de tudo, uma certeza se consolidou: o Oscar não quer dizer nada sobre o cinema, nem mesmo sobre o cinema americano. É apenas um barômetro da indústria cinematográfica americana, suas circunstâncias e idiossincrasias. Não tem nada a ver com arte. Olhando a lista, o que realmente impressiona é o tanto de filmes brilhantes, muitas vezes melhores que a esmagadora maioria dos indicados, que foram repetidamente esquecidos pela Academia: “Rastros de Ódio”, “Tempos Modernos”, “Cantando na Chuva”, “Um Corpo que Cai”, “2001”, “Rio Vermelho”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Luzes da Cidade”, “Psicose”, “Manhattan”, “Quanto Mais Quente Melhor”.

A lista segue abaixo.

1929
Quem venceu: Wings
Quem deveria ter vencido:  Wings
Por quê? Porque entre os indicados eu só vi esse. De qualquer forma, o único filme de 1928 que alguém precisa ver é “A Paixão de Joana d’Arc”, de Dreyer.

1930
Quem venceu: The Broadway Melody e All Quiet on the Western Front
Quem deveria ter vencido: All Quiet On the Western Front
Por quê? Novamente, porque é o único que eu vi.

1931
Quem venceu: Cimarron
Quem deveria ter vencido:  The Front Page
Por quê? Cimarron não apenas é extremamente datado, mas é absolutamente inferior a The Front Page, um filme excelente que se sustenta bem ainda hoje.

1932
Quem venceu: Grand Hotel
Quem deveria ter vencido: Grand Hotel.
Por quê? Mesmo com a passagem do tempo, Grand Hotel se mantém. Uma grande superprodução, com um elenco insuperável, é o tipo de filme que ajudaria a consolidar o Studio System. Mesmo que eu goste de Shanghai Express, não dá para negar que esse melodrama composto de várias histórias paralelas mereceu.

1934
Quem venceu: Cavalcade
Quem deveria ter vencido: 42nd Street
Por quê? Embora Cavalcade e I Am a Fugitive From a Chain Gang sejam grandes filmes, o musical 42nd Street ajudou a definir o que seria um dos grandes gêneros da primeira metade do século XX.

1935
Quem venceu: It Happened One Night
Quem deveria ter vencido: It Happened One Night
Por quê? Durante anos me senti desconfortável com esse filme. Não parecia ser tudo o que achavam dele. Mas ele é. E certamente é bastante superior ao melodrama de Imitation of Life, o único entre os indicados que teria alguma chance de ganhar o Oscar com méritos.

1936
Quem venceu: Mutiny on the Bounty
Quem deveria ter vencido: Top Hat
Por quê? Talvez não haja melhor filme de pirata que Captain Blood, mas poucos têm a classe e a graça de Top Hat.

1937
Quem venceu: The Great Ziegfeld
Quem deveria ter vencido: Mr. Deeds Goes To Town
Por quê? Talvez porque a melhor coisa de Ziegfeld é a cena em que Louise Rainer garantiu seu Oscar de melhor atriz; talvez porque a fé de Capra na humanidade e no American way of life tenha alcançado aqui um dos seus pontos de maior pureza. Mas eu, pessoalmente, gosto muito de San Francisco.

1938
Quem venceu: The Life of Emile Zola
Quem deveria ter vencido: A Star is Born
Por quê? Não foi um ano ruim, com filmes magníficos como Lost Horizon — possivelmente melhor que A Star is Born — e um preferido meu de infância, Captains Courageous. Mas o filme de William Wellman tem um belo roteiro, alguns diálogos fantásticos e acima de tudo, fala de Hollywood.

1939
Quem venceu: You Can’t Take it With You
Quem deveria ter vencido: La Grande Illusion
Por quê? You Can’t Take it With You é um grande filme, num ano que também contou com Bette Davis em Jezebel e o fantástico The Adventures of Robin Hood. Mas La Grande Illusion é um daqueles filmes absolutamente superiores, a crônica perfeita do colapso de um mundo e do nascimento de um período sombrio. Renoir esperava ajudar a evitar a II Guerra com esse filme. Não deu certo, mas a guerra passou e o filme continua aí.

1940
Quem venceu: Gone With The Wind
Quem deveria ter vencido: Gone With the Wind
Por quê? É o maior elogio que se pode fazer a um filme: em um ano em que concorreram Mr. Smith Goes to Washington, Ninotchka, Stagecoach (filme refundador de todo um gênero), The Wizard of Oz e Wuthering Heights, o filme de Selznick é superior a todos eles. É a perfeição de um modo de fazer cinema.

1941
Quem venceu: Rebecca
Quem deveria ter vencido: The Grapes of Wrath
Por quê? O filme de Hitchcock é brilhante. Mas The Grapes of Wrath faz mais que a crônica dos tempos da Depressão: oferece um retrato pungente da luta pela sobrevivência e ilumina aspectos interessantes da alma humana em tempos ásperos.

1942
Quem venceu: How Green Was My Valley
Quem deveria ter vencido: Citizen Kane
Porquê? É talvez o Oscar mais irritante de todos. Não apenas porque o vencedor bateu The Maltese Falcon e um filme que representou quase uma pequena reinvenção do cinema. Mas porque Ford pegou um livro brilhante e o transformou num melodrama muito menor.

1943
Quem venceu: Mrs. Miniver
Quem deveria ter vencido: The Magnificent Ambersons
Por quê? O significado de Mrs. Miniver só pode ser realmente compreendido no contexto da II Guerra Mundial. Enquanto isso, mesmo com seu final canalha empurrado pelo estúdio à revelia de Welles, Ambersons é um filme grandioso, que impressiona a partir da cena inicial.

1944
Quem venceu: Casablanca
Quem deveria ter vencido: Casablanca
Por quê? Porque Casablanca é o melhor filme de todos os tempos, ponto.

1945
Quem venceu: Going My Way
Quem deveria ter vencido: Double Indemnity
Por quê? A única razão concebível para que esse filme água com açúcar tenha derrotado Double Indemnity, e mesmo Gaslight, é o fato de que, àquela altura, os caixões com soldados mortos no Pacífico estavam chegando aos EUA em número cada vez maior. Going My Way não é um mau filme; mas o fato de ter ganho esse Oscar faz com que se tenha vontade de espancar Bing Crosby até ele parar de assoviar.

1946
Quem venceu: The Lost Weekend
Quem deveria ter vencido: The Lost Weekend
Por quê? Para começar, a concorrência não era das mais acirradas. Mas independente disso, Billy Wilder fez aqui a crônica definitiva do alcoolismo e da abstinência, num filme que em muitos momentos chega a dar agonia. Veja este filme e, se você bebe nem que seja uma cervejinha no fim de semana, vá direto a uma reunião do AA.

1947
Quem venceu: The Best Years of Our Lives
Quem deveria ter vencido: It’s a Wonderful Life
Por quê? The Best Years of Our Lives venceu porque em 1946 os EUA se viam às voltas com multidões de veteranos da II Guerra tentando tocar suas vidas como podiam; se um ano antes eram heróis, agora eram um problema social. Um excelente filme, diz do seu tempo como poucos outros. Mas It’s a Wonderful Life é um filme universal e atemporal. E um detalhe curioso: aqui o Mal não é vencido nem se redime. Henry Potter continua perverso e filho da mãe até o final, e não recebe nenhum castigo por isso (talvez porque já tenha sido castigado muito antes do filme começar, em sua cadeira de rodas); a ideologia do filme se revela menos na punição do Mal que na recompensa do Bem.

1948
Quem venceu: Gentleman’s Agreement
Quem deveria ter vencido: Great Expectations
Por quê? Num ano em que a discussão sobre o anti-semitismo chegou aos Oscars com força em dois filmes excelentes, o vencedor e Crossfire, ainda assim Great Expectations merecia ter ganho o Oscar. Conseguiu traduzir com qualidade rara o ethos das histórias de Dickens. Não é pouco.

1949
Quem venceu: Hamlet
Quem deveria ter vencido: The Treasure of Sierra Madre
Por quê? Eu não tenho dúvidas de que esta adaptação de Hamlet é a melhor de toda a história. Foi um Oscar muito justo. Mas o fato é que eu teria votado em Sierra Madre, um filme de intensidade e brutalidade únicos.

1950
Quem venceu: All the King’s Men
Quem deveria ter vencido: All The King’s Men
Por quê? Broderick Crawford está perfeito como o político corrompido num filme que parece uma crônica do sistema político brasileiro. É um Oscar inegável num ano relativamente fraco. Mas White Heat talvez merecesse um olhar mais carinhoso.

1951
Quem venceu: All About Eve
Quem deveria ter vencido: Sunset Blvd.
Por quê? Esse ano foi páreo duro. O Oscar de All About Eve não foi exatamente injusto; mas ele não é superior, talvez nem mesmo igual, a Sunset Blvd, uma obra absolutamente perfeita, em todos os aspectos, e um dos filmes mais injustiçados da história do Oscar (Gloria Swanson perdeu o Oscar de melhor atriz para Judy Holliday. E embora a atuação de Holliday seja magnífica, a de Swanson vai além de qualquer adjetivo).  É quando Hollywood, vendo às suas portas o fantasma da televisão, começa a ajustar as contas consigo própria. E nenhum ajuste é tão brilhante quando este.

1952
Quem venceu: An American in Paris
Quem deveria ter vencido: A Streetcar Named Desire
Por quê? Porque embora um filme redondo, a An American in Paris falta a força de um filme baseado numa peça de Tennessee Williams e que tem aqueles dois grandes atores que eram Brando e Leigh.

1953
Quem venceu: The Greatest Show on Earth
Quem deveria ter vencido: High Noon
Por quê? O vencedor é um filme demagógico, sem nada demais — e olha que quem fala aqui é um amante inveterado do circo. High Noon, no entanto, é um filme brilhante, um dos grandes westerns da história.

1954
Quem venceu: From Here to Eternity
Quem deveria ter vencido: Shane
Por quê? Não é demérito nenhum perder o Oscar para From Here to Eternity; mas Shane é um western absolutamente perfeito, o padrão pelo qual todos devem ser julgados. Em Shane está a consolidação definitiva dos arquétipos do faroeste, de uma forma clara, ostensiva. Um filme memorável sob todos os aspectos.

1955
Quem venceu: On the Waterfront
Quem deveria ter vencido: On the Waterfront
Por quê? Uma vitória inquestionável, ainda mais levando-se em consideração a concorrência.

1956
Quem venceu: Marty
Quem deveria ter vencido: Picnic
Por quê? Marty venceu porque a Academia gosta de “rain men” e porque este foi um ano realmente ruim em indicações, pior que xepa de feira — muito pior quando se leva em consideração que 1955 deu ao mundo East of Eden, Lola Montès, Ordet, Rebel Without a Cause e, principalmente, The Night of the Hunter. Esse Oscar foi absolutamente imerecido; Picnic, com seu drama tão típico do cinemão dos anos 50, teria sido uma escolha muito melhor.

1957
Quem venceu: Around the World in Eighty Days
Quem deveria ter vencido: The Ten Commandments
Por quê? Algo devia estar acontecendo com a Academia nesses anos. The Searchers não foi sequer indicado; e um filme bonitinho como Around the World venceu a epopeia épica que é o filme de DeMille. Quando menos, um roteiro que vinha fazendo sucesso há mais de 2500 anos merecia mais reconhecimento. 1957 deveria entrar para a história como o ano em que a Academia esnobou Deus.

1958
Quem venceu: The Bridge on the River Kwai
Quem deveria ter vencido: The Bridge on the River Kwai
Por quê? Outros dois filmes indicados mereciam o Oscar tanto quanto o vencedor: 12 Angry Men e Witness for the Prosecution são filmes brilhantes. Eu, pelo menos, prefiro 12 Angry Men a River Kwai. Mas o vencedor é cinema da melhor qualidade, e não dá para questionar isso.

1959
Quem venceu: Gigi
Quem deveria ter vencido: Cat on a Thin Roof
Por quê? Ano ruim. Gigi não é um mau filme. Mas, por uma preferência absolutamente pessoal, Thin Roof é um Tennessee Williams típico, com uma atuação esplendorosa de Elizabeth Taylor.

1960
Quem venceu: Ben-Hur
Quem deveria ter vencido: Ben-Hur
Por quê? Dois outros grandes filmes concorreram, Anatomy of a Murder e Room at the Top, uma espécie de A Place in the Sun com menos melodrama. Mas nada poderia tirar o Oscar desse filme absolutamente fantástico, a história de amor e ódio entre Ben-Hur e Messala. É talvez o melhor épico já feito, um gênero que acabou morrendo com o tempo.

1961
Quem venceu: The Apartment
Quem deveria ter vencido: The Apartment
Por quê? Apesar do brilhante Elmer Gantry, o filme de Billy Wilder é uma obra-prima agridoce. Os personagens de Wilder nunca são puros — e talvez esse cinismo seja o seu grande trunfo. No fundo, ele demonstra uma grande compaixão pelo ser humano, com todas as suas imperfeições e pequenos pecados.

1962
Quem venceu: West Side Story
Quem deveria ter vencido: West Side Story
Por quê? A concorrência nem era das piores. Mas West Side Story é um musical exuberante e forte como poucos outros. Nesta adaptação livre de “Romeu e Julieta” para uma outra época e um outro lugar, com música popular — é, popular — da mais alta qualidade, Bernstein conseguiu dar uma visão épica a cucarachos e paisanos nos guetos de Nova York, e os transformou nos Capuleto e Montecchio de sua época. A coreografia também é fantástica.

1963
Quem venceu: Lawrence of Arabia
Quem deveria ter vencido: Lawrence of Arabia
Por quê? É uma vitória inquestionável, pelas mesmas razões de River Kwai. Mas eu teria votado em To Kill a Mockingbird, filme de uma delicadeza impressionante.

1964
Quem venceu: Tom Jones
Quem deveria ter vencido: America, America
Por quê? Outro ano ruim para o Oscar. Mas America, America tem qualidades narrativas que o ajudam a se distanciar — um pouco — da média.

1965
Quem venceu: My Fair Lady
Quem deveria ter vencido: Dr. Strangelove
Por quê? Não tenho certeza absoluta de que My Fair Lady não devia ganhar. Mas é difícil ficar insensível a Dr. Strangelove. Mesmo de certa forma atrasado, lidando com uma temática típica da década anterior, ele é muito mais que uma tour de force de Peter Sellers.

1966
Quem venceu: The Sound of Music
Quem deveria ter vencido: The Sound of Music
Por quê? Mesmo lidando com uma concorrência bem mediana, The Sound of Music beira a perfeição. Se houvesse um oscar de simpatia, ele teria vencido.

1967
Quem venceu: A Man For All Seasons
Quem deveria ter vencido: Who’s Afraid of Virginia Woolf?
Por quê? Virginia Woolf é dos filmes mais intensos já feito. Um compêndio de angústia e rancor conjugais, é um filme extremamente moderno para a sua época, com provavelmente a melhor atuação de Burton no cinema.

1968
Quem venceu: In the Heat of the Night
Quem deveria ter vencido: The Graduate
Por quê? Um filme com Rod Steiger sempre merece respeito, e a temática de In The Heat of the Night — e a maneira como é tratada — ainda mais. Mas este foi o ano de Bonnie & Clyde, um filme renovador; acima de tudo, é o ano de The Graduate, filme brilhante de Mike Nichols que retrata como poucos outros a sua época. Poucos filmes conseguiram capturar tão bem o estado de espírito de toda uma geração, a estupefação diante do mundo e o senso de inadequação a conceitos que, aparentemente, já não eram os seus.

1969
Quem venceu: Oliver!
Quem deveria ter vencido: Romeo and Juliet
Por quê? Oliver é um bom musical. Mas o Romeo e Juliet de Zefirelli é a melhor adaptação da peça que já se fez no cinema, de uma fidelidade ímpar ao espírito do amor entre dois adolescentes.

1970
Quem venceu: Midnight Cowboy
Quem deveria ter vencido: Midnight Cowboy
Por quê? Porque simplesmente não havia concorrência à altura deste filme, um retrato cruel mas até carinhoso de uma dupla de desajustados em meio à descoberta de que o sonho hippie da Era de Aquário podia ser também um pesadelo onde alguns se afogam.

1971
Quem venceu: Patton
Quem deveria ter vencido: Patton
Por quê? Em um ano extremamente fraco, Patton — filme de resto superestimado, ainda mais quando olhado em retrospectiva — era a única escolha possível.

1972
Quem venceu: The French Connection
Quem deveria ter vencido: The Last Picture Show
Por quê? Foi um Oscar até merecido. Mas The Last Picture Show é provavelmente a única coisa decente que Peter Bogdanovich fez em toda a sua vida, um filme especial que mescla a crueldade da observação quase clínica e uma delicadeza profunda. Usa o fim do cinema de uma cidade para marcar as mudanças em toda uma geração. E, de certa forma, o fim do sonho americano do pós-guerra.

1973
Quem venceu: The Godfather
Quem deveria ter vencido: The Godfather
Por quê? Se 40 anos depois você ainda pergunta por quê, eu tenho uma proposta irrecusável para lhe fazer que vai lhe convencer definitivamente.

1974
Quem venceu: The Sting
Quem deveria ter vencido: The Sting
Por quê? A parada aqui é dura. Mas por melhor que seja o outro filme que merecia o Oscar, “Gritos e Sussurros”, o fato é que The Sting é um grande filme, leve, engraçado, empolgante.

1975
Quem venceu: The Godfather Part II
Quem deveria ter vencido: The Godfather Part II
Por quê? O primeiro Godfather ganhou um Oscar merecido de melhor filme. Este é talvez ainda melhor que o primeiro.

1976
Quem venceu: One Flew Over the Cuckoo’s Nest
Quem deveria ter vencido: Jaws
Por quê? Finalmente um grande ano para o Oscar, depois de muito tempo. E embora Cuckoo’s Nest tenha merecido o prêmio, o fato é que Jaws não apenas descortinou um novo tempo para o cinema: faz isso com maestria narrativa.

1977
Quem venceu: Rocky
Quem deveria ter vencido: Taxi Driver
Por quê? A verdade triste é que qualquer um era melhor que Rocky. Mas Taxi Driver é mais do que isso. É um filme inovador, com uma energia que há muito não se via no cinema.

1978
Quem venceu: Annie Hall
Quem deveria ter vencido: Annie Hall
Por quê? Porque o único filme na lista que chega perto da comédia de Woody Allen é The Goodbye Girl.

1979
Quem venceu: The Deer Hunter
Quem deveria ter vencido: The Deer Hunter
Por quê? Infelizmente, a concorrência extremamente fraca, ao mesmo tempo em que justifica a escolha de The Deer Hunter, serve para deixar menos claras as qualidades deste grande filme.

1980
Quem venceu: Kramer vs. Kramer
Quem deveria ter vencido: Apocalypse Now
Por quê? Kramer vs. Kramer é o tipo de filme que ao longo dos anos seguintes ganharia repetidamente o Oscar, derrubando superproduções favoritas: o dramazinho familiar que arranca uma lágrima do espectador e vence pela simpatia, não pela qualidade. Já Apocalypse Now grita ao seu ouvido verdades que você talvez não queira ouvir.

1981
Quem venceu: Ordinary People
Quem deveria ter vencido: Raging Bull
Por quê? Se Ordinary People segue o mesmo caminho para o Oscar de Kramer vs. Kramer, desta vez venceu um filme diferente: uma obra-prima estilística de um diretor em seu ápice. Talvez por isso doa ainda mais ver a derrota de Raging Bull.

1982
Quem venceu: Chariots of Fire
Quem deveria ter vencido: Raiders of the Lost Ark
Por quê? Em outro ano equilibrado, venceu o filme mais inofensivo, se se descontar On Golden Pond. Raiders fazia uma bela atualização de anos de cinema B de aventura, e merecia o Oscar. No entanto, eu teria votado em Reds.

1983
Quem venceu: Gandhi
Quem deveria ter vencido: Gandhi
Por quê? Um bom ano para os Oscars; venceu o que realizou uma das mais bem feitas cinebiografias de todos os tempos.

1984
Quem venceu: Terms of Endearment
Quem deveria ter vencido: Qualquer um. Só tinha filme fraco.
Por quê? Porque só tinha filme fraco, oras. O melhorzinho era The Right Stuff. E era fraco.

1985
Quem venceu: Amadeus
Quem deveria ter vencido: Amadeus
Por quê? Outro ano fraco. Amadeus vence por WO.

1986
Quem venceu: Out of Africa
Quem deveria ter vencido: É tudo igual.
Por quê? Porque nada aí merecia um grande prêmio, com a possível exceção de “O Beijo da Mulher Aranha”. Daí porque a exuberância visual de Out of Africa tenha se sobressaído. Mas você podia trocá-lo por um episódio de “Mundo Animal” que dava na mesma.

1987
Quem venceu: Platoon
Quem deveria ter vencido: Platoon
Por quê? Uma vitória incontestável, Platoon lida com o horror da Guerra do Vietnã de maneira diferente de The Deer Hunter. Menos profunda, mas mais impactante.

1988
Quem venceu: The Last Emperor
Quem deveria ter vencido: Hope and Glory
Por quê? Não é que tenha sido um Oscar imerecido. Mas Hope and Glory é uma pequena jóia.

1989
Quem venceu: Rain Man
Quem deveria ter vencido: Dangerous Liaisons, mas sem convicção.
Por quê? Porque num ano ruim, qualquer coisa que ganhe está bom.

1990
Quem venceu: Driving Miss Daisy
Quem deveria ter vencido: Field of Dreams
Por quê? Não foi um grande ano para o Oscar. E no entanto, Field of Dreams mostrou com o tempo qualidades na época insuspeitadas. E eu jamais pensei que diria isso, 25 anos depois, de um filme a que me recusei a assistir no cinema.

1991
Quem venceu: Dances with Wolves
Quem deveria ter vencido: Goodfellas
Por quê? Mesmo sendo uma espécie de Mean Streets requentado, ou melhor, algo que parece sua continuação, Goodfellas é brilhante, com uma direção firme e visionária. E o fato de Dances With Wolves ser um grande filme apenas valorizaria a sua vitória.

1992
Quem venceu: The Silence of the Lambs
Quem deveria ter vencido: Beauty and the Beast
Por quê? Lambs é um filme sobrevalorizado. Beauty and the Beast, por sua vez, mais que o retorno da Disney é a arte do desenho animado em seu ápice.

1993
Quem venceu: Unforgiven
Quem deveria ter vencido: Unforgiven
Por quê? Muitos andares acima da competição, Unforgiven foi o último grande western tradicional. Um filme absolutamente brilhante, e um retorno ao modo americano de fazer faroeste que o western spaghetti parecia ter destruído.

1994
Quem venceu: Schindler’s List
Quem deveria ter vencido: Schindler’s List
Por quê? Por mais que o final de Schindler’s me irrite, é inegável: este filme é um dos melhores da década de 90.

1995
Quem venceu: Forrest Gump
Quem deveria ter vencido: Pulp Fiction
Por quê? Porque embora Forrest Gump seja um excelente filme, Pulp Fiction é uma obra-prima imbatível.

1996
Quem venceu: Braveheart
Quem deveria ter vencido: Il Postino
Por quê? Braveheart é um grande clichê demagógico. Enquanto isso, Il Postino é um filme delicado, com grandes atores num filme que, mais que falar de, encarna a poesia de Neruda.

1997
Quem venceu: The English Patient
Quem deveria ter vencido: Fargo
Por quê? O vencedor é longo, arrastado, chato. Fargo é uma delícia. Basta isso.

1998
Quem venceu: Titanic
Quem deveria ter vencido: Titanic
Por quê? Mesmo que eu votasse em L.A. Confidential, não dá para negar Titanic é Hollywood em sua melhor forma. É um filme redondo, e merecedor de todos os prêmios que recebeu.

1999
Quem venceu: Shakespeare in Love
Quem deveria ter vencido: Ninguém.
Por quê? Se a Academia fosse honesta cancelava o prêmio e pagava um cachorro-quente para os convidados no carrinho da esquina. “Foi mal aí, galera”.

2000
Quem venceu: American Beauty
Quem deveria ter vencido: The Sixth Sense
Por quê? American Beauty apenas parece ter a profundidade que afeta. Enquanto isso, The Sixth Sense tem um roteiro absolutamente perfeito.

2001
Quem venceu: Gladiator
Quem deveria ter vencido: Traffic
Por quê? Meio por falta de opção, mesmo. Gladiator é um monstrengo superproduzido; Traffic pelo menos tem mais suspense, parece ter uma ideia.

2002
Quem venceu: A Beautiful Mind
Quem deveria ter vencido: Moulin Rouge
Por quê? Porque filme realmente bom estava em falta naquela fria noite de março, e ao menos Moulin Rouge é um deslumbre musical-visual.

2003
Quem venceu: Chicago
Quem deveria ter vencido: The Pianist
Por quê? Porque o filme de Polanski é um dos melhores da década e Chicago é um musical muito do vagabundo.

2004
Quem venceu: Lord of the Rings
Quem deveria ter vencido: Mystic River
Por quê? Eu sei que a série dos Anéis tem fãs que atravessam as eras. Mas são filmes extremamente chatos; pelo menos Game of Thrones tem mais sexo e mais política. Enquanto isso, Mystic River pode ser incluído entre os melhores filmes de Eastwood, um filme duro como poucos.

2005
Quem venceu: Million Dollar Baby
Quem deveria ter vencido: Million Dollar Baby
Por quê? O filme de Eastwood, pequeno, intimista, chega a ser cruel.

2006
Quem venceu: Crash
Quem deveria ter vencido: Brokeback Mountain
Por quê? Ano ruim. Pelo menos Brokeback Mountain tem algum significado exterior ao cinema.

2007
Quem venceu: The Departed
Quem deveria ter vencido: The Departed
Por quê? The Departed não é um dos melhores Scorsese. Mas num ano como aquele, era mais que o suficiente.

2008
Quem venceu: No Country For Old Men
Quem deveria ter vencido: No Country For Old Men
Por quê? Só havia um concorrente à altura do vencedor: There Will Be Blood.

2009
Quem venceu: Slumdog Millionaire
Quem deveria ter vencido: The Reader
Por quê? Em Slumdog, Danny Boyle conseguiu fazer uma mistura de Bollywood e do ocidente que apenas diluiu e banalizou as duas tradições. Enquanto isso The Reader é um filme de economia admirável e uma temática importante. Na época, escrevi sobre ele aqui.

2010
Quem venceu: The Hurt Locker
Quem deveria ter vencido: Inglourious Basterds
Por quê? The Hurt Locker venceu pelas mesmas razões que Mrs. Miniver venceu algumas décadas antes. Já Inglourious Basterds não é apenas o melhor filme de Tarantino desde Pulp Fiction, é também uma parábola brilhante, ainda que com defeitos, de como o cinema pode funcionar como escapismo e reinvenção da realidade.

2011
Quem venceu: The King’s Speech
Quem deveria ter vencido: Black Swan
Por quê? Esse foi um bom ano entre os indicados. The King’s Speech é um belo filme, com alguns belos atores. Mas nada se compara ao vigor de Black Swan.

2012
Quem venceu: The Artist
Quem deveria ter vencido: Hugo
Por quê? Porque The Artist é uma fraude, pastiche debilitado que não se sustentaria mesmo que tivesse sido feito 90 anos antes. Enquanto isso, mais que o retorno de Scorsese à forma, Hugo é de uma beleza poucas vezes vista nestes anos 2010.

2013
Quem venceu: Argo
Quem deveria ter vencido: Beasts of the Southern Wild
Por quê? Argo é um filme medíocre e indigno do Oscar que ganhou, repleto de clichês que já eram cansados há 30 anos. Enquanto isso, Beasts tem uma vitalidade animal — e paradoxalmente uma doçura infinita percebida na brutalidade — que faz com que ele permaneça com você mesmo muito tempo depois de sair do cinema.

2014
Quem venceu:  12 Years a Slave
Quem deveria ter vencido: Her
Por quê? O tema de Her, paradoxalmente, não é novo. Mas é tratado aqui de maneira mais aprofundada. O fato é que num ano equilibrado, de bons filmes indicados, a escolha acaba sendo eminentemente pessoal.

2015
Quem venceu: Birdman
Quem deveria ter vencido: Birdman
Por quê? Ajudado por um grande ator, este é um filme que acaba se destacando da média. Quando menos, vence por falta de um filme melhor.

2016
Quem venceu: Spotlight
Quem deveria ter vencido: The Revenant
Por quê? Spotlight é um filme honesto, correto — e nada mais. Enquanto isso, Brooklyn é uma pequena joia de delicadeza, verdade e contenção, e The Revenant é um grande filme, que vai muito além das provações do protagonista. Merecia o Oscar quando menos pela belíssima cena final, com a condenação de Di Caprio.

2 thoughts on “Oscars de Melhor Filme: quem ganhou, quem deveria ter ganhado e por quê

  1. Excelente texto e escolhas. Só Não concordo com:
    – West Side Story (1962);
    – Romeo and Juliet (1969), por motivos óbvios – foi o ano de 2001!;
    – Em 1970, eu gosto de Easy Rider e Butch Cassidy;
    – não gosto de Patton;
    – em 1976, Eu gosto de Tubarão, mas prefiro o “Um Estranho no ninho” mesmo
    – Eu amo Amadeus (mesmo reconhecendo seus defeitos como filme).
    – em 1989, gosto de “Mississipi em Chamas”.
    – E Sociedade dos poetas mortos? (eu sei, eu sei o que vai dizer… mas, eu gosto)
    – E “O Resgate do soldado Ryan”? Putz, aquela cena inicial já vale o filme.
    – Não concordo com “Hugo” (2012), mas tb acho “O Artista” uma fraude. Votaria por “Meia noite em Paris”;
    – Eu votaria fácil no “Jango Livre” em 2013;
    – Em 2014, eu prefiro “O Lobo de Wall Street” ou mesmo o “Clube de Compras…” ou o “Gravidade”;

  2. O melhor filme de 2016, o único que mereceria o Oscar, e aliás o melhor filme de todos os tempos desta década, é Carrol, de Todd Haynes (e de Veemer, e de Edward Hopper, e de Cate Blanchet, e de Ivan Illich, e de Susan Sontag).

    É uma mirada sobre o grau-zero das libertações sexuais, antes mesmo de o American Dream se estabelecer (as diversas cenas em que, nas bordas, se entende que ainda se vive o fim do Governo Truman – que Eisenhower ainda é candidato ou já eleito ainda não foi empossado; a marca clara de ser uma Nova York pré-Robert Moses mas também por isso pré-Jane Jacobs, mas já também pós-Edith Wharton e pós-Henry James).

    É cinema num nível West Side Story (que diáloga também com Jacobs, com Yves Lacoste, com Milton Santos, com Henri Lefebvre, com Illich, com Lewis Mumford – tudo isso involuntariamente, claro; e por tabela, com Jacques Tati sobretudo em seu cenário brutalista, de demolições, andaimes e holofotes aparentes).

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