A ilha do tesouro

Um comentário de um sujeito que se diz chamar Zé a este post me deixou com uma pulga atrás da orelha. O comentário:

A primeira tv na minha casa chegou em 1974. Eu não tinha muito acesso a séries de TV, por então lia. Li de tudo: Júlio Verne, Mark Twain, Joseph Conrad, Robert Louis Stevenson, Alexandre Dumas, etc… O que vocês falam quanto a reação dos filhos em relação aos seriados e filmes, eu enfrento com os meus em relação aos livros. Há algum tempo encontrei a Ilha do Tesouro e entreguei para que eles lessem, lembrando de como devorei o livro. Nem ligaram. Se não tem super-poderes, magia ou algum outro “efeito especial”, a gurizada nem toma conhecimento

Tendo a concordar com o Zé. Quando era criança, li boa parte daqueles livros para crianças que se tornaram clássicos: Stevenson, Verne, Dumas, Salgari. Mas eu fui criança nos anos 70, quando a TV, com seus dois canais apenas, ainda não era tão onipresente quanto agora. Por causa dos livros e por causa da TV, meus referenciais estavam no oeste americano, na África ou no Mar das Caraíbas, mesmo na Europa medieval. Eu e a minha geração crescemos em um momento curioso, em que o século XX e XIX ainda eram extremamente presentes mas já se esgotavam como referenciais para os que viram depois. A produção cinematográfica que chegava à TV tinha 20, 40 anos de idade; a II Guerra Mundial ainda era tema de seriados e muitos filmes. Cresci vendo seriados como Zorro, lendo livros de piratas ou assistindo a Tarzan. Provavelmente, a minha foi a última geração que não se incomodava quando um filme era em preto e branco.

Essa análise saudosista, no entanto, não é totalmente correta. Porque nos anos 70 havia também uma infinidade de seriados, filmes, revistas que dialogavam com o futuro em vez do passado — Space Ghost, “Os Invasores”, “Perdidos no Espaço”, “Terra de Gigantes” — a lista é grande demais para continuar. A conquista do espaço era algo recente para nós. Ainda estávamos em plena Guerra Fria e o espaço era um dos elementos da propaganda americana, a única a que tínhamos acesso em um país sob ditadura. Esses elementos que agora parecem onipresentes já estavam lá (e gente como o ex-blogueiro Hermenauta certamente era mais afetado por eles do que eu, por exemplo).

O verdadeiro problema no argumento do Zé e de todos nós é que ele esquece um fator básico: o de que os tempos mudam.

Não é difícil imaginar uma criança londrina dos anos 1910 lendo uma história de Kipling e imaginando tudo aquilo como algo inatingível, matéria pura de sonho — em St. Albans devia ser difícil encontrar um Shere Khan, certamente. O mais próximo disso deviam ser os circos que eventualmente passavam por ali. É por isso que “A Ilha do Tesouro”, com seus piratas, com seus papagaios tarameleando “peças de oito!”, era algo tão distante de uma criança no século XIX quanto Júpiter de uma criança do século XXI.

Essencialmente, o que atraía crianças no livro de Stevenson era o mesmo que as atrai hoje em, digamos, Harry Potter ou em Watchmen: o novo, o distante, o diferente, o improvável. As crianças não mudaram nessas poucas décadas — para falar a verdade a humanidade não mudou em dois mil anos, apenas aperfeiçoou mecanismos de controle social. O que mudou foi o universo de informações a que elas estão expostas.

O século XX encolheu o mundo de uma maneira que não teve precedentes e que provavelmente nunca mais será repetida novamente — e provavelmente estaríamos vivendo agora o momento final do processo de convergência global que teve início há uns dois mil anos. No final do século XIX Edgar Rice Burroughs podia contar uma fábula meio kiplingiana sobre um menino criado por macacos, e isso era novo, diferente. Era algo totalmente estranho ao ambiente em que seus leitores viviam — boa parte dos quais jamais viu um gorila em toda a sua vida. Eles podiam imaginar uma África misteriosa repleta de aventuras, um lugar onírico perfeito com perigos e prazeres inimagináveis e obviamente sem mosquitos; hoje, o mais provável é que ao pensar nela imaginem um lugar onde genocídios acontecem a três por quatro e de onde de vez em quando sai um vírus mortal.

Mas para crianças e adolescentes, a essência das coisas não mudou. Os arquétipos são os mesmos: ideais de heroísmo e coragem, de romance e amizade em cenários inalcançáveis para o comum dos mortais. A diferença é que esses ideais hoje são realizados em outros cenários, utilizando outras ferramentas. É um processo acelerado, talvez definido, pelo fato de que o cinema e seu derivado, a TV, se transformaram no principal meio de criação de dramaturgia. Mais que isso, conseguem transformar em imagens cada vez mais reais aquilo que só conseguíamos imaginar, e geralmente de forma imperfeita. Depois de um século em que parece que não restaram muitos desafios para vencer, nos quais ser o primeiro é cada vez mais difícil, a realidade parece ter menos apelo. Até porque a imaginação pode parecer ser mais real do que a realidade, e o cinema e o CGI são um indício disso. Se antigamente podíamos assistir a um filme de Tarzan e não ligar para as imperfeições técnicas ou para as incongruências geográficas — Em “Tarzan e a Fonte Mágica“, por exemplo, Chita bebe água de uma fonte da juventude e de chimpanzé se torna um macaquinho sul-americano, com rabo e tudo –, a exposição constante a 100 anos de produção audio-visual nos tornou mais exigentes do ponto de vista formal.

Ao longo do século passado o cinema explorou ao máximo a herança dos milhares de anos anteriores. Não é à toa que existe um filme impagável chamado “Robin Hood e os Piratas“, em que se misturam duas tradições veneráveis desses tempos idos. Um século de excesso de exposição à informação fez a sua parte no esgotamento desse manancial de possibilidades dramáticas.

A África Negra e os Mares do Sul se tornaram acessíveis através do cinema; mesmo quando recriados em estúdio — e eu recomendaria a qualquer um assistir aos filmes de Tarzan com Johnny Weissmüller e Lex Barker — eram algo totalmente diferente do que se tinha à sua volta. E embora qualquer psicanalista possa adiantar que uma coisa é a expectativa que você tem diante de uma nova experiência e outra, totalmente diferente, é a realidade dessa experiência, para as pessoas isso importa pouco ou nada. Por isso, por essa banalização de experiências não vividas, a maior parte das pessoas hoje não vêm nenhum apelo em contos que há 100 anos faziam a imaginação de crianças e adolescentes. Ficamos mais exigentes, não nos contentamos mais com o chitão de temas seculares. Nossa imaginação precisa de mais para ser estimulada; precisa cada vez mais da pirotecnia que apenas o CGI pode oferecer, precisa do impossível.

Ou melhor: o que era impossível antigamente deixou de parecer impossível. O mais engraçado em tudo isso é que embora esses referenciais tenham se esgotado no imaginário das pessoas, isso não quer dizer que ficaram mais acessíveis. As pessoas continuam distantes dos Mares do Sul de Stevenson, e a jângal kiplingiana é tão inacessível para um garoto de Cabrobó — e para praticamente todo mundo — como um planeta distante em Andrômeda. O que mudou foi o espaço que eles ocupam nas mentes das pessoas. É como se passássemos direto da quinta para a sétima série, sem ter aprendido o que precisávamos da sexta. Ou seja: eu posso não ter vivido uma aventura com Balu e Baguera, mas sinto que tudo isso me é familiar, até comum. Resta o que agora parece verdadeiramente impossível: a magia, as viagens no tempo, a troca de dimensões, as explosões monumentais e a destruição cotidiana do mundo.

Mas que isso não pareça uma apologia desses tempos modernos. Porque não é. Eu consigo pensar em um roteiro de filme melhor, por exemplo, que “Piratas do Caribe”.

Início do século XVIII. O filme teria como personagem Anne Cormac, irlandesa que emigra para a Carolina do Sul. Conhece um pirata americano, James Bonny, e foge com ele. Bonny vira dedo-duro de piratas para o governador de Nassau, e uma Anne desiludida passa seus dias bebendo e divertindo nas tavernas com outros piratas. Conhece outro pirata, John Rackham, e então temos nossas cenas ardentes de amor. O marido, revoltado com os chifres, denuncia-os e o governador os prende. Anne Bonny e John Rackham fogem, roubam uma corveta, juntam uma tripulação e fogem. Em pouco tempo Rackham e Anne Bonny se tornam conhecidos no mundo inteiro como piratas perigosos.

Enquanto isso, outra personagem é introduzida, a principal: Mary Read. Em alguns minutos ficamos sabendo que ela é uma inglesa criada como menino pela mãe. No momento em que ela nos é apresentada mudou o nome para Mark Read e está lutando ao lado dos ingleses na guerra contra a França. Se apaixona por um soldado e se torna Mary novamente. Ele morre pouco depois e ela volta a ser Mark. A caminho do Caribe, seu barco é atacado pelos piratas liderados por John Rackham e Anne Bonny. Mas Read se empolga e se torna pirata também. Anne Bonny se apaixona por Mark Read, sem saber que ele é ela. Dentro de um triângulo indesejável, ela acaba tendo que revelar seu segredo aos dois piratas. Para complicar as coisas e adicionar mais tempero ao nosso filme, ela se apaixona por outro marujo. Esse marujo, ainda jovem, é desafiado a um duelo por outro pirata depois de uma briga. Sabendo que o marujo ia para a morte certa, Mary Read desafia o pirata para outro duelo antes. Na hora fatídica, Mary mostra os peitos para o pirata, que se assusta e vacila: acaba morto — e o outro marujo não precisa mais duelar com ele. Com o segredo revelado diante de todos, Mary Read e Anne Bonny se tornam as mulheres mais famosas da história da pirataria.

Daria um bom filme? Provavelmente. O mais interessante é que tudo isso é verdade. Rackham, Bonny e Read são piratas famosos — não tanto quanto Henry Morgan ou Barba Negra, ou ainda o Duguay-Trouin que invadiu o Rio de Janeiro, mas ainda assim famosos. Foi dessa realidade que a dramaturgia infanto-juvenil bebia — uma realidade muitas vezes mais rica que ficção. E a riqueza de histórias que se encontram nesses livros ultrapassados — eu posso citar pelo menos alguns que tiraram elementos dessa história, como “Capitão Tormenta” e “Os Três Mosqueteiros” — ainda não conseguiu ser superada pelos novos queridinhos da criançada.

Se bem que no fundo isso seja apenas uma confissão de velhice. E ninguém precisa disso, porque já estamos velhos o bastante, e o tempo passou e, o que é pior, a gente viu.

<a href=”http://ohermenauta.wordpress.com/” title=”Ele se foi, tadinho…” target=”_blank”>Hermenauta</a>

15 thoughts on “A ilha do tesouro

  1. Rafael:

    Eu sempre quis evitar dizer o que o meu pai e outros da idade dele diziam quando eu era criança: “no meu tempo é que era bom, a criançada de hoje não sabe se divertir”. É bem o que você cita no meio do seu post. As crianças do passado se divertiam com o que se tinham a disposição e por não haver o que temos hoje, as brincadeiras simples, os livros, até como Gafanhotos em Taquarapoca e mesmo os seriados (Tarzan, Zorro, Perdidos no Espaço , Star Trek – a série), tudo muito tosco na produção, mas muito vibrante para nossa geração que pouco conhecia de avanços tecnológicos.

    As crianças de 2050 vão achar Avatar de uma tosquisse monstruosa, como nos que temos entre 40 e 50 anos, que já começamos achar as naves penduradas por fios em Guerra na Estrelas difícil de suportar, mas no nosso tempo, esse filme do George Lucas, foi o grande filme de efeitos especiais.

    Imagine as crianças de hoje com seus computadores, games Avateres, Homens Aranha digitais, que são perfeitos voando e andando pelas paredes; como poderiam essas crianças achar graça em brincadeiras de rua, velhos filmes e seriados anacrônicos, ou livros de aventura como a Ilha do Tesouro.

    Os tempos contemporâneos serão sempre os melhores na visão das crianças.

  2. Rafael,

    Descobri uma coleção que, se não tem a sofisticação de A Ilha do Tesouro, cumpre sua tarefa, que é fazer pré-adolescentes se interessarem por livros: Ranger, A Ordem dos Arqueiros. O mesmo moleque que torceu o nariz para R. L. Stevensson já está no 4º volume da série. O importante é que comecem a gostar de ler. O tempo cria o hábito e melhora as escolhas.

  3. Rafael, tenho prateleiras cheias de livros que comprei na década de 80 pensando em meus filhos, na época ainda não nascidos. Pois bem, os tres filhos que tivemos, ao chegarem à idade de lê-los, tiveram a oportunidade de optar entre os livros, a televisão (como nós nunca a conhecemos tão tentadora) e – covardia das covardias – a internet. Resumindo: eles já são adultos e pencas de livros ainda estão com suas embalagens plásticas!
    Em algum ponto da nossa missão como pais nós perdemos a mão. Só pode!

    PS.: A coleção de “Almanaque Disney”? Só eu li…

  4. Eu discordo apenas de um detalhe, que consiste na erotização a qual as crianças estão submetidas. Não falo erotização no sentido apenas sexual, mas no particular do desejo.

    Ocorre que no processo de formação do individuo, a exposição ao marketing cria na psique da criança um sentimento de desejo que nas gerações anteriores só começaria a se desenrolar durante a adolescência, e que culmina com o desenvolvimento sexual precoce, e com a extensão da infância por períodos mais longos durante a adolescência, ou até a fase adulta.

    Estudos que apontam os fatos descritos nos parágrafos acima fizeram com que o governo francês impedisse a participação de crianças em obras de marketing, publicidade e propaganda, bem como atividade publicitária de produtos infantis.

    Eu possuo dois irmãos, crianças, e com esforço consegui dar um pouco dos prazeres de minha infância, empinando pipa ou brincando de cabra cega. Hoje eles tem brincadeiras lúdicas, antes, eles não sabiam que elas existiam.

    É muito mais fácil/prático para um pai comprar um vídeo-game, do que despender o seu tempo brincando, ou ensinando o que é brincar…

    Saudações Fraternas

  5. É que nós temos uma certa cultura de ter tv. Alguém ai já experimentou não ter tv em casa? Ou apenas uma lá no canto, que só pode ser ligada 2 horas por dia.

    3 anos sem tv e te digo, nunca li tanto na minha vida.

  6. Você termina de forma meio melancólica, mas pelo menos não podem nos chamar de Carolinas eheheh.
    Mas um coisa que vc , talvez, se esqueça é que a maioria dos filmes são baseados em obras literárias.
    Então eu encaro seu texto não só como uma crítica ao cinema, mas também à literatura.
    Abraços

  7. Sou de um geração anterior. Na TV peguei paladino do oeste, os intocáveis, rintintim, o menino do circo… nos livros os mesmos e eternos dumas, kipling, stevenson , julio verne e quejandos, a maioria deles da nunca assasz incensada coleção terramarear. Belas aquarelas na capa e contracap-a listrada de azul e branco.Dessa coleção sobrou-me apenas um, CAninos Brancos do jack london.
    Livros e seriados formam para mim um arquipélago de deliciosas lembranças, verdadeira arca do tesouro que abro de vez em quando e vem aquele cheiro de mato e cavalo das férias na fazenda e a maresia de antigas copacabanas.
    Aliás o Biajoni tem um texto no amálgama onde ele fala dessas leituras de formação e inclui outro elemento fundamental – as HQs.
    VAle outro post hem, Rafael?

    PS – Essa história da Diadorim do caribe, foi assim mesmo? tem algum livro sobre isso?

  8. Colafina,
    Eu tenho uns livros preferidos da infância, a coleção “Clássicos da Literatura Juvenil”. É facilmente achada nos sebos e foi reeditada várias vezes até o comecinho dos anos 80. Eu comprei vários para minha filha. Ela praticamente os ignora até hoje. Enquanto isso devorou as séries Harry Potter e Crepúsculo. Vai entender um negócio desses. 🙂

    Tiago,
    O texto não falou da erotização de crianças. E se eu ainda tivesse idade nos anos 80, ia ser tarado pela Xuxa.

    Carol,
    Você tem razão. TV distrai. TV a cabo distrai mais ainda.

    Hélio,
    Você tem toda a razão. Eu não sei como não me toquei sobre as HQs. Porque a chegada do Superman é um elemento fundamental nesse processo: a partir dali a aventura deixaria de ser personificada por pessoas reais e seria substituída por, err, “super-homens”. Acho que a chegada e a consolidação dos quadrinhos de super-heróis foi fundamental para essa mudança de percepção da criançada. A história de Bonny, Rackham e Read é real, sim. Deve estar disponível na internet, e na Amazon dá para achar alguns livros sobre a história da pirataria. Atualmente, nas bancas, tem um livrinho ilustrado à venda, “Piratas”, que conta essa história. Foi de lá que eu tirei, mas é um livro meio confuso e certamente superficial.

  9. Eu fui tarado na Xuxa…

    Mas a questão, que discordei e quiz pontuar, é que cada vez mais as crianças são mais erotizadas. Nos anos 60, menos que nos 70 e assim sucessivamente.

    As crianças tem menos interesses pela imaginação, mais pelo consumo, e o novo está altamente relacionado a isso.

    O que defendo, é que se bem direcionado, o interesse pode existir.

    Mas o seu texto é excelente (como sempre)

  10. Os tempos são outros, sem duvida.
    Interessante ver como o que você acabou de escrever vem bem a calhar com o que estavámos ontem a discutir poraqui.
    Ao passar pelos inúmeros camelôs da Rua São Bento, dia desses, um deles vendia algo como aquelas pomadas “milagrosas”, o que me avivou a memória dos caras que vez por outra passavam por Itapetininga, vendendo algo semelhante, além de pós e outro truques.
    O mote da atenção ficava por conta de uma “mala”, onde o cabra dizia haver uma cobra. O povo ficava na espectativa então da cobra.
    Minha reminiscência acabou por constatar os “tenpos outros”, onde ninguém mais cairia na lorota da cobra.
    O assunto veio com alguma “lorota” que a patroa quis pregar ao pequeno, de onde lembrei da pomada e da cobra na mala, para finalizar que nem as crianças mais caem em qualquer conversa, nem os bem miúdos, como o meu.
    Ou seja, foi-se o tempo, o que é em parte o que você diz aí em cima.
    Ou não?
    Grande abrassss.

  11. Felizmente, eu consegui ter uma infância bem incomum: tenho 19 anos e, até os 12, já tinha devorado a coleção dos clássicos infanto-juvenis. Li o “Capitão Tormenta”, “A Odisséia” (era o meu preferido, até hoje eu pego pra ler de vez em quando), “Os Três Mosqueteiros”, “Ben-Hur”… títulos que serviram como uma maravilhosa introdução ao hábito da leitura.

  12. Rafael Galvão, antes de mais nada gostaria de parabenizá-lo pela beleza do texto, verdadeiro retrato de uma geração.
    É muito acertada a sua afirmação das diferenças na maneira de ver o mundo entre as gerações. Obviamente, o mundo é diferente, não só externamente às pessoas, como internamente também.
    Há, entretanto, uma série de pontos (alguns já demonstrados aqui nos comentários) esquecidos ou ignorados em sua análise. Como disse o Tiago Aguiar, existe o universo de propaganda que não existia antes. Toda a sedução a que as crianças estão submetidas.
    E existe um ponto que considero de fundamental importância que é a relação dos pais com as crianças, sua maneira de tratá-las. O século XX foi (como acertadamente definiu Hobsbawn) a Era dos Extremos. E esses posicionamentos extremos levaram praticamente sempre a uma sociedade totalitária e repressora, seja diretamente (como no caso das ditaduras, regimes fascistas e etc) ou indiretamente (como no caso dos Estados Unidos, que disfaraçaram tudo com uma roupagem democrática utilizando-se da propaganda para promover valores morais extremistas). Isso assustou muito as pessoas e o fim do século trouxe, em quase todos os aspectos, a certeza de que o correto era o liberalismo. Liberalismo político e econômico, liberalismo na arte (tudo é válido, tudo é arte), liberalismo nas convenções sociais e liberalismo na educação das crianças.
    Nada de mal até aí, pode-se considerar um avanço (principalmente no caso da educação). O probema é que, seja pelo fato de o trauma social causado pelos anos anteriores ter sido muito forte, seja por uma simples propaganda ideológica, as pessoas acabaram caindo no exagero do liberalismo, em todos os aspectos. E aí chegamos no ponto que eu queria. Os pais aprenderam que devem ser liberais com as crianças, não reprimi-lás, respeitar seu desenvolvimento natural, suas fases da vida. Mas levaram isso a um extremo, os pais hoje, na grande maioria dos casos, apenas fazem seus filhos e jogam eles no mundo. Suprem suas necessidades físicas básicas, mas não o resto. O resto o filho terá que buscar na sociedade, e o que a sociedade oferece é um prato ideológico pronto.
    Muita gente gosta de falar da sede que as crianças tem pelo conhecimento, que não entendem como isso se perde, etc. Acontece que a criança não tem nenhuma sede consciente por conhecimento, ela não aprecia o conhecimento, ela precisa de conhecimento. A criança não tem as suas referências e o seu mundo interior construídos, logo ela precisa buscar fora de si os elementos para construir esse mundo, com todas as suas convenções, clichês, valores e idéias. E, pelo fato de não ter referência alguma (e estar em busca dessas referências), obviamente que a criança se interessa por qualquer coisa. Uma criança é capaz de se divertir com a coisa mais banal do mundo. E é nesse momento do crescimento que o papel dos pais se torna primordial. Não controlar, repreender ou maltratar. É sentar todo dia com um livro e ler para a criança, é simplesmente (após a alfabetização) pegar um livro, chegar ao lado da criança e dizer “hahaha! que livro ótimo!” (pronto, a criança já se interessa). É colocar bons discos e boas músicas para tocar pela casa, fazer a criança crescer ouvindo aquilo (acredite, ela nunca perderá isso, estará sempre com ela). É ter tv a cabo só no quarto dos pais, ou não ter. É não deixar ficar o dia inteiro jogando video games ou usando o pc. Se você ofere à criança a possibilidade de expandir seus horizontes ela expandirá. E expandir os horizontes é exatamente o primordial para que a criança seja capaz de apreciar coisas diferentes. (como disse o poeta: “quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”- ninguém nem algo)
    Vamos ao caso das estórias. Sempre que alguém vivencia uma história (seja ela na forma que for) é oferecido a esse alguém um mundo, um universo com suas leis convenções etc. Para que a experiência aconteça de maneira satisfatória, o espectador/leitor/etc deverá ser capaz de entrar nesse universo. Ele precisa sair de si mesmo e vivenciar um mundo que não é o seu. E isso é uma das maiores, senão a maior, conquistas do ser humano. E também uma das mais difíceis. O problema hoje é que as novas gerações não são capazes de vivenciar esses outros mundos. E normalmente isso acontece porque nunca o vivenciaram antes (o instinto de repúdio ao diferente é um dos mais fortes), ou por existir uma série de preconceitos relacionados a esse mundo, ou por uma preocupação excessiva de se moldar aos padrões sociais e evitar a rejeição.
    E exite ainda outro ponto que colabora para gerar toda essa situação. Que é a cultura contemporânea da idolatria do novo e, consequentemente, do jovem. Há um repúdio por tudo aquilo que for velho. Existe um total descaso para o estudo da história, um total deprezo pelo “clássico” e também pelas pessoas mais velhas. Isso é algo muito interessante no mundo hoje, perdeu-se muito o convívio entre pessoas velhas e jovens. O professor, os pais estão lá, mas o jovem não interage com eles em posição de igual. O jovem não quer saber o que o seu professor ou seu pai pensa, que tipo de música ele gosa, se ele escreve, pinta ou compõe. Sou aluno de artes plásticas e vejo muito isso na faculdade. A grande maioria dos alunos não estão nem aí para o trabalho dos professores, para seu universo criativo, suas referências, suas preferências. E isso tudo só colabora para aumentar a incapacidade de sair de si mesmo. Viva o novo, esqueça o velho! E aí a própria novidade se banaliza. Desde o primeiro modelo de computador pessoal, nós sempre os usamos para as mesmas coisas, há apenas diferenças em aspectos do uso, mas essencialmente é tudo o mesmo. E, ainda assim, todo ano temos milhões de novíssimos modelos como você unca viu antes!
    Mas isso já é outra discussão.

  13. Estou fazendo um diário sobre o livro e vim buscar informaçoes….espero que o livro seja bom ..pois nao li ainda

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