Daniel Boone
Jan 25th, 2008 por Rafael Galvão
Durante uns 15 anos, ou mais, não ouvi ninguém falar daquele que tinha sido o meu seriado preferido na infância. Foi preciso que as pessoas começassem a fazer homepages com seus gostos pessoais para que eu, finalmente, soubesse que não estava sozinho no mundo. E por isso um dos posts que recebem comentários constantemente ao longo dos anos neste blog é um sobre o seriado Daniel Boone.
Daniel Boone é uma paixão antiga. Foi o seriado de que mais gostei na infância. Eu queria ter um chapéu de guaxinim — melhor dizendo, de racoon — e ser um pioneiro americano em eterno conflito com os índios. Em 1979 eu voltava da escola correndo para assistir ao seriado, que àquela época era exibido aí pelo meio-dia, meio-dia e meia.
Eu só não sabia que, para tantas outras crianças, Daniel Boone tinha sido tão importante. E há uma sensação de pertinência quando vejo comentários que, assim como eu, reconhecem em Daniel Boone uma parte significativa de sua vida.
Mas há uma coisa que me incomoda, e não é o saudosismo generalizado nem aquela crença de que na minha época as coisas eram melhores, porque nem sempre eram. É a idéia de que Daniel Boone deveria ser reprisado. Porque eu estou convencido de que reprisar Daniel Boone seria um fracasso fenomenal. Os tempos são outros. E o passado, para a tristeza da humanidade, não volta.
Assistir a um seriado antigo, daqueles que lhe empolgaram na infância, é sempre arriscado. Não se trata apenas do risco de ver que aquilo que você achava o máximo não era tão bom assim. É perceber que não é mais possível estabelecer aquela simbiose emocional com o filme. Não se pode voltar para casa, dizia Tom Wolfe, e há poucas sensações tão decepcionantes quanto rever algo ou alguém que foi muito querido, de que você sempre lembra, mas que hoje não lhe diz mais nada.
Bons seriados dos anos 60 e 70 caem nesse limbo. “Viagem ao Fundo do Mar”, por exemplo: parecia ser muito naquela época, mas envelheceu mal, e se revela pouco mais que propaganda tardia da guerra fria. “Túnel do Tempo”, fantástico naqueles tempos, se mostra um seriado fraco, insuficiente, sem os elementos dramáticos necessários para contrabalançar os absurdos históricos.
Há também os que caem no ridículo. “Besouro Verde”, cujo único mérito é o de ter revelado Bruce Lee para o mundo, é quase demente: um super-herói que anda por aí com motorista. Outros, no entanto, crescem. “Kojak”, “Baretta”, “Columbo” eram bons seriados naqueles tempos e continuam sendo agora, mas principalmente por causa da linguagem utilizada. “Terra de Gigantes”, por sua vez, é um caso único. Eu não gostava quando era criança; hoje me empolgo com o tratamento dado à câmera e às vezes até com a temática.
“Daniel Boone”, infelizmente, não está em nenhum desses casos.
Eu fui criado assistindo a faroestes na Sessão da Tarde e a seriados como “Zorro” — Lone Ranger no original. A geração anterior à minha assistia a “Bonanza”, “O Homem de Virgínia”, “Bat Masterson”. Fomos todos criados perto da noção de transposição da mitologia medieval européia para o oeste dos Estados Unidos, com o pistoleiro solitário fazendo as vezes do cavaleiro errante. Minha geração ainda brincou com revólveres de espoleta. Porque víamos na TV o cinema dos anos 40 e 50, nós ainda estávamos próximos do século XIX. Isso já acabou, acabou nos anos 80, quando passamos a ver na TV os nossos próprios tempos.
Para mim, índio vai ser sempre bandido. Mexicano também, com os bigodões como agravante. O faroeste é uma invenção WASP e é assim que deve ser. A única modificação admissível a esse modelo é o western spaghetti — mas ali se perverte tudo, não apenas se inverte a ordem de mocinhos e bandidos. Não é a bobajada politicamente correta de colocar índios no lugar de colonos e negros no lugar de brancos, como em um filme idiota com Sidney Poitier chamado Caçada Brutal. Nada é tão falso, talvez tão falso como aqueles filmes americanos passados no Brasil em que todos aqui falamos espanhol. A graça do western está na manutenção de estereótipos que necessariamente fazem parte da mitologia que os americanos criaram para si.
Mas a conquista do oeste americano não faz mais parte do imaginário popular. É história apenas, tão antiga quanto a queima de bruxas em Salem ou a Noite de São Bartolomeu. Daniel Boone faz parte dessa história, que não tem mais apelo em época de Lost. E por isso não deveria ser reprisado, porque um seriado tão bom não merece ser sujeito à humilhação pública.
No Natal de 2006 ganhei o primeiro volume da reedição em DVD do seriado. São 15 episódios da segunda temporada, a primeira em cores, em quatro DVDs lançados pela Focus.
Do ponto de vista crítico, essa edição é um fracasso e um desrespeito. A Focus editou a temporada de maneira porca, sem respeitar a cronologia (provavelmente porque isso a forçaria a começar com uma primeira temporada em preto e branco). Mais grave ainda, lançou apenas o áudio dublado em português. Cometeu até o pecadilho de transformar os créditos de encerramento em uma seqüência de slides, provavelmente para economizar espaço em disco e poder incluir trailers de outros lançamentos seus. A edição feita pela Focus chega a ser vergonhosa.
Mas do ponto de vista de um saudosista, isso não importa. Porque era assim que a Globo exibia o seriado, completamente fora de ordem e com a dublagem em português. Por exemplo, orignalmente a família Boone consistia em Daniel, Rebecca e Jemima. Depois introduziram outro filho, Israel. E mais tarde Jemima desapareceria do seriado sem dar aviso. Mas eu, depois de anos acostumado a ver apenas Israel como filho de Boone, me vi diante de uma filha mais velha, que apareceu sem explicação.
Mais importante ainda, o seriado traz a dublagem original, e isso é fundamental para a recriação da experiência de infância. “A Fox Filmes do Brasil apresenta…” é uma daquelas frases cuja entonação é inesquecível. Rever Daniel Boone sem a dublagem original seria uma experiência incompleta.
(Talvez a Focus use esse argumento de fã para se justificar. Mas não pretendo comprar os volumes seguintes, porque um volume basta para satisfazer essa nostalgia. Se eu quisesse rever todos os episódios de Daniel, preferia comprar a versão americana, à venda na Amazon.)
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Genial seu post. Eu assistia Daniel Boone e era meio apaixonada por ele. Mas eu fui apaixonada pelo Ultraseven, então não conta.
Eu morro de saudade desses seriados super antigos e tenho até medo de assistir de novo e me decepcionar.
Já aconteceu com Mulher Maravilha que eu gostava tanto e agora passa no TCN. Como eu podia gostar daquilo?????
Ah, esqueci de comentar. Você chegou a assistir o seriado com o Israel já adulto? Acho que foi um spin off fracassado porque não vejo ninguém comentar.
Ou isso ou minha mente naquela época já estava criando as primeiras fanfics :D
Galvão:
Você tem toda razão. Velhos seriados da nossa infância jamais poderiam ser vistos quando somos adultos. O que você falou do Besouro Verde, por exemplo, é uma coisa que eu passei. O seriado é muito tosco. Nem o Bruce Lee, que eu sempre adorei, ajuda a engolir a coisa. Mas, mesmo Jornada nas Estrelas, a série original, minha preferida, não escapa do ranço. Realmente a idade tira nossa ligação emocional com aquele passado e consequentemente, com a magia que nos deslumbrava. Paciência!
Eu assistia Daniel Boone, mas acho que não gostava muito não, já que nem me lembro direito dele.
Entre os seriados antigos que eu suponho que continuam interessantes para o público em geral, estão Perdidos no Espaço, Jeannie é um Gênio e A Feiticeira.
Assisti Daniel Boone já sem muito tempo, eu era da geração de “Bonanza”, “O Homem de Virgínia” e “Bat Masterson”. Mas me recordo bem de um outro seriado - que não lembro o nome - que me chamava a atenção pelo fato de ter o Richard Boone (filho do Daniel Boone) como ator. Era feio, com um narigão e mau ator. O que me fazia pensar que o tal Daniel deveria ser bem diferente do galã que o interpretava.
O engraçado é que se Daniel Boone fosse passado hoje, seria considerado politicamente incorreto em alguns aspectos, ao começar pelo indefectível chapéu de guaxinim que certamente despertaria a ira de um bocado de ongs ambientalistas dirigidas por pessoas mal humoradas e mal comidas. Mas como vc mesmo escreveu os tempos são outros. Em relação ao sentimento que pode ser despertado com uma reprise, para mim, ninguém descreveu melhor este sentimento do que Aníbal Machado em seu conto ‘Viagem ao seio de Duília’ que conta como um homem atravessa toda sua vida no Rio de Janeiro e depois de longos anos, buscando algum sentido para esta merda toda, volta para a sua cidade natal no interior de Minas para encontrar com o seu grande e inesquecível amor: Duília. No caminho sob o lombo de um burro vai recordando os detalhes da infância e início da adolescência e dos sentimentos que lhe enchiam o peito. Quando finalmente a encontrou, levou um choque. Tinha se esquecido de colocar na variável da sua viagem mental o item tempo. Nem ele, nem sua cidade e muito menos Duília eram mais nada daquilo. Bom, pelo menos hoje com o orkut haveria a possibilidade dele ter se prevenido e nem ter investido seu tempo nesta aventura. Ainda bem que não tinha, senão, talvez, Aníbal Machado nem teria achado interessante o tema e a humanidade estaria um pouco mais pobre em sua literatura. Também assisti muito Daniel Boone, o mocinho amigo dos índios, dos fracos e oprimidos e inimigo dos opressores. Mas o seriado que eu gostaria mesmo de ver reprisado ou que fosse colocado a venda é ‘O Bem Amado’. Puta que pariu, como eu gostava. Personagens como Odorico Paraguassú e seu cinismo e populismo brejeiro, mas nada ingênuo. Tão atual. Zeca Diabo, Dirceu Borboleta, as irmãs Cajazeiras, com seus falsos moralismos de dadeiras enrustidas. Muito bom. Estaria aí os meus verdadeiros seios de Duília.
Um abraço a todos.
Neto
OLá Rafael, tudo bem?
Eu assisti a muito episódios de Daniel Boone. Achava meio sinistro aquele cara todo vestido com couro e usando um boné com rabo de rato rajado e peludo ( na verdade raccoon é um canídeo), e morando numa casa de madeira no meio do nada. Coisas de criança paulistana.
Porém gostava do índio Mingo. Achava o cara boa praça.
Por íncrivel que pareça eu tive um boné igual ao dele. Presente de um amiguinho americano , este sim fã absoluto, que com o presente pensava estar me convencendo a também ser um fã. Coisas de americanos solitários eh eh he.
Gostava muito de Terra de gigantes, Além da imaginação, Nacional Kid, James West, Agente da UNCLE. Mas meus dois seriado preferido eram: Agente 86, e acima de tudo, Jornada nas estrelas, que quando no início de cada capítulo, ‘a voz’ dizia;
O espaço, a fronteira final… Era foda.
Mas também acho que a película de vidro que recobre as felicidades da infância (Serão somente essas?) não resiste a qualquer revisatação.
É aquela história do ‘O rei e a omelete’ que nos conta Walter Benjamin.
Abraços
“E o passado, para a tristeza da humanidade, não volta.”
“…e há poucas sensações tão decepcionantes quanto rever algo ou alguém que foi muito querido, de que você sempre lembra, mas que hoje não lhe diz mais nada.”
Obrigado, cara… por eu ouvir isso agora.
O que vc sente quando escuta “A Fox Filmes do Brasil apresenta”…
é o que sinto quando escuto ” a long, long time ago…”
Bjos
Pena :(
Não é do meu tempo.
Bem, eu nasci no final da década de 80, então já assisti a alguns seriados na reprise.
Eu lembro muito bem de assistir à Jeannie é um Gênio escondida, porque passava muito tarde na TV.
Mas já tinha a qualidade da imagem comprometida, e não fazia lá grandes sucesoa com a minha geração.
Mas para mim foi marcante. Eu queria ser a Jeannie, a Mulher maravilha… rs
Um beijão
Vale lembrar que o cinema está nos devendo essa. Seria bom ter um longa metragem, com todos os recursos da modernidade tecnológica, de Daniel Bonne.
Morro de saudades dos episodios de Daniel Boone. Procuro o episódio que, me parece, deu origem ao seriado. VIAGEM A…. PARTE 1 E 2…DANIEL conduz uma CARAVANA ao Oeste, quando conhece a Rebeca e o indio MINGO.
AJUDE-ME A ENCONTRAR…
ABRAÇOS
NILTON SANTOS
Fui fã incondicional de Daniel Boone, também corria desesperado depois da aula para ver. Que nostalgia gostosa, doce lembrança da infância.
Ganhei três episódios de presente de um irmão, entre eles, o que provavelmetne deu origem à série, em que Daniel comanda a Caravana e conhece Rebecca.
Só com a abertura do filme, a música e ele atira a machadinha, me emocionei.
Mostrei, com todo entusiasmo para meus filhos que questionaram como que eu poderia ter gostado daquilo, falaram que é um filme “paia”. Não quiz criar polêmica, disfarcei, mas me magoou. Porém entendi. Realmente são outros tempos. Fui levado pela nostagia, pela doce lembrança da infância em que vivia em fámília ainda com meus pais vivos. Acho que é isso também. E, quando quero viajar no tempo, com doces lembraças, vejo sozinho no meu quarto. Obrigado e um abraço.
Eu não gostava de Daniel Boone. Aliás, só fui gostar de faroeste bem mais velho. Quando jovem eu era um nerd aferrado à ficção científica.
Inexplicavelmente, porém, tenho um chapéu de guaxinim. :)
O Sales Neto pegou um bom ponto. Outro dia estava vendo no Canal Brasil um velho filme de Zé Trindade, chamado “Marido de Mulher Boa”. Lá pelas tantas rola uma muzquinha (sim, é um musical, e olhe que é de 1960) que fala sobre as preferências mulherísticas de Zé Trindade. Segundo a música, não escapam as louras, as morenas, e NEM MESMO as negrinhas. Ia dar um sururu dos bons.
Mas não é preciso ir tão longe; comprei o DVD do TV Pirata e acho que algumas das piadas daquela época iam ser muito mal interpretadas hoje em dia.
Eu tenho 51 anos e adorava Daniel Boone, como a maioria das pessaos de 50 anos. Infelizmente ficou para trás. Daquela época a melhor coisa é o AGENTE 86. Continua atualíssimo e muito engraçado. Ainda bem que está saindo em DVD. Outra série que ainda é atual é JORNADA NAS ESTRELAS - A SERIE ORIGINAL, mesmo com os recursos toscos de produção. Os enredos são fantásticos. E avida era muito mais simples e inocente. Bons tempos que MACONHA e COMUNISTA eram as piores coisas do mundo!!!!!
Caro Rafel, sou um apaixonado por séries antigas e coleciono todas as que estão no mercado. Se possível e se for do seu conhecimento, gostaria de conhecer a lista com todos os episódios da série Daniel Boone, obviamente na ordem cronológica. Um abraço !
Para os fãs de Daniel Boone, o site http://www.rbtv.com.br, passa nos seguintes dias e horários: 3a feira às 19 horas; sábado às 18:10 horas; domingo às 17:15 horas. Neste site, que é um canal de UHF, passam outras tantas séries antigas também. Ele está sediado em são Paulo. Você pode ver pela televisão também!
Hey there, Eu sou Paulista morando fora do pais a 20 anos ! Primeiro in England, ultimamente no USA, Nashville.
Tambem gostava muito dos mesmo seriados. Gostava tanto do Daniel Boone, que uma realizacao de um sonho antigo foi uma viajem de moto que fiz de Nashville a Kentucky para visitar o tumulo do Daniel Boone. E ele foi uma pessoa real, visitei um park dedicado a ele em KY and depois fui para a capital de KY para visitar-lo. Posso mandar photos e mais detalhes da viajem se alguem estiver interesado.
Mas mudando de um heroi para o outro. Aguem sabe onde posso comprar, etc o seriado do Ultraseven, dublado em Portugues!?
Se alguem puder me ajudar com isso, pode pedir qualque coisa que eu possa de mandar em troca daqui do US>
Thanks a lot!!
David Moulin
Nashville, TN Moulin6801@yahoo.com