28 anos depois

Até ontem, fazia quase quatro anos que eu não via um jogo da seleção brasileira de futebol. O último tinha sido Brasil e França durante a Copa de 2006. Não senti falta.

Mas ontem a ESPN exibiu o jogo Brasil x Itália, de 5 de julho de 1982, no estádio Sarriá, em Barcelona.

Fazia 28 anos que eu não assistia àquele jogo.

E de repente me vi gritando como se o jogo fosse o de uma final atual de Copa do Mundo.

Me vi xingando Serginho cada vez que ele pegava na bola e fazia alguma besteira.

Me indignei de novo ao ver a camisa rasgada de Zico no pênalti que o juiz israelense não deu.

Me irritei com Cerezzo nas duas bobagens que ele fez e que acabaram resultando em gols.

Tive a mesma sensação de desagravo que tive há 28 anos, ao ver Zico caminhando com a bola em direção a Gentile, mostrando quem afinal tinha o respeito da bola.

E me emocionei novamente ao ver as veias saltadas de Falcão na comemoração do segundo gol do Brasil. Aquela foi uma das belas imagens da copa, a mais bela para mim, e a Placar da semana seguinte estampou essa foto.

É preciso um certo grau de loucura para fazer isso, torcer novamente por um jogo tão antigo e do qual você sabe o resultado. A loucura é ainda maior porque eu sequer tenho esse amor todo ao futebol, posso passar anos sem ver um jogo, isso não me faz falta, não mais. Além disso, são 28 anos, tempo suficiente para fazer com que tudo isso tivesse se tornado uma lembrança amorfa e insípida.

Mas aquele maldito Brasil x Itália de 5 de julho de 1982 não é apenas um jogo de futebol, nunca será. E agora, depois de perceber como fui capaz de fazer papel de idiota, eu tenho a certeza de que jamais vou conseguir ver aquele jogo como veria novamente qualquer outro. Ainda fico angustiado por não entender como o Brasil continuou deixando Paolo Rossi livre, em vez de fazer com ele o que Gentile tinha feito com Zico — sem bater tanto, claro. O ódio ao camisa 20 da Itália continua; tambem a Serginho que perdia gols feitos; a Cerezzo que apesar de craque errou feio como Clodoaldo em 70, mas que não conseguiu se recuperar e ainda errou mais uma vez; ao juiz filho da puta que não deu um pênalti óbvio demais. E a cada bola chutada para o gol me peguei torcendo para que ela entrasse, que talvez ainda houvesse uma chance de mudar a história, que aquilo estava acontecendo novamnete naquele momento e tínhamos finalmente a nossa chance de redenção.

Mas a bola nunca entrou, e o Brasil perdeu de novo para a Itália por 3 a 2, três gols de Paolo Rossi

Aquela é a seleção dos meus sonhos, a melhor seleção cujos jogos eu vi. Não vi os de 1958 nem de 1962, não posso falar deles. Mas vi todos os jogos do Brasil na Copa de 1970, e apesar de reconhecer o talento absurdo daquele time — um time com Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino e Jairzinho? Pelo amor de Deus –, eu não vejo no seu futebol tanta beleza de conjunto, tanta perfeição quanto pude ver na seleção de 1982. Aquele time tinha o mesmo carinho pela bola que a gente vê na Copa de 1970, mas era ainda melhor porque o futebol tinha evoluído, tinha ficado mais rápido, e porque o time inteiro jogava com uma harmonia que eu nunca mais veria. Diziam e dizem que aquele time jogava por música, e é verdade. Que time lindo Telê montou; e quem não viu aquela seleção jogar não sabe o que é futebol, e nunca saberá, não importa quantos campeonatos brasileiros, italianos ou espanhóis assista.

Tem gente que diz que se o Brasil tivesse ganhado aquele jogo a história do futebol seria diferente, o jogo não teria ficado tão feio. Eu tenho minhas dúvidas: a evolução do futebol independe de qual seleção ganhou tal Copa. O futebol seria o que é hoje independente de uma vitória brasileira. O Brasil ganhou em 1958, 1962 e 1970 e nem por isso o futebol europeu mundial virou uma beleza de se ver.

Mas a minha história seria diferente se o Brasil tivesse vencido aquele jogo e aquela copa. E eu certamente não ficaria, em 2010, gritando feito um idiota diante de um jogo que aconteceu há 28 anos.

17 thoughts on “28 anos depois

  1. Eu me lembro que falava a um amigo nos jogos anteriores a esse fatídico com a Itália.

    “Essa seleção é maravilhosa; é impossivel o Brasil perder essa copa”

    Pra mim o futebol praticamente acabou depois dessa decepção.

  2. Futebol é realmente engraçado. Apaixonante. Só isso justifica o fato de você não ter enxergado uma Itália bem superior a nós no jogo. E talvez o fato de você ser flamenguista. Nem digo as perebas que o Brasil enfrentou naquela Copa, como Nova Zelândia e Escócia. Nem digo que ganhamos roubado da URSS, que deixou de ter dois pênaltis claros, a seu favor, marcados.
    Em nosso melhor jogo, realmente, arrebentamos a Argentina. Mas qual Argentina? Uma que dançava um dos tangos mais dramáticos de sua história, recém saída do terrível trauma das Malvinas, vivendo o fim do regime de opressão, um povo, enfim, em frangalhos, assim como sua seleção, que cambaleou pela Copa.
    No primeiro jogo realmente duro depois dos soviéticos, perdemos. E perdemos porque a Itália foi melhor que nós, técnica e taticamente. No Brasil, só Falcão jogou bem o jogo todo. Aliás, bem demais. Carregou o time. Outros jogadores não foram bem individualmente, talvez só o Sócrates, ainda assim só no primeiro tempo. Cerezzo foi aquela tragédia que você discorreu, mas Júnior foi. Uma verdadeira avenida. A Itália deitou e rolou em cima dele. Na Itália, Bruno Conti foi um monstro, bem “coadjuvado” pelo autor dos 3 gols, Paolo Rossi. Scirea também foi demais e Gentile anulou Zico. Também com faltas, claro. Esperava o que?
    Como a França foi em 98 e em 2006.
    Pergunto-me, então, por que aquela seleção causou tanta comoção? Na época, também chorei. Tinha 11 anos.
    Primeiro, reconheçamos, era um grande time. Inegavelmente. Mas diante das babas que pegou, à exceção da Argentina, em frangalhos, pergunto se, na competição, merecia toda aquela choradeira. Olhando para trás, penso que não.

  3. Ô Mauro,

    A Itália não foi tão superior como você vê. Jogou bem, é verdade, e o mais interessante é que aquele foi um jogo limpo, praticamente sem faltas. Mas não houve superioridade. Foi um jogo equilibrado com a Itália mais fechada. Nós não tínhamos um centroavante (e a substituição por Paulo Isidoro piorou as coisas), e a defesa abria espaços inacreditáveis.

    Esqueça qualquer outra coisa: se alguém neutralizasse Paolo Rossi, qual seria a alternativa da Itália para fazer gols? O Brasil eu sei que tinha.

    Quanto à desculpa da Argentina não vale. Sob a mesma opressão ela foi campeã do mundo. E parte grande daquele time seria campeã novamente na copa seguinte. Aquele era um bom time, definitivamente.

    Quanto a não entender a choradeira, acho que você não lembra da campanha. Aquela era uma seleção brilhante. E vê-los jogar dava a alegria que hoje, por exemplo, o Santos dá.

    Ratapulgo,

    Eu não disse que a foto de Falcão saiu na capa, não. Aliás, não faria nem sentido. Se lembro bem, foi numa página dupla (tinha uma seção de fotos interessantes de futebol, talvez tenha sido lá).

  4. Rafael, acho que tu exagera quando diz “quem não viu aquela seleção jogar não sabe o que é futebol, e nunca saberá”, mas vá lá, tens tuas razões para tal. Meu pai deve regular de idade contigo e ele diz mais ou menos a mesma coisa. E quando eu estiver com a idade de vocês, provavelmente vou dizer o mesmo que vocês, que o futebol era muito melhor a 20 anos atrás.
    Porém, tu te equivoca quando diz que, caso o Brasil vencesse aquela Copa, não iria mudar o futebol. É só ver o que aconteceu na última Copa. Das 4 semi-finalistas, 3 jogavam no esquema 4-2-3-1, que quase não era visto em clubes. Após o mundial um sem número de equipes e treinadores adotaram o esquema. E normalmente é assim. A seleção que vence a Copa meio que dita os rumos do futebol mundial pelos próximos 4 anos. Usar exemplos das 3 primeiras copas vencidas pelo Brasil não é válido. Naquela época a elite do futebol não estava em um único continente, como acontece hoje.

  5. Gregório, não é exagero.

    Eu não digo hoje que o futebol de 20 anos atrás era melhor, até porque era pior do que hoje — foi a pior seleção que vi jogar, fora a de Parreira em 2006. E duvido que daqui a 20 anos .

    Mais que isso, acho que aquela seleção de 82 era melhor que a de 70. A única diferença é que não ganhou uma copa.

    Quanto à mudança no futebol, acho que há uma contradição aí. Assim como em 70, em 82 a elite do futebol tampouco estava em um único continente: na verdade o êxodo começaria logo depois.

    Sem falar em uma coisa importantíssima: para jogar como o Brasil jogava era preciso ter um número de craques muito alto, capazes de jogar daquele jeito extremamente técnico. Seleções como Alemanha e Itália, por exemplo, não tinham.

    E alguém me explique por que o Brasil venceu 1970 e, em 1974, jogou daquele jeito tosco. 🙂

  6. começo a crer que, desde 1970, quando o brasil chega como franco favorito em uma copa, perde. a gente só ganha quando chega achincalhado. na maioria dos casos isso ocorre. perdemos 74, 82, 98 e 2006. ganhamos 94 e 2002, com aqueles times altamente mais ou menos.

    eu confesso que não entendo a adoração por ronaldinho gaúcho, exceto pela geração “winning eleven” baseada em clubes. ele foi um jogador razoável no grêmio e no paris saint german. foi um jogador excelente no barcelona. e só. na seleção foi um jogador medíocre, muito jogador da fase do jejum de mundiais é melhor que ele (reinaldo, sócrates, nunes, júnior, dario).

  7. Caro Rafael

    Sempre é um grande prazer ler tuas linhas.

    O pior reacionário já foi comunista…
    O mais descrente quiçá coroinha…

    De alguma forma, em alguns momentos, reencontras teu amor pelo ludopédio.

    Louvo à isso.

  8. Eu ia te falar para assistir aos jogos do Santos-2010 mas pelo comentário acima já viu algum.
    Ontem foram só 8 gols feitos no Guarani, quando poderiam ter sido pelo menos quinze.
    Quanto à 82, trocaria fácil o título de 94 pela vitória no Sarriá.
    Pior que essa derrota só o Maracanazzo, mas ainda não era vivo. O trauma de 82 foi tão grande que passei por quase todas as fases: negação e isolamento, raiva, barganha e depressão.
    Ainda não aceitei, não.

  9. Junior falhou nos 3 gols. Embora no segundo gol ainda possa ser absolvido pela maior responsabilidade de Cerezo, a cochilada do terceiro gol é inacreditável.

    Sobre a repercussão da derrota, acho que teve grande influência no futebol DO BRASIL. As seleções de 90 e 94, horrorosas com muito orgulho, eu vejo sim como consequência das derrotas de 82 e, de certa forma, 86. No futebol mundial como um todo, concordo que não influencia tanto.

  10. Peraí…preciso de uma opinião dos que viram a copa de 70.

    Nasci posteriormente e acompanhei uma série de mudanças no futebol, principalmente no estilo de jogo e na forma física dos atletas. E acompanhando pela ESPN tive a oportunidade de ver a final da famosa seleção de 70 e fiquei absolutamente espantado. Jogo lento, muito lento pros padrões de hoje. Quase nenhum combate…o jogador recebe a bola e ninguém vem pra cima combater, ficam 3 jogadores cercando, o atacante chega inclusive a colocar as mãos na cintura, analisando, olhando, vendo pra quem tocaria a bola. E toca…com uma classe, uma lentidão, uma beleza absolutamente incomparável com esse futebol de força e correria que estou acostumado a ver.

    Não sei se entendem o que quero dizer mas pra mim foi um choque tremendo. Ao mesmo tempo em que pensava “nossa, que fácil jogar assim…sem combate, jogo lento com um monte de jogador sem o preparo físico dos de hoje” eu me pegava pensando “puta que pariu, isso parece um balé clássico do ponto de vista estético”. Era uma outra época, um estilo de jogo absolutamente diferente, lento, sonolento. E irritantemente plástico, bonito de se ver.

    Eu, que chorei com as conquistas das Copas de 94 e de 2002, me senti um perfeito idiota em achar que aquilo era futebol.

    Saudações palestrinas!

  11. Poxa!
    De fato tudo poderia ser diferente… até mesmo as pequenas coisas podem provocar grandes transformações.

    Parabéns!

  12. Eu também vi esse jogo Rafael. Eu não tinha idade à época da partida, mas a vi em vídeo graças a meu pai. Sempre sinto uma tristeza ao rever esse jogo. Concordo com vc que a mudança no jogo independe de qual seleção ganha ou não ganha.

    Alguém aí falou que ROnaldinho Gaúcho não é tão bom assim usando como justificativa o fato dele não repetir na seleção o que fazia, por exemplo no Barcelona. A meu ver, a diferença reside no fato que no Brasil não valorizamos como deveríamos a tática de um jogo e sim muito mais a “emoção”. A tática (quem vem com o técnico e com treinamentos) faz excelentes jogadores renderem em um time e em outro não (caso de Messi, por exemplo, que joga de regular a medíocre quando se apresenta pela seleção – pelo menos por enquanto).

    A tática, o treinamento e o técnico são sim responsáveis por essa mudança de postura. É diferente jogar em um time arrumadinho taticamente e em outro desorganizado. QUalquer jogador, no mínimo, esforçado consegue render em um time ajeitado. Ao contrário, nem todo excelente jogador rende o esperado em times desarrumados taticamente.

    E um exemplo recente dessa diferença (de aplicação tática, de treinamentos e do técnico) são os dois últimos brasileiros conquistados por um time, no mínimo, horroroso do SPFC onde até o Borges (um atacante abaixo da crítica) rendia.

    No mais, excelente post.
    Abs.

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