Au revoir, les photogrammes

O André Setaro fez um post falando da experiência moribunda de ir ao cinema.

O saudosismo do Setaro é o meu (e o tal senhor que vendia fotogramas de filmes na Piedade — acho que lembro dele também; se não, lembro de um bem semelhante). Embora mais novo, e certamente menos hostil à televisão, sou outro que sinto essa decadência da experiência coletiva, e lamento por isso.

Um dos poucos filmes a que assisti no cinema durante o ano passado foi “Meia Noite em Paris”. Não é sempre que o Cinemark, esse grande carrinho de pipoca, exibe um Woody Allen assim, na lata; e os meses longos sem ir ao cinema cobravam sua tarifa à minha consciência.

O cinema cheirava a mofo, um cheiro mais forte do que o habitual. E o filme seria exibido com a imagem levemente desfocada.

A menina na poltrona ao meu lado mandava mensagens de texto para alguém. Enquanto ela ria retardadamente durante os trailers, tudo bem; mas fazer isso durante o filme é sinônimo não apenas de má educação, mas de falta de respeito absoluta e grau elevando de cretinice fisiológica. Eu me mostrava desconfortável, olhava feio, encarava, e a idiotinha não percebia. Tive que falar, com toda a doçura que mamãe me deu, que aquilo estava incomodando para que ela se controlasse.

Eu não entendo. Se é para prestar atenção a uma conversa qualquer em vez de ao que se desenrola na tela, por que ir ao cinema? Por que não ficar em casa? Por que não se jogar da ponte?

Mas essas são as novas gerações, e é com elas que temos que dividir as salas de exibição.

Eu me recuso a passar por isso, não tenho mais idade para essas coisas. Nem idade nem paciência. Antigamente, com TVs de 20 polegadas em formato 4:3, a gente tinha que se submeter a esses vexames para conseguir assistir à obra cinematográfica em sua plenitude — tem coisa mais bizarra que assistir a filmes originalmente em Cinemascope ou Vistavision numa tela pequena, quadradinha? Mas nada isso é necessário, agora. As novas TVs têm formato, tamanho e resolução suficientes para apresentar um filme como ele foi concebido, ou quase. E assim oferecem uma experiência melhor do que o cinema tem oferecido para mim; sem falar na possibilidade parar o filme e desmoralizar para sempre o velho e bom Hitchcock, que dizia que um filme deveria ter a duração da resistência da bexiga humana.

A decisão de evitar ir ao cinema vai me poupar de coisas tão ruins. As gentes ao meu lado fazendo barulhos desagradáveis. Projecionistas incompetentes. Os ruídos de pipoca sendo mastigada. Os risos de boca cheia. Os barulhos de sacos de plástico — jujubas, as inevitáveis jujubas — sendo rasgados. As conversinhas bobas de gente sem noção. Adeus. Adeus. Nada disso vai fazer falta.

***

Mas isso implica a deterioração da experiência coletiva. É um sinal ruim de um mundo novo normalmente admirável: o isolamento, a ausência de uma sensação difusa mas reconfortante de pertencimento.

Fico imaginando como era viver 30 e 70 anos atrás, pelo menos no que diz respeito ao cinema.

Há 70 anos ver um filme era experiência relativamente incomum — uma, duas vezes por semana, no máximo. Os filmes ficavam em cartaz durante meses, às vezes anos. Havia circuitos inteiros de primeira e de segunda exibições. Cada grande estúdio produzia uns 50 filmes por ano, e havia espaço para tudo isso. E havia os pequenos, que faziam outro tipo de filme.

Talvez as gerações mais novas não consigam entender o que isso significava. Mas a relação com a obra cinematográfica era diferente. Muitas vezes, se você não via um filme que, por alguma razão, não alcançava muito sucesso de bilheteria, nunca mais teria uma chance de vê-lo. Não havia TV, TV a cabo, DVD. E por isso os grandes sucessos eram reprisados periodicamente. Os filmes da Disney cumpriam um ciclo de cerca de 7 anos. Cheguei a ver “…E o Vento Levou” em cartaz em 1982, um ano antes de estrear na TV.

30 anos atrás — e essa época eu peguei — já havia filmes na TV. Você podia assistir a uns dois longas por dia, talvez três; e ainda tinha acesso a novidades como telenovelas e seriados. Mas o espaço para filmes novos ainda era restrito, eles demoravam a chegar às TVs, e fora delas não havia alternativas. Por isso os filmes ainda ficavam meses em cartaz — alguém lembra dos anúncios nos jornais?, miniaturas dos cartazes em preto e branco e os dizeres: “9a semana de sucesso!” Eu lembro. Lembro de muita coisa.

Ir ao cinema era bom, e era uma experiência rica. Meninos debilóides mastigando de boca aberta e teclando mensagens em seus celulares acabaram com isso.

***

Também lembro que faço parte da geração que descobriu o cinema na televisão. Antes do DVD, antes mesmo do videocassete, o que existia era a TV. Foi nela que assisti a dezenas dos filmes que hoje considero entre os melhores da história. E vem daí a minha devoção a um certo crítico de cinema.

Costumamos falar de grandes críticos como Moniz Viana, Paulo Emilio Sales Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles. Mas há um que nem sempre é lembrado: Paulo Perdigão.

O problema é que, de todos eles, para mim Perdigão foi certamente o mais influente. Não pelo que escreveu — acho que nunca li nada dele, e sei basicamente que fez parte da geração brilhante do Correio da Manhã e é o autor de um livro sobre “Os Brutos Também Amam” –, mas pelo que nos fez assistir.

Perdigão era o responsável pela programação cinematográfica da TV Globo. Era ele quem decidia que filmes seriam exibidos. E por isso a Globo sempre tinha um horário na semana para os grandes clássicos.

Nos anos 70 era talvez mais fácil, porque os filmes demoravam muitos anos para chegar à TV, até esgotar o circuito cinematográfico, e então se trabalhava com o estoque das décadas anteriores. E nos anos 80 ainda havia uma lei curiosa, que obrigava as TVs a exibirem pelo menos um filme legendado por semana, para atender aos deficientes auditivos. O SBT exibia lixo, claro (foi assim que assisti a boa parte de “El Neurosurgeano Loco“, um filme mais que trash, piorado ainda mais pelas circunstâncias: era americano, dublado em espanhol e com legendas em português. Juro por Deus.) Mas o Perdigão aproveitava esse horário para exibir clássicos de altíssima qualidade. Era a sessão Cineclube. E onde mais você veria “Em Cada Coração Um Pecado” num domingo à noite, com a melhor atuação da carreira de Ronald Reagan (“Where’s the rest of me?!“)? Ou “Paixão dos Fortes”?

Perdigão ensinou, a mim e à minha geração, a ver cinema. E isso faz dele um dos maiores, se não o maior, crítico do país, pelo menos em sua função social.

***

Tudo isso para lembrar a mim mesmo, e talvez me convencer, de que cinema não é tão necessário assim.

8 thoughts on “Au revoir, les photogrammes

  1. Grande Rafael,

    Eu tenho a frequente impressão de que você é um defensor convicto da juventude, da modernidade, dos novos hábitos, mas às vezes você sai com essas observações que fazem mais o meu gosto. Não que eu seja tão velho quanto você ou Setaro 😀 mas tenho aquela aversão rodrigueana à juventude. Não sou conservador, mas acho que juventude tem se deixado cozinhar lentamente (como o sapo hipotético que se deixa cozinhar quando imerso em água fria) a troco de muito pouca coisa.. uma bala, um ipod, um xbox e eles já estão lá, sentados, abdicando de qualquer sombra de espírito crítico em nome de mesquinharias e da segurança da pertença em grupos (tribos, como eles chamam hoje em dia). Claro, os “adultos” são igualmente responsáveis.. mas à juventude sempre coube a paixão, os ideais, as propostas de mudanças, portanto, ver o engessamento desse espírito na máscara de todas essas “micro-revoluções” e “liberdades” que eles pensam gozar hoje em dia me revolta muito mais do que assistir a indolência civilizada dos mais velhos.

    Pensando aqui, acho que dá pra montar uma imagem: a juventude parece pensar que o mundo é uma extensão sem fronteiras do espaço privado de suas casas e o espaço público fica assim espremido no curto espaço de redes sociais (lugar dos protestos “políticos” e coisas afins) onde eles encenam a representação de uma imagem de mundo que não é a deles, a imagem de mundo onde há lugar para algum coisa para além das suas próprias necessidades e interesses. (Daí porque ela não tenha notado seus olhares).

    Enfim, essa divagação boba somente para dizer que também para mim ir ao cinema é uma experiência que requer profundo auto-controle.. infelizmente, cada vez mais, o tipo de comportamento que você descreve se estende até idades mais avançadas.

  2. nossa juventude não tem capacidade pra orquestrar um protesto sobre um motivo fútil e classe-média como a tributação de video games, quanto mais para um motivo que preste. de uma maneira geral, estamos fudidos.

  3. olha que a sala de cinema no Cinema Paradiso era muito mais caótica que as de hoje. embora fosse tb uma experiencia mais coletiva.

  4. “… não apenas de má educação, mas de falta de respeito absoluta e grau elevando de cretinice fisiológica.”

    Veja você: não é o mesmo que sinto quando vejo pessoas deitarem lixo à rua?

  5. Caro Rafael:
    Eu estou com muita vontade de ir assistir Sherlock Holmes, mas estou pensando muito por causa destes mal educados que você citou.

    Aproveito e te faço uma pergunta: será que no nosso tempo também não havia os mesmos tipos mal educados, sem celulares, mas com outras falhas no bom convívio social e nós por sermos jovens não nos importávamos?

    Ou seja: será que não estamos virando velhos rabugentos?

    As vezes me pego ponderando sobre isso.

  6. Quanto a conversas e barulhos não se tem muito o que fazer, mas celular… já existem aparelhos que bloqueiam o sinal de celular em determinada área. Pena que ainda são meio caros… mas depois da minha última ida ao cinema, fiquei com muita vontade de ter um desses.

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