Simonal

Desde que assisti a “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, o documentário sobre Wilson Simonal, uns 15 anos atrás, uma coisa me incomoda.

Ao longo dos anos, se consolidou uma certa narrativa de que Simonal foi vítima de um “cancelamento” da esquerda, tese que é, curiosamente, encampada por ao menos parte tanto da esquerda quanto da direita. Mais recentemente, a noção de que ele foi prejudicado também pelo racismo velado que se espraia na sociedade brasileira ganhou força, fruto de um olhar revisionista nem sempre acertado, e adequa essa percepção às exigências socioculturais de um tempo diferente.

Isso me incomodava porque lembro de Simonal aparecendo em programas como Flávio Cavalcanti e Hebe Camargo, nos anos 80; ele não foi banido da mídia, como essa narrativa — que existe pelo menos desde os anos 80, se não antes — insiste. E porque, ao contrário de ao menos parte de quem repete essa história, eu conheço os discos de Simonal.

Resumindo a história: na virada dos anos 70, Simonal era um dos cantores de maior sucesso do país. Como muitos artistas, vivia à larga. E como muitos artistas, acabava gastando mais do que ganhava. Quando percebeu isso, procurou em seu contador um bode expiatório. Inculto, refletindo os valores da classe de onde vinha e de sua própria personalidade razoavelmente oportunista, apregoava ao mundo que era “assim com os hôme”, e pediu a dois investigadores ligados ao DOPS que dessem um esquenta no contador, para que ele confessasse que tinha desviado o seu dinheiro. A coisa saiu de controle, ganhou os jornais, e além da reprovação social pelo que tinha feito, Simonal ganhou fama de ser informante do SNI. A partir daí, segundo essa visão, Simonal seria boicotado por um ambiente artístico predominantemente de esquerda, e teria sua carreira brilhante interrompida.

Malditos comunistas.

Mas nada disso corresponde à realidade. Até 1983, Simonal só não lançou um álbum ou compacto em 1981. Em média, um LP a cada dois anos. Sua imagem foi arranhada, claro, mas o boicote não impediu que ele lançasse seus discos, fizesse seus shows.

O problema é que ninguém ouvia.

A história tem mostrado que se um artista lança bons discos ou tem o que dizer, suas posições políticas interessam pouco ou nada para quem gosta deles. Sérgio Reis, Zezé di Camargo e Luciano, Leonardo, Amado Batista continuaram com seu público, mesmo tenho se alinhado ao que a política brasileira produziu de mais podre desde Carlos Lacerda. Lobão, sujeito errático cujo ápice se deu quase 40 anos atrás e que acabou se tornando, em determinado momento, uma espécie de embaixador de uma direita canalha para uma geração que envelhecia, está voltando ao que se entende hoje por mídia, aparecendo em podcasts até com Casagrande, sujeito notoriamente de esquerda, ainda que festiva; é muito adequado a um tempo em que opiniões bombásticas são muito mais importantes do que fatos. Mas Lobão é um homem inteligente, articulado, que consegue parecer mais culto do que é e que tem vantagens mais que óbvias quando comparado a, por exemplo, implausibilidades como Roger Moreira, a melhor prova da presença de DNA neanderthal no homo sapiens. Os outros fazem ou ao menos cantam a música que seu público quer ouvir.

Simonal era um cantor magnífico, com um swing e uma noção de tempo invejáveis. Enquanto teve repertório à altura, em acordo com o seu tempo, fez um sucesso arrebatador, mais do que merecido. Mas a partir de 1972, ou pelo menos de 1973, seus discos caem abismalmente de qualidade. Se tornam chatos, repetitivos, burros mesmo na escolha de repertório. E isso acontece justamente durante o que é ,talvez, a mais genial era da música brasileira, a geração mais brilhante que a música brasileira já teve e que nunca mais se repetirá — e da qual a morte de Gal Costa marcou o início do fim. Talvez a crise por que passava tenha influenciado nisso. O que não se pode alegar é o tal cancelamento político antes que estético, nesse caso.

Um único boicote, na verdade, foi eficaz — mas não foi por política. Com o dinheiro desaparecendo, ele se reuniu com Boni e Walter Clark e ameaçou não participar do FIC 1970 se tivesse algumas demandas atendidas. Para piorar, correu para contar o que aconteceu no programa de Flávio Cavalcanti. É o comportamento típico de quem perdeu a noção de quem realmente é, algo nada incomum entre artistas do seu porte. Resultado: foi banido do festival e de toda a programação da Globo a partir daquele instante. Ainda não havia bolsominions alucinados para dizer que a Globo é de esquerda, mas perder o acesso a um canal que, se ainda não era hegemônico, já se consolidava como o mais importante do país, certamente não fez nenhum bem à sua carreira.

Descobri há pouco que existe uma biografia de Simonal escrita por Gustavo Alonso que diz mais ou menos isso. Ainda não li. Não sei se ele chegou à mesma conclusão — mais bem informada, claro — que eu: a de que Simonal foi vítima dele mesmo, e que sua trajetória é a mesma de muitos outros artistas, embora mais espalhafatosa em sua decadência. E que, paradoxalmente, todo esforço de contar sua história e vindicar sua carreira, seja por que campo ideológico for, e que termina em uma tentativa de dar uma dimensão política falsificada à sua decadência, é o que garante em parte sua permanência histórica.

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