O circo

A foto ao lado foi tirada há uns 15 anos na BR-101, diante de um posto da Polícia Rodoviária em Malhada dos Bois, Sergipe.

Não é difícil imaginar sua história: o comboio de um circo passou por ali, foi parado pela Polícia Rodoviária, o trailer estava em péssimo estado e com documentação totalmente irregular. O circo foi embora, jamais pagou a multa — talvez mais cara que o próprio trailer — e ele ficou lá durante alguns anos, como um monumento triste a uma era que tinha acabado.

Durante muito tempo o circo foi o lugar onde crianças podiam ver de perto maravilhas inacreditáveis. Leões, tigres, acrobatas, podiam rir com os palhaços, tentar entender como o mágico fazia um helicóptero desaparecer do picadeiro.

O cinema e a TV reduziram essa importância, porque podiam oferecer proezas ainda mais impressionantes. Mas mesmo para crianças sofisticadas nas cidades grandes, um domador na jaula dos leões era uma experiência impossível de ser replicada pelo cinema ou pela TV.

Mas isso era verdade para o século passado, e este século XXI já se encontra bem adiantado. Tihany, Bartholo, Orlando Orfei, Garcia, Vostok: os grandes circos brasileiros acabaram, ou mudaram completamente. O Tihany a que fui em Água de Meninos, no final dos anos 70, era um circo magnífico. Mas nos anos 90 anunciava constantemente que estava mudando a natureza dos seus espetáculos, agora era algo mais próximo do music hall, e na última vez que fui a ele tinha moças bonitas desfilando e dançando como em um musical de Busby Berkeley, e nem sombra de um leão, de uma onça, nem mesmo um gatinho.

Nenhum deles resistiu à pressão cada vez maior de uma sociedade cuja sensibilidade em relação aos animais vinha mudando aceleradamente.

Em fevereiro de 2000, fui assistir ao Vostok em Aracaju, com minha filha e os meus sobrinhos. Pela primeira vez, fiquei no camarote — curiosamente, desde criança a imagem mental que tenho de camarote é justamente esse tipo, o quadradinho com cadeiras à beira do picadeiro, e não frisas em teatros chiques.

Foi a última vez que vi um domador de leões em ação.

De Aracaju o circo seguiu rumo ao norte, parando em Maceió. Em abril estava em Recife quando um daqueles leões agarrou e matou um menino que passou perto demais da jaula.

Aquele foi o golpe de misericórdia na ideia de circo como eu conhecia. A pressão dos grupos de defesa dos animais, que já vinha conquistando vitórias irreversíveis nos anos anteriores, pôde dar seu golpe de misericórdia. A comoção nacional pela tragédia do Vostok acabou de vez com os animais no circo. Não apenas os ferozes, como tigres e leões, mas cavalos, poodles, qualquer coisa de quatro patas.

Circo sem bicho, para mim, nunca foi circo. Certo, eu gostava dos acrobatas, do mágico, até mesmo dos palhaços, mas tudo isso era acessório, apenas: eu gostava era do domador colocando sua vida em risco e mostrando às bestas ferozes quem era que mandava naquela bodega.

A verdade é que sempre que via o “Mundo Animal” ou os canais tipo Discovery da vida, com aquelas cenas de caçadas nas savanas africanas, eu nunca deixei de torcer pelo leão.

E então o circo acabou para mim.

Fui mais algumas vezes, mas minha filha vem de outra geração, não gostava, deixei de ir. O circo foi substituído por desenhos animados da Pixar, por peças de teatro infantil, a cultura do circo passou a se resumir a peruanos equilibrando malabares em cruzamentos. Os governos do PT deram uma aliviada ao setor, liberando dinheiro para que os circos se reequipassem: lonas novas, novos caminhões. O setor circense ganhou um respiro que precisava havia muito tempo.

Mas há alguns anos fui a um espetáculo pela primeira vez em muito, muito tempo. E sentir novamente um cheiro que eu julgava esquecido, o cheiro da lona e da serragem, foi como reencontrar um velho amigo, perdido há muito tempo e quase esquecido.

Mas só um pouco mais tarde veio a revelação.

A contorcionista tentava acertar um balão atirando com os pés. É uma atração comum, não era nada que eu já não tivesse algumas vezes.

Ela errou.

Foi quando entendi algo que nunca tinha conseguido perceber, satisfeito com meus leões que rugiam para o domador.

A magia do circo não estava nos bichos que só se podia ver ali, nas acrobacias perfeitas, nas motocicletas que não se esbagaçam dentro do globo da morte. Ela estava justamente na possibilidade do erro, no que pode não dar certo, e era isso que fazia crianças prenderem a respiração antes de cada feito heroico dos artistas. A magia do circo estava na sua humanidade. E isso não tem TV, não tem cinema, não tem inteligência artificial que substitua.

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