Não sou jornalista. Não quero ser. Não posso dizer que nunca quis porque aí pelo final dos 80 eu quis, e cheguei a escrever num semanário já defunto, O Que, jornal de um amigo que me permitia escrever mal e ainda me pagava, de vez em quando, uns caraminguás por isso.
Não sou jornalista porque não tenho vocação para repórter. Fossem outros os tempos, tempos de redatores e copidesques, eu talvez pensasse no assunto. Seria um bom copidesque e um excelente redator, modéstia às calendas. Mas quando me dei por gente o jornalismo tinha mudado, tinha ficado mais sério. Não sei se mais ético — que ético, mesmo, o jornalismo de modo geral nunca foi; mas o método de produção tinha mudado, as funções também.
Não sou jornalista e no entanto minha vida está irremediavelmente ligada a jornais e revistas. Impressos, sempre, os únicos a poderem ostentar essas definições bem específicas. E por isso eu sinto uma tristeza enorme quando vejo jornais e revistas desparecendo, sem que ninguém sinta de verdade sua falta.
Não devia ser surpresa, porque quase todo dia me certifico que algumas das cinco ou seis bancas de jornais que ainda restam em Aracaju continuam funcionando e cumprindo sua função original, que é vender periódicos. Mas dois ou três anos atrás, num bate-e-volta em Belo Horizonte, procurei jornais para comprar e tive dificuldades em achar. A Hudson, que substituiu a LaSelva do meu tempo, não vende mais jornais, muito menos os de outros estados; vão longe os tempos em que aeroportos como Galeão e Cumbica eram praticamente centrais de distribuição de jornais de todo o país e mesmo estrangeiros, quase tão longe quanto os tempos em que as companhias aéreas davam jornais para seus passageiros assim que entravam no avião. Ninguém se interessa mais. As notícias estão no celular.
Achei um Estadão em Confins, no entanto. Devia fazer tempo que não via jornais impressos do sudeste, porque ele circulava em formato berliner já havia algum tempo e eu não fazia ideia. Enquanto esperava o avião que me levaria para a minha via crucis de conexões em horários ingratos, li o jornal e me assustei com o que lia.
Que jornal ruim.
Muitos anos atrás, considerei o Estadão o melhor jornal brasileiro: era mais bem escrito, mais denso, com bons textos. Nunca gostei do estilo da Folha de S. Paulo, mesmo na época em que ela não se igualava a qualquer pasquim do interior e não publicava matérias pagas da Prefeitura de São Paulo sem identificação; o que se salvava nela era o Mais!, caderno cultural dominical que às vezes podia ser brilhante.
Mas agora o Estadão me dá apenas as notícias que li no dia anterior, sem o necessário aprofundamento que, na minha opinião, tornaria o jornal mais relevante. Desapareceram também um número grande demais de editorias e seções.
Lendo isso que escrevi me sinto um velho retardado e bêbado — e poxa, eu não sou retardado —, que fica repetindo e repetindo as mesmas coisas, sem parar. Nada disso, claro, é novidade. Nem mesmo a minha tristeza. Mas ainda não consegui aceitar que jornais impressos não significam mais nada.
Eles estão condenados há muito tempo, e não há reinvenção possível que consiga reverter essa caminhada inexorável rumo ao fim. O que ainda sustenta os jornais brasileiros é o absurdo legal de obrigar empresas e governos a publicarem balanços e editais neles, só isso, e o fato de ainda terem um resquício de diálogo com a elite dirigente do país, o que abre espaço junto a governos e alguns poucos anunciantes muito grandes. Classificados não fazem mais sentido, e por que comprar um quarto de página de um jornal se um post patrocinado no Instagram vai custar infinitamente menos e alcançar muito mais gente? Os jornais vão continuar definhando, junto com a morte dos cada vez mais velhos que se acostumaram a viver com eles.
Mas acho que seria possível, ao menos, evitar que os velhos abandonem os jornais. Paliativo bobo e insignificante, sabemos todos, mas indício de um resto de dignidade e valor. Se é para cair, que caiamos todos em pé, com os punhos fechados e dedo médio em riste.
Por causa do susto que tive com a mediocridade do Estadão, fui catar edições em PDF dos grandes jornais americanos. Dispensando o USA Today que nunca prestou, baixei e folheei edições do New York Times, Wall Street Journal e do Washington Post.
Em primeiro lugar, é tão melancólico perceber que os jornais nunca foram tão bonitos. Parecem as palmeiras talipot que estão floridas no Aterro do Flamengo neste exato momento, apenas para morrer em seguida. Pessoalmente me sinto mais confortável, mesmo, é com o aspecto blocado dos velhos standards em P&B, mas é difícil não se deslumbrar com a limpeza e elegância dos jornais agora feitos no computador. O WSJ ainda tem os hedcuts que a Gazeta Mercantil copiava no Brasil; mas ele não se compara em termos de espaço visual com o que eu conheci 20 ou 30 anos atrás. Curiosamente, eu sempre entendi que diagramação de jornais é vertical, mas o WSJ estrutura seus artigos na horizontal. Como não lembro como ele era quando circulava como standard, imagino que talvez seja um sinal dos tempos.
Os jornais trazem o equilíbrio entre as notícias que todos querem ver e as que precisam ver. O trabalho de reportagem, inimaginável hoje nos grandes jornais brasileiros — e que nunca existiu nos pequenos — é impressionante. A qualidade do fotojornalismo americano é infinitamente superior ao brasileiro. Mas é o nível alto do debate presente em suas páginas que mais surpreende, especialmente no Wall Street Journal. Para brasileiros que passaram anos lendo e ouvindo os editoriais do Estadão e do Jornal Nacional, é quase um alívio ver o pensamento de direita alguns andares acima da estupidez rasa da direita brasileira. E olha que a era Trump está cobrando um preço alto ao jornal.
Deles, apenas o Washington Post tem alguma semelhança com os jornais que eu lia 30, 40 anos atrás. Uma página inteira de quadrinhos, horários de TV e cinemas, uma ligação grande com a cidade materializada em endereços, horários. É um jornal mais agradável de ler que o New York Times. Deve haver alguma explicação sociológica para isso, ou talvez seja só o aferramento a velhos hábitos de um sujeito que cresceu lendo a Veja e nunca conseguiu se adaptar à Época.
E aí volto para o Estadão, jornal medíocre que não faz mais nenhum sentido.
Não se trata apenas da competição com a internet. A impressão que ele deixa é a de que há uma decadência na maneira de fazer jornal impresso, na seleção de assuntos, na compreensão do que é realmente importante. É como se, sabendo que a morte bafeja em seu cangote, eles tivessem se resignado. E talvez seja o melhor que eles fazem.