Duas palavrinhas para o Serge

O Serge postou um comentário sobre o lamentável histórico deste blog, e em vez de comentar o comentário achei que ele merecia uma resposta mais elaborada. Obviamente, como qualquer post neste blog de um preguiçoso, isso fez com que ela demorasse muito mais para ser escrita do que devia. São os percalços da vida.

O comentário do Serge me lembrou de outros tempos, um período que era o auge não apenas deste blog, mas de toda a blogoseira. Os diarinhos, mais ou menos nos moldes de boa parte do Facebook de hoje, estavam dando lugar a abordagens mais complexas. Aos blogs do Hermenauta, do Alex, do Marcus, do Doni, do Idelber, do Milton, do Bia, do Ina, condomínios como o Verbeat, o Interney e O Pensador Solitário — um bocado de gente que tinha o que dizer e tentava fazê-lo de forma razoavelmente elaborada. Acho que ali se criou ao menos o embrião de uma comunidade heterogênea e eventualmente conflituosa, mas empolgante. Li muita gente boa ao longo daqueles anos; gente criativa, talentosa, engraçada e séria. Fiz alguns amigos para sempre. Mas, principalmente, ri muito.

Com o tempo, a maioria de nós cansou de escrever potoca e foi arranjar coisa melhor para fazer na vida. Virtualmente todos os blogs que compartilhavam o mesmo ecossistema deste desapareceram. A profissionalização da plataforma também fez com que a maior parte dos blogs se tornasse cada vez mais redundante. O fato é que há um bocado de gente falando de coisas com mais propriedade do que eu — menos Beatles, claro, mas tem gente boa o suficiente para me fazer pensar duas vezes antes de escrever qualquer coisa sobre o assunto (o melhor blog do mundo sobre os Fab Four, a propósito, é este aqui: A Moral to This Song). Mas acho que esses tempos passaram, mesmo, porque as tecnologias mudaram. Twitter e Facebook suplantaram os blogs.

Isso não é uma confissão de ludismo; porque reclamar disso é como o dono de cinema que reclama da Netflix, e porque embora use hoje muito pouco, já houve um tempo em que eu estava quase viciado naquela miséria. Mas não dá para negar que o Facebook tornou os blogs obsoletos. Blogs como este aqui — essencialmente ensaísticos, sem escopo definido, basicamente conversa jogada fora, uma espécie de bar virtual — foram perdendo o sentido, até porque Facebook e Twitter são muito mais eficientes nesse aspecto.

É por isso que a maior parte daquelas pessoas que escreviam blogs pode ser encontrada hoje no Facebook; mas num fenômeno curioso, poucas, pouquíssimas escrevendo algo remotamente bom quanto seus blogs d’antanho.

Acho que funciona assim: o sujeito pensa em algo sobre o que gostaria de escrever. Nos tempos do blog ele escreveria um texto mais longo e mais pensado. Hoje ele simplesmente joga imediatamente no Facebook ou no Twitter uma ideia concisa, excessivamente simplificada do que gostaria de dizer. E daí não há mais motivo para escrever.

A impressão que tenho é que o que se escreve no Facebook são essencialmente comentários que buscam o simplismo, links para alguma coisa, autopromoção descarada, essas coisas. Parece haver uma busca pela frase definitiva, o aforismo “lacrador” que vai ser compartilhado mais vezes, o que por si só condiciona qualquer debate a pouco mais que uma batalha de slogans. Posts — hoje chamados “textões”, o que já indica a má vontade com que são vistos — nem são raros, mas sofrem de um mal inevitável: estão soterrados em uma imensidão de outros textões e textinhos. Não têm a dignidade que sua posição de destaque em um blog lhe dava. Mais que isso, o grande problema é que ao mesmo tempo outras 10, 20 pessoas estão escrevendo essencialmente a mesma coisa, com maior ou menor grau de raiva.

Eu não tenho muitas dúvidas de que o Facebook é um dos responsáveis pelo estado psicológico atual do mundo, pelo aumento da ansiedade, da irritação, da intolerância: para o bem ou para o mal, uma certa hierarquia de vozes se perdeu, e o resultado, ao menos por enquanto, é um mal-estar generalizado, um recrudescimento de confrontos que eram apenas latentes ou estavam disfarçados.

Mas o pior, mesmo, é que ele acabou com os blogs.

Este blog mesmo “acabou” em 2010, e não pode culpar as redes sociais; tinha virado uma obrigação que passava a me incomodar, porque já não fazia tanto sentido. O fato de saber que há leitores exerce uma influência que pode ser positiva ou deletéria, porque por mais que a gente negue isso lhe obriga a escrever, de certa forma, e é positiva quando você está com vontade e deletéria quando o saco está cheio. Além disso, depois de quase dois mil posts é meio difícil achar algo que lhe interesse e que você não tenha escrito. Os comentários razoavelmente despretensiosos sobre quaisquer bobagens que eu fazia aqui no começo começaram a parecer insuficientes, à medida que gente que se levava mais a sério, com mais gana, começou a escrever o que eu teria escrito.

Finalmente, a “facebookização” do debate, o crescimento do processo de “guetização” impulsionado pela ascensão desses movimentos identitários de todos os tipos, quase invariavelmente infantilizados, ajuda. Dia desses teve uma passeata da mulher negra. Uma moça disse que, se você não fosse negra, que ficasse em casa. Tem discussão possível nesse caso? Eu não tenho tempo nem estômago para esse tipo de debate. Na verdade, não tenho mais para quase nenhum, nem os bons. Os tempos em que eu me divertia com as pseudo-feministas passaram.

Mas a verdade é que, depois de tantos anos, ele tinha passado a ser parte da minha vida; por isso voltei, mas sem a obrigação que eu mesmo me impunha. E ele vai ficar por aqui para sempre, acho (ou pelo menos até eu morrer, se é que vou morrer um dia, e deixar de reservar o domínio); às vezes com um texto, às vezes não. Não acho que precise de mais que isso. Ele já está vivendo em um tempo emprestado, mas que bom; a este blog, que me deu alegrias, raivas e amigos, basta apenas continuar existindo. Não porque é ou deixa de ser lido: mas porque é parte indissociável de minha história.

18 thoughts on “Duas palavrinhas para o Serge

  1. A gente continua a ler livros. Boto você nesse “a gente” porque tenho certeza que você continua. A gente continua a papear com amigos olhando olho no olho. A gente continua prestando atenção. Então não é uma espécie de doenca crônica continuar escrevendo em blogs. Eu poderia usar um caderno, um bloco, uma caneta bic, mas minha letra piorou muito e minha velocidade diminuiu, então é computador mesmo. Faz parte da vida de seres como você, como eu, como a Andrea, como o Allan. É gostoso e não faz mal. Que nem mel. Podia ser o sal da nossa vida, mas acho que é o mel mesmo.

  2. É isso. Mas vou continuar te lendo, como o Serge. Porque gosto. Ponto. Foda-se o Facebook.

  3. Concordo muito com o seu diagnóstico, e eu mesmo tenho há tempos na minha lista de posts não escritos um que seria pra falar disso, da diferença que era na época dos blogs e agora com as redes sociais.

    Quando eu escrevia no blog era isso mesmo que voce falou, eu não me contentava em ser algo apressado, fazia uma pesquisa boa antes, e burilava o texto antes de publicar. No Facebook não me obrigo a isso, embora as vezes aconteça.

    Essas plataformas atuais, sem hierarquia, vivendo no imediatismo, infelizmente é o caminho natural. Acho que a humanidade em si se volta para a entropia, quando lhe dão as ferramentas pra isso.

    As ferramentas ainda não existiam, e a gente ficava todo garboso escrevendo o nosso textinho que ia receber alguns comentários muito proveitosos e eventualmente se instalar uma discussão que completava o texto.

    Vida que segue. Estou muito velho pra sofrer com nostalgia.

    Estarei lendo seu blog enquanto ele existir.

  4. Já pensei em abandonar o blog diversas vezes. Chego a ficar dias sem postar e nem sempre escrevi sobre o que a maioria dos incautos leitores – aqueles que acabam atraídos por pesquisas na rede – esperam encontrar num blog como o meu. Mas continuo escrevendo. Posto menos e tenho uma certa dificuldade com o Facebook, onde é tudo muito conciso e volátil (acho que você definiu bem este conceito aí em cima). Além disso o Facebook toma um tempo danado, a gente (peguei emprestado da Maray) acaba perdendo tempo com besteiras e com os amigos que postam em ritmo de metralhadoras, entupindo a TL.
    Não, prefiro os blogs, ainda que poucos. Escritos sem pressa (exceto no meu caso) e fáceis de encontrar.

    Off topic: não lembro de ter lido um post seu sobre a velha polêmica do rebelde John Lennon e a mensagem comunista de “Imagine”. Faltei naquele dia?

  5. Eu lia diariamente esse e mais de uma dúzia blogues. Todos os que eu lia acabaram, exceto esse. Eu já gostei muito do twitter, depois enchi o saco. Facebook eu nunca acessei nem por curiosidade. Gostava mais da época dos blogues.

  6. Culpa do Google que matou o Reader e a ferramenta mais popular de consumo de conteúdo online no próprio ritmo e em ordem cronológica.

    (Até cabia em um tweet esse aforismo lacrador…)

      • Eu uso o The Old Reader. Tentei usar o Feedly no celular mas achei pesado, e no computador eu nunca me acostumei.

        • Também uso o The Old Reader, mas a morte do Reader coincidiu com essa sanha de instantaneidade e o ocaso desses blogs todos.

          • Lembrei agora que eu gostava mesmo era do Bloglines. E quando o GReader ficou bom, com comentários, etc., o Google acabou com ele pra ver se o pessoal ia para o + ou Wave, não lembro qual. Ficamos sem nada.

            • Foi o +.
              Uso o Feedly agora (não me adaptei ao The Old Reader), mas são poucos os blogs que continuam, a maioria de humor e nonsense. Eu já havia comentado isso uma vez com Alex Castro, não há mais onde ler boas discussões especificamente de literatura, mas também de outros assuntos. Ele argumentou que o povo migrou para o Facebook, mas acho, como você, que lá nem de longe tratam com a mesma profundidade, nem mesmo os mesmos assuntos de antes.
              A preguiça, tanto de quem consome como quem cria conteúdo, é nítida. Ainda se acha algum (pouco) conteúdo interessante no Youtube, porém com a mesma ressalva, ninguém faz vídeos grandes, porque o povo não assiste.

  7. Eu vou continuar lendo os seus textos com o mesmo prazer com que os lia há anos 🙂

  8. Ah, atualmente há uma coisa que definitivamente vai sepultar os blogs. São os Vlogs. O principal motivo é que a maioria prefere ver um vídeo a ler um post, simples assim. Eu não prefiro.

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