Sei que parece implicância ou perseguição ao Aldo Rebelo. Mas não é.
Para todos os efeitos, o Aldo foi sempre um grande deputado. Suas posições sempre foram coerentes (e mesmo agora, com a mudança de posicionamento dos partidos de esquerda para posições perfeitamente endossadas pela revista Exame e pelo FMI, ele mantém sua coerência partidária).
Mas poucas coisas me irritam mais que aquele projeto de lei do Aldo banindo o uso de expressões estrangeiras (estrangeiras uma ova, é só inglês, mesmo) do cotidiano brasileiro. Tudo bem que o tempo passou, ela se perdeu como aquelas besteiras que falamos em dias pouco inspirados, mas continuo irritado.
É o tipo de lei absurda. Parece falta do que fazer.
Em tempos de Internet, é praticamente impossível controlar o jeito como as pessoas se comunicam. Não tem lei que obrigue um povo a deixar de adotar um termo de que ele gosta. And I demand the right to speak as I fancy.
Além disso, a própria língua portuguesa é o resultado de séculos de miscigenação, de concubinato com outras línguas. Do latim vulgar à profunda influência árabe, da mistura com o tupi e o ioruba à aquisição de vocábulos franceses, a língua é sempre um organismo vivo e em constante mutação. Tentar controlar isso através de lei é, simplesmente, burrice.
Eu até concordo com ele quanto ao exagero. Alguns são irritantes, principalmente a mania que aquele povo da Barra da Tijuca tem de achar que mora na caipirolândia perdão, Miami; ou aqueles paulistas que falam “printar”. Mas é natural: um povo sempre tenta absorver os costumes dde um que julga mais avançado tecnologicamente. Isso aconteceu com o inglês: os anglo-saxões, dominados pelos normandos, acabaram adotando muitas palavras deles. O resultado é que ainda hoje o inglês tem mais de 50% de seus vocábulos de origem latina.
E no fim das contas, tudo se ajeita. Em inglês, mouse é rato e aquele “dispositivo apontador” de computadores. No Brasil, mouse é o nome próprio daquele dispositivo, só isso. Não acho que a língua tenha ficado empobrecida por isso. Pelo contrário. Agora temos duas palavras para designar duas coisas diferentes. Pobres dos americanos e ingleses, que só têm uma para as mesmas duas coisas.
Por essas razões, a lei do Aldo Rebelo poderia ser apenas uma brincadeirinha engraçada. Acontece que isso é feito com o meu, o seu, o nosso dinheiro. O legislativo é lugar para coisas sérias, não para tentativas bizarras de deter a globalização no plano cultural depois que a guerra foi perdida no campo econômico.