Yo no soy milonguero!

O Ministro da Justiça e Trabalho paraguaio chamou os brasileiros de “sem-vergonhas” numa entrevista, entre otras cositas más.

Ele acha que a fama de traficantes, ladrões e muambeiros que os paraguaios carregam é injusta.

Os traficantes do Rio, os atacadistas de muamba de Feira de Santana e os camelôs de todo o país, que vendem produtos comprados lá, concordam plenamente. É uma injustiça vil.

Mas que esse ministro é falsificado, ah, isso é. E olha o nome dele: José Burró.

Mais leis absurdas

Falando nisso, lembrei agora de um projeto ainda mais bizarro.

Um deputado por um desses cus-de-mundo resolveu, em 99, se não me engano, regulamentar a profissão de escritor.

Típico da tradiçao bacharelista brasileira, é uma das coisas mais bisonhas que já vi. O que caracteriza um escritor? Eu escrevo este blog — isso faz de mim um escritor? Raduan Nassar não publica nada desde os anos 70; ele não é escritor.

A idiotice é um valor que grassa livremente na Câmara dos Deputados.

Ainda o Aldo

Sei que parece implicância ou perseguição ao Aldo Rebelo. Mas não é.

Para todos os efeitos, o Aldo foi sempre um grande deputado. Suas posições sempre foram coerentes (e mesmo agora, com a mudança de posicionamento dos partidos de esquerda para posições perfeitamente endossadas pela revista Exame e pelo FMI, ele mantém sua coerência partidária).

Mas poucas coisas me irritam mais que aquele projeto de lei do Aldo banindo o uso de expressões estrangeiras (estrangeiras uma ova, é só inglês, mesmo) do cotidiano brasileiro. Tudo bem que o tempo passou, ela se perdeu como aquelas besteiras que falamos em dias pouco inspirados, mas continuo irritado.

É o tipo de lei absurda. Parece falta do que fazer.

Em tempos de Internet, é praticamente impossível controlar o jeito como as pessoas se comunicam. Não tem lei que obrigue um povo a deixar de adotar um termo de que ele gosta. And I demand the right to speak as I fancy.

Além disso, a própria língua portuguesa é o resultado de séculos de miscigenação, de concubinato com outras línguas. Do latim vulgar à profunda influência árabe, da mistura com o tupi e o ioruba à aquisição de vocábulos franceses, a língua é sempre um organismo vivo e em constante mutação. Tentar controlar isso através de lei é, simplesmente, burrice.

Eu até concordo com ele quanto ao exagero. Alguns são irritantes, principalmente a mania que aquele povo da Barra da Tijuca tem de achar que mora na caipirolândia perdão, Miami; ou aqueles paulistas que falam “printar”. Mas é natural: um povo sempre tenta absorver os costumes dde um que julga mais avançado tecnologicamente. Isso aconteceu com o inglês: os anglo-saxões, dominados pelos normandos, acabaram adotando muitas palavras deles. O resultado é que ainda hoje o inglês tem mais de 50% de seus vocábulos de origem latina.

E no fim das contas, tudo se ajeita. Em inglês, mouse é rato e aquele “dispositivo apontador” de computadores. No Brasil, mouse é o nome próprio daquele dispositivo, só isso. Não acho que a língua tenha ficado empobrecida por isso. Pelo contrário. Agora temos duas palavras para designar duas coisas diferentes. Pobres dos americanos e ingleses, que só têm uma para as mesmas duas coisas.

Por essas razões, a lei do Aldo Rebelo poderia ser apenas uma brincadeirinha engraçada. Acontece que isso é feito com o meu, o seu, o nosso dinheiro. O legislativo é lugar para coisas sérias, não para tentativas bizarras de deter a globalização no plano cultural depois que a guerra foi perdida no campo econômico.

O Aldo Rebelo do Faubourg Saint Germain

A França acaba de fazer um novo ataque em sua luta quixotesca (ou dantesca?) contra o vernáculo da velha Albion.

O Ministério da Cultura acaba de banir o termo e-mail (e seu primo inglês, email, presume-se). Quer subsitituí-lo (e diz que está conseguindo) por courriel, uma junção de courrier electronique (bidu: correiô eletronicô em francês).

Que grande perda de tempo.

A notícia completa está aqui.