As voltas que o mundo dá

Da newsletter da Wired:

Bye-Bye, Freedom Fries
Good news for House Francophiles: If Texas Rep. Sheila Jackson Lee has her way, lawmakers may soon return to ordering French toast and French fries off House menus. Jackson Lee has circulated a letter urging the House of Representatives to reintroduce the word “French” on House cafeteria and dining hall menus. Jackson Lee argues it is time to put aside differences with France now that Washington is trying to get the country, as well as other United Nations members, to contribute money and troops toward the Iraq effort. “President Bush is now urging that all parties put aside ‘past bickering,'” she said. “A symbolic start to that effort” would be reinstating foods on the House menus “with their traditional ‘American’ names — French toast and French fries.” Bon appétit.

Sheila Lee Jackson é uma mulher pública. Na pior acepção da palavra.

Adendo

Já falei isso antes, mas gosto de lembrar. Uma língua não é empobrecida ao incorporar palavras vindas de outro idioma.

Um exemplo é o mouse. Nos países de língua inglesa eles usam a mesma palavra para definir coisas diferentes, camundongo e aquele periférico do computador. Aqui, mouse é só o tal dispositivo; para os camundongos temos outras palavras, inclusive calunga (de origem africana, se não me engano). Acho que com isso ficamos mais ricos, e não mais pobres.

Purtugueiz num é difíssiu

Alter, qualquer defesa do português por meio de leis ou assemelhados esbarra em um obstáculo simples: um idioma é um organismo vivo. A própria língua portuguesa é o resultado de várias miscigenações: do latim vulgar com o idioma falado numa região da península ibérica, depois com o árabe (sem o qual não existiria sequer a palavra “alfabeto”), e depois com as contribuições do tupi-guarani e das línguas do escravos. Sem falar naqueles galicismos e anglicismos que foram sendo incorporados aos poucos (pelos quais dou graças a Deus; eu me sentiria desconfortável, no mínimo, admitindo que gosto de ludopédio). E sem levar em conta incorporações menores não só de estrangeirismos, mas de corruptelas populares ao longo dos tempos.

Por mais que se tente, é impossível controlar a forma como um idioma se modifica. Sempre foi. Vai ser assim para sempre.

Esse processo é constante, mas normalmente é acelerado quando uma cultura encontra outra superior, ao menos tecnologicamente. O anglo-saxão se curvou sob os normandos e o resultado foi o inglês, que até hoje tem na maioria de seus vocábulos origem latina. E nos próprios Estados Unidos, nas regiões de fronteira com o México, o idioma se modifica a cada dia; por exemplo, eles usam “showerear” em vez de “take a shower”.

Em outros tempos, quando as comunicações eram muito menos avançadas e ubíquas do que hoje, não se conseguiu controlar a importação de estrangeirismos; alguém realmente acredita que será possível agora, em época de Internet e internacionalização de conteúdo cultural?

O que me incomoda no projeto de lei do Aldo — que não sei a quantas anda — é que ela é, defintivamente, um reflexo do atraso. A tentativa de legislar sobre tema tão volátil é um dos piores sintomas de que aquela cultura bacharelista e cartorial que herdamos dos ibéricos não foi suplantada ainda. A idéia de que uma lei vai me fazer deixar de colocar “50% Off!” ou “Sale!” na frente da minha loja, quando é isso que meus clientes querem ver porque os faz se sentirem em plena Caipirópolis — perdão, Miami –, é simplesmente burra. Ou, para tentar ser eufemístico, quixotesca. E me parece, também, uma espécie de pequena retaliação por terem perdido a guerra da globalização no campo econômico.

O Aldo quer realmente defender a língua pátria? É simples. Pegue aquele orçamento ridículo elaborado pelo governo do qual é líder na Câmara e destine mais verbas para a educação, em vez de gastar tempo e o meu dinheiro com leis imbecis. Pare de aprovar alunos praticamente analfabetos e de defender, por corporativismo cego, professores preguiçosos e às vezes igualmente analfabetos. Incentive a leitura nas escolas. É só assim, e não elaborando leis que seguirão a tradição daquelas que “não pegam”, que se vai conseguir fazer com que este povo conheça e respeite a sua língua, belíssima e deslumbrante em seus ãos. Mas que ele não se iluda: esse mesmo povo vai continuar usando as palavras estrangeiras que quiser, na hora que quiser, bastando achar que é mais adequada ou mais fácil que eventuais correspondentes na última flor do Lácio.

No site da ABL há uma série de palestras a esse respeito. Vale a pena ler algumas delas.

O Aldo Rebelo do Bahnhoff Zoo

Aldo Rebelo é aquele deputado pelo PCdoB que cismou em encetar uma cruzada à la Brancaleone em defesa do idioma português, uma espécie de reação filológica à globalização.

Acontece que o Aldo é deputado (aparentemente desocupado à época) em um país sub-desenvolvido. Seu projeto de lei era defensivo. Em países ricos a batalha até pode ser a mesma, mas é claramente expansionista.

O embaixador da Alemanha na Inglaterra, Hans-Friedrich von Ploetz, está tentando fazer com que o ensino do alemão seja compulsório nas escolas inglesas. Não tenho dúvidas de que esse senhor é o Aldo comendo chucrute, bebendo cerveja e cantando “Lili Marlene”.

O Hans é o doppelganger do Aldo.

Lá no fundo, na essência dessas duas cruzadas, a idiotice é muito, muito semelhante.

(Um jornalista americano, comentando essa matéria, disse que Hans deveria lembrar de uma frase do rei inglês Carlos V: “Eu falo em espanhol com Deus, em italiano com as mulheres, em francês com os homens e em alemão com meu cavalo.”)

Lula e as criancinhas

Lula anda acreditando demais no próprio mito. Descontando-se as imensas diferenças, de governo e de caráter pessoal, foi o que aconteceu com Collor.

Na coluna do Ancelmo Góis de hoje, uma nota diz que Lula se emocionou no velório dos mortos no acidente de Alcântara porque cresceu vendo caixões de crianças mortas no Nordeste, e pensou no desamparo dos filhos das vítimas.

A emoção nostálgica de Lula é um desrespeito ao mortos que estava velando, principalmente, mas também ao povo brasileiro.

Não é preciso lembrar de “anjinhos” no Nordeste para se emocionar com aquela cena. Duas dezenas de homens mortos e carbonizados não bastam para que se chore sua perda? Evocar nordestinos mortos pela fome para justificar lágrimas em um velório é tirar dos técnicos de Alcântara o valor de seu sacrifício.

Enquanto isso, o orçamento de 2004 destina menos dinheiro às áreas sociais que o de 2003, de FHC.

Mais Estados Unidos

Está havendo uma confusão aqui entre princípios e práticas.

O Plataformista questiona os princípios americanos em função de sua prática imperialista. O problema é que princípios e práticas nem sempre são semelhantes. Do contrário iríamos questionar os princípios da Revolução Francesa, que degenerou nas maluquices do Diretório e Robespierre, assim como os ideais marxistas, por terem resultado nos expurgos daquele georgiano cotó, o bom e velho Iossif.

O fato do ideal constitucional americano não ser traduzido na sua política externa não quer dizer que ele seja ruim. De qualquer forma, no período de construção e solidificação do país, que vai a independência até a reconstrução posterior à Guerra de Secessão, foram princípios válidos e que determinaram a forma que tomaria o país. É isso que importa.

Mas o Plataformista me deixou com uma dúvida: sobre o quê falava Marx naquela referência aos Estados Unidos. Isso me obrigou a fazer uma coisa que tenho evitado fazer, e fui dar uma olhada em “Rumo à Estação Finlândia”, onde achava que tinha visto essa referência.

Tá lá:

Marx, em seus últimos anos de vida, começou a admitir que, em países democráticos como Inglaterra, Estados Unidos e Holanda, talvez a revolução socialista pudesse se dar através de métodos parlamentares pacíficos.

É a respeito da liberdade, mesmo, já que o diferencial aqui é a democracia e não o desenvolvimento econômico trazido pelo capitalismo.

Mas agora chega. O fato de eu ter ido procurar algo num livro em que não toco há mais de 10 anos é um mau sinal. Esses pensamentos aqui são mal passados. Ou, melhor dizendo: são um amontoado de besteiras inconseqüentes. Não valem uma discussão sobre teoria política.

Bushit

Parece que todo mundo considera a reeleição de Bush inevitável.

O comentarista internacional Rafael Galvão não tem tanta certeza assim.

Argumentos contra Bush:

1 – Guerras desastrosas costumam derrubar presidentes americanos. A Guerra da Coréia derrubou Truman. O Vietnã acabou com as chances de Johnson.

2 – A cada dia cresce a certeza entre os americanos de que entraram numa guerra complicada baseados em mentiras. A oposição, embora ainda pequena, não pára de crescer.

3 – Se a economia não melhorar, Bush vai ficar na mesma posição que o pai dele.

4 – Quem disse que Bush foi eleito da primeira vez?

Mas Bush tem seus argumentos a favor:

1 – 11 de setembro. Bin Laden talvez não saiba, mas é o principal cabo eleitoral de Bush. Esta razão, sozinha, talvez seja mais forte que qualquer outra.

2 – Quem pode enfrentar Bush? Lieberman?

3 – Aquele é um povo absolutamente imbecil.

4 – Quem disse que Bush foi eleito da primeira vez?

Agora é ver no que dá.

Ainda os Estados Unidos

Oi, Plataformista. 🙂

Discordar é legal. Eu vivo discordando. Mas acho que, infelizmente, gosto tanto que acabo sempre discordando de quem discorda.

Quanto ao “se”, você tem razão. Mas eu gosto de pensar que a história é uma sucessão de “ses” que se tornaram realidade. Parece poético. Independente disso, a importância da Revolução Americana é inegável. Ela não é exatamente menos estudada que a Francesa; é apenas menos estudada aqui. Tem uma coisa engraçada que dizem a respeito da banda Velvet Underground, considerada uma das mais influentes do rock: quase ninguém comprou o disco de estréia deles — mas todo mundo que comprou montou uma banda. O mesmo vale para os Estados Unidos. Bolívar se inspirou, por exemplo, no exemplo americano. Que também inspirou a Revolução Francesa.

Além disso, não se deve confundir a ignorância crassa do americano médio com os princípios da Constituição deles. Primeiro porque a informação é assim mesmo, corre dos países mais desenvolvidos em direção aos fins de mundo; não é uma via de mão dupla. Você sabe dizer, de primeira, qual a capital do Burundi? É, eu também não. Não sabemos porque não nos interessa, porque essa informação não faz diferença para as nossas vidas cotidianas, ou mesmo para o que consideramos intelectualmente relevante. Para os americanos, tanto faz se a capital do Brasil é Buenos Aires: é tudo um buraco pitoresco só. Até hoje só houve duas ondas de “brasilianismo” nos Estados Unidos, no pós-guerra como reflexo da política de boa vizinhança, e com a explosão da bossa nova após o show no Carnegie Hall, provavelmente a mais influente. Houve também uma tentativa de colonização da Amazônia no século XIX, mas isso é outra história.

Quanto aos princípios consitucionais, aí é outra conversa. É preciso comparar o momento da Declaração de Indepedência com a situação da Europa na época. Para começar, é fácil esquecer que originalmente os Estados Unidos eram uma experiência totalmente nova. Basicamente, estavam mais próximos da Comunidade Européia, com uma série de Estados — no sentido de países — federados do que, por exemplo, do Brasil (cuja república originalmente se chamava Estados Unidos do Brasil e tinha, em vez de governadores de estado, Presidentes; mas já era um sistema totalmente deturpado em relação ao original), ou mesmo dos próprios Estados Unidos atualmente. Esse espírito só foi acabar definitivamente quando Lincoln rasgou a constituição e impediu a secessão dos estados do Sul.

E tem a questão da liberdade. Para a época, aquilo era o máximo a que se podia aspirar, e mesmo hoje são princípios absolutamente válidos. Aquele era um lugar onde não se precisava de autorização para ir e vir, onde a liberdade de iniciativa era tolerada e incentivada. Não tinha nada a ver com Estados militarizados como a Prússia, por exemplo.

Com o tempo vai-se dando mais ênfase ao outro lado da história. Por exemplo, a abertura dos territórios onde hoje é Oklahoma (tem um filme do Tom Cruise e da Nicole Kidman que fala sobre isso; o filme é uma droga, tanto do ponto artístico como histórico, mas ilustra bem o caso) sempre foi propagandeada como uma prova da democracia e liberdade americanas. Aí vem o outro lado e diz: “é, mas só funcionava para quem tinha cavalos ou carroções”, ou seja, para a classe média em diante. Os dois lados não deixam de estar certos. Mas o fato é que é um sistema muito mais democrático, por exemplo, que o sistema de capitanias hereditárias brasileiro, que até hoje tem seqüelas. Ou o sistema aristocrático europeu, que acabou implodindo após a Revolução Francesa.

Aí pela metade do século XIX Marx dizia que os Estados Unidos poderiam oferecer uma alternativa interessante. Certamente não era a respeito do sistema econômico que ele se referia, e sim ao conceito de liberdade.

É fácil dizer que é um país hipócrita, principalmente depois que os EUA entraram em sua fase imperialista a partir de Ted Roosevelt. E hoje até que é, mesmo; o que assusta é que a onda neo-conservadora, que vem desde Reagan, tenha perdido toda e qualquer vergonha de mascarar sob um véu de humanismo seus interesses econômicos. Mas mesmo isso não deve nos fazer esquecer que a idéia de liberdade individual acima de qualquer coisa é uma conquista histórica muito, muito importante.

Idi ao inferno

Idi Amin Dada morreu.

Ele era o meu ídolo quando criança. Era o que de mais monstruoso eu conhecia na época, mais pervertido. Era o equivalente moderno a um Heliogábalo, pelo menos na minha imaginação. Eu pensava que o sujeito estava morto, mas bem que minha avó dizia que vaso ruim não quebra.

Mas agora que ele morreu, e já que é de bom alvitre falar sempre bem dos mortos, não custa lembrar que, por mais insano que fosse, Idi Amin era um produto da África. Que por muito tempo não poderá ser julgada por padrões ocidentais.

De qualquer forma, que o negão vai pro inferno, vai.

O Império contra-ataca

Assistindo alguns programas na TV a cabo, que eu não via há algum tempo, fico impressionado com a situação deplorável da produção de entretenimento dos Estados Unidos.

Todos eles estão engajados na doutrina Bush, uma visão não apenas canalha, mas absolutamente estúpida do mundo. E dentro desse panorama, boa parte da mídia tem se tornado sustentáculos dessa visão imbecil e que não está fazendo nenhum bem ao mundo.

Um dos programas que me assustaram é Jag, a que nunca assisti antes. Nesse episódio específico, uma militar em Riyad se recusa a usar abayas na cidade, por não ser costume do país dela, e porque ela, como uma dos donos do mundo, se acha no direito de fazer o que quiser. Ela invoca a liberdade constitucional americana para desrespeitar os costumes de outro povo.

O outro programa é 24 Hours, com Kiefer Sutherland, que começou bastante interessante. Hoje, indiretamente, defende a tortura como método de conseguir informações.

A mídia americana sempre foi um suporte importante das posições oficiais do governo; a propaganda maciça durante a II Guerra é o melhor exemplo. Mas quando a coisa ameaçava sair de controle, como durante o mccarthismo, sabia apresentar um determinado nível de resistência.

Os Estados Unidos são responsáveis por algumas das mais belas páginas da história da humanidade, e um modelo para a definição do conceito de liberdade atual. É triste, sim, mas também preocupante, que o país esteja adotando uma política tão descaradamente imperialista. Mas é ainda mais preocupante que a sociedade americana apóie cegamente aquele pastiche de cowboy cocainômano e alcoólatra em sua cruzada.