O golpe do film d'auteur

Certo, o mundo deve muito à revolução teórica e estética que veio daquele pessoal da Cahiers du Cinéma. Pelo resgaste de gente muito boa em Hollywood, pela apresentação e pela crítica do que a França tinha de melhor e pior.

Mas a tese do cinéma d’auteur é uma das maiores bobagens que já se fez em cinema, com a provável exceção de “Godzilla”. É uma mistificação, e nisso se aproxima muito de boa parte da filosofia francesa moderna.

A idéia de caméra-stylo é, provavelmente, o ápice desse 171. O fato é que a função do diretor é dispensável. E a maior parte do que se convencionou chamar de “marca do diretor” é o resultado do trabalho de outros.

Não que um diretor não tenha nada a acrescentar a um filme. Normalmente tem (embora no mais das vezes seja basicamente um copidesque, retocando aqui e ali o roteiro, inserindo um travelling aqui, um close ali). Mas acrescenta usurpando outras funções, como a do cinegrafista. Em que diferem, por exemplo, a maior parte dos filmes feitos por Spielberg e os de George Lucas? Se Spielberg — e estou escolhendo um diretor que acaba tendo uma marca autoral relativamente forte — dirigisse aquele roteiro bobo e diálogos inanes de Star Wars, qual seria a diferença? Ou seja, o problema não é a pessoa do diretor, que no processo de criação de um filme acaba fazendo mais que simplesmente “dirigir”, mas a função de direção.

É simples. A idéia do diretor como autor do filme é um ultraje. Cinema sempre foi “arte” coletiva, típica da era taylorista. É o resultado do trabalho direto de muita gente, de atores ao assistente de montagem. É difícil, para começo de conversa, dizer que um filme tem um autor, especificamente. O que seria de “O Último Tango em Paris”, por exemplo, sem a atuação de Marlon Brando? E ele foi mais além do que o ator normalmente vai, com a sua interpretação: alterou a própria estrutura do filme, com improvisos fantásticos como o monólogo sobre Buddy.

O fato é que, se é para ter um filme ter um “autor”, este é o roteirista. É uma lógica simples. Um mau diretor pode fazer um bom filme com um bom roteiro, e Peter Bogdanovich é a prova viva. Mas nem um grande diretor consegue salvar um mau roteiro. Não há filme sem roteiro, mas um roteiro tem existência própria — e se for muito bom pode ser lido isoladamente: há alguns anos a LP&M publicava em livro os roteiros de Woody Allen, e eles valiam por si sós. A Rede Globo, uma grande produtora de teledramaturgia, reconhece esse fato primário sem muito alarde: não existem novelas de Dênis Carvalho ou Herval Rossano, mas de Janete Clair e Manoel Carlos.

Por outro lado, coordenação da direção de arte, direção de fotografia, cenografia, são coisas facilmente desempenhadas por um bom produtor. E a melhor prova de que a importância do diretor é superestimada está na própria evolução histórica da função.

Durante a era do cinema mudo, o diretor era rei. Mas com o surgimento do cinema falado e a consolidação do studio system o produtor passou a ser o “dono” do produto cinematográfico, e o diretor se tornou pouco mais que um técnico, algo como um capataz ou um cabo de turma. Normalmente só era chamado quando o produtor já tinha definido o filme com os roteiristas, escolhido a equipe, feito o teste do sofá com os atores. Ainda hoje não é o Spielberg diretor, aquele sujeito que grita “ação!” no set de filmagens, que dá uma cara própria a seus filmes. É o produtor, que concebe o filme e eventualmente mete a mão no roteiro.

Gore Vidal defende que o cinegrafista tem mais influência em um filme do que o diretor, e ele tem razão. Por exemplo, não é o trabalho do diretor Robert Rossen que faz de Body and Soul um filme razoavelmente famoso. Foi a decisão do cinegrafista James Wong Howe de usar patins para filmar as cenas de luta. E o que conheço de ilhas de edição me dá a impressão de que um editor é quem realmente define o resultado final do filme.

Houve ao longo dos tempos um bocado de exceções, claro. Frank Capra, Howard Hawks, Billy Wilder; todos esses tinham marcas fortes e próprias. Mas essa marca se revela não no trabalho específico de direção, mas em atribuições típicas de um produtor, como a escolha do roteiro e dos atores. Capra só pôde imprimir sua marca porque, antes de tudo, capitaneava uma unidade de produção independente. E todos conhecem o trabalho de Billy Wilder, essencialmente, como roteirista — um dos melhores da história. Os produtores da era de ouro de Hollywood costumavam entender mais de cinema que seus diretores, e “…E o Vento Levou” deveria calar a boca de quem prega a sua primazia. É um grande film d’auteur, se alguém quiser chamá-lo assim, mas esse autor não foram os diretores que se sucederam numa produção tumultuada, e sim David O. Selznick, o produtor. Falar em Chaplin, então, é covardia.

Mas a mística do diretor é muito forte.

Vi “Os Sonhadores” pela primeira vez há algumas semanas, e dele lembrava que houve alguns comentários blogs afora, mais nada. Perdi os cinco minutos iniciais, e no final cheguei à conclusão de que a única coisa que prestava ali eram as tetas divinas de Eva Green. Porque o filme é uma porcaria sem sentido, mal narrado, que não dá resposta a nada e que tem um dos finais mais incompetentes da história.

Há incesto, não consumado. Há homossexualismo, não consumado. Há cinefilia, não consumada. Há um questionamento político, não consumado. Enfim, o que há ali é um filme não consumado.

A impressão que ficou ao final era a de que o filme tinha sido feito por um bando de universitários (categoria onde se inserem, felizes, alguns dos mais burros e mais pretensiosos seres perpetrados pela humanidade) que passaram tempo demais vendo filmes antigos e tempo de menos pensando. Pareciam falar de de um tempo cuja alma não conseguiam apreender, o que talvez explicasse o uso de canções de Morrison Hotel, disco dos Doors de 1970, em um filme que se passa no início de 1968.

No dia seguinte peguei o filme do começo e vi que o diretor era Bernardo Bertolucci.

O mais curioso é que passei a duvidar do meu próprio julgamento. Se o filme era do sujeito que amanteigou a Maria Schneider, que escreveu o argumento de “Era Uma Vez no Oeste”, deveria ter alguma qualidade que eu não tinha conseguido ver.

Não tinha nenhum, na verdade. O fato, triste, é que eu também havia caído no golpe do film d’auteur.

O sumiço das bichas

De uns tempos para cá Hollywood vem se especializando no homossexual da nova era, e a sociedade vem se dando tapinhas nas costas com seus bons sorrisos hipócritas por ver seus preconceitos diminuírem. A visão de si mesmos no espelho, de uma sociedade cada vez mais liberal e tolerante, é corroborada pela aceitação do que chamam de “amor entre dois homens” e que Oscar Wilde, mais sinceramente, chamava de “o amor que não ousa dizer seu nome”.

Talvez ela até esteja certa, e aceite mesmo que dois homens façam sexo entre si. Mas se forem duas bichas, ah, mona, aí a coisa muda de figura.

Viados e sapatões fazem parte de uma comunidade literalmente singular. Se você é pobre, pode ter a certeza de contar com o apoio de ricos que vão aliviar sua culpa defendendo melhor distribuição de renda, desde que não toquem no deles. Se você é mulher, vai aparecer um bocado de homens defendendo os seus direitos (e, talvez, tentar te comer depois, que isso é bom para todo mundo e faz bem para a pele). Se você é negro, uma porção de brancos vai cerrar fileiras ao seu lado contra o racismo.

Mas se você é gay, você vai estar sozinho.

Movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais, como o Dialogay de Sergipe, não costumam contar com o apoio claro de outros setores do que chamam de sociedade civil organizada. Se fazem uma passeata, não se vê heterossexuais nelas — isso quando fazem, porque uma passeata de bichas e sapatões deve ser prato cheio para vaias e ovos podres. Para a maioria dos heterossexuais, bichas e sapatões podem até não ser mais aberrações, como já foram, mas ainda são incômodos. Algumas vezes justamente.

E nesse processo, parece ter se tornado fácil aceitar os dois extremos mais visíveis. Por um lado o homossexual que não trai os códigos comportamentais de seu sexo, como o viado com pose de homem e a sapatão de batom; por outro a caricatura, inofensiva de tão estridente, como a drag queen. Então a sociedade elogia os viados machos de Brokeback Mountain e se diverte na parada gay de São Paulo.

Este último caso é um dos mais interessantes. Porque ali não há mal nenhum. Porque desde que o carnaval é carnaval as pessoas vão aos montes para bailes gays, e se travestem em desfiles como os das Muquiranas em Salvador. Porque as bichas encapsuladas em paetês são engraçadas. Porque a partir do momento em que a coisa se assume como festa e paródia não há mais ameaça. As paradas gays são apenas um carnaval fora de época.

Enquanto isso o mito propagado por Brokeback Mountain, e outros tantos filmes que tratam ou tocam na temática gay, acaba sendo o de que viadagem é aceitável, desde que os homens falem grosso e as mulheres se mantenham femininas. A sapatão barra pesada, de calças baixas e pose de Humphrey Bogart sem saco, está automaticamente banida da imagem sanitizada do novos gays hollywoodianos.

No fim das contas, esse estereótipo do viado comportado de Hollywood é confortavelmente anódino. A única coisa que os diferencia de heterossexuais comuns é o fato de, à noite, dividirem sua cama e seus fluidos corporais com outros homens. Não há sequer uma sombra da bicha louca que usa jeans apertados e fala sibilando afetação. Fazendo uma comparação com o movimento negro, é como se seus defensores brancos definissem como padrão aceitável apenas os mulatos clarinhos.

Apesar das aparências, Brokeback Mountain não mostra gays; não tem sequer a gayety que lhes deu o nome. Mostra apenas uma variedade de amor e sexo perfeitamente aceitável por uma sociedade que se sente desconfortável ao lidar com algo que foge aos seus padrões.

Até há pouco tempo — antes que o politicamente correto levasse os bobos a acreditar que chamar alguém de “diversamente orientado sexualmente” o tornava menos viado e que homófobos iriam deixar de espancá-lo — , o termo preferido pelos gays americanos para se auto-definir era queer, esquisito. Partia do reconhecimento de que ser gay não era apenas manter relações homossexuais, mas principalmente ostentar um comportamento diferente. Uma bicha não está dentro dos padrões de uma sociedade baseada na família nuclear. E ao evitar tocar no direito dos homossexuais de assumir um comportamento diferente, filmes como Brokeback Mountain acabam reforçando o preconceito, definindo o padrão pelo qual homossexuais devem ser julgados.

É muito fácil aceitar homossexuais machos (aparentemente mais machos até que eu, este velho porco chauvinista, porque eu não falo grosso daquele jeito) como Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, ou lésbicas extremamente femininas e bonitas como as que de vez em quando colam um velcro discreto nas novelas das oito. Levantar a voz para dizer que não tem preconceitos porque não vê estranheza nesses casais é muito fácil, porque isso não representa nenhuma superação dos próprios preconceitos. Difícil, mesmo, é se sentir à vontade — ou pelo menos tolerar, de verdade — com a bichona que mora no apartamento do lado e tem um comportamento que, definitivamente, lhe incomoda — aquelas festas noite adentro ao som de Maria Bethânia e risadas quase histéricas. A bicha cheia de trejeitos, escandalosa, às vezes apenas uma caricatura de mulher, essa não aparece nos filmes, a não ser como motivo de riso. Porque, se aparecesse, não despertaria os mesmos bons sentimentos em uma sociedade que, por mais que se orgulhe de defender obviedades como a união civil homossexual, ainda cuida para que seus filhos mantenham distância do tio viado.

Mas, voltando a Hollywood, o que parece estar acontecendo é curioso. Se esse modelo se afirmar, o que parece ser um avanço social vai se tornar um retrocesso enorme. Porque a partir dele, as bichas acabarão perdendo o direito de ser bichas.

"Esqueçam o que eu escrevi"

Se ele não cumpre as promessas feitas em papel timbrado de um jornal, imagine aquelas feitas em discursos na periferia.

Sei não. Deve ser algo na água dos bebedouros na sede paulista do PSDB.

(Via Idelber. Voltou bem pra cacete, hein, trotskista?)

Edvaldo Nogueira

Hoje, pouca gente sabe, é um dia histórico. Pela primeira vez na história um comunista assume o governo de uma capital brasileira, com a posse de Edvaldo Nogueira na prefeitura de Aracaju.

Diz Edvaldo que me via, quando eu tinha uns 13 anos, com o uniforme apropriado vermelho do Arqui, pegar o megafone em umas passeatas pelas Diretas Já e gritar palavras de ordem, e apostava que eu seria um bom militante no futuro. Meu ímpeto revolucionário, no entanto, não era exatamente grande: para mim, agitar passeatas era melhor que assistir a aulas de matemática. E foi Edvaldo quem me convidou, alguns anos depois, para entrar no PCdoB. Na hora achei desnecessário, porque eu já me considerava militante, mas ele estava certo em fazer o convite oficial. É por isso, provavelmente, que ainda lembro da salinha apertada num velho edifício do centro da cidade, e a sensação de orgulho pelo convite.

Acho que, pelo menos nesse caso, ele estava errado: gosto de imaginar que fui, sim, um bom militante, mas não fui por muito tempo. Eu não tinha, nem de longe, a vocação e a coragem de Edvaldo — e de tantos outros — para a militância política, que fizeram com o sujeito que tinha acabado de entrar na faculdade de medicina acabasse se tornando um dos reorganizadores do PCdoB em Sergipe.

Foi durante a primeira campanha de Edvaldo para vereador, em 1988, que conheci cada buraco de Aracaju, lugares que ainda hoje continuam ermos. Ainda tenho algumas peças da daquela campanha, e rio quando vejo a ingenuidade da plataforma defendida: questões nacionais abordadas por uma campanha municipal. Em 1988 parece que se queria o impossível.

Dos meus tempos de militância ficaram algumas certezas, como a da solidez intelectual de Edvaldo, a honestidade, a capacidade de articulação política invejável e um tirocínio que me faz, até hoje, aceitar sem reservas seus prognósticos (quase sempre: eu duvido que algum dia vá concordar com ele sobre a questão da mais-valia). E os seus cabelos, brancos desde muito cedo, me lembram uma das qualidades que mais respeito nele, talvez por me faltar: uma disciplina acima do comum, a mesma que fez com que a militância política em um partido semi-clandestino o fizesse abandonar um curso no qual já se destacava como assistente de um dos cardiologistas mais respeitados de Aracaju, o dr. José Teles.

Foi o Cauê quem me mostrou uma coisa: este é um momento singular na história de Sergipe, os poucos anos em que uma mudança profunda no panorama político está acontecendo, em que a geração que começou sua vida política nos estertores da ditadura militar finalmente passa a ocupar o espaço político. O Cauê se referiu à empolgação com esse processo como “a realização do projeto de nossa geração”. Mas ele foi generoso demais aí. Não era a nossa geração, porque todos eles (Cauê e Edvaldo foram presidentes do DCEda UFS na mesma época, assim como Marcelo Déda, e os três trazem origens e trajetórias políticas semelhantes), são 10 anos mais velhos que eu, e diante deles tendo a ouvir muito mais do que falo. Pior: tenho a impressão de que todos eles vão ser sempre 10 anos mais velhos que eu.

Edvaldo tem uma missão difícil pela frente: substituir um dos melhores prefeitos da história de Aracaju. Mas um episódio bobo, de ano e meio atrás, me dá a impressão de que ele vai conseguir. A equipe que fez a campanha de Marcelo Déda tinha passado a noite comemorando o fim do programa eleitoral (e antecipando a distância saudável de ilhas de edição por algum tempo) e o que tinha nos parecido uma vitória incontestável no último debate entre os candidatos. Começava a amanhecer, o bar tinha fechado, e um pequeno grupo estava numa loja de conveniência de um posto de gasolina. Uma das jornalistas havia feito uma tatuagem na perna. Edvaldo, mesmo àquela hora, olhou de relance a tatuagem e disse que ela estava inflamada, e o que a moça tinha que fazer. O tipo de coisa que só um bom médico, muito experiente e sob luz decente, pode fazer. E nada mal para um sujeito que abandonou a faculdade de medicina para militar em um partido ilegal há mais de 20 anos.

Naquela hora eu tive uma certeza, a mesma que tenho agora: Edvaldo Nogueira será um grande prefeito.

A dançarina, o caseiro e o 18 brumário de Francenildo Pereira

E a dancinha da Angela Guadagnin foi parar na capa da Veja.

A Veja é a revista que publicou uma das matérias jornalísticas mais absurdas da história do jornalismo político do país, a dos “dólares de Cuba”. Uma matéria inteira sem nenhuma prova, mas principalmente sem sequer uma testemunha. Ninguém havia visto dólar nenhum. Mas isso não importava para a revista. Vale qualquer coisa quando se está em campanha.

Não que a dança da deputada seja elogiável. Mas o que eu vi, no fundo, foi uma senhora comemorando a absolvição de um amigo. É curioso que o Congresso tenha declarado um deputado inocente e pretenda levar alguém à Corregedoria da Câmara por ter comemorado justamente isso. Mesmo isso até seria aceitável, se eles se mostrassem indignados assim cada vez que deputados se estapeassem no Congresso ou xingassem suas respectivas mães. Os critérios, no entanto, são diferentes. Talvez eles prefiram o Schadenfreude. Talvez apenas tenham aproveitado a chance de jogar mais lama no governo.

O problema é que se chegou a um ponto em que todos os que apóiam o governo são culpados, mesmo com prova em contrário.

Por exemplo, qualquer pessoa que conheça um mínimo de política e de eleições sabe que é bem provável que alguns dos deputados acusados de envolvimento com o valerioduto sejam inocentes: gente que pressionava o partido para receber algum dinheiro para pagar suas dívidas e não estava necessariamente envolvida com o esquema. Aposto, por exemplo, que a Heloísa Helena não se perguntou, enquanto tentava se eleger senadora, de onde vinha o dinheiro que Delúbio lhe dava.

O Guto lembrou que se fosse uma deputada do PSDB a dançar, o PT estaria fazendo um terremoto. Provavelmente. Mas é também o caso de perguntar o que é que estão fazendo agora. Porque se isso não é um terremoto artificial, eu não sei mais o que é a escala Richter. Então o problema fica reduzido ao seguinte: o PT deve ser esculachado por ter feito seus terremotos, mas a oposição não pode ser, por fazê-los.

Principalmente nesses últimos meses, tem impressionado a total inversão de valores. Chegou-se a um ponto em que tudo o que se disser do governo é necessariamente verdade. Um ACM Neto pode ameaçar bater no presidente da República, indignado com os rumores de grampo, esquecendo que é neto de um sujeito que grampeou a Bahia inteira por causa de sua amante. Agora toda a oposição é honesta, e todo o governo é ladrão.

Essa dubiedade é ainda mais interessante no caso da queda de Palocci, depois do que foi o cerco mais longo da história de todo o Ministério da Fazenda.

De todos os episódios da crise, nada me pareceu tão canalha quanto o depoimento do caseiro Francenildo Pereira. Podia-se sentir que Roberto Jefferson falava a verdade, ou parte dela. Mas tudo no caso do caseiro tem cheiro de mentira e de armação. No entanto, ainda assim as pessoas parecem acreditar que o dinheiro que apareceu em sua conta é realmente de um pai que nunca o viu, nunca assumiu a paternidade mas, num arroubo de generosidade e instinto paterno, lhe deu um bom dinheiro às vésperas de um depoimento importante. Isso nunca é questionado, porque não interessa a ninguém.

(E é impressionante a incompetência do governo no gerenciamento dessa crise. Em vez de divulgar o extrato bancário do caseiro, era melhor simplesmente pedir a sua quebra de sigilo, mostrar que ele recebeu dinheiro e depois se perguntar o que ele andou fazendo no gabinete de Antero Paes de Barros. Partia para o contra-ataque de uma forma muito mais competente.)

Eu, pelo menos, gostaria de saber quem foi o sujeito que, provavelmente numa sala esfumaçada e diante de uma garrafa semi-vazia de Logan, teve um estalo e lembrou que foi alguém igualmente humilde — e assume-se que pobre não mente –, o motorista Eriberto França, que ajudou a derrubar Collor. Poprque esse sujeito merece algum respeito, pela lembrança, pela falta de escrúpulos e por ter sido um leitor aplicado do primeiro parágrafo de “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, aquele em que, citando Hegel, Marx diz que os grandes eventos da história se repetem como farsa.

Esse, talvez, seja o papel da oposição.

Mas talvez fosse o caso de perguntar pelo destino desconhecido do “republicanismo” e da “oposição responsável” desse pessoal, tão alardeados quando não ainda tinham o que dizer do governo. A investida contra Palocci teve um objetivo único e claro: desestabilizar um governo que mesmo com toda a crise tinha conseguido crescer em aprovação pública porque, apesar das negativas da oposição, vem fazendo, sim, um governo admistrativamente e socialmente competente. Não se trata aqui da culpa ou não do PT, até porque a essa altura isso são favas contadas, mas de algo que este blog diz há muito tempo: que a oposição do PSDB/PFL nunca teve nada de “republicana”, que tudo é jogo político, interesses em um jogo pouco liso de poder.

Anatomia de um vício em processo avançado de gestação

Hojte também não tem post.

E não, eu não acordei de mau humor de novo, que acordar todo dia assim deve ser muito chato, e as pessoas começam a olhar feio para você, e depois de um tempo provavelmente nem você agüenta se olhar no espelho e fica de mal com a vida.

É que o dia está bonito, e em vez de escrever um post eu acho que vou é para a praia.

Cybill

De vez em quando aparece alguém e destrói todos os seus sonhos.

Como Cybill Shepherd, por exemplo. Quando ela apareceu em “A Gata e o Rato”, aí pelo comecinho de 1986, era fácil se apaixonar por ela, e é provável que mais um bocado de garotos de 15 anos tenha se apaixonado por ela — e querido ser Bruce Willis, o sujeito bonito, esperto e cheio de wisecracks.

O rosto aristocrático de senhora sulista, a expressão de cinismo divertido e insolente, a bunda grande e rara em uma loura americana, tudo na Cybill Shepherd era fantástico, grandioso. Ou pelo menos assim parecia, aí pelos idos de 1986.

Aquela era uma mulher, uma mulher de verdade. E se você tem 15 anos, olha para ela como o alpinista olha para o pico do Everest, e olha para o jeito como ela anda e pensa coisas que só se pensam aos 15 anos.

Mas 20 anos se passaram.

E então o tempo, que a tudo destrói, e que é dono de uma crueldade impassível e insensível a qualquer apelo, lembrou que precisava dispensar um pouco de sua atenção sádica a Cybill Shepherd, como se para lembrar que ninguém mais tem 15 anos.

Uma tragédia americana

Esses americanos são uns loucos. Cultivam a imagem de adoradores incondicionais do sucesso, bons protestantes que são. Mas gostam mesmo é do fracasso, da morte espetacular. São uns argentinos que falam inglês naturalmente.

Marlon Brando e James Dean, por exemplo. O primeiro é um ator infinitamente superior, mas foi Dean quem se tornou ícone absoluto e imediato, com apenas três filmes. Só porque seu Porsche Spyder foi arrebentado numa curva.

Kennedy, então, nem se fala. Não fosse Lee Osvald e ele dificilmente seria lembrado como o semi-deus em que se tornou. A mitologia que se cirou em torno dele, a idéia de uma Camelot à beira do Potomac, se tem lá suas razões, parece uma grande brincadeira quando se lembra que o sujeito gostava mesmo era de Ian Fleming. É o fato de morrer no auge que o torna inesquecível. Tivesse sobrevivido e sido reeleito, provavelmente seria lembrado como Lyndon Johnson hoje.

Em 1980 os Beatles caminhavam placidamente para um relativo ostracismo. Então Mark David Chapman deu cinco tiros em Lennon e a tragédia menor de uma banda passou a ostentar dimensões épicas. E criou, também, o mito de Lennon. Enquanto os dois eram vivos, McCartney fazia mais sucesso do que ele, e os críticos davam opiniões igualmente variadas a ambos. Morto, Lennon passou a ser um santo.

De Elvis, então, nem se fala. Longe da música durante a maior parte dos anos 60, em 1977 ele era uma sombra cafona que fazia a delícia de mulheres de meia-idade nos salões de Las Vegas. Bastou morrer, esmagado pela própria decadência física, moral e artística, e o resultado é que até hoje esses americanos loucos o vêem em cada buraco dos Estados Unidos. O Elvis que admiram não é o jovem louro de 1956 que escandalizava as beatas puritanas e trazia um sopro novo à música do país; é a caricatura brega, insignificante em meio a golpes ridículos de caratê. Elvis é, talvez, o maior símbolo dessa mania americana de admirar o fracasso dos outros.

Eles deviam aprender com a gente. Brasileiros não gostam de fracassados; esses são normalmente relegados ao mais profundo esquecimento. A gente gosta de quem realmente faz sucesso, nem que seja para falar mal deles. Por isso, a reclamação de Tom Jobim de que brasileiro tem inveja de quem faz sucesso é só o outro lado dessa fascinação. Brasileiro — e isso inclui até homens brilhantes como Jobim — gosta tanto de sucesso que o considera algo sagrado, o prêmio máximo, e quem o alcança deve ser erigido à categoria de vaca sagrada do qual deve ser pribido, sob pena dos piores suplícios, falar mal.

Nós é que somos os verdadeiros americanos.

Onde está o Noronha? Mas que fim levou o Noronha?

O velório era numa capela mortuária do centro de Aracaju, dessas casas funerárias que oferecem o serviço completo para quem já não se importa com isso.

O caixão estava entre quatro círios opacos, velhos amigos de outros tantos velórios, e sentadas em bancos encostados às paredes as pessoas conversavam em tom baixo, como sempre se conversa quando há um caixão à frente; não por respeito ao defunto esverdeado adiante, mas em respeito à própria reputação, porque dali não deve sair ninguém cochichando “Você viu a Abigail falando alto? Meu Deus, aquela zinha não respeita sequer os mortos.”

A moça chegou deixando claro que havia chegado. Tem gente que chega assim, de uma maneira que não se faz notar por si própria, delicadamente e por méritos seus, mas agarra os outros pela gola e os obriga a perceber que agora há mais alguém na sala. Ela parece ser uma delas.

Vestia cabelos louros e bijuterias vistosas, envergava um vestido estampado com um decote largo e profundo nas costas, calçava saltos altíssimos.

Ela entrou na sala sem prestar atenção a ninguém, e se jogou sobre o caixão em meio ao cheiro enjoativo dos cravos.

— Meu paaaaaaaaaaaaaai!

Entre o pranto escandaloso e a dor repentina, ela parece ter olhado de soslaio para a audiência, que a observava calada, e mais calada que todos a mulher do finado, que a olhava com olhos grandes, grandes demais. A presença de um bocado de gente desconhecida deve tê-la feito olhar para o caixão sobre o qual se debruçava.

E ali estava um negão gordo que ela nunca tinha visto antes.

Ela não falou nada enquanto saía, calada, seus saltos altíssimos ecoando pelo corredor. Mas, como contaria mais tarde, nem mesmo ela conseguiu deixar de rir enquanto saía pela capela procurando a sala onde estava o seu morto.