"Yellow Go Home"

Um dos maiores mitos da história americana é o de que os pioneiros do Mayflower (aqueles que deram ao mundo a idéia nojenta do peru no Dia de Ação de Graças, aqui no Brasil transplantada para o Natal) foram para o Novo Mundo fugindo à perseguição religiosa na Inglaterra.

Foi justamente o contrário: eles foram proibidos de perseguir os outros. Então decidiram que, dessa forma, morar na velha Albion não tinha mais graça. A Inglaterra ficou, de repente, sem sal.

Essa foto, tirada nos EUA no início da década de 1920, é a melhor prova disso. E eu pensando que o problema deles era com os crioulinhos.

Luther King

Hoje faz 40 anos que Martin Luther King disse que tinha um sonho.

É melancólico que a retórica de King, importante nos dias da “luta pelos direitos civis” americana, tenha sido enterrada pelos ativistas sociais negros nos Estados Unidos debaixo de mensagens quase igualmente racistas como as Malcolm X e Louis Farrakhan.

Só para que se possa lembrar os valores realmente importantes, o discurso “I Have a Dream”, um dos mais belos da história, pode ser ouvido e lido aqui.

A decadência da aviação comercial

Eu não peguei aquela fase dourada em que as pessoas colocavam suas melhores roupas e jóias para embarcarem nos Constellation da Panair.

Mas peguei uma época em que o serviço nos vôos nacionais era bem melhor. A comida da Varig era excelente, sempre serviam uma variedade grande de bebidas. A Transbrasil tinha uma maletinha em que vinha até vinho. Viajar de avião, na época, era quase chique.

Hoje, além de uma série de aeromoças feias e mal educadas, como toda paulista, o serviço se reduziu a uma lanche frio e ruim, quando não algumas barrinhas de cereal, aquela invenção imbecil. A crise é grande.

Ferrovias

Uma das coisas que de vez em quando me impressionam é o quanto a História pode ser recente. Estamos tão acostumados a viver em um mundo com características específicas, cada vez mais baseado na eletricidade, que esquecemos como até há pouco as coisas eram bem diferentes.

Nos Estados Unidos, até o século passado havia uma série quase incontável de horas oficiais, cerca de 100. Só o Estado de Winsconsin tinha mais de 30. Isso só acabou ao meio-dia de 18 de novembro de 1883, como se pode ver neste artigo da Atlantic Monthly.

A unificação dos horários, que até então tinha tido pouca importância, se tornou necessária para evitar acidentes nas ferrovias que e espalhavam pelo país. Antes não havia a necessidade dessa correção absoluta. O tempo não era tão medido em segundos como começava a ser naquela época.

Mas para as ferrovias, horários diferentes poderiam significa acidentes sérios nas ferrovias.

As ferrovias foram decisivas para o estabelecimento dos Estados Unidos como uma nação, e das grandes. Elas unificaram goegraficamente o país, e tornaram possível a administração de dimensões continentais. Mas foram ainda mais importantes, e isso é interessante.

E pensar que isso tem pouco mais de 100 anos. Daqui a pouco vai ser quase impossível lembrar dos tempos emque se vivia sem internet.

Os anos 80

Durante muito tempo, eu fiquei imaginando que tinha nascido na época errada.

Minha adolescência foi cometida nos anos 80. E nenhuma década foi tão esquisita quanto aquela.

Nada acontecia. Era tudo simples, tudo comum, tudo velho. A revolução sexual sido aproveitada nos anos 70 e começado nos 60. A explosão do rock and roll, o ápice daquela atitude “jamesdeaniana” datava dos anos 50. A geração beat, a sensação de estar reconstruindo o mundo pertencia aos anos 40. Os hobos americanos tinham desaparecido com os anos 30. Os roaring twenties eram história.

Os anos 80 foram ruins, e como foram. Basta imaginar que os ícones da moda daquela época eram aqueles protagonistas de “Miami Vice”, misturas de cafetão com traficante. A moda era ruim (blazers com as mangas dobradas? Saias balonê? Calça verde-limão com camisa rosa-choque?). A música era ruim (a lista é gigantesca, mas basta citar Dr. Silvana, Spandau Ballet, Inimigos do Rei, Toto…); é curioso que gente que havia virado o mundo de cabeça para baixo tenha feito praticamente só discos ruins naquela década, como os Stones, Who, Dylan. O vazio era tão grande que, para tentar preenchê-lo, fizeram revivals dos anos 50 e 60; mesmo filtrados pelos anos e pela estética da época, eram infinitamente melhores.

Eu não gostava de praticamente nada daquela época, e cheguei a pensar que o problema era comigo. Mas hoje, depois que o mundo voltou a entrar em processo de ebulição (fim da experiência socialista, revolução da internet), eu percebo que tinha, sim, razão: os anos 80 foram uma década de merda.