Brian Epstein

Só agora assisti a Midas Man, filme inspirado na vida de Brian Epstein. É interessante, na medida em que cinebiografias podem ser. Esse tipo de filme normalmente impressiona mais pelo que deixa de fora do que pelo que inclui.

Midas Man se diz um filme de ficção, provavelmente como defesa contra processos judiciais e talvez, até, licença para distanciar-se um pouco da realidade. Por isso, pode-se relevar detalhes, situações, invenções que os roteiristas escolheram. Mas é também inspirado em uma pessoa real, com uma história bem conhecida, e isso requer um certo grau de verdade e de verossimilhança.

Uma cena em que tudo isso se confunde é a apresentação no Royal Variety Show de 1963.

Depois da clássica frase sobre a aristocracia balançar suas joias, o filme apequena os Beatles e os faz tocar Money, porque torna mais óbvio e mais impactante o significado da frase. Mas isso jamais aconteceria, nem nos mais encharcados sonhos de John Lennon. Os Beatles sempre souberam transitar entre a ironia simpática e as cutucadas mordazes, com um nível de espirituosidade e inteligência que os Stones, por exemplo, nunca tiveram. O filme não compreende isso, não entende que fazer isso seria simplesmente agressão e um faux pas. Na vida real, depois da alfinetada eles tocaram Twist and Shout.

Há outros detalhes no filme, no entanto, que suscitam algumas questões.

O primeiro aspecto é a sexualidade de Brian, tema que de modo geral é abordado de maneira equilibrada. O filme é bem-sucedido em mostrar os efeitos da repressão ao homossexualismo na Inglaterra de então, e talvez acerte em não tentar adentrar muito na profunda angústia de Brian em relação a essa parte de sua vida. Mas havia um componente masoquista em Brian que o atraía a marinheiros, homens brutos. Em resumo, Brian gostava de apanhar. Às vezes a coisa saía de controle, e Brian apanhava mais do que queria. O retrato que Midas Man faz desse aspecto é raso, infelizmente, e contextualiza de maneira errada uma agressão que ele sofre.

O filme também ignora o que é mais controverso na história de Brian com os Beatles: a infame viagem que ele fez com Lennon para a Espanha, enquanto Cynthia Lennon ainda estava de resguardo puerperal. Ninguém sabe o que realmente se passou ali. Sempre se falou da fascinação de Brian por Lennon; e é certo que, para Lennon, ir para a Espanha com Brian era principalmente uma jogada de poder dentro da banda. Mas ele sempre disse que tudo aquilo foi “intenso, mas não consumado”; o filme poderia explorar isso, sem cair no sensacionalismo, e teria como resultado um Brian mais multidimensional. Mas desde 1995 nada que não abone a imagem impecável dos Beatles é sequer tolerado pela pequena máquina que administra seu espólio.

O filme apresenta Brian como um empresário sobrenaturalmente eficiente, já a partir do título. Não foi bem assim, e para entender isso basta lembrar das tantas bandas que ele empresariou e se perderam nas brumas do tempo. Além disso, Brian fez alguns péssimos negócios para os Beatles. Para que se tenha uma ideia, quando os produtores de A Hard Day’s Night o procuraram para fazer o filme com seus rapazes, Brian queria saber quanto os Beatles teriam que pagar por isso. Como disse McCartney anos depois, ele era verde. Aliás, Midas Man não mostra também a resistência permanente de McCartney, o que fazia dele justamente o beatle que Brian mais se esforçava em agradar.

No filme, a relação entre Beatles e Epstein parece perfeita, perfeita demais. Nunca foi. É claro que não se pode questionar sua devoção, seu empenho total, e sua percepção intuitiva de que quanto mais divulgação, mais benefícios a banda teria. Isso o filme consegue passar muito bem. Mas por outro lado, Brian não conseguia enxergar a dimensão que os Beatles alcançaram, e que era possível divulgar a banda e ganhar dinheiro com isso também. O Brian real era menos cool, mas muito mais rico e interessante que o que vemos em Midas Man.

Também faz questão de ignorar que depois do fim das turnês, a relação entre ele e a banda se deteriorou. Brian já não sabia qual o seu lugar no mundo. Falou até em vender os Beatles a Robert Stigwood, que acabou tendo que se contentar com os Bee Gees e em fazer um dos piores filmes da história, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Talvez tenha sido essa a sua maior deficiência: não entender que havia um lugar para ele no mundo novo que os Beatles estavam criando. Em 1967, Brian era um homem deprimido, sem propósito e amedrontado. Não há sentido em especular se sua morte foi acidental ou suicídio, como alguns quiseram fazer crer. Mas não dá para negar que o seu consumo de drogas tinha sido acelerado pelo vazio existencial que ele vivia naquele momento.

Talvez o grande problema do filme seja a insistência em fazer de Brian Epstein uma figura muito maior do que o que era, como tem sido a regra em tudo o que se refere aos Beatles. Brian era gigantesco como era, e isso é suficiente.

Os 100 melhores filmes do New York Times

Depois que o crítico A. O. Scott pendurou as chuteiras, as coisas parecem ter desandado na editoria de cinema do New York Times. Tenho a impressão de que a decana do velho jornal agora é a Manohla Dargis, que uns 15 anos atrás escreveu um longo artigo louvando a ideia de blockbusters. Essa parece ser a visão de cinema do jornal atualmente. E só isso explica a lista de 100 melhores filmes do século XXI que o jornal publicou há alguns meses, e que eu esqueci de comentar.

A lista começa errada e termina errada. O melhor do século, para eles, é “Parasita”, um filme mal resolvido que não consegue se manter à altura de sua primeira metade. “Parasita” está muito longe de ser essa obra-prima que apregoam, não era sequer o melhor do ano em que ganhou o Oscar. Há pelo menos algumas dezenas de filmes melhores, e isso contando só os que estão presentes na lista.

Chega a ser inacreditável que um dos maiores cineastas vivos — e dos pouquíssimos a quem se poderia conceder o título duvidoso de “autor” —, Pedro Almodóvar, tenha apenas “Volver” na lista; seu “Fale Com Ela”, por exemplo, é infinitamente maior, e quase toda a sua produção é superior ao rame-rame americano incluído aqui.

Enquanto isso Greta Gerwig, que a julgar pelo New York Times é a maior cineasta viva, comparece com “Frances Ha”, bom filme, e “Lady Bird”, medíocre.

Woody Allen se tornou veneno. Seu “Meia-Noite em Paris” foi injustamente elogiado à época, e eu acho que seu último grande filme foi “Desconstruindo Harry”, mas Allen teria lugar nessa lista com alguma folga. Infelizmente, o mundo continua em sua cruzada injusta e criminosa contra Allen, e o resultado é uma lista que, só por sua ausência, já se torna capenga.

É triste quando se deixa de incluir um filme porque se resolveu que seu diretor não é boa pessoa. Mas o mais curioso, mesmo, é que como esses critérios são sempre imbecis, estúpidos e deletérios, não fazem isso com Leni Riefenstahl, cujo Olympia sempre está nas listas de melhores filmes. Sieg heil.

Os filmes de super-herói, gênero que só se pôde realizar adequadamente neste século e se esgotou rapidamente, tem dois filmes: “O Cavaleiro das Trevas” e “Pantera Negra”. Este último, que me perdoem, é só mais um filme da Marvel quando ela já se esforçava para espremer o bagaço de um modelo criado alguns anos antes. Entrou pelas cotas. Enquanto isso, “Homem Aranha 2”, um filme perfeito dentro do gênero, e os primeiros “Homem de Ferro” e “Vingadores”, que definiram essa estrutura, são ignorados. Ignorado também é Sin City, um exercício magnífico de direção e estilo.

Três desenhos animados entram na lista: “WALL-E”, “Up” e “Ratatouille”. São excelentes, todos eles — a primeira metade de “WALL-E” é um poema visual estonteante, uma obra-prima. Mas falta “Shrek”, um desenho muito mais influente e surpreendente, e “Os Incríveis”, também inovador de uma maneira que, por exemplo, “Ratatouille” não é. E que me perdoem esses cultuadores do novo, mas a sorte de todos é que “Branca de Neve e os Sete Anões” não concorre a esses prêmios, porque nenhum deles ainda conseguiu superar o que deu início a tudo isso.

Amour está na lista. Mas The Father, que também fala sobre demência, é muito melhor em termos de linguagem cinematográfica. As soluções de Christopher Hampton e Florian Zeller são brilhantes, e são elas que fazem com que o filme não afunde sob a interpretação gigantesca de Anthony Hopkins. Mas eles esqueceram disso.

“Melancolia”, de Lars Von Trier, está na lista no lugar que deveria pertencer, por direito natural, a Dogville. Dogville é talvez o filme mais brilhante, mais absolutamente cinematográfico deste século; “Melancolia” é longo demais, chato demais, mas eles não acham isso.

Um aspecto curioso da lista é a reduzidíssima presença de filmes iranianos. No início do século, eles eram louvados indiscriminadamente, por virtualmente todo mundo — e eu sempre achei que confundiam choque cultural com qualidade cinematográfica. A Separation está lá; eu pelo menos, prefiro Monsieur Lazhar e o crudelíssimo Incendies — sei, sei, não são iranianos, um é canadense e o outro, do Villeneuve, é franco-canadense, mas para mim é tudo turco.

Tàr, Ocean’s Eleven, Gravity, Almost Famous, The Social Network, Moneyball, uma tonelada de filmes medianos encontra lugar nessa lista, “Roma”, para mim um dos dez melhores deste século, está lá no meio. “O Segredo dos Seus Olhos” — o original, não a refilmagem americana — não está em lugar nenhum.

A lista acaba sendo um retrato mediano do panorama cinematográfico americano. E no fim das contas, o que ela diz é que é cedo demais para fazer uma lista com 100 grandes filmes, porque ainda não deu tempo para isso. O que não justifica a inclusão de tanta bobagem.

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Quer me irritar, corrija minhas vírgulas.

Deixa eu começar dizendo que eu sei que sei escrever, a modéstia à puta que pariu.

Não conheço gramática, nunca aprendi. Lembro que descobri o que era aposto já no século XXI, e fiquei feliz e orgulhoso; de lá para cá quase esqueci o que é. Mas sei escrever. Sei usar crase, também, e me assusta quem não saiba, porque sua lógica é fácil demais.

Acontece que eu sou baiano e aprendi o básico do portuga velho de guerra lendo o que me caía nas mãos, não na escola onde a professora Rose, da Alfabetização, tentou me forçar a escrever em letra de forma quando eu já tinha chegado sabendo ler e escrever, e a professora Maria José, da primeira série, tentou me convencer que o correto era falar “naisci”, e não “nasci”. Aprendi a desconfiar de regras desde muito cedo.

Mas, acima de tudo, eu sei usar vírgula. Ou melhor: sei como deveria usar e sei por que não uso, quando não uso.

É o Word, esse escroto americanizado, que fica me mandando colocar vírgulas onde não quero colocar. O Word tem alma de contador. É ele que me faz revoltado, que me faz escrever este texto.

Talvez a principal razão pela qual sou fã absoluto de Jorge Amado seja a maneira baiana como ele usa vírgulas. Com o Amado você aprende que é a vírgula, não o ponto, nem as reticências que dão a qualquer texto o ritmo que você quer — que dá a delicadeza necessária às vezes, a conexão certa entre raciocínios apenas semelhantes, que deixa clara a distância exata que existe entre um e outro, nem maior, nem menor.

Uma das coisas mais maravilhosas que li quando criança foi o monólogo de Leopold Bloom no final de “Ulysses”, a tradução do Houaiss. Não li o livro todo na época, claro. Mas aquelas vinte e tantas páginas sem vírgulas, sem pontuação, deixaram um legado indelével: eu aprendi que era possível escrever sem vírgulas, e as coisas faziam um sentido estranho, tão melhor que os livros a que eu estava acostumado.

E porque era possível passar sem elas entendi a sua singularidade, entendi por que eram especiais.

É por isso tão triste um escritor como Hemingway. Pontos. Muitos pontos. Não que eu não o entenda. Sabe Deus como o velho fanfarrão ajudou a limpar o horizonte de uma literatura muitas vezes empolada e rococó. Mas Hemingway é um escritor americano e aquela ruma de pontos acaba mostrando isso, uma atitude típica, quase puritana, um certo jeito duro de ver o mundo, gringo sem cor e sem ginga que não sabe sambar.

Fosse baiano — não, baiano não, baiano seria demais para ele — e Hem saberia que vírgula é amor, é dengo. É ainda mais que o fim do preto e branco, é a percepção de que o mundo é mais doce do que pontos tão marciais querem fazer parecer. Vírgula é a continuação do carinho, a certeza de que nem tudo acaba.

Ponto é peremptório, é grosseiro, é dá ou desce. Vírgula não, é desça não, neguinha, dê, vá… Vírgula é um sujeito implorando, por favor, eu imploro, sabendo que vai receber.

Tem coisas que ninguém deveria usar. Pontos de exclamação, por exemplo. Por quê? Por que gritar dessa forma? Coitados, parecem alegria falsa, sorriso amarelo seguido de um “êêêba…” desenxabido dado por criança que ganha roupa em vez de brinquedo no Natal.

E pois. Existe alguma palavra mais feia do que pois? Pois é a coisa mais redundante que um filho de Deus já colocou neste mundo. “Vou comer uma buchada, pois estou com muita vontade”. Pobre intrometida, sinhazinha sibite de nariz adunco e queixo duplo e amostrada que só faz conspurcar um texto que uma vírgula, sempre ela, resolve com menos afetação e mais delicadeza: “Dá um beijo, eu quero tanto…”

Ah, as reticências… Deixa eu avisar, reticências são perigosas, são sonsas. Moças sonsas são um perigo, e quando você se dá conta elas colocaram Rohypnol na sua bebida e levaram sua carteira, são as moças que quando a porta se fecha não têm mais os olhos baixos nem são mais reticentes, e lhe jogam na cama e lhe rasgam as roupas, e é nessas horas que você corre o risco de se apaixonar perdidamente por elas, e largar a mulher em casa e os quatro filhos, começar a faltar à repartição, pedir dinheiro no agiota, e ir atrás delas até o dia em que vão embora com outro sujeito, deixando como destino para você apenas uma mesa de boteco vagabundo que apara lágrimas tão amargas, tão amargas, me ouça. Reticências são Circes que lhe levam ao redemoinho…

Que outros mais fortes fiquem com as reticências, que os idiotas fiquem com os pontos de exclamação. Eu fico com as vírgulas.

Mais um adeus aos jornais

Não sou jornalista. Não quero ser. Não posso dizer que nunca quis porque aí pelo final dos 80 eu quis, e cheguei a escrever num semanário já defunto, O Que, jornal de um amigo que me permitia escrever mal e ainda me pagava, de vez em quando, uns caraminguás por isso.

Não sou jornalista porque não tenho vocação para repórter. Fossem outros os tempos, tempos de redatores e copidesques, eu talvez pensasse no assunto. Seria um bom copidesque e um excelente redator, modéstia às calendas. Mas quando me dei por gente o jornalismo tinha mudado, tinha ficado mais sério. Não sei se mais ético — que ético, mesmo, o jornalismo de modo geral nunca foi; mas o método de produção tinha mudado, as funções também.

Não sou jornalista e no entanto minha vida está irremediavelmente ligada a jornais e revistas. Impressos, sempre, os únicos a poderem ostentar essas definições bem específicas. E por isso eu sinto uma tristeza enorme quando vejo jornais e revistas desparecendo, sem que ninguém sinta de verdade sua falta.

Não devia ser surpresa, porque quase todo dia me certifico que algumas das cinco ou seis bancas de jornais que ainda restam em Aracaju continuam funcionando e cumprindo sua função original, que é vender periódicos. Mas dois ou três anos atrás, num bate-e-volta em Belo Horizonte, procurei jornais para comprar e tive dificuldades em achar. A Hudson, que substituiu a LaSelva do meu tempo, não vende mais jornais, muito menos os de outros estados; vão longe os tempos em que aeroportos como Galeão e Cumbica eram praticamente centrais de distribuição de jornais de todo o país e mesmo estrangeiros, quase tão longe quanto os tempos em que as companhias aéreas davam jornais para seus passageiros assim que entravam no avião. Ninguém se interessa mais. As notícias estão no celular.

Achei um Estadão em Confins, no entanto. Devia fazer tempo que não via jornais impressos do sudeste, porque ele circulava em formato berliner já havia algum tempo e eu não fazia ideia. Enquanto esperava o avião que me levaria para a minha via crucis de conexões em horários ingratos, li o jornal e me assustei com o que lia.

Que jornal ruim.

Muitos anos atrás, considerei o Estadão o melhor jornal brasileiro: era mais bem escrito, mais denso, com bons textos. Nunca gostei do estilo da Folha de S. Paulo, mesmo na época em que ela não se igualava a qualquer pasquim do interior e não publicava matérias pagas da Prefeitura de São Paulo sem identificação; o que se salvava nela era o Mais!, caderno cultural dominical que às vezes podia ser brilhante.

Mas agora o Estadão me dá apenas as notícias que li no dia anterior, sem o necessário aprofundamento que, na minha opinião, tornaria o jornal mais relevante. Desapareceram também um número grande demais de editorias e seções.

Lendo isso que escrevi me sinto um velho retardado e bêbado — e poxa, eu não sou retardado —, que fica repetindo e repetindo as mesmas coisas, sem parar. Nada disso, claro, é novidade. Nem mesmo a minha tristeza. Mas ainda não consegui aceitar que jornais impressos não significam mais nada.

Eles estão condenados há muito tempo, e não há reinvenção possível que consiga reverter essa caminhada inexorável rumo ao fim. O que ainda sustenta os jornais brasileiros é o absurdo legal de obrigar empresas e governos a publicarem balanços e editais neles, só isso, e o fato de ainda terem um resquício de diálogo com a elite dirigente do país, o que abre espaço junto a governos e alguns poucos anunciantes muito grandes. Classificados não fazem mais sentido, e por que comprar um quarto de página de um jornal se um post patrocinado no Instagram vai custar infinitamente menos e alcançar muito mais gente? Os jornais vão continuar definhando, junto com a morte dos cada vez mais velhos que se acostumaram a viver com eles.

Mas acho que seria possível, ao menos, evitar que os velhos abandonem os jornais. Paliativo bobo e insignificante, sabemos todos, mas indício de um resto de dignidade e valor. Se é para cair, que caiamos todos em pé, com os punhos fechados e dedo médio em riste.

Por causa do susto que tive com a mediocridade do Estadão, fui catar edições em PDF dos grandes jornais americanos. Dispensando o USA Today que nunca prestou, baixei e folheei edições do New York Times, Wall Street Journal e do Washington Post.

Em primeiro lugar, é tão melancólico perceber que os jornais nunca foram tão bonitos. Parecem as palmeiras talipot que estão floridas no Aterro do Flamengo neste exato momento, apenas para morrer em seguida. Pessoalmente me sinto mais confortável, mesmo, é com o aspecto blocado dos velhos standards em P&B, mas é difícil não se deslumbrar com a limpeza e elegância dos jornais agora feitos no computador. O WSJ ainda tem os hedcuts que a Gazeta Mercantil copiava no Brasil; mas ele não se compara em termos de espaço visual com o que eu conheci 20 ou 30 anos atrás. Curiosamente, eu sempre entendi que diagramação de jornais é vertical, mas o WSJ estrutura seus artigos na horizontal. Como não lembro como ele era quando circulava como standard, imagino que talvez seja um sinal dos tempos.

Os jornais trazem o equilíbrio entre as notícias que todos querem ver e as que precisam ver. O trabalho de reportagem, inimaginável hoje nos grandes jornais brasileiros — e que nunca existiu nos pequenos — é impressionante. A qualidade do fotojornalismo americano é infinitamente superior ao brasileiro. Mas é o nível alto do debate presente em suas páginas que mais surpreende, especialmente no Wall Street Journal. Para brasileiros que passaram anos lendo e ouvindo os editoriais do Estadão e do Jornal Nacional, é quase um alívio ver o pensamento de direita alguns andares acima da estupidez rasa da direita brasileira. E olha que a era Trump está cobrando um preço alto ao jornal.

Deles, apenas o Washington Post tem alguma semelhança com os jornais que eu lia 30, 40 anos atrás. Uma página inteira de quadrinhos, horários de TV e cinemas, uma ligação grande com a cidade materializada em endereços, horários. É um jornal mais agradável de ler que o New York Times. Deve haver alguma explicação sociológica para isso, ou talvez seja só o aferramento a velhos hábitos de um sujeito que cresceu lendo a Veja e nunca conseguiu se adaptar à Época.

E aí volto para o Estadão, jornal medíocre que não faz mais nenhum sentido.

Não se trata apenas da competição com a internet. A impressão que ele deixa é a de que há uma decadência na maneira de fazer jornal impresso, na seleção de assuntos, na compreensão do que é realmente importante. É como se, sabendo que a morte bafeja em seu cangote, eles tivessem se resignado. E talvez seja o melhor que eles fazem.

O Cruzeiro

Eu sou fã de revistas, sempre fui, e como o disco arranhado que sou, de vez em quando lamento aqui o fim das bancas onde elas eram vendidas.

Revistas editavam a informação disponível, definiam o que era importante saber, apresentavam algo que talvez você quisesse conhecer, e no fim das contas isso facilitava a vida.

A verdade é que a maior parte da informação, mesmo aquela que você julga importante ou que minimamente lhe interessa, é inútil. Não muda a sua vida em absolutamente nada, e você não poderá fazer nada quanto a isso. Me diga em que a morte da princesa Diana mudou a sua vida. Em certa medida as revistas aproximavam e homogeneizavam o mundo, sem o excesso de angústia dos dias de hoje; sem fazer nenhum juízo de valor, é algo a que éramos acostumados, e sua ausência é sentida.

Mas nenhuma das revistas que agora desaparecem a três por quatro pode se comparar à revista O Cruzeiro.

Tenho uma aqui em casa. Comprei num sebo em São Paulo, nem lembro mais quando foi. E do momento em que a folheei pela primeira vez até hoje, essa revista me deslumbra.

Ao lado está o seu expediente. O que chama imediatamente a atenção é a variedade absurda de assuntos que uma revista semanal conseguia abarcar. O Cruzeiro conseguia atender aos interesses de leitura de toda uma família, fosse ela qual fosse, pertencesse à classe que pertencesse; bastava saber ler. Mas mesmo analfabetos — que nesse tempo eram mais ou menos a metade da população brasileira — podiam folhear a revista e ter prazer nisso.

Essa variedade, claro, nem se compara à vastidão do universo daquilo que se chamou um dia de World Wide Web. Mas ela tinha duas vantagens que a web não tem: estava tudo em um lugar, condensado, e era informação que não se podia encontrar em outro lugar, não com tal facilidade. E essa era a mesma informação a que seu vizinho ou o sujeito que morava a dois mil quilômetros de você também tinha.

Havia uma certa magia que se perdeu, mas também uma conexão que as redes sociais, paradoxalmente, não podem dar.

Papel semelhante tinha uma revista como a americana National Geographic. Tenho algumas dos anos 50 e 70, e andei folheando outras numa biblioteca. Por muito tempo elas desvendaram a multidões a vastidão e as maravilhas de um mundo que não poderiam ser reveladas de outra forma, com exceção de documentários como os de James Algar para a Disney, que mais tarde fariam a alegria das crianças que assistiam a “Disneylândia”, eu entre elas.

Mas era diferente. Havia nas revistas um senso de raridade que os filmes extinguiriam, de profundidade também. Filmes significavam abundância de imagens, mas o conhecimento que as revistas lhe ofereciam era mais sólido, mais ponderado. Essa raridade, essa escassez, trazia ao mundo uma certa magia que hoje não é mais possível, assim como o mineiro de hoje não experimenta, pela primeira vez diante do mar que viu pela TV, o mesmo deslumbramento daquele que nunca tinha visto ou ouvido nada semelhante, que não podia imaginar o que é a onda quebrando na praia. A abundância nos deu o direito de sermos blasés com o mundo.

As pessoas têm a mania de dizer que a chegada de um novo meio de comunicação não destrói os anteriores. Durante muitos anos jornalistas do copo meio cheio abriam a boca para dizer que o rádio e a TV não acabaram com os jornais — o que era só meia verdade, porque em 1950 uma cidade como Rio, então capital federal, tinha talvez dezenas de jornais diários e 30 anos depois não tinha meia dúzia. O rádio diz que a TV não acabou com ele — ah, ouça rádio hoje, ou mesmo há 30 anos, e compare com o auge da Rádio Nacional; procure um programa como PRK-30 e, por favor, não ouse compará-lo ao Pânico.

Mas uma coisa é inegável, e não tem otimismo que negue isso: a TV acabou com revistas como O Cruzeiro. Em seu lugar ficou um arremedo da Life, que era a Manchete, e as “semanais de informação” modernas — ao menos eram modernas entre os anos 60 e 90 —, como a Veja e a IstoÉ que acabou no início deste ano: revistas para serem lidas inteiras no dia em que são publicadas, voltadas para um público específico, quase um complemento da televisão. Jamais aspiraram a ter a complexidade e abrangência daquelas revistas de um tempo em que, na quase totalidade do país, elas materializavam imagens desconhecidas.

A internet está matando todas ela, dando lugar a um mundo de informação excessiva, inexpressiva e inútil, e é claro que não faço ideia das consequências. Andam dizendo que estamos ficando mais burros, e eu não duvido. Eu, pelo menos, estou. E desconfio que o mundo sem revistas é feito para emburrecer a gente, mesmo.

O circo

A foto ao lado foi tirada há uns 15 anos na BR-101, diante de um posto da Polícia Rodoviária em Malhada dos Bois, Sergipe.

Não é difícil imaginar sua história: o comboio de um circo passou por ali, foi parado pela Polícia Rodoviária, o trailer estava em péssimo estado e com documentação totalmente irregular. O circo foi embora, jamais pagou a multa — talvez mais cara que o próprio trailer — e ele ficou lá durante alguns anos, como um monumento triste a uma era que tinha acabado.

Durante muito tempo o circo foi o lugar onde crianças podiam ver de perto maravilhas inacreditáveis. Leões, tigres, acrobatas, podiam rir com os palhaços, tentar entender como o mágico fazia um helicóptero desaparecer do picadeiro.

O cinema e a TV reduziram essa importância, porque podiam oferecer proezas ainda mais impressionantes. Mas mesmo para crianças sofisticadas nas cidades grandes, um domador na jaula dos leões era uma experiência impossível de ser replicada pelo cinema ou pela TV.

Mas isso era verdade para o século passado, e este século XXI já se encontra bem adiantado. Tihany, Bartholo, Orlando Orfei, Garcia, Vostok: os grandes circos brasileiros acabaram, ou mudaram completamente. O Tihany a que fui em Água de Meninos, no final dos anos 70, era um circo magnífico. Mas nos anos 90 anunciava constantemente que estava mudando a natureza dos seus espetáculos, agora era algo mais próximo do music hall, e na última vez que fui a ele tinha moças bonitas desfilando e dançando como em um musical de Busby Berkeley, e nem sombra de um leão, de uma onça, nem mesmo um gatinho.

Nenhum deles resistiu à pressão cada vez maior de uma sociedade cuja sensibilidade em relação aos animais vinha mudando aceleradamente.

Em fevereiro de 2000, fui assistir ao Vostok em Aracaju, com minha filha e os meus sobrinhos. Pela primeira vez, fiquei no camarote — curiosamente, desde criança a imagem mental que tenho de camarote é justamente esse tipo, o quadradinho com cadeiras à beira do picadeiro, e não frisas em teatros chiques.

Foi a última vez que vi um domador de leões em ação.

De Aracaju o circo seguiu rumo ao norte, parando em Maceió. Em abril estava em Recife quando um daqueles leões agarrou e matou um menino que passou perto demais da jaula.

Aquele foi o golpe de misericórdia na ideia de circo como eu conhecia. A pressão dos grupos de defesa dos animais, que já vinha conquistando vitórias irreversíveis nos anos anteriores, pôde dar seu golpe de misericórdia. A comoção nacional pela tragédia do Vostok acabou de vez com os animais no circo. Não apenas os ferozes, como tigres e leões, mas cavalos, poodles, qualquer coisa de quatro patas.

Circo sem bicho, para mim, nunca foi circo. Certo, eu gostava dos acrobatas, do mágico, até mesmo dos palhaços, mas tudo isso era acessório, apenas: eu gostava era do domador colocando sua vida em risco e mostrando às bestas ferozes quem era que mandava naquela bodega.

A verdade é que sempre que via o “Mundo Animal” ou os canais tipo Discovery da vida, com aquelas cenas de caçadas nas savanas africanas, eu nunca deixei de torcer pelo leão.

E então o circo acabou para mim.

Fui mais algumas vezes, mas minha filha vem de outra geração, não gostava, deixei de ir. O circo foi substituído por desenhos animados da Pixar, por peças de teatro infantil, a cultura do circo passou a se resumir a peruanos equilibrando malabares em cruzamentos. Os governos do PT deram uma aliviada ao setor, liberando dinheiro para que os circos se reequipassem: lonas novas, novos caminhões. O setor circense ganhou um respiro que precisava havia muito tempo.

Mas há alguns anos fui a um espetáculo pela primeira vez em muito, muito tempo. E sentir novamente um cheiro que eu julgava esquecido, o cheiro da lona e da serragem, foi como reencontrar um velho amigo, perdido há muito tempo e quase esquecido.

Mas só um pouco mais tarde veio a revelação.

A contorcionista tentava acertar um balão atirando com os pés. É uma atração comum, não era nada que eu já não tivesse algumas vezes.

Ela errou.

Foi quando entendi algo que nunca tinha conseguido perceber, satisfeito com meus leões que rugiam para o domador.

A magia do circo não estava nos bichos que só se podia ver ali, nas acrobacias perfeitas, nas motocicletas que não se esbagaçam dentro do globo da morte. Ela estava justamente na possibilidade do erro, no que pode não dar certo, e era isso que fazia crianças prenderem a respiração antes de cada feito heroico dos artistas. A magia do circo estava na sua humanidade. E isso não tem TV, não tem cinema, não tem inteligência artificial que substitua.

Simonal

Desde que assisti a “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, o documentário sobre Wilson Simonal, uns 15 anos atrás, uma coisa me incomoda.

Ao longo dos anos, se consolidou uma certa narrativa de que Simonal foi vítima de um “cancelamento” da esquerda, tese que é, curiosamente, encampada por ao menos parte tanto da esquerda quanto da direita. Mais recentemente, a noção de que ele foi prejudicado também pelo racismo velado que se espraia na sociedade brasileira ganhou força, fruto de um olhar revisionista nem sempre acertado, e adequa essa percepção às exigências socioculturais de um tempo diferente.

Isso me incomodava porque lembro de Simonal aparecendo em programas como Flávio Cavalcanti e Hebe Camargo, nos anos 80; ele não foi banido da mídia, como essa narrativa — que existe pelo menos desde os anos 80, se não antes — insiste. E porque, ao contrário de ao menos parte de quem repete essa história, eu conheço os discos de Simonal.

Resumindo a história: na virada dos anos 70, Simonal era um dos cantores de maior sucesso do país. Como muitos artistas, vivia à larga. E como muitos artistas, acabava gastando mais do que ganhava. Quando percebeu isso, procurou em seu contador um bode expiatório. Inculto, refletindo os valores da classe de onde vinha e de sua própria personalidade razoavelmente oportunista, apregoava ao mundo que era “assim com os hôme”, e pediu a dois investigadores ligados ao DOPS que dessem um esquenta no contador, para que ele confessasse que tinha desviado o seu dinheiro. A coisa saiu de controle, ganhou os jornais, e além da reprovação social pelo que tinha feito, Simonal ganhou fama de ser informante do SNI. A partir daí, segundo essa visão, Simonal seria boicotado por um ambiente artístico predominantemente de esquerda, e teria sua carreira brilhante interrompida.

Malditos comunistas.

Mas nada disso corresponde à realidade. Até 1983, Simonal só não lançou um álbum ou compacto em 1981. Em média, um LP a cada dois anos. Sua imagem foi arranhada, claro, mas o boicote não impediu que ele lançasse seus discos, fizesse seus shows.

O problema é que ninguém ouvia.

A história tem mostrado que se um artista lança bons discos ou tem o que dizer, suas posições políticas interessam pouco ou nada para quem gosta deles. Sérgio Reis, Zezé di Camargo e Luciano, Leonardo, Amado Batista continuaram com seu público, mesmo tenho se alinhado ao que a política brasileira produziu de mais podre desde Carlos Lacerda. Lobão, sujeito errático cujo ápice se deu quase 40 anos atrás e que acabou se tornando, em determinado momento, uma espécie de embaixador de uma direita canalha para uma geração que envelhecia, está voltando ao que se entende hoje por mídia, aparecendo em podcasts até com Casagrande, sujeito notoriamente de esquerda, ainda que festiva; é muito adequado a um tempo em que opiniões bombásticas são muito mais importantes do que fatos. Mas Lobão é um homem inteligente, articulado, que consegue parecer mais culto do que é e que tem vantagens mais que óbvias quando comparado a, por exemplo, implausibilidades como Roger Moreira, a melhor prova da presença de DNA neanderthal no homo sapiens. Os outros fazem ou ao menos cantam a música que seu público quer ouvir.

Simonal era um cantor magnífico, com um swing e uma noção de tempo invejáveis. Enquanto teve repertório à altura, em acordo com o seu tempo, fez um sucesso arrebatador, mais do que merecido. Mas a partir de 1972, ou pelo menos de 1973, seus discos caem abismalmente de qualidade. Se tornam chatos, repetitivos, burros mesmo na escolha de repertório. E isso acontece justamente durante o que é ,talvez, a mais genial era da música brasileira, a geração mais brilhante que a música brasileira já teve e que nunca mais se repetirá — e da qual a morte de Gal Costa marcou o início do fim. Talvez a crise por que passava tenha influenciado nisso. O que não se pode alegar é o tal cancelamento político antes que estético, nesse caso.

Um único boicote, na verdade, foi eficaz — mas não foi por política. Com o dinheiro desaparecendo, ele se reuniu com Boni e Walter Clark e ameaçou não participar do FIC 1970 se tivesse algumas demandas atendidas. Para piorar, correu para contar o que aconteceu no programa de Flávio Cavalcanti. É o comportamento típico de quem perdeu a noção de quem realmente é, algo nada incomum entre artistas do seu porte. Resultado: foi banido do festival e de toda a programação da Globo a partir daquele instante. Ainda não havia bolsominions alucinados para dizer que a Globo é de esquerda, mas perder o acesso a um canal que, se ainda não era hegemônico, já se consolidava como o mais importante do país, certamente não fez nenhum bem à sua carreira.

Descobri há pouco que existe uma biografia de Simonal escrita por Gustavo Alonso que diz mais ou menos isso. Ainda não li. Não sei se ele chegou à mesma conclusão — mais bem informada, claro — que eu: a de que Simonal foi vítima dele mesmo, e que sua trajetória é a mesma de muitos outros artistas, embora mais espalhafatosa em sua decadência. E que, paradoxalmente, todo esforço de contar sua história e vindicar sua carreira, seja por que campo ideológico for, e que termina em uma tentativa de dar uma dimensão política falsificada à sua decadência, é o que garante em parte sua permanência histórica.

Uma nova era para os Beatles

Nos últimos tempos eu vinha refletindo cá com meus zíperes sobre o que me parece ser uma enorme má vontade minha em relação aos mais recentes lançamentos dos Beatles. É como se eu fosse incapaz de encontrar uma só boa palavra para falar sobre cada um deles enquanto as pessoas se mostravam extasiadas por eles, como se tudo me incomodasse, como se eu me recusasse a ver ou entender o que eles têm de bom.

Uma parte é compreensível e, para mim, justificável. O que realmente importa na obra dos Beatles são os discos lançados entre 1963 e 1970. O que vem depois pode até ser interessante, e alguns desses novos discos são grandes acréscimos à obra original, como o Live at the BBC, mas o que realmente importa são aquelas cento e tantas canções. E a maior parte do que tem sido lançado é simplesmente material rejeitado em seu tempo. Outtakes são interessantes apenas para fãs ainda em estágio de demência, como eu fui um dia.

Por isso venho falando mal dos coitados há tempos. Décadas de beatlemaniame deram o juízo necessário para insistir em ter um alto grau de exigência em relação a esses lançamentos., e a reconhecer os cada vez mais frequentes defeitos neles. Em 2011 já via na voz destroçada de McCartney um problema, que só foram comentar abertamente agora, em sua última turnê. Desde o início, me entediavam profundamente as caixas de aniversário de seus álbuns, em que a Apple Corps passou a seguir o modelo lançado anos antes por McCartney e sua MPL, reembalando os mesmos discos com o que fosse possível de sobras de estúdio e uma apresentação luxuosa e caríssima.

É justo agora, quando começava a achar que o problema estava em mim (porque uma das coisas que a vida me ensinou é que, quando você acha todo mundo chato, o chato é você), que as pessoas parecem finalmente ter chegado à mesma conclusão.

Semana passada a Apple divulgou o lançamento deste ano: uma nova versão do Anthology, agora com um álbum a mais, uma versão ampliada do documentário para o streaming e o relançamento do livro.

O documentário terá mais trechos das entrevistas feitas originalmente, e imagino que também utilizem IA para fazer um upscale da imagem original para adaptá-la às atuais resoluções em 4K ou pelo menos Full HD. Seria realmente interessante ver mais horas da última reunião dos Threetles.

O quarto disco, por sua vez, terá algumas poucas gravações inéditas — apenas 12, em um álbum triplo, todas meros outtakes, sem absolutamente nada de relevante: mais uma vez, a expectativa dos fãs em ouvir Carnival of Light foi frustrada —, e novas versões das músicas inéditas lançadas em 95 e 96, Free as a Bird e Real Love.

Antes de prosseguir, quero lembrar aqui o que disse na época do lançamento do Now and Then:

Estão dizendo que esta é a última canção dos Beatles. Não é. É algo completamente diferente: é o início de um novo tempo. (…) Posso apostar com qualquer um que o próximo passo será remasterizar a voz de Lennon em Free as a Bird e Real Love.

Eu gostaria de poder iniciar com isso um novo negócio de previsões, e se alguém quisesse os números da próxima Mega Sena eu poderia vender por módica quantia, e ainda parcelar em três vezes. Mas a verdade é que isso era absolutamente óbvio. A maioria do material disponível dos Beatles não tinha chances de ver a luz do dia oficialmente porque sua qualidade sonora era, muitas vezes, baixa. As novas tecnologias de IA possibilitam resgatar ao menos parte dessas gravações de maneira honesta. É como a descoberta de um novo veio em uma mina esgotada.

Mas tudo cansa nesta vida, até o descanso. Vendo o material anunciado, as pessoas estão reclamando de pagar muito caro por muito pouco — algo de que doentes como eu reclamavam há mais tempo, porque conhecem a abundância de material pirata disponível por aí. E algumas passaram a se perguntar se o volume e a qualidade do material neste lançamento poderia ser um indicativo de que baú do qual os Beatles tiram o leite das crianças nos últimos 30 anos está começando a secar. E é aqui que discordo deles.

Eu fiquei impressionado com a mediocridade da edição de aniversário do Let it Be — por sinal, a única que comprei, porque sempre quis ter o álbum Get Back com aquela capa; é como se eu, que estou longe de ser o colecionador que pensava ser aos 15 anos, finalmente sentisse que essa a era única coisa que faltava para mim. O material disponível é absurdamente variado (fiz uma sugestão de gravações que poderiam ser incluídas, num post que talvez represente a última manifestação de fé deste pobre escriba na Apple — talvez fosse o lockdown, não sei; mas é um indicativo do volume de material interessante que ainda está oficialmente inédito), mas o que foi efetivamente incluído era parco e fraco.

Agora entendo o que era: o nome disso é racionamento, é gestão de recursos. O material é finito e precisa ser liberado aos poucos, de maneira que garanta um fluxo regular capaz de gerar a renda necessária pelos próximos anos.

Usando como exemplo as gravações disponíveis das sessões do Let it Be, daqui a dez anos é possível que lancem uma nova versão do álbum, agora com novas canções que ficaram fora até agora. Ou discos completamente inéditos, com títulos possíveis como “Raspa do Tacho Vol. 6”, ou coisa parecida. Sem falar nos shows ao vivo — são mais de 50 disponíveis, alguns completos, outros com umas poucas canções, inclusive apenas ouvidas ao fundo de reportagens de rádio ou TV, a maioria imprestável.

O leitinho das crianças não está ameaçado. Os Beatles entenderam que sempre terão uma legião de fãs dispostos a pagar caro pelo que, hoje, são essencialmente mementos, souvenirs, em um tempo em que até mesmo fãs dedicados como eu adquirem seu discos nas redes de torrent. Para esse pessoal, mais do que a experiência estética ou mesmo espiritual de ouvir uma canção, o que vale mesmo é ter nas mãos um artefato que dê materialidade e substitua essa experiência. Os Beatles sabem que não é mais a música que importa.

E aqui, talvez, esteja a maior ironia de todas.

Como eu imaginava, Free as Bird foi realmente remixada. O vocal original de Lennon foi adequadamente tratado, e agora soa mais natural. Mas, por incrível e inacreditável que pareça, ela ficou pior.

Em 1995, saber que a música tinha sido feita sobre uma gravação em cassete gerava uma condescendência necessária e benéfica para a bravação. A qualidade da parte de Lennon era ruim, mas para todos nós, era a qualidade da gravação, algo que não se podia consertar, e então ela importava pouco ou nada. Com o vocal restaurado, não dá mais para evitar lembrar que ela era apenas uma demo caseira, com uma voz quase em falsete, sem nenhuma pretensão. É paradoxal: a canção soa melhor, mas seu efeito é pior. É melhor ouvir a versão original.

Talvez isso seja um indicativo do que podemos esperar daqui em diante. Não sei. Do que tenho certeza é que esse é apenas o primeiro passo de uma longa fieira de lançamentos semelhantes.

Mas não se mata cavalo?

Quando as chuvas voltaram a inundar o Rio Grande do Sul este ano, agora com menos gravidade, lembrei da tragédia do ano passado, e de um artigo na Folha de S. Paulo que usou o destino do cavalo ilhado em um telhado de Canoas para um pequeno ensaio sobre a questão da miscigenação racial, cujo autor infelizmente esqueci. Ele o considerava um símbolo do hibridismo racial brasileiro, da maneira como nós nos enxergamos. Se não podemos mais admitir a ideia de miscigenação, se ela deu lugar a uma reinterpretação americanizada e binária de uma disputa inconciliável entre brancos e pretos, então transferimos nossa visão atávica sobre raças para os vira-latas.

(O nome que deram ao cavalo, Caramelo, me irrita. Aquele era um cavalo baio, mas as redes, eminentemente urbanas e que nunca sentiram o cheiro de um equino — que o general Figueiredo preferia ao cheiro de povo — precisam dar às coisas os nomes que já conhecem, adequá-las ao mundo novo da comunicação miojo. O mundo não é mais o que é; é como influencers o veem, e então a ignorância — o não saber que aquela cor, em um cavalo, é baia — ascende e ocupa o lugar da informação correta. Talvez nunca tenha sido realmente diferente, mas agora é como se tudo tivesse tomado anabolizantes.)

O artigo é bom, apesar dessa insistência típica destes tempos de reduzir situações complexas a símbolos chamativos. Dois ou três pontos nele me incomodavam, mas já nem lembro quais eram.

O resgate do cavalo Caramelo, claro, acalmou os corações angustiados nas redes sociais e possibilitou deixar de lado a consciência mais ampla das dimensões da catástrofe gaúcha no que diz respeito a animais. Apenas para ficar na discussão que interessa aos que preferem bicho a gente, não sei se dá para fazer ideia da quantidade de vacas que tiveram o leite empedrado em seus ubres, porque a infraestrutura de grandes e pequenos criadores foi destruída e elas não podiam ser ordenhadas. Não se faz ideia de quantos bois, cavalos, carneiros, cachorros, porcos, galinhas morreram. O setor rural nas áreas atingidas foi destruído, mas qualquer discussão mais profunda saía dos holofotes, porque não interessa, não gera engajamento, não dá dinheiro em um mundo que se acostumou a uma corrida de ratos cada vez mais sórdida e desesperada. As pessoas precisam da imagem insólita de um cavalo em cima de um telhado, de um cachorrinho sendo resgatado e nadando no ar. Precisam de imagens que falem ao coração seletivamente terno de gente confortavelmente instalada, não aos seus raciocínios e em um mundo saturado de informação, só o que é diferente é capaz de falar às pessoas. E assim, não há necessidade de se discutir o que causou a tragédia, como se lidou com ela, porque afinal o cavalo Caramelo foi salvo e está muito bem, obrigado. Recebeu doações para garantir sua alimentação pelo resto da vida, algo que não faz sentido sob nenhum aspecto que não seja a existência midiática e a capacidade nativa de se mobilizar por causas desimportantes mas apelativas. A inefável Janja se engajou pessoalmente pelo seu bem-estar.

Eram as mesmas redes que durante a crise louvavam o voluntariado, ajudando em parte a obscurecer quem realmente fez a diferença, no fim das contas: o Estado — apesar do patético, pequeno e vergonhoso Eduardo Leite. A caridade, afinal, nos justifica e nos redime, acalma nossas consciências, e nada mais realmente importa.

E então impressiona a maneira como nos acostumamos a um mundo onde tudo é like, tudo é exposição. Todo mundo correu para tirar sua lasquinha na tragédia: de Janja a Felipe Neto, de Ana Maria Braga a Giovanna Ewbank. Uns com mais senso, outros com mais desespero em não perder a oportunidade; mas mesmo senso e desespero hoje parecem calculados, porque cada um ocupa o seu nicho, com suas necessidades e clamores, e sabem como dar o seu público a desgraça que eles querem.

Eu, pelo menos, não consigo mais ver esse pessoal sem lembrar imediatamente de “Mas Não Se Mata Cavalo?”, de Horace McCoy. Não pelo cavalo, que o livro não tem nenhum; mas pelo desespero que, embora manifestado de maneiras diferentes, parece ser o mesmo em 2025 e durante a Depressão americana. O mesmo desespero que fazia as pessoas dançarem até a morte para garantir que no dia seguinte não passariam fome as faz produzir conteúdo, qualquer que seja, para as redes.

As diferenças que parecem óbvias, pela distância no tempo e no espaço, no fim das contas apenas parecem. Enquanto a classe média da terra do Siegfried Ellwanger defendia armada suas casas — ou defendeu durante algum tempo, nunca pude saber; as notícias rapidamente deixavam de aparecer e não tinham o que no jornalismo se chama suíte, porque mesmo a miséria alheia numa hecatombe cansa — e as grandes vítimas, negras e pobres, eram alijadas do noticiário, a não ser quando suas histórias individuais podiam ser destacadas para gerar lágrimas no Jornal Nacional ou no Fantástico, a impressão que ficava era a de que o mundo está cada vez mais dessensibilizado, que passou a só existir em pequenos vídeos de Instagram ou TikTok.

E essa é talvez uma tragédia ainda maior. Porque se somos todos caramelos, o prognóstico é muito ruim.

Há uma epidemia pior que a de Covid-19 em andamento:uma epidemia de gente pobre e feia se expondo e fazendo graça de suas misérias e esquisitices em suas casas sem reboco e telhados de Eternit, acreditando que as redes são uma nova Serra Pelada; 40 anos são tempo suficiente para que se esqueça que, naquele garimpo, meia dúzia de garimpeiros enriqueceu e outros 100 mil tiveram que se contentar em carregar sacos de areia na cabeça quilômetros de escadas acima e morrer em deslizamentos de terra. Mas qualquer que seja sua classe, o que os caramelos querem, no fundo, é enriquecer fácil. A diferença entre pobres e ricos é apenas estética. E os cavalos agora somos nós.

Um bastardo chamado Rock

Primeiro foi meu identitarista preferido, Lelê Teles, que me mandou um vídeo de Instagram em que um negão reivindicava a paternidade negra do rock and roll.

Minha primeira reação foi de incredulidade: “Peraí: esse pessoal criou o jazz — o jazz, velho, o jazz. A forma superior de música popular. A música erudita do século XX — e fica brigando pela paternidade de uma música vagabunda como o rock?”

Não vi o vídeo inteiro, que eu tenho mais o que fazer, ainda que seja nada.

Depois apareceu para mim no YouTube um vídeo em que uma narradora de voz monocórdia e jovem faz um apanhado da história do rock para dizer mais uma vez que o rock é invenção de negros, como sempre roubados por brancos saudosos dos tempos da escravidão.

Mães negras americanas deveriam registrar seus filhos como Rock porque aí, pelo visto, os pais não iriam sumir — ah, eu sei que não deveria ter escrito isso, não posso fazer essa piada porque ela só pode ser feita por negros americanos e eu não tenho lugar de fala. Mas sabe como é: foda-se.

A verdade é que eu nunca tinha pensado demais nisso. Para mim e para o resto do mundo ajuizado, o rock é uma criação progressiva e coletiva, como absolutamente toda e qualquer linguagem artística. Um a um, cada músico, branco ou negro, foi colocando seu ingrediente pessoal numa enorme sopa de pedra feita a partir de ritmos diversos, negros como o rhythm and blues e brancos como country & western.

(Escrevi “brancos e negros”; me perdoe. Esqueci maravilhas filipinas como os Tielman Brothers.)

Mas depois de ver esses dois vídeos entendi que o rock and roll, na verdade, é música de branco. Sempre foi música de branco. Eu é que não tinha percebido.

A maneira mais simples de demonstrar isso é fazendo uma pergunta simples: tirando Jimi Hendrix, e em menor medida Phil Lynott do Thin Lizzy, qual artista negro chegou ao estrelato tocando rock nos anos 60 e 70 (vou poupar pixels lembrando que Ike e Tina Turner, Prince, Michael Jackson faziam outro tipo de música, e que artistas como Lenny Kravitz e Living Colour são já dos anos 90, ainda assim exceções que confirmam a regra)?

Não tem. O rock se tornou domínio de golden gods como Robert Plant.

A verdade é que a música negra evoluiu por caminhos separados a partir do momento em que as canções de Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino caíram no gosto do consumidor jovem branco. Essa primeira onda se esgotou muito rápido. Por maior que seja o impacto de cada um, não dá para esquecer o fato de que a obra de qualquer dos pais do rock, brancos ou negros (ou filipinos, antes que eu esqueça novamente), se esgota em uma coletânea de grandes sucessos. Ouça o último disco de Chuck Berry, de 2017: é a mesma música que ele fazia 60 anos antes — uma das faixas se chama Lady B. Goode, por sinal. O mesmo vale para o último álbum de Jerry Lee Lewis.

Mas a música negra não parou ali. Ela continuou evoluindo, por caminhos divergentes. Soul, funk, disco, West Coast Sound (nesses dois últimos casos, sejamos justos: dessas desgraças ninguém briga pela paternidade, né?), hip hop, rap. O rock ficou relegado aos branquelos.

É por isso, por essas limitações, que já no comecinho dos anos 60 aquilo que era revolucionário em 1955 tinha degenerado no twist — eu repito, twist não é música que se dê ao respeito.

Em menos de cinco anos, toda uma geração — Berry, Richard, Jerry Lee, Carl Perkins, Everly Brothers, Gene Vincent, o próprio Elvis — não tinha nada de realmente novo a dizer. Foi preciso que meninos da classe trabalhadora da Inglaterra e uma nova geração americana, como Bob Dylan e os Beach Boys, reinventassem essa música para que ela ressurgisse como algo completamente diferente e maior, agora melódica, harmônica e liricamente mais sofisticado, com uma mensagem mais complexa que ajudaria a dar voz a uma geração e elevaria o que era apenas um gênero musical a um fenômeno cultural e de transformação social.

E aí eu lembro da moça de voz chata que fez um vídeo explicando que rock é música negra.

O vídeo apareceu para mim por acaso, e eu já ia mudar para algo que me interessasse mais — como fazer mudas de fruta-pão, por exemplo, negócio difícil dos infernos — quando a vi cair numa armadilha.

Ela falou de Hound Dog.

Você conhece Hound Dog. Se não conhece, não sei como chegou até aqui, e muito menos por quê. A moça usava a canção para mostrar como a indústria branca roubou o talento dos negros. Hound Dog foi lançada por Big Mama Thornton — por sinal, heroína adequada ao resgate pelos novos tempos, preta, gorda, lésbica e talentosíssima; então veio aquele matuto sórdido, um tal de Elvis Presley, e como ele era branco e bonito e tinha uma pélvis reboculosa, roubou a música e fez dela um sucesso absurdo. Ah, ladrão safado.

O problema é que Hound Dog é o exemplo perfeito de tudo o que escrevi até aqui. A canção circulava por aí havia alguns anos antes que Elvis a transformasse num clássico absoluto do rock and roll. Eu gosto muito da versão de Big Mama, mas são canções completamente diferentes. E basta ouvir as duas versões para entender perfeitamente tudo o que tentei dizer até agora.

Hound Dog , no entanto, não é a obra de um pobre bluesman que vendeu a música a um produtor esperalhão por duas mariolas e um cigarro Iolanda. Foi composta por dois garotos judeus de Nova York, Jerry Leiber e Mike Stoller. Compositores, aliás, de boa parte dos maiores clássicos do rock and roll.

A versão de Thornton, para início de conversa, não é rock and roll. É rhythm and blues — tecnicamente é um clássico blues de 12 compassos. É uma versão adorável, sensual, ostensivamente sexual — é a moça reclamando de um malandro que se aproveitou dela até onde pôde—, cheia de swing, feita para que você rebole sua cintura bem encostado à cintura de quem você quer chamar, mais tarde, de cachorrão ou miseravona. Uma das gravações de Thornton, com a banda de Muddy Waters, é especialmente brilhante.

Mas o que Elvis traz é outra coisa. O menino de Tupelo deu a essa canção uma agressividade, uma ansiedade, uma urgência que está para as versões anteriores como o pós-punk do Nirvana está para o bubblegum rock de The Archies. Comparar as duas versões é como comparar Barry Manilow e Dead Kennedys. Elvis dá, ali, expressão à angústia adolescente. Reduzindo a letra à expressão do desprezo e mágoa, tirando o caráter sexual e dando a ela uma camada de ódio, indignação e revolta que não havia na versão original, Elvis canta em um frenesi que é a melhor definição do que é o rock and roll.

Um crítico cujo nome não lembro dizia que não sabia definir o que era rock, mas sabia identificar um quando ouvia. Ele devia estar se referindo a essa canção.

O mais triste nisso tudo— e talvez o que realmente importa — não é que esse seja um perfeito exemplo da ineficiência dessas tentativas de reescrita da história a partir de uma ótica identitária, que só conseguem o efeito contrário ao que queriam demonstrar. É que depois dessa separação essas vertentes voltariam a se encontrar. É o que se ouve hoje, em grande medida. Uma música cada vez mais repetitiva, derivada, dependente de padrões pré-existente em algum computador. Tão ruim que dá até a impressão de que as pessoas estão buscando algum sentido para sua vida espiritual quando brigam para ver quem é o pai de um filho bastardo chamado Rock.