Comentário aos comentários

Os comentários ao último post são interessantes.

Eu só gostaria de fazer algumas poucas ressalvas. O que mais me chamou a atenção foi como o viés ideológico se manifesta não apenas no que se diz e no que não se diz, mas no que a gente acha que faltou alguém ter dito. É quase como se eu tivesse violado a santidade da guerra. Como se a URSS não pudesse ter sido a principal responsável pela vitória aliada porque era liderada por comunistas comedores de criancinhas e porque cometeu seus pequenos crimes antes e durante a guerra.

Por exemplo, João Philippe: aqui não se disse que a União Soviética era liderada por São Stálin. Você caiu no mesmo erro que o Paulo nos comentários do Alexandre, que viu uma declaração de amor ao Exército Vermelho nos números citados. Para entender melhor a situação política que gerou tudo aquilo, procure saber um pouco mais sobre o “leste europeu” resultante do processo que incluiu o fim da I Guerra Mundial e a guerra civil russa. Passe para o Tratado de Munique, quando foi a vez dos países ocidentais dividirem a Europa entre si, e finalmente para o tratado Ribbentrop-Molotov. Essa era a Europa que gerou a Segunda Guerra, em que todos os países fizeram o que acharam preciso para evitar uma guerra que só a Alemanha queria, ao mesmo tempo em que tentavam conseguir o máximo de vantagens possível. A invasão das repúblicas bálticas e da Finlândia, ao mesmo tempo em que podem ser compreendidas dentro do mecanismo que levou à guerra e, sim, medida de proteção (da mesma forma como você constrói um muro em sua casa), tem origens mais remotas. Talvez nenhuma delas seja justificável, mas não era disso que o post falava. E Katyn foi mesmo um crime: mas a União Soviética também estava entre os vencedores, não estava? Agora você entendeu o que eu queria dizer?

A isso se chama política. Eu não preciso citar Von Clausewitz.

Percival, a primeira coisa a fazer é verificar a definição de crime de guerra. É realmente um conceito subjetivo, apesar de usado em Nuremberg, mas se o Holocausto é um crime de guerra (até a ditadura de Pinochet é considerada por alguns crime contra a humanidade), por que Hiroshima e Nagasaki não são? Os critérios conferem: democídio, destruição de cidades inteiras, uso de armas venenosas. Quanto à “necessidade militar”, Eisenhower era contra, porque acreditava que os japoneses (que naquele momento se debatiam entre negociar a rendição e a linha dura que queria a guerra até o último homem; dizer que os japoneses jamais se renderiam é uma inverdade, como seria mentira dizer o contrário) já estavam derrotados. MacArthur não foi consultado, mas depois diria que tudo aquilo era desnecessário. Quanto aos gulags, a gente estava falando da guerra. Não misture as coisas. Do contrário eu vou reclamar que faltou falar no conflito de Ruanda. Ou da invasão de Granada pelos americanos. Ou do que Saddam fez com os curdos. Ou de quem matou Joana D’Arc, ué.

Se bem que, opinião por opinião, acho que a mais válida é a de Leó Szilárd, um dos desenvolvedores da bomba:

If the Germans had dropped atomic bombs on cities instead of us, we would have defined the dropping of atomic bombs on cities as a war crime, and we would have sentenced the Germans who were guilty of this crime to death at Nuremberg and hanged them.

Cisco, quanto à “versão esdrúxula das terras alternativas”, eu só posso recomendar uma coisa: leia mais. Sobre o teatro europeu pode ser o livro recomendado pelo Alexandre. “Ascensão e Queda do III Reich”, do William Shirer, é leitura obrigatória. É melhor do que fazer witty comments sem substância alguma.

Sinceramente, eu preferia que implicassem com a acusação de racismo na decisão de usar a bomba. Era a única “idéia” do post, e questionável. No entanto, o pessoal preferiu brigar com fatos. Eu, hein.

E assim se passaram 60 anos

Daqui a pouco, em maio, vai-se comemorar o fim da II Guerra Mundial na Europa. Alguns meses depois, agosto, vai ser a vez do fim da guerra no Pacífico.

Mais uma vez vamos ouvir a história sendo contada de acordo com os americanos. Por exemplo, vão falar de como eles venceram a guerra na Europa. Só vão esquecer que, entre junho de 1941 e janeiro de 1945, a União Soviética enfrentou 78% das tropas alemãs. Depois disso, com os EUA e o que restou da Inglaterra avançando (e também o general De Gaulle gritando sozinho “nós vencemos, nós vencemos”), esse percentual diminuiu. Para 58%. Os Estados Unidos perderam 400 mil soldados naquela guerra. A URSS perdeu 13 milhões.

Mas o que importa é que quem conta a história é quem decide o que se passou, e para todos nós, 60 anos depois, a verdade absoluta é que sem os yankees comedores de putas alemãs os nazistas teriam vencido. Claro.

Vão falar também, pela enésima vez desde 1989, quando o assunto voltou à baila, do pacto Ribbentrop-Molotov de 1939. Vão aproveitar para descer a lenha no canalha do Stálin, vão chutar cachorro morto e dar um jeito de encaixar sua habitual imprecação contra o marxismo — esse monstro que todos eles, ignorantes mas militantes fáceis de uma causa que sabem vencedora, não conhecem mas espancam assim mesmo — vão dizer que a URSS se aliou a Hitler em sua sanha de divisão do mundo, etc.

Só vão esquecer, de novo, que em 1934 Stálin avisava que uma nova guerra estava se formando na Europa, e era contra ele. Que a ascensão do nazismo foi tolerada pelo resto da Europa, e indiretamente pelos Estados Unidos, como medida profilática para evitar que o comunismo se espalhasse pelo mundo — como se Stálin tivesse, naquele momento, alguma vontade em relação a isso, como se não tivesse traído os comunistas alemães em 1927. Vão esquecer que o anti-semitismo nazista, pré-Holocausto, foi tolerado como um mal menor dentro de um jogo político muito mais importante. Vão esquecer que o pacto era imperativo para Stálin, que imediatamente começou a transferir as indústrias soviéticas da Ucrânia para além Urais, sabendo que o pacto não iria durar para sempre e que mais cedo ou mais tarde Hitler iria partir para cima dele.

E isso só em maio. Em agosto vão comemorar — melhor dizendo, rememorar — Little Boy e Fat Man.

As explosões de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki foram um dos maiores crimes já cometidos contra a humanidade. Em muitos aspectos — talvez aspectos demais — foi algo tão monstruoso quanto o Holocausto. Não pelo número de mortos (cerca de 110 mil, nas duas cidades, 130 mil feridos e, nos cinco anos seguintes, mais 230 mil mortos em decorrência da radiação), mas pela capacidade de matar tanta gente, em tão pouco tempo, de maneira tão torpe mas tão eficiente. E porque há, sim, um componente de racismo naquela decisão. Não um racismo óbvio como o nazista, mas algo muito mais sutil, talvez até secundário.

Por mais que se negue, é difícil imaginar que os americanos explodiriam dessa forma a Alemanha, embora o bombardeio da Berlim já ajoelhada tenha mostrado uma fúria injustificável — as imagens que sobraram mostram uma cidade completamente destruída, muito mais que o “necessário”.

Há algum tempo, assisti a um filme americano dessa época, típico do esforço de guerra. Os termos utilizados — de amarelo nojento para baixo — indicavam algo mais grave que a simples raiva de um inimigo. Havia racismo naquelas palavras. Não era sequer novo: orientais sempre tiveram vida difícil nos Estados Unidos. Se os americanos não tinham nenhum motivo específico para odiar os alemães, contra os japoneses foi diferente. Foram eles que bombardearam Pearl Harbor inesperadamente, tentando destruir sua marinha e prejudicar sua entrada na guerra, àquela altura já inevitável. O ódio justificado pelo ataque traiçoeiro catalisava o racismo. E já que eles tinham que dar um recado importante à União Soviética, nada melhor que juntar o útil ao agradável. Uma coisa é explodir a mãe Europa; outra, muito diferente, é dar uma lição àqueles amarelos comedores de peixe cru.

Hiroshima e Nagasaki deveriam bastar para colocar Truman e os Estados Unidos no banco dos réus em Nuremberg. Mas há uma lição que todos aprenderam há alguns milênios: não existem criminosos de guerra entre os vencedores. Vencedores não cometem crimes, apenas modificam a jurisprudência.

Bem, talvez nada disso seja importante agora. Tudo isso aconteceu há muito tempo, há três gerações. Nesses 60 anos as coisas mudaram. O Holocausto não foi apenas uma das maiores representações do Mal na história da humanidade; foi a justificativa que faltava para tornar a II Guerra Mundial a única guerra santa dos americanos. E agora, mais uma vez, vamos ouvir a história contada por eles. Eu só não sei qual é exatamente a lição que se pode tirar daí.

Quarta-feira de cinzas

Os posts do Leo sobre o carnaval são uma delícia. É bonito ver alguém que ama tanto o carnaval — e são úteis, extremamente úteis suas lições de como ser bom de multidão. O sujeito entende mesmo disso.

Eu teria inveja, se não tivesse alergia a suor (literalmente), se não tremesse ante a simples hipótese de alguém pisando nos meus delicados pezinhos 43/44, se o carnaval não fosse a única época em que não gosto de Salvador e se não preferisse estar, como agora, ouvindo Brian Wilson e Paul McCartney cantando juntos A Friend Like You.

Mas se eu gostasse de carnaval, ah, meu amigo, eu queria ser como o Leo.

Receita de mulher

Um amigo diz que mulher tem que beber.

Outro diz que mulher tem que deixar um rastro de perfume quando passa. Mulher que não cheira, não presta.

O avô do Bia diz que mulher tem que saber contar piada.

E o Vinícius diz que mulher tem que ter saboneteiras.

Eu tenho outra teoria. A mulher tem que entender de algumas coisas: um pouco de cinema, um pouco de literatura, um pouco de música, um pouco de política, um pouco de arte. Não precisa ser muito, porque muito não se deve exigir: só o bastante para ter uma opinião, o suficiente para não passar vergonha, para não ficar calada numa mesa de bar, entediada e entediando.

Mas tem que haver um contraponto, e é aí que está o segredo.

A mulher tem que gostar de filmes bobos.

Porque é isso que faz a mulher, é esse toque feminino, da donzela à espera do cavaleiro que a salvará — mas não em um cavalo branco, porque aí é “Uma Linda Mulher” e clichê demais; e tampouco pode ser mais que um toque. Aquele mínimo de solidez tem que ser contrabalançado em uma leveza meio etérea, algo que se sabe que está ali, mas que não se pode pegar — e se se pudesse, se esvaneceria no ar.

O contrário é mulher que gosta de Godard, e ninguém que goste de Godard pode estar em seu juízo perfeito.

A mulher tem que gostar, por exemplo, de Notting Hill. Tem que saber quem é Kurosawa — não precisa gostar, só precisa saber quem é –, tem que conhecer um tiquinho de cinema francês e ter visto pelo menos um Buñuel; mas tem que dar um sorriso bonito e franco quando vê o Hugh Grant pedindo para a Julia Roberts ficar.

Não precisa chorar, nem deve, porque mulher que chora nessas horas também chora em outras menos apropriadas; mas precisa sentir a beleza boba e fútil da coisa, e não ter vergonha disso, nem querer parecer o que não é — o que só não é pior do que realmente ser. Precisa apenas saber que algumas coisas não devem ser explicadas, jamais, porque então correm o risco de desaparecer. A mulher tem que ser alguém que, mesmo sem conhecer as notas musicais, fecha os olhos e sorri tranqüila para si mesma quando ouve um trechinho de Albinoni.

Porque se fosse para fazer outra analogia, eu poderia dizer que mulher não pode ser Wagner, nunca; e se for Vivaldi se torna vulgar e dispensável. Talvez seja isso. A mulher, a mulher mesmo, tem que ser um andante de Albinoni que gosta de Notting Hill.

Crime e Castigo

Eu comprei “Crime e Castigo” junto com outro livro de que tinha ouvido falar muito, “O Apanhador no Campo de Centeio”. Um sebo de Salvador, a Livraria Brandão, famosa por seu acervo e pelos preços absurdos que cobra.

Levei os dois livros para a agência e lá mesmo li “O Apanhador”. Bobagem, pura bobagem. Continuei sem compreender o que aquele livro tinha para ser tão admirado pela geração que eu adorava. Eu tinha 18 anos, idade em que teoricamente se é mais sensível ao que o livro diz. Eu devia ser um insensível. Caulfield era só um menino mimado metido a engraçadinho. Se tivesse estudado na minha escola tinha levado muita porrada para deixar de ser besta.

Aí comecei a ler “Crime e Castigo”.

Vários posts, em vários blogs, já falaram com mais propriedade sobre o espírito do livro. Eu li há tanto tempo, e já estou tão atrasado em meu post, que dificilmente escreveria algo que ninguém escreveu.

Mas tem uma coisa de que não esqueço.

À medida que eu ia me aproximando do assassinato da velha usurária, minha respiração ia ficando mais difícil. Meus olhos ficavam mais abertos. A boca caía, espantada, como se eu não acreditasse que aquilo era possível, que alguém pudesse escrever daquele jeito.

Eu nunca tinha visto uma cena como aquela. Nunca.

Que se discutam as idéias, os temas, o final insosso e reacionário do livro. Nada disso é capaz de obscurecer o brilho com que aquela cena foi escrita. E no final das contas é isso que faz um romance, não necessariamente as idéias que ele defende.

O tempo passou e Dostoiévski foi desbancado do posto de meu escritor favorito por um francês que escrevia movido a café para escapar das dívidas que sua megalomania lhe trazia. Muitos, muitos livros foram lidos depois dele. Mas nunca, em todos esses anos, eu me vi boquiaberto diante de uma cena como a do assassinato da velha usurária.

Mykonos

Conversando com uma professora, ela falou que sua irmã adora Mykonos.

Mykonos é uma vila de pescadores que descobriram que a vida é mais fácil quando se lida com turistas. É só isso. Me lembra Bom Jesus dos Pobres, no Recôncavo Baiano. É, em tudo e por tudo, inferior a Paraty, para citar só um exemplo. O Porto da Barra, nos anos 70, era melhor que aquela ilhota.

E no entanto as pessoas falam da ilha como se fosse algo do outro mundo. Ela não é. Mykonos não tem nada. Mykonos só vale a pena porque geralmente você tem que passar por lá para chegar a Rodes. Mykonos é o pedágio.

Mykonos consegue ser pior que Atenas, porque esta, em meio à poluição, aos fragmentos de ruínas escondidos em uma cidade feia e desorganizada, em meio àquela uniformidade mediocremente branca da arquitetura mediterrânea — uma infinidade de edifícios de cinco andares com varandas que vão de um lado a outro –, em meio àquela cidade que se espalha por uma terra ingrata como porra em roupa verde amarronzada e amarrotada (pior se vista do alto em um dos aviões da Olympia, a Vasp européia, onde a aeromoça vende cigarros duty free como qualquer muambeiro paraguaio), onde eu estava? Ah, Mykonos consegue ser pior que Atenas, porque Atenas pelo menos tem a Acrópole.

Zé Carioca

A Abril está republicando as histórias do Zé Carioca. Ao que tudo indica, resolveram diminuir os prejuízos que as histórias em quadrinhos lhe trazem já há alguns anos.

Eles têm material suficiente: são quase 50 anos de revistas publicadas quinzenalmente. O Zé Carioca é um personagem que só existe por causa do Brasil, que sempre produziu a quase totalidade de suas histórias. Foi graças ao Zé Carioca que o estúdio brasileiro da Disney conseguiu chegar a um nível altíssimo de qualidade nos anos 80, produzindo excelentes histórias em uma época em que praticamente todos os estúdios Disney no mundo chafurdavam na mesmice.

A republicação das histórias serve para lembrar dos bons tempos em que o amigo do Nestor usava terno e gravata.

No começo dos anos 90 os brasileiros resolveram atualizar o Zé Carioca. Saíram o terno e o guarda-chuva e entraram boné com a pala virada para trás, tênis, bermudas e camisetas “eu- sou – o – rei – do – funk”. Na verdade a mudança começou antes, com o Zé de calça jeans e camiseta branca, mas foi aí, nos anos 90, que o contraste com o Zé Carioca inicial se tornou tão grande que não podia mais deixar de ser notado. Parecia uma boa recauchutagem do personagem, que aparentemente ficava com um visual mais próximo da realidade atual do morro.

Só parecia, no entanto.

O que eles estavam fazendo era outra coisa: assassinar o espírito do Zé Carioca. Esse espírito está bem definido em uma das suas primeiras histórias (republicada em 1981, em um especial de aniversário), em que ele personifica o mais perfeito malandro brasileiro, um sujeito cheio de lábia que se mete com um milionário chamado Rocha Vaz e conhece a Rosinha.

Acontece que o Zé Carioca nunca se vestiria como outro sujeito do morro. Simples assim. Seu paletó não era apenas uma roupa, era um instrumento de ascensão social. Ele era um favelado, sempre foi, e uma das melhores encarnações do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. O terno representava a sua malandragem, a necessidade de parecer o que não era para aplicar seus golpes. Ele usava terno para ser o impostor, o arrivista, o neguinho compositor que conseguiu namorar a filha do Rocha Vaz. Quando lhe tiraram esse símbolo e o enfiaram no uniforme de 11 em cada de 10 membros da “comunidade”, mataram o seu ethos.

Será que eles nunca se perguntaram por que o Zé Carioca andava sempre com um guarda-chuva e chapéu côco no Rio de Janeiro? Será que era tão difícil de perceber que fazia isso para ficar mais parecido com um lorde inglês e, portanto, mais confiável? Parece que não.

A republicação de suas histórias, pelo menos, consegue recuperar um pouco desse espírito.