Versão brasileira

Frase da impostora Agatha Christie:

I have enjoyed greatly the second blooming that comes when you finish the life of the emotions and of personal relations; and suddenly find – at the age of fifty, say – that a whole new life has opened before you, filled with things you can think about, study, or read about…It is as if a fresh sap of ideas and thoughts was rising in you.

Tradução de Rafael Galvão: “Depois que ficou difícil arranjar um homem e as pessoas passaram a me evitar porque fui ficando cada vez mais chata, dei para ler um pouquinho mais.”

Alguém conhece outra pessoa presa numa rinha de galos?

Ainda estou impressionado com a prisão do Duda Mendonça.

Eu não gosto de brigas de galo. É um dos esportes mais idiotas que alguém pode imaginar, com homens alucinados soprando nos bicos de seus galos ensangüentados, para depois vê-los encostados à borda da rinha, já sem forças, enquanto seu oponente o castiga sem dó. O principal argumento de galistas é o de que a briga é instinto do galo. Certo. Acontece que quem os obriga a ultrapassar todos os limites da briga, o que faz um galo brigar até a morte são os seus donos.

Mas prender o Duda por causa disso é provavelmente uma das maiores canalhices políticas que alguém pode imaginar. Como disse o Duda ao ser preso, todo mundo sabe que ele gosta de brigas de galo. No seu livro ele diz que é uma de suas grandes paixões. Mas isso ainda não é nada.

Em todo o país, as rinhas funcionam abertamente. Não anunciam, claro, mas todo mundo pode descobrir onde funciona uma em pouquíssimo tempo. A tal rinha em que Duda foi preso funciona regularmente, assim como é regular o seu comparecimento. Todo mundo que mora no Rio sabe que ela existe, que as apostas são altíssimas. E todo mundo que tem alguma ligação com brigas de galo sabe que Duda sempre está lá.

Pode-se alegar que brigas de galo são ilegais. São mesmo. E se é ilegal as pessoas têm que ser presas, mesmo. Mas se juridicamente estão corretos, a verdade que extrapola os autos é que eu, pelo menos, não conheço ninguém que tenha sido preso em uma rinha antes. Nem mesmo o Duda, freqüentador assíduo, de maneira pública e ostensiva.

Você conhece outra pessoa que tenha sido presa em uma rinha de galo? Já ouviu falar de um caso parecido? Aliás, você já ouviu falar de uma rinha de galo que tenha sido fechada pela polícia?

A ação da Polícia Federal é tão obviamente política que se eu votasse em Sumpaulo e estivesse indeciso votaria em Marta Suplicy, porque a alternativa — votar em alguém capaz de tudo — parece perigosa. Esse episódio mostra alguém que tem suficientes ligações políticas, que sabe utilizá-las e que não hesita em apelar para as ações mais baixas. Mostra isso pela segunda vez: há pouco mais de dois anos a “vítima” do mesmo algoz foi outra. Chamava-se Roseana Sarney.

De qualquer forma, essa pode até ser uma atitude baixa, mas que é boa, é. O dano na imagem pública de Marta dificilmente será contido. Marta não tinha outra alternativa a não ser afastar oficialmente Duda Mendonça de sua campanha. O sujeito que abriu o saco de maldades e encrencou Duda foi bom o suficiente para perceber o que fazer na hora certa. Resta saber se a campanha de Marta Suplicy vai ser esperta o suficiente para tentar reverter a situação. Talvez fosse a hora de deixar claro que esse grupo é capaz de tudo para alcançar seus objetivos. De, sem desculpar Duda, mostrar a motivação política da prisão, de lembrar o caso Roseana, de tentar pintar a imagem de Serra como o “vampiro dos golpes baixos”. Não me parece haver outra forma de reação possível. E com mais de 10 pontos de diferença, a esta altura o negócio é partir para o tudo ou nada.

O Diogo Mainardi, em seu artigo dessa semana, disse que devemos votar cegamente (Deus, que idiotice!) contra o PT, porque o PT quer tudo. Como se fosse só o PT. Aliás, quem já tem o Estado de São Paulo e quer o município é o PSDB. Olhando sob a mais favorável das luzes, o que o Mainardi parece querer é um equilíbrio político. E sob essas mesmas luzes a posição é de uma ingenuidade estonteante.

E o resultado é que, pelo menos para mim, que nunca cheguei sequer perto dela, Marta parece ser tudo de ruim que dizem: arrogante, esnobe, prepotente. Mas a alternativa me parece muito, muito pior.

Definição de humanidade

A frase é de William Hazlitt:

Man is the only animal that laughs and weeps, for he is the only animal that is struck with the difference between what things are and what they ought to be.

Continuo a preferir a minha: o homem é a medida do supérfluo.

Meus verdes anos III

Para o Allan:

Nunca pensei nisso, mas acho que o segredo para sobreviver é só fazer o professor rir uma ou duas vezes, e tirar boas notas. Acho que era por isso que eu me controlava nas aulas de matemática.

(Encontrei um antigo professor de matemática no aeroporto este ano. Ele estava com uns amigos e eu disse que ele tinha me posto para fora da sala uma vez — foi o único professor de matemática a conseguir essa façanha. Ele disse que eu devia ter aprontado alguma, mas perguntou: “Mas eu era bom professor, né?”. Respondi: “Porra nenhuma, eu não sei polinômios até hoje”. Os amigos dele gargalharam. E mais uma vingança foi tirada do freezer. O pior é que foi injusta, porque ele era um excelente professor: tanto que anos depois montou um bom colégio.)

No caso da Rosa Virgínia ela não entendeu o espírito da coisa e resolveu sacanear: me deixou em recuperação por faltas, mesmo com minha média sendo boa. Fez por sacanagem, porque independente da sua média, em recuperação por faltas você tinha que tirar 8 na prova. Tirei 10.

Acho também que um mínimo de dignidade ajuda. Por exemplo, uma vez emprestei um isqueiro para um colega acender um daqueles “barbantes cheirosos”. Ele era incompetente e foi pego. Além de incompetente era um sujeito sem honra e me dedurou. Passei uma hora diante da coordenadora de disciplina, ela tentando me fazer dizer quem tinha me dado o isqueiro.

Eu não disse. Já estava ferrado, mesmo, aí aproveitei para dar uma de durão. Eu não iria me tornar um dedo-duro. Ela tentou todos os argumentos possíveis, e aquilo acabou se tornando uma discussão sobre filosofia e ética.

De qualquer forma, dizer que eu tinha pego escondido de minha mãe não ia ajudar em nada. Ia parar por ali e pronto. E eu não ficaria com a fama de sujeito de princípios firmes.

Aquele alcagüete hoje é advogado. Aposto que é do tipo que faz tudo por dinheiro.

Machos votam em Bush

Via Culture Kitchen:

O Viva Bush Punto Com, Cabrones é um site feito exclusivamente para mostrar o apoio dos cucarachos que vivem no Estados Unidos, porque sabem que Bush é o melhor candidato para latinos, por sua força, suas convicções e por ter vindo do Texas, local onde cucarachos são tradicionalmente bem tratados. Assista também aos comerciais. Valem a pena.

Meus verdes anos

Não acredito em quem diz que não se arrepende de nada do que fez, só do que não fez. Porque das duas, uma: ou é um psicopata que além de tudo não confia na própria intuição, ou é um idiota que não aprende nada com a vida. Eu, pelo menos, só me arrependo das coisas que fiz. E olha que tem muitas.

Mas tem uma coisa que não fiz que até hoje me arrependo de não ter feito.

Digamos que minha passagem pelo ginásio foi meio conturbada. Digamos também que eu tinha um pequeno problema com autoridade. E digamos também que eu tinha senso de humor suficiente para fazer algumas brincadeiras que o padre Carvalho, diretor do colégio, não conseguia compreender. O resultado é que eu conhecia a sala da coordenação de disciplina (alô, Inara, tu tá viva ainda?) melhor do que meu próprio quarto. Meu único consolo é que quase todos os meus professores gostavam de mim. Isso não os impedia de me botar para fora da sala, às vezes até injustamente, mas o faziam sem rancor em seus corações. Negócios, sabe como é. Éramos leais adversários, apenas.

Algumas das brincadeiras foram muito boas. Mas a melhor de todas não fui eu quem fiz, e é isso que me deixa, até hoje, irritado por não ter tido a idéia antes.

Um ano depois de eu sair do Arquidiocesano, um grupo das mais brilhantes mentes daquela venerável instituição de ensino subiu à caixa d’água do colégio e derramou alguns pacotes de Ki-Suco.

Naquele dia, os alunos que abriram os bebedouros se viram diante de um belo líquido avermelhado. Meninas da quinta série que davam descarga pensaram “meu Deus, fiquei mocinha!. Com tanta coisa nova acontecendo, gente mais criativa poderia imaginar coreografias de Busby Berkeley para Esther Williams naqueles jatos rubros. Mas, tadinhos, o fardo da responsabilidade pela formação de tantos adolescentes era demais para o pessoal que mandava no colégio.

Blasfêmia!, não fui eu quem concebeu essa obra de arte. E disso me arrependo profundamente.

Meus verdes anos II

Zilma, professora de português, entra na sala.

— Rafael, trouxe o livro?

— Não.

— Saia.

— Professora, eu não fiz nada!

— Mas vai fazer. Saia.

***

Santos, professor de inglês, cuja tese de que “tchê” era uma palavra e “oxente”, não, gerou algumas discussões:

— Vocês sabem quantas vezes as bombas atômicas que os Estados Unidos e a União Soviética têm podem destruir o mundo?

Eu levanto a mão.

— Uma, professor.

— Nada disso! São mais de 500!

— Uma, professor.

— São mais de 500!

— Só tem um mundo, professor.

***

Rosa Virgínia, de geografia:

—… Nostradamus preveu que o mundo…

— Nostradamus não preveu nada, professora.

— Como não? Eu tenho o livro!

— Dizem que ele previu algumas coisas. Mas não preveu nada.

***

Zilma me pega dando cola a Fabiano numa prova e me tira um ponto.

A redação daquele dia foi mais ou menos assim:

“Algumas pessoas xingam suas professoras. Xingam de vagabunda, de piranha, até de coisas ainda mais feias como prostituta. Isso não se deve fazer. Isso é feio.”

***

Dênisson quebra o pau com Santos e vai para a coordenação de disciplina, que julga o caso grave o suficiente para ir ao padre. Enquanto ele espera, me sento ao seu lado para fazer companhia.

Inara volta e leva os alunos que estão ali para a sala do padre Carvalho. E diz para eu ir também. Não adiantam os meus protestos de inocência. Eu também vou para o padre, revoltado com tamanha injustiça, reiterando meus protestos de inocência, enquanto alguém — Paulo? Dênisson? — enfia a mão no aquário e tenta matar os peixes do padre. Foi a única vez que o padre Carvalho não passou a mão na minha cabeça. Não gostou muito dos meus protestos.

O Arquidiocesano tinha acabado de inventar a punição retroativa. E talvez a preventiva.

Em companhia das letras

Parei para lembrar da Companhia das Letras.

Para mim ela teve uma importância fundamental, da qual falo daqui a pouco. Mas para o mercado também teve.

Até ela surgir, o mercado editorial brasileiro andava meio modorrento. Me refiro, especificamente, a um descaso gráfico absurdo (principalmente no final dos anos 80, quando a crise fez com muitas editoras baixassem a qualidade gráfica dos seus livros). Desde o fim da era Santa Rosa, com suas capas que eram verdadeiras obras de arte minimalistas, o que se via eram capas vagabundas e pouca ousadia gráfica; os tipos do miolo eram sempre os mesmos, uma Times padrão que, quando a editora era realmente ruim, podia se transformar numa Helvetica, provavelmente o pior tipo para um livro (minto: eu tenho um, “O Ano I da Revolução Russa”, de Victor Serge, composto em Avant Garde; as coisas sempre podem piorar). Acho que esse problema vem da época da ditadura, não sei.

A Companhia das Letras mudou isso, a partir de 87. Sendo uma editora pequena em números (até 1993 eu costumava colecionar seus catálogos, sempre de bom gosto e com relativamente poucos títulos), ela privilegiava duas coisas: lançamentos de importância estratégica (como “Rumo à Estação Finlândia”, de Edmund Wilson, e “Os Escritores”, uma coletânea de entrevistas da Paris Review com grandes escritores) e capas fenomenais. As capas da primeira edição de “Os Escritores”, por exemplo, foram pintadas uma a uma.

Acho que até agora não se atentou muito para esse aspecto. As capas da Cia. das Letras representavam um avanço enorme em relação à mediocridade gráfica geral. O bom gosto e a elegância delas eram impressionantes. Foi a primeira editora a tomar tanto cuidado com as capas e com a tipologia de seus livros quanto com a obra em si. Eu reconhecia uma edição da Cia. das Letras facilmente, simplesmente porque as capas eram mais bonitas.

Elas eram assinadas principalmente por Ettore Bottini e Helio de Almeida. Bottini acabou repetindo o mesmo modelo de capa livro após livro (basicamente um box com o título do livro sobre alguma obra de arte), e acabou um pouco apagado diante do brilhantismo do segundo, mas ele foi fundamental ao estabelecer um padrão gráfico que as outras editoras não utilizavam. Quanto ao Helio de Almeida, bem, são suas as capas mais belas do mercado editorial atual.

Há outro aspecto importante. A Companhia das Letras trouxe ao Brasil uma série de escritores modernos antes desprezados, como Dorothy Parker, John Cheever e tantos outros. Esses são os dois melhores contistas americanos do século XX, e com exceção de um romance de Cheever, nunca tinham visto a luz do dia em português. Trouxe bons poetas, também, como a maravilhosa Marianne Moore.

A tudo isso a Cia. das Letras juntava uma bela concepção de marketing e relações públicas, que deu uma bela duma sacudida no mercado editorial. Acho que esse foi o seu papel histórico, privilegiar o livro como objeto e modernizar um pouco as relações de editoras com o mercado.

Para mim sua importância é muito maior (e não sei se superestimo seu papel na história editorial do país por essa razão). Foi graças a “Os Escritores” que dei uma direção à minha volta à leitura, depois de dois anos lendo pouco e gritando palavras de ordem demais; e “A Experiência Burguesa — Da Rainha Vitória a Freud” foi um dos poucos livros que posso dizer que tiveram alguma influência real na minha vida. A partir daí eu me senti um quase literato, passei a entender mais do assunto.

Hoje a Companhia das Letras é uma editora a mais. Não chega ao nível de uma Record, com seus best-sellers e livros de bolso, nem de uma Ática focada no mercado educacional. Mas publica muito lixo, tem um volume enorme de lançamentos anuais, e aquelas estratégias de marketing que serviram para projetar tanta gente boa hoje misturam príncipes e sapos. É só outra editora.

***

É interessante notar que a Cia. das Letras nunca foi a editora mais ousada do país. Esse título, certamente, pertence à Brasiliense de Ênio Silveira. Nenhuma outra editora, por exemplo, publicaria livros como o belíssimo Le Diable Au Corps, de Raymond Radiguet, ou livros underground como “Porcos com Asas”, de Marco Radice. Nem os livros de Caio Fernando Abreu, vários beat, ou ainda tantos noir (acho que publicou praticamente todos os Chandler e os Hammett, se me lembro bem). Bancar esses lançamentos, mesmo sabendo que teriam um retorno financeiro pífio — se tivessem algum –, era a maior prova de ousadia que se podia dar.

A Brasiliense era o melhor modelo possível de editora que tem, sim, um compromisso intelectual com o país. Seus livros eram feinhos, a qualidade gráfica era duvidosa, os anúncios no final dos livros eram de mau gosto. Mas se a Cia. das Letras fazia tudo com classe, com uma bela embalagem, a Brasiliense ia ao cerne das coisas, ao que era realmente importante. Formou gerações de leitores, disso ninguém pode ter dúvidas.

Quem não conhece o Ênio Silveira mas assistiu a “Anos Rebeldes” pode ter uma idéia do que foi o sujeito. O personagem do editor (Carlos Zara, se não me engano), que brigava pela qualidade em confronto com um protótipo de yuppie que só prestava atenção ao mercado, foi inspirado nele. E mesmo sendo um herói quixotesco típico de um melodrama televisivo, ainda assim não lhe fez justiça.