A vida é bela na Central do Brasil

Li um texto do Alexandre no blog do Emy e da Ninha. Não tinha lido antes.

Um trecho dele me chamou a atenção:

Lembram, por exemplo, do episódio A Vida É Bela versus Central do Brasil? Não vou entrar no mérito da qualidade dos dois filmes, mas só em quão supremamente ridículo foi ver pessoas que eu considerava dignas de respeito malhando um filme, que muitas vezes nem tinham visto, só porque venceu Central do Brasil.

O Alexandre tem razão. O patriotismo ultrajado fez com que pessoas que acharam “A Vida é Bela” um grande filme caíssem de pau nele, porque nem mesmo “Cidadão Kane” tinha o direito de tirar o nosso Oscar de nossas mãos.

Vi os dois filmes antes do Oscar.

Quando “Central do Brasil” terminou, eu tinha certeza absoluta de que tinha visto o melhor filme brasileiro das últimas duas décadas.

E saí de “A Vida é Bela” com a impressão de que tinha assistido ao filme estupidamente medíocre que ia ganhar o Oscar.

Até aquele ano eu não tinha visto nada de mais nas derrotas dos filmes brasileiros. “O Quatrilho”, se me permitem, era um filme aborrecido, sem sequer a pretensão de ser profundo. “O Que é Isso, Companheiro” não era tão chato — mas era medíocre como cinema e uma má recriação dos fatos históricos. Não ganhar o Oscar era uma questão de justiça.

Mas se alguém me perguntasse que filme deveria ganhar o Oscar naquele ano, eu diria que “Central do Brasil”. Estou longe de idolatrar um filme só porque é produto do kinemanacional, mas aquele era sensível, doce, verdadeiro e tecnicamente correto. “Central do Brasil” merecia, sim, o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Infelizmente, ao assistir “A Vida é Bela”, vi ali uma obra de artesanato político competente e dirigida ao Oscar. Era um filme medíocre, bobo, como tantos e tantos outros. Mas era eficiente, e não se desviava durante um só segundo de seu objetivo. Tinha todos os elementos necessários para agradar à Academia. Uma comédia melodramática com protagonistas ítalo-judaicos (duas das mais influentes minorias americanas), num filme sobre a II Guerra (a única guerra santa dos americanos), com um garotinho inocente (quem resiste?) e um pai maravilhoso (pule de dez), de espírito leve e disposto a qualquer sacrifício por sua prole, que morre no final (apelo lacrimejante universal). E para completar os americanos aparecem no final como um deus ex machina salvador do mundo, uma auto-imagem muito cara ao establishment deles.

“A Vida é Bela” foi feita para isso, para levar a estatueta para casa. Não fiquei surpreso com sua vitória, o que não significa que tenha gostado. Eu queria que “Central do Brasil” ganhasse o Oscar, como quis anos antes que Pulp Fiction ganhasse. Achava que, mais que qualquer outro filme naquele ano, ele merecia o prêmio.

Mas é preciso lembrar uma coisa: aquela é uma festa dos americanos, pelos americanos e para os americanos. Os filmes brasileiros entraram lá de penetras, já estavam no lucro. O Oscar não é célebre por premiar a qualidade. Ele premia a sua indústria e seus padrões de entretenimento de massa, e estão corretos nisso. Quem achar ruim e não quiser jogar pelas regras do jogo, que vá para casa. Roberto Benigni simplesmente achou que a Itália ficava muito longe dos Estados Unidos. E fez o que era necessário para pagar a passagem.

Mesmo levando tudo isso em consideração, aquela cerimônia específica do Oscar me surpreendeu pela palhaçada em que acabou se transformando. Ainda lembro da revolta descontrolada de Meryl Streep ao ver Gwyneth Paltrow ganhar o Oscar de melhor atriz — tive a impressão de que a raiva por ter perdido seria um pouco menor se a vencedora fosse Fernanda Montenegro –, e da indignação de Tom Hanks ao ver o “marido da pata”, como Rubens Ewald Filho o chamou, ganhar o Oscar de melhor ator.

Isso eu, sinceramente, não esperava. Aquela cerimônia quase destruiu toda e qualquer credibilidade que o Oscar tinha, porque não havia justificativas além do que diziam ser a força da Miramax. Que seja.

Mas pelo menos me diverti com a reação de Roberto Benigni ao receber o Oscar — que duvido que ele esperasse. Foi a única pessoa a agir como a situação exigia. Ele é, por profissão, um palhaço. E tudo aquilo era um grande circo.

Notícias estranhas em um blog esquisito (XIII)

Um pesquisa mostra que americanos preferem a companhia de Bush à de John Kerry, em um churrasco regado a muita cerveja.

Faz sentido. Um bebum light é sempre a alegria da festa. E todo mundo sabe que Bush é chegado num goró.

O problema é que à medida que o tempo passa, o bebum passa a ser muito inconveniente, até o ponto em que precisa ser expulso da festa, geralmente depois de ter vomitado a casa inteira, passado a mão na bunda da cozinheira e tentado colocar o gato no microondas.

O pessoal que respondeu a essa pesquisa devia ter percebido isso. Era só olhar para o que o elemento anda fazendo com seu país. Tem sido a ressaca mais cara da história.

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Dois pastores pentecostais canadenses impediram que um avião levantasse vôo de Buffalo, NY, alertando os passageiros de que os ataques de 11 de setembro eram um bom motivo para que eles rezassem.

Os pastores incovenientes deveriam ganhar o prêmio de pessoas mais chatas da face da terra. Infelizmente a matéria não dá o nome da igreja à qual pertencem. Mas eu tenho a séria desconfiança de que fazem parte da Igreja Inter-Americana do Mau Agouro.

Que diferença da Igreja Rafaélica de Todos os Tostões.

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Uma mulher foi acusada de dar uma queixa falsa de estupro para que seu namorado, um aviador, fosse liberado de sua missão na Coréia, e assim os dois pudessem se casar.

Essas mulheres andam mesmo desesperadas para casar.

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Essa é uma notícia triste.

Aliás, é a notícia mais triste já postada aqui.

Um cinqüentão da Zâmbia se suicidou depois de ser flagrado pela mulher enquanto fazia safadeza com uma galinha.

Ainda tentou matar a esposa curiosa mas, como não conseguiu, enforcou-se.

Os diálogos no funeral devem ter sido mais tristes ainda.

— Por que ele se enforcou?

— Ele estava me traindo com uma galinha.

— É, essas mulheres que se metem com homens casados são umas piranhas…

— Não, galinha, mesmo!

— E eu não sei? Olha, eu nunca contei isso, mas no ano passado meu marido me traiu com uma galinha dessas.

— E o que você fez?

— Eu dei um ultimato: ou eu ou aquela vaca.

— Peraí: vaca ou galinha?

— Vaca, galinha… Que diferença faz? É tudo puta.

— Faz muita. Se for uma vaca holandesa, por exemplo…

— E onde aquele vagabundo iria achar uma holandesa? Que holandesa ia dar praquele neguinho magrelo que não quer nada com a hora da Zâmbia? Foi com a vizinha, mesmo!

— Uma vaca é melhor que uma galinha. É maior, sabe como é… Peitos grandes…

— É tudo a mesma coisa. Tudo puta.

— O problema é que quando eu o vi com a galinha na mão, voando pena pra tudo quanto é lado…

— Pena?

— Pena.

Silêncio.

— Você tá falando de uma galinha de verdade?

— Tô.

Silêncio.

Mais silêncio.

— Ahn… Me dá licença, sim? Querido! Querido!

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Uma sul-coreana foi condenada a pagar US$ 42,380.00 ao seu marido por ter tido um filho com outro homem.

Corno, sim. Mas pagando bem, que mal tem?

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Uma revista inglesa publicou o resultado de uma enquete que elegeu um espumante inglês melhor que o champanhe.

Claro. A comida inglesa, como se sabe, é infinitamente melhor que a francesa. Era só uma questão de tempo até o vinho inglês, reconhecido mundialmente, atingir o topo.

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Uma senhora sueca, cansada de ouvir os gritos, gemidos, sussurros e outros ruídos de seu casal de vizinhos, resolveu tomar providências e deu queixa num comitê de saúde ambiental.

Ela reclamou que o casal caía na saliência praticamente todas as noites, das dez da noite a quase 1 da manhã.

É impressionante o que a inveja faz às pessoas.

Pais e filhos

Neil Gaiman (Sandman, lembra?) tem A Conversa com sua filha:

(…)and then came Lou Reed’s “Walk on the Wild Side”. “You named me from this song, didn’t you?” said Holly as the first bass notes sang. “Yup,” I said.

Lou started singing.

Holly listened to the first verse, and for the first time, actually heard the words.

“Shaved her legs and then he was a she…? He?”

“That’s right,” I said, and bit the bullet. We were having The Conversation. “You were named after a drag queen in a Lou Reed song.”

Eqüinoterapia

Como Figueiredo, prefiro o cheiro de cavalos a cheiro de povo.

Essa é, aliás, a única razão pela qual admiro o bronco. Gosto da honestidade canalha do sujeito. E nossa estética olfativa semelhante me faz pensar que aquele sujeito não era tão mau assim.

Já fui mordido, escoiceado, derrubado. Já caí sozinho, também, naquelas mostras de idiotice que fazem as pessoas rirem de você por anos. Já caí na conversa de cavalos manhosos que fazem o que querem quando percebem que você não tem pulso suficiente para mandar.

E também já fiz minhas maldades, já recorri com liberalidade a uma combinação cruel de esporas e bridão quando algum cavalo tentou me derrubar sem que eu considerasse a tentativa justa.

Entre tapas e beijos, a gente vai seguindo em frente.

É por isso que nunca consegui entender, de verdade, a sensação de pessoas que se deslumbram quando aceleram seus carros a 160, 180 quilômetros por hora. Porque não acho que isso possa se comparar a sensação de deixar o seu corpo acompanhar o movimento do cavalo em seu galope, em ter nas rédeas o seu único e frágil controle. Selas não têm cinto de segurança.

Um carro é só uma máquina. Anda se você acelera, pára se você freia. Mas sobre um cavalo há sempre um confronto de vontades, a sua e a dele. São dois seres vivos que querem coisas diferentes.

Se eu tivesse algum problema neurológico sério, além daqueles com os quais já convivo há tanto tempo e que disfarço na medida do possível, eu iria querer que me matriculassem num curso de eqüinoterapia. Aposto que eu seria feliz.

Não esqueçam Ronaldinho

A mis hermanos, as duas primeiras estrofes de um velho tango de Gardel, para que possam se distrair na longa, longa viagem de volta.

(Eu sempre disse que, para mim, o melhor de um jogo de futebol é tripudiar depois. Não me culpem.)

Adiós muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos;
Me toca a mí hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.

Adiós muchachos, ya me voy y me resigno,
Contra el destino nadie la talla,
Se terminaron para mí todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más

.

Definição de humanidade

A medida da humanidade, para mim, é a medida do desnecessário.

Não dou a mínima para as definições de humanidade que vejo por aí. O homem é o único animal racional, o único que ri, essas coisas.

Para mim, o homem só é o homem porque pode se dedicar com desvelo ao que não é necessário.

É a diferença entre sexo e sacanagem, entre água e coca-cola, entre um PF no boteco da esquina e um omelete de mil dólares, entre uma camiseta Hering e um terno Armani. A diferença entre um Fusca e uma Ferrari.

O homem é a arte do supérfluo.

Aracaju ao longo de 15 quarteirões

Na frente do hospital, sentados na calçada, um casal olha para o vazio. Uma menina apóia a cabeça no joelho do rapaz e chora baixinho.

Mais adiante, um homem chega e é recebido pela filha, que tenta sem sucesso enxugar as lágrimas.

Na igreja em frente o padre reza a missa alheio a tudo.

***

Sentada na calçada diante do Conservatório, a moça diz para a amiga:

— Tem que ter uma corzinha, pra poder enxergar. Gosto de branquelo, não. Meu namorado é um negão.

***

Na calçada, a família coloca suas cadeiras e conversa sobre a vida, ocupando todo e espaço numa tentativa de aproveitar a brisa da noite. E o tempo parece que não passa, que é a Aracaju de 30 anos atrás, em que as pessoas ainda tinham pouco medo umas das outras, e viam a cidade como uma extensão de suas casas.

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Em frente à Catedral um menino anda de bicicleta. Uma menina fala com ele e recebe uma resposta dura. Os amigos dos dois incitam:

— Ele lhe chamou de vagabunda!

A menina, gordinha, uns 13 anos, aceita a provocação e vai atrás do ciclista que pedala rápido em direção aos fundos da igreja.

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O casal de comerciários anda de mãos dadas em direção ao ponto de ônibus, sorrindo ao fim de um dia de trabalho. Parecem fazer planos para um fim de semana que, eles sabem, vai demorar muito a chegar.

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Sentadas no batente de uma loja fechada, duas prostitutas fumam maconha. Suas expressões, antes de serem tristes, são cansadas. Cansadas da noite que apenas começa e cansadas do que deixaram para trás. Bandeirolas de São João decoram a rua.

***

Prostitutas e vendedores de churrasquinho de gato olham para a esquina ao longe, paradas no meio da rua.

— Os dois saíram correndo, alguma coisa aconteceu.

Na esquina oposta, um homem conversa com dois policiais que riem, mãos pousadas em seus .38 niquelados.

— Os cabra correu de medo, uns frouxo.

Amanhã devo mudar meu roteiro de caminhada noturna.

Racismo

Num dos meus primeiros dias na quarta série, eu e dois amigos, um branco e um negro, tínhamos impedido um menino de bater em outro. Na verdade, eles estavam brincando e a gente entendeu errado, mas isso não importa. Eu estava saindo da escola quando a mãe ou avó dele me parou e reclamou comigo. Além das pequenas ameaças, disse que um menino como eu não deveria andar com aqueles crioulinhos.

Em sua imbecilidade, ela me tomou por duas coisas que não sou. Olhou para mim, na época lourinho, com cara de menino bem criado e morador da Graça, e achou que estava diante de um pseudo-caucasiano racista como ela.

Fiquei chocado com aquilo. Foi a primeira vez que vi um racista assumido em minha vida, e não consegui esquecer até hoje. E se em Salvador era assim, eu imaginava como seria em outros lugares.

Mas esse nojo de qualquer tipo de racismo não é tão forte quanto pode parecer.

Um tio meu é um belo negão de quase 2 metros de altura. Num belo dia de 1985, provavelmente um daqueles em que a gente se dedicava a encher o saco um do outro, ele resolveu apelar para o fato de eu ser um pobre brasileiro confinado aos limites nacionais: “Eu fui para tal país, você não, tal país, você não, tal país, você não” — era uma lista enorme. Eu ouvi calado. Quando a lista dele se esgotou, eu aproveitei: “Pois é. Mas tem um país aonde eu posso ir e você não: a África do Sul.”

Às vezes o racismo dos outros pode ser útil.

Um prato que se come frio

Luiz estava na redação, escrevendo seu primeiro poema. Meu pai chegou e Luiz mostrou para ele.

Quando terminou, meu pai avisou:

— Vou te fazer um favor.

E rasgou o poema.

— Isso vai te poupar muitas desilusões no futuro. Alguém pode dizer que isso é bom e aí você continua fazendo essas coisas.

O tempo passa. 1988, agora; eu levo um texto para Luiz e digo que quero escrever em seu jornal.

Ele lê e faz um comentário:

— Puta que pariu, ele escreve melhor que o pai!

Não era verdade, mas a partir dali, e pelos próximos 3 anos, passo a escrever no jornal.

Ainda não sei se Luiz me fez um favor. Ou se isso foi apenas uma vingança tardia, acalentada obcecadamente durante mais de 20 anos.