Blogs e o resto

Um post no Prints the Chaff me deixou pensando em uma coisa curiosa. Junto com um artigo lido no blog do Alex Maron, me fez me perguntar quais os limites da opinião em um blog.

O artigo do Tom Mangan diz que blogs passaram a chamar os “empreiteiros” americanos trucidados no Iraque de mercenários. Ele discorda porque acha que a palavra mercenário não se aplica com exatidão a esse caso (discordo disso, mas é um bom ponto de vista). O artigo do Maron, também muito interessante, fala sobre a responsabilidade que blogs devem ter.

É esse conflito entre liberdade e responsabilidade que me deixou com algumas perguntas que não consigo responder.

Acho que há algumas diferenças fundamentais entre um blog e um jornal. Ou seja, os limites de um blog não devem ser os mesmos de um jornal. Para começar, isto aqui não depende do Estado para nada. E não parece justo esperar os mesmos padrões de informação que se espera de um jornal. Um blog é pessoal de um jeito que um bom jornal não é há muito tempo.

Há uma diferença entre expectativas, também. De um jornal você espera, pelo menos em tese, a verdade dos fatos. De um blog você sabe que não pode esperar mais que uma opinião ou uma interpretação pessoal. Por que a responsabilidade tem que ser a mesma?

Por exemplo, um jornal não pode dizer que acha que o teste de DNA da filha da Marcella Prado foi falsificado, porque estaria cometendo calúnia e ele tem a obrigação de só dizer a verdade comprovada e checada. Há leis que regulam isso. E o exame diz que a menina não é filha de Ayrton Senna. Mas se um blogueiro qualquer — que não tem acesso a nenhuma informação confidencial, que não tem nenhuma prova nem diz ter alguma — diz que acha que a história é mal contada, ele também poderia ser processado, desta vez por difamação? Para mim, essa opinião pode não ser legal, mas é legítima, e não apenas pelo direito à liberdade de pensamento: essa opinião, ainda que infundada, é tão generalizada entre gente de todas as classes sociais que, para muita gente, é a única verdade admissível.

Algumas pessoas vêm chamado os blogs de “mídia do cidadão”; é isso que pode torná-los revolucionários. Mas talvez, se formos todos obrigados a seguir as mesmas regras éticas dos velhos meios de comunicação, blogs não chegarão sequer a ser necessários. Porque bastará comprar o jornal de hoje, e aos blogs restarão apenas as opções de continuarem diários de adolescentes, coleções de links ou opiniões insossas de bobos, como acontece, infelizmente, com este aqui.

Quanto a mim, no dia em que passar a ter que tomar cuidado com o que escrevo eu deixo de publicar um blog.

Por que não confiar em ninguém com mais de 30

A aula era de Política I. 8 da manhã. Seria a minha primeira aula, porque a disciplina era matutina e eu nunca, nunca estava acordado pela manhã. Além disso, já àquela altura eu só ia para a universidade para ficar atrás da meninas de psicologia e tentar fazer com que nossas subjetividades se encontrassem.

O professor, um historiador famoso em Sergipe, com seus 60 anos, estava falando sobre como Marx previa a extinção do direito na sociedade comunista.

Levantei a mão para sugerir que Marx não tinha previsto isso, porque ele não tinha sequer previsto como seria o Estado comunista; seria anti-dialético, já que uma sociedade comunista seria construída pelas contradições do socialismo (ou algo parecido; faz muito tempo que não toco num livro de Marx, e não pretendo voltar a tocar; a essa altura da vida eu só leio bula de remédio), ainda inexistentes na segunda metade do século XIX. Aliás, o marxismo tem relativamente poucos princípios fundamentais em relação à construção do socialismo.

Acho que o velho estava num dia ruim. Ele teve um ataque histérico. Ficava repetindo que “tinha aprendido Marx nos livros, e não em cartilhas de partidos”. O velho tremia, e não era Parkinson. De onde ele tirou a idéia àquela altura equivocada de que eu era militante de algum partido eu não faço idéia; provavelmente deve ter achado que apenas militantes discutiam Marx.

Normalmente eu gostava de discussões. Mas nesse dia fiquei tão assustado que resolvi me calar e esperar o ataque do velho amainar. Me parecia que, do jeito que estava, o velho só teria duas alternativas: se levantar e correr para cima de mim, para tentar me dar uma porrada, ou ter um ataque cardíaco e cair ali, durinho.

Nas duas hipóteses eu ficaria numa situação delicada. Aquela foi minha última aula de Política I, e abandoná-la não foi difícil: como dizia um amigo, se você me mostrar um “cientista político” eu te mostro um picareta.

E não seria eu a matar um velho do coração. Ele tinha mais de 30 e isso não se faz.

Tic tac, tic tac, tic tac

Havia uma tagline pela qual eu tinha um carinho especial:

A procrastinator’s work is never done

É a mais pura verdade. Eu entendo disso.

Semana passada tive que virar duas noites seguidas. Uma para fazer uma campanha que poderia muito bem ter feito na Semana Santa; outra para escrever uma defesa de campanha. Tudo culpa da mania de deixar tudo para a última hora.

Com isso, todos os meus esforços para finalmente virar uma pessoa normal vão pelos ares.

Se depender de mim, eu tenho um horário ideal para dormir: exatamente às 4 da manhã, e acordar entre 11 e meio dia. Obviamente, esse modo avantgarde de viver não dá muito certo e é pouco lucrativo — o sistema insiste em continuar apegado a horários pré-cambrianos. E assim, depois desses virotes, eu tenho que tentar me readaptar a dormir cedo e acordar cedo. Custa um pouco, mas consigo. E então aparece outro prazo perdido, e lá se vai tudo de novo. Juro que se o emprego de zelador do turno da noite pagasse razoavelmente bem, eu deixaria de lado essa frescura de escrever.

Dia desses fiquei sabendo que Fábio Júnior dorme às 10 da manhã.

Ele virou, de repente, um sujeito admirável para mim.

Notícia estranha em um blog esquisito (Edição Extra)

A notícia é tão impressionante que eu vou apenas apenas traduzi-la e colocar aqui, ipsis literis. Não tem link porque faz parte de uma newsletter da Slate, Dear Prudence, de conselhos sentimentais, etiqueta e coisas do gênero.

Através de espionagem eletrônica, minhas irmãs e eu descobrimos que nosso padrasto de 80 anos tem uma relação incestuosa com sua filha de 60 (de um casamento anterior). Também descobrimos que a filha acredita que meu padrasto é milionário (ele não é) e alterou seu testamento para deixar tudo para ela. Meu padrasto visita sua filha todo fim de semana, quando fazem sexo entre si e outros swingers tiram fotos e as postam em álbuns de foto online. Nossa mãe agora sabe sobre isso e decidiu não confrontá-lo, já que tem medo que na confusão que vai se seguir ela perca tudo (casa, ações, etc.) para ele e para os advogados. Minhas irmãs e eu não sabemos se respeitamos a decisão de nossa mãe ou tomamos o caso em nossas mãos. Enquanto mamãe não é, em nenhum aspecto, covarde, sentimos que ela se recusa a se divorciar desse homem por medo, e que é nosso dever tomar a frente e tomar essa decisão por ela. Por outro lado, nossos maridos, sem exceção dizem que devemos respeitar a decisão de nossa mãe e deixar o caso assentar. Essa não é a coisa mais nojenta que você já ouviu? Desculpe por essa história doentia, mas você costuma dar os melhores e mais sensatos conselhos, e é por isso que peço sua ajuda.

Caatinga

Há alguns anos, vi no IMDb o comentário de um carioca a “O Cangaceiro”, filme de Lima Barreto. Ele dizia, com a autoridade que ser brasileiro lhe dava, que tinham retratado a caatinga de forma equivocada no filme. Dizia que na caatinga não havia árvores tão grandes, ou onças.

A caatinga não é aquiO sujeito estava falando um bocado de bobagens. Provavelmente achava que mata era só a Floresta da Tijuca, ou as árvores de 50 metros da Amazônia. Devia imaginar que a caatinga era um imenso descampado, com uma ou outra árvore retorcida aqui e ali.

Ainda hoje existem onças na caatinga. É raríssimo ver uma onça-pintada, mas ainda há um bom número de onças-pardas por ali. Quem acampa no Raso da Catarina (área bastante inóspita no sertão baiano), por exemplo, passa a noite ouvindo os sons que elas emitem — não propriamente miados, mas ruídos mais guturais e, me afirmam, um tanto assustadores. Elas normalmente evitam se aproximar por causa do fogo. No entanto são vítimas fáceis para caçadores, porque quando atacadas sobem na primeira árvore que encontram, e aí fica fácil atirar nelas.

A caatinga é o ecossistema mais ameaçado em todo o país. Restam menos de 5% de sua cobertura vegetal original; o resto foi substituído por pastos e pela lavoura, que graças à seca que assola o semi-árido não anda muito bem das pernas. As árvores da caatinga são pequenas, sim — mas se comparadas à Mata Atlântica ou à Floresta Amazônica. Era na caatinga que Lampião se escondia das volantes, justamente por ela ser densa e hostil para quem não a conhece. Por experiência própria, sei o quanto é fácil se perder dentro dela.

A foto acima foi tirada numa pequena reserva particular, de 500 hectares (a vegetação está verde por causa das chuvas de janeiro; mas desde então não chove, e em pouco tempo tudo vai adquirir uma coloração marrom-acinzentada). É muito pouco, mas já é um avanço. Até há alguns anos a legislação brasileira incentivava o desmatamento em todo o país, ao taxar quem mantinha áreas intocadas em suas propriedades; só recentemente passou a dar incentivos fiscais a quem preserva a mata original.

O comentário sobre “O Cangaceiro” me deixou pensando em como é grande o desconhecimento que ainda reina sobre a geografia brasileira. E a gente ainda fala da ignorância dos americanos.

Meca, finalmente

A luz da sabedoria finalmente brilhou em um município noruguês.

Fumar foi declarado um direito básico do Homem em Levanger, cidadezinha de 18 mil habitantes no centro da Noruega. Uma lei do início do ano tinha proibido funcionários públicos de fumar em qualquer lugar da cidade, mesmo fora dos prédios municipais. Agora a lei foi derrubada porque entenderam que fere a Convenção Européia dos Direitos Humanos.

A Brigada Humphrey Bogart já está preparando a mudança de sua sede para a cidade, por menos interessante que ela possa parecer. Paris é bonita, a Juliette Binoche é bonita, mas isto aqui é uma guerra.

Quer dizer que todo aquele pó é cheirado só pelos cariocas? Haja nariz

A todos aqueles que estão colocando a culpa do caos carioca exclusivamente nos maconheiros e cheiradores fluminenses, o Fábio do Caryorker tem um ponto de vista que vale a pena ser lido.

Obviamente um ponto de vista não exclui o outro. Em algum nariz aquela merda tem que parar. Mas que é ingenuidade achar que o Beira Mar ficou milionário vendendo para cariocas, ah, isso é.

Epifania

Quando as coisas ficarem feias, mesmo; quando eu olhar para a geladeira e só tiver água, e da torneira; quando cortarem minha luz, meu telefone e o síndico me olhar feio quando eu passar; quando eu tiver que fumar Derby porque o meu Kent se tornou caro demais; quando minha pele adquirir aquela tonalidade amarela da fome; quando a falta de comida me fizer cheirar mal por causa da acetose; quando eu tiver que comprar todas as minhas roupas na Leader; quando eu acordar um dia e finalmente perceber que não tem mais jeito; então, meu filho, eu me mudo para a Inglaterra, arrumo um escândalo qualquer e vendo minha história para os tablóides.